O Voo Do Passarinho
9 Capítulo 9 - Navios I

Foi difícil dizer quem teve a pior noite de sono. Sansa acordava de hora em hora reclamando de como estava se sentindo e ao fazê-lo desacomodava Sandor que imediatamente se prontificava em saciar suas necessidades, fosse buscando água para que a jovem ingerisse e assim continuasse hidratada ou lhe umedecendo a testa para aliviar a febre, o homem chegou até mesmo durante o período mais escuro da madrugada a sair pela pousada em busca de mais cobertas. Quando a garota Stark finalmente adormecia, o fazia em seus braços, ainda que ela não mais sentisse frio naquele instante. Era nessas horas que a tortura dele começava.
Sandor Clegane nunca desejara algo com tanta intensidade como desejava a ruiva que dormia ao seu lado. Ele queria possuí-la, sentir o seu pênis dentro dela e a vagina dela ficar molhada por ele. Sentia grande necessidade por todo o seu corpo de ouvi-la chamar o seu nome enquanto a levava ao clímax do prazer. Queria ter um dos mamilos dela em sua boca e com o outro brincar com seus dedos indicador e polegar e senti-lo endurecer com o seu toque. Seu membro estava rígido e dolorido, a ereção estava se prolongando por tempo de mais e toda vez que tentava adormecer ou esvanecer do pensamento de tê-la a realidade o golpeava com intensidade. Sansa estava ali, em seus braços, cada centímetro de seu corpo podia sentir a pele macia dela, o dorso de suas mãos vez ou outra acabavam por roçar os seios da mesma quando esta procurava uma posição melhor ou quando ele se movimentava em busca de conforto. Malditos toques! blasfemava, porém o contato físico não era o único problema. Deitada ali, sob o seu abraço, a respiração dos dois se sincronizava. O corpo suado de Sansa acentuava a sua fragrância e Sandor podia sentir o cheiro de hortelã que vinha dela. Se fosse mais moço e talvez mais romântico isso teria sido o suficiente para se sentir conectado a ruiva, mas não era. Ele a queria carnalmente, ansiava por ela. Se ao menos ela me quisesse também. Prometera para si mesmo desde quando estava em Porto Real que não a possuiria por força, mesmo que ela nunca fosse sua. Naqueles dias era a figura de Rei Joffrey I que o impedia, agora era o resquício de cavalheirismo que tinha em si. Ela nunca virá por vontade própria até mim. Ele sabia, não era baixa estima, era a noção de realidade. Sandor já se olhara diversas vezes no espelho, com exceção do corpo bem estruturado ele não tinha mais nada que atraísse uma mulher e Sansa era o tipo que se importava com a beleza facial e a personalidade, que deveria corresponder aquelas descritas em contos e em canções de cavaleiros. Ocupado com os próprios pensamentos destrutivos e a reação de seu corpo a garota, Sandor passou a noite acordado, assim como o outro dia que se seguiu.
A febre de Sansa tinha altos e baixos e apenas uma vez ela teve uma ilusão, na qual ela o nome de Yros foi mencionado. Sandor não demonstrou satisfação alguma com isso e nem procurou saber o que ela delirava. Durante todo o mal-estar da garota ele ficou ao seu lado, não deixando o quarto por nada que não fosse necessário e até o senhor dono do estabelecimento se prontificou em ajudá-los. Quando a febre finalmente encontrou o seu fim foi deixada para trás uma jovem fraca e sem muita vivacidade, com possibilidades de recaídas.
– Como se sente, filha? — O senhor perguntou pela enésima vez no dia ao vê-la fazer esforço para se sentar na cama.
– Melhor, obrigada — Sua voz era manhosa.
– Não deve fazer esforço — Sandor a alertou, dando-lhe assistência.
– Sinto muito... — Murmurou, levemente constrangida.
O senhor riu baixo, daquele típico jeito que as pessoas de idade riem. Sandor se incomodou com aquilo e demonstrou através de sua postura.
– Qual a graça, velho?
– Sua mulher — Informou, com o sorriso estampado no rosto.
Ela não é minha mulher! Desejou grunhir em resposta. Se ela não fosse sua esposa o velho com toda a certeza a tomaria por sua filha e se fosse negado qualquer parentesco entre eles, os mesmos entrariam em uma situação complicada de explicar, afinal de contas era muito suspeito ambos estarem viajando juntos.
– Perdão? — Sansa franziu as sobrancelhas. Aparentemente ela teve a mesma reação que ele.
– Oras bolas, pra que pedir perdão? Você não fez nada de errado! É o seu esposo quem tem feito coisas erradas — O senhor balançou a cabeça de um lado pro outro em sinal negativo.
– O que foi que disse, velho!? Está querendo acelerar os seus dias!? — Esbravejou rangendo os dentes. Velho insolente! Deveria arrancar-lhe as tripas! Com Sansa enferma seu tempo foi divido entre dando atenção à garota e ao velho, sendo que este último demonstrou apreciar muito a companhia de seus únicos inquilinos, contando sobre sua vida e da metade da população em Ponta Tempestade. À princípio Sandor pensou que o senhor era apenas mais um daqueles homens com espírito servil até descobrir o real interesse mascarado, que era obter o máximo de informação possível das pessoas e as tornarem alvo de fofocas pela cidade.
– O que ele fez? — Sansa perguntou com curiosa ansiedade, levando a terceira pessoa no quarto a gargalhar. Sandor ficou incrédulo com aquilo, era como se sua presença tivesse sido ignorada.
– Ele a fez viajar nesse tempo — Disse o velho com animação — Todos sabem como Ponta Tempestade é nas mudanças de estações, principalmente no outono. Quem os vê pensa até que estão fugindo de algo... ou alguém... — A curiosidade do senhor se fez notada. Ele esperava uma confirmação para o que dissera, mais detalhes para serem usados em conversas futuras.
– Isso não é da sua conta, velho! — Sandor exclamou.
– Ora, ora... Tudo bem, não precisa se exaltar! — O dono da pousada elevou as mãos na altura das orelhas em sinal de rendição — Eu compreendo que você tenha os seus motivos... Só quero ter certeza de que não são criminosos perigosos, isso não trará boa reputação para o meu lugar.
– Tem razão — Sansa se pronunciou. Os olhares se voltaram para ela — Nós estamos fugindo.
– O que voc...? — Sandor não entendia o que ela queria dizendo a verdade. Sabia que ela era ingênua, mas não ao ponto de colocar a vida de ambos em risco.
– Ele precisa saber. Nós estamos sob o teto dele — Sansa insistiu — Nós viemos de Felwood — Contou — Eu era uma trovadora em uma pousada do vilarejo e o meu senhor, que você tem por meu esposo, foi para a guerra dos 5 reis. Pensei que não mais o veria e acabei me enamorando de um nobre que algumas vezes se passava por bardo e realizava apresentações comigo. Quando meu galante cavaleiro voltou são e salvo alguns dias atrás cobrando a promessa que fiz à ele de nos casarmos quando voltasse da guerra, não tive escolha se não fugir na calada da noite, pois o Senhor com quem eu estava não aceitou a minha decisão e jurou se vingar de nós — Havia convicção em suas palavras. Sandor ficou boquiaberto com a estória que ela criara no calor do momento e o senhor trazia lágrimas nos olhos — Por favor, eu vos peço, não permita que ninguém saiba que estamos aqui — Trazia as mãos juntas em posição de oração.
– P-por que não disseram isso antes? — O velho secou as lágrimas dos olhos — Fiquem tranquilos, ninguém saberá, não por mim. Mas me digam, o que eu posso fazer por vocês?
Sandor estava calado. A garota lhe tirara todas as palavras da boca. Seu maxilar inferior estava levemente caído lhe dando uma aparência abobalhada que passou despercebida. Sansa continuava com a mentira.
– Não sei se já lhe foi dito, mas precisamos de um navio — Os olhos dela brilhavam com a possibilidade.
– Um navio? — O senhor se assustou — Mas estamos em Ponta Tempestade!
– E daí? — A jovem deu de ombros — Aqui é uma cidade marítima.
– Minha filha, parece que você não foi informada... — O velho começou.
– Aqui está localizada a Baía dos Naufrágios — Sandor concluiu, finalmente se integrando à conversa — Poucos são os navios que conseguem chegar ou sair daqui.
O velho meneou a cabeça em sinal de concordância.
– Somente os mais experientes e a maioria está em guerra ou partiram dois dias atrás — Anunciou.
– Então... Não há ninguém que possa nos levar!? — Sansa se desesperou. Sandor apoiou uma mão pesada no ombro dela para lhe acalmar.
– Eu não disse isso... — Corrigiu-se — ... Arry pode ajudá-los.
– Quem é esse Arry? — Sandor ergueu uma sobrancelha em desconfiança.
– Ele comanda o registro de navios de Ponta Tempestade. Não sei para onde querem ir, mas ele pode oferecer as informações necessárias. Diga que Fiodor os enviou — Abriu um sorriso amarelo revelando a grande falta de dentes que possuía.
– E onde posso encontrá-lo?
– Ora! No porto, não é óbvio?
Sandor rangeu os dentes.
– Em. que. local. do. porto? — A frase saiu com pausa em cada palavra.
– Ah.. he he — O velho riu coçando a cabeça — ...Ele não tem um local fixo, provavelmente deve estar jogando carteado com outros marinheiros.
O pseudo-cavaleiro caminhou até o senhor com o seu habitual jeito intimidador.
– Muito bem, mas se estiver mentindo ou aprontando algo... — Ameaçou fechando os punhos.
– Oh, não! É verdade o que digo — Se defendeu — Arry é alto, tem olhos negros e os cabelos são da mesma cor, longos até o meio das costas e sua pele é cor de oliva. Ele deve ter aproximadamente a sua idade, senhor.
Sandor encarou o velho com desconfiança e por fim se deu por vencido. Caminhou até o lado oposto da cama onde Sansa estava e trajou a sua camisa.
– Você vai encontrá-lo? — Sansa perguntou, debruçando-se na direção dele.
– Sim — Respondeu secamente.
– Eu também irei! — Se prontificou, afastando as cobertas, exceto o fino lençol que lhe cobria os seios.
– Não, não irá. Está fraca demais para isso.
– Eu cuidarei dela para o senhor — O dono da pousada se prontificou.
Sandor analisou o homem dos pés a cabeça. O senhor não tinha mais do que 1,60m de altura e 50kg, uma rajada de vento parecia ser o suficiente para levá-lo embora como uma pena. No queixo fino e pontudo vários tufos de pelo grisalho brotavam fazendo com que ele tivesse uma aparência semelhante à uma cabra. O homem teria rido dessa comparação se não estivesse preocupado em deixar o seu passarinho aos cuidados de uma cabra velha.
– Eu não estou fraca! — Sansa protestou.
Não demonstrou ouvi-la, simplesmente meneou a cabeça em sinal positivo e o velho compreendeu na hora.
Fora da pousada o sol despontava por de trás da torre em forma de punho de Ponta Tempestade e ressaltava sua cor alaranjada. A luz do sol ao entrar em contato com a pele de Clegane deu-lhe a sensação de calor, mas a brisa fria continuava presente no ar junto à sombras de uma possível chuva que podia ser vista no céu acinzentado. O porto das terras sede da Casa Baratheon ficava na parte mais baixa da cidade rochosa o que fazia com que descer o percurso não fosse tão difícil, mas subir de volta era um verdadeiro desafio. Diferente do vilarejo de Felwood, conforme Clegane atravessava a cidade ele reparava nas dezenas de comércios que a cidade possuía rodeados por casas de habitantes mais simples, que mesmo durante o tempo de guerra davam vida ao local. Sandor reparou na vestimenta de todas as pessoas que passaram ao seu redor, todos trajavam roupas simples, as mulheres seguiam o costume de usar um vestido cor de terra com a bainha coberta de lama, enquanto os homens usavam trajes de diversas variedades; O viajante reconheceu a partir dos trajes grandes comerciantes, com suas roupas de tecidos importados ricas em bordados e tonalidade, comerciantes mais simples, sem tanta riqueza no visual, homens de vida do mar, com calças curtas, deixando a mostra os tornozelos e camisas repletas de babados e ainda pobres camponeses cobertos de barros e uma substância semelhante à fezes. E os bravos cavaleiros continuam distante. Constatou ao se deparar com a ausência de armaduras brilhantes. Não sabia quanto tempo teria exatamente até a primeira leva de soldados cansados da batalha chegassem, teria de ser rápido ou Stannis seria ainda mais. O mar estava em chamas. Recordou assim que em seu campo de visão o límpido e selvagem mar da Baía dos Naufrágios aparecera. Não, aquilo foi obra do anão. O pensamento esvaneceu, mas não o medo que veio com ele. Ainda que a lógica falasse mais alto, acreditava que a chegada de Stannis ao local traria consigo uma labareda de fogo-vivo.
No porto uma quantia significante de pessoas circulavam de um lado para o outro. Diversos bardos cantavam suas cantigas, algumas com a temática amor e outras com tema marítimo. Pessoas de diversos lugares de Westeros, inclusive para lá do mar de Essos estavam atracadas nesse cais, mas todos com suas galés pequenas. Sandor não reconheceu nenhuma canção, não que ele se importasse com isso, seu foco no momento era encontrar o marujo Arry. Deveria ter perguntado seu sobrenome. Martirizou-se ao se deparar com um bando de marinheiros desembarcando de um navio com o semblante que o velho Fiodor mencionara como sendo do rapaz, mas a bandeira que este trazia era o sol com a lança dos dorneses.
– Procuro por Arry — Anunciou, ao se aproximar de um grupo de velhos homens do mar sentados em volta de uma fraca fogueira bebericando de uma garrafa marrom.
Sandor viu pela feição dos homens que eles se assustaram com a chegada repentina do outro e estavam bêbados como porcos. Os anos de servidão às ondas deram à eles uma aparência exausta, a pele da face era ressecada e parecia que em cada poro tinha um monte de areia. Quando o velho mais pançudo manifestou-se, não o fez sem antes dar uma bela coçada na bochecha derrubando pó ao chão.
– Então... — O marinheiro analisou-o da cabeça aos pés — ... Arry, você disse... — Suas pestanas pretas bateram duas vezes e um sorriso amarelo brotou em seus lábios finos — Por que você não me ajuda a lembrar como ele é?
Os punhos do viajante se fecharam ao perceber aonde aquilo iria chegar. O que a roda de marujos queria era molhar a mão com algo que não fosse água, eram moedas e só com esse objeto obteria as informações que procurava. Decidiu não ceder tão fácil ao pedido do homem e se pronunciou com despreocupação.
– Um homem de não mais do que 30 anos, pele morena e cabelos negros. Ele é o responsável pelo registro dos navios.
Dos lábios cerrados do senhor embriagado uma risada emergiu, o que resultou em um barulho estridente, horrível e incomodo.
– Acabou de descrever metade dos homens que se encontram aqui! A vida do mar é muito perigosa, por isso é raro se encontrar comandantes com mais de 35 anos de experiência, e olha que começamos bem cedo nessa vida! — Os companheiros do velho riam com ele — Mas tudo bem, pela descrição que me deu talvez eu consiga identificar o sujeito que procura...
– O que quer pra achá-lo?
– Você sabe... um pequeno... — Olhou para os companheiros e de volta para Sandor — ... incentivo. Para mim e para meus colegas.
Clegane grunhiu uma risada de fundo tão zombeteiro quanto a do homem à sua frente. Discretamente enfiou a mão por dentro da capa que utilizava fingindo pegar a sua bolsa de moedas, porém o que ele encontrou foi o cabo da espada que trazia amarrada na cintura. O marinheiro entendeu na hora e sua frase a seguir veio com muito gaguejo.
– O que é isso, senhor? Isso não é necessário, somos todos amigos aqui! — Defendeu-se com as mãos erguidas na altura do peito em sinal de rendição.
– Onde? — Sandor não amenizou tendo ainda a mão no punho da espada.
– M-Marich! — Chamou um dos colegas que estava em um devaneio tão profundo que não o ouviu de primeira — Marich! — Tornou a repetir — Você viu o Arry? Hein!?
Com a cabeça cambaleante o outro homem do mar tão magro quanto uma alga marinha demorou para entender o que lhe foi perguntado.
– Arry? — Repetiu e por fim deu de ombros — Sei lá, quem é Arry?
– Marich! — Repreendeu o amigo — Arry! O filho do Baltz, capitão do Salty!
– Ah! — Marich recordou e abriu um sorriso gentil sem nenhum dente para mostrar — Ele foi até o Água Negra, ou pelo menos eu o vi indo pra lá!
– O Arry, você quer saber? — Um terceiro homem do mar se manifestou. As bochechas rosadas da embriaguez destacavam-se em sua face oleosa e de grande semelhança a de um porco devido as grandes narinas que tinha — Ele está no Evocação da Profundeza arrumando os últimos preparativos para que o capitão parta para as Ilhas de Ferro.
– Olha, são eles que estão dizendo! — O primeiro se manifestou, atribuindo a culpa aos demais caso Sandor não encontrasse quem procurava.
– Água Negra ou Evocação da Profundeza? — Clegane perguntou, atribuindo-lhe a responsabilidade final.
– Evocação da Profundeza — O homem tremia. Sandor tomou aquela resposta como satisfatória e sem dizer mais nada seguiu caminho até a beira da praia onde diversos navios de todos os tamanhos e botes estavam atracados. Dentre eles Clegane reconheceu o brasão dos Merryweather, um corno de ouro, o brasão dos Florent, a cabeça de uma raposa e até mesmo o brasão dos Connington, o tritão. Como eu vou conhecer o maldito navio!? Se questionou. Deveria ter perguntado qual era o brasão do navio cujo qual Arry estava ou pelo menos como era o navio. Fora tolo, e agora caminhava beirando o mar a procura de uma pista.
– Esconda o vinho, George, Arry logo virá pra cá — Um homem de no máximo 27 anos disse para um garoto de 8 — O que está esperando? Vamos! Rápido! — E dito isso enxotou o pequeno infante com as mãos.
Sandor ao ouvir a conversa caminhou em direção ao homem que vestia trajes de marujo e parou na frente dele.
– Onde está Arry? — Perguntou.
O marujo estremeceu com os olhos arregalados. O pavor foi óbvio em sua ação. O pseudo cavaleiro não se surpreendeu, ficara claro para ele desde muito tempo atrás que homens de sua estatura e corpo era raro de se achar em Westeros e a maneira como a vida lhe tratou durante todos esses anos era refletida em sua expressão habitual.
– E-e-eu juro! — O homem começou — Eu não estava fazendo nada de errado! E-eu... N-nós... Já estamos indo embora, só viemos fazer uma en-en-encomen-encomen-da... — O sangue que circulava pelo corpo do marujo desaparecera deixando o rosto do homem tão pálido quanto palmito.
– Timothy! — Um rapaz de longos cabelos negros e pele de oliva chamou ao longe e a pessoa de frente para Sandor virou a cabeça mecanicamente no sentido que o seu nome fora pronunciado. O rapaz foi se aproximando o mais rápido que conseguia e havia jovialidade em seu caminhar — Você está bem? — Questionou ao reparar na reação de Timothy na presença do estranho.
– Arry? — Sandor chamou a fim de ter certeza de que era o homem certo. De acordo com a descrição de Fiodor aquele sujeito se enquadrava na aparência.
– E-ele pe-pergunto-tou de vo-você... — Disse Timothy apreensivo, olhando de um para o outro.
Arry demonstrou estudar Clegane levando o olhar dos pés do homem até sua cabeça e em seguida abriu um largo sorriso cheio de simpatia para ele e então estendeu a mão.
– Pois não, senhor? Posso ajudá-lo de alguma forma? — Dito isso, estendeu a mão para cumprimentá-lo.
Sandor não deu atenção a mão que lhe foi estendida e ignorou a simpatia do jovem responsável pela administração do porto. Diferente de Sandor que demonstrava ter mais idade do que de fato possuía, o homem perante ele demonstrava ter menos idade, ainda que na opinião de Clegane o jovem possuísse um trabalho mais extenuante do que o seu.
– Fiodor me enviou — Anunciou sem saber exatamente o porque mencionara o nome do velho.
– Fiodor? — Arry coçou o queixo como se tentasse lembrar de quem se tratava e por parecer recordar-se — Fiodor! — Exclamou em sorrisos — Faz tempo que não o vejo, ele é o senhor mais simpático de Ponta Tempestade! Se ele o enviou deve ser porque você também é uma boa pessoa.
Maldito seja, Sandor pensou. O rapaz não possuía a aparência tradicional que as moças gostavam, mas sabia como agir para conquistar uma garota. Ele pode sentir todo o charme de Arry o atingir e agradeceu aos Sete por ter sido sensato e não trazido Sansa consigo.
– Preciso de um navio — Informou.
– Você sabe pilotar? — Demonstrou estar intrigado. Clegane estava vestido como um cavaleiro, não como um marujo, a confusão era clara — As águas por aqui são muito traiçoeiras, apenas os melhores conseguem atracar aqui...
– Preciso de um navio e de um marinheiro que me levem até o Tridente — Confessou. Sandor prometera levar Sansa para o Norte, mas com Winterfell em ruínas o mais lógico pareceu levá-la até Correrrio, a sede da Casa Tully que a sua mãe pertence. Leva-la até a tia também era uma opção plausível, mas o acesso até o Ninho das Águas apresentavam maior barreiras.
– Ao Tridente?
– Você é surdo? — A opção do local era comum, o Tridente ficava entre o Norte e o Sul e não parecia suspeito querer ir pra lá devido aos diversos caminhos que poderiam desaguar.
– Não há nenhum navio que pare no Tridente — Arry respondeu, desconfortável — Posso arranjar um navio que o deixará em Porto Real.
Sandor desejou gritar um Não!, mas demonstraria sua aversão à ideia. Sua reação foi cerrar as sobrancelhas.
– Porto Real é um peido daqui, se eu quisesse ia a pé e chegaria ainda mais rápido — Timothy segurou uma risada nervosa, que foi ignorada por ambos os homens presentes.
– A maioria dos navios que saem daqui param em Porto Real e depois seguem o seu destino principal ou estão indo para Dorne, mas posso ver o que dá pra fazer por aqui — A voz de Arry agora era séria. Seus olhos passavam de um navio para o outro. Não havia muitos navios ancorados em Ponta Tempestade, Sandor sabia muito bem o porque e mesmo assim se admirava ter mais do que meia dúzias de boas galés ali.
– Timothy, para onde está indo? — Questionou Arry, olhando para o amigo — Você chegou já faz um tempo e ainda não conversamos sobre isso.
Timothy olhou de Clegane para Arry e de Arry para Clegane. O terror em sua face respondeu a pergunta do administrador. Norte, Sandor compreendeu. Só restava saber as paradas agora.
– Quais lugares irá parar, Tim? — Perguntou Arry com simplicidade.
– Pedra do Dragão... — Murmurou baixinho — ...Gultown, próximo ao Vale de Arryn... e por fim Braavos... — Informou com suor pingando de sua testa.
– Cabe mais um em sua galé? — Arry sugeriu.
– Não será apenas eu a seguir viagem — Informou Sandor.
– Quantos mais? — Arry quis saber, impaciente.
– Mais uma pessoa — Disse Sandor.
– Pois bem, será possível isso, Timothy? — Seu sorriso era deslumbrante e altamente manipulador.
O marujo com quem Arry se referia meneou a cabeça em sinal positivo. Clegane se surpreendeu com a resposta e suas sobrancelhas arquearam para cima acompanhadas de um sorriso amarelo.
– Mas isso não sairá de graça, meu senhor — Arry se adiantou para Clegane.
– Nem espero que seja — Respondeu com as sobrancelhas franzidas.
– Daqui para Pedra do Dragão irá demorar aproximadamente 14 dias se o tempo estiver favorável, mas como vocês vão descer em Gulltown, isso irá demorar mais 7 dias, totalizando 21 dias de viagem se tiverem sorte. — Arry se virou para o amigo — Quanto que sairá a viagem pra dois, Timothy?
O capitão da galé demorou um pouco para responder, o medo atrasava o seu pensamento.
– Cinco dragões dourado... — Engoliu em seco — ... Cada um.
O preço estava alto e compreendia que o homem tinha o direito de cobrar o quanto desejava. Ele era considerado uma ameaça e a Baía dos Naufrágios valia os 5 dragões.
– Quando partiremos? — Perguntou.
– Ao anoitecer — Arry disse — É o único navio que partirá tão cedo, o restante pelo que vi só deixará Ponta Tempestade na próxima lua.
Sandor deixou o cais. O dia raiara havia pouco tempo, o que lhe daria horas mais do que suficiente para se preparar para essa nova fase da aventura. Quando adentrou mais uma vez a área comercial da vila ele se ateve nas bancas de vestimentas. Sansa não possuía mais o vestido que deixara Porto Real e era simplesmente inadmissível a roupa que o bardo Yros a vestira. Quando um homem presenteia uma mulher com roupas, significa que ele a deseja. Aprendera essa frase muito tempo atrás e sabia o quanto havia de verdade nisso. Sandor iria comprar roupas para o seu passarinho, ele a desejava, mas não se culpava tanto pelo fato por estar fazendo-o com o dinheiro arrecadado com a venda das joias dela.
– Bom dia, cavaleiro, posso ajudá-lo? — O comerciante de tecidos se dirigiu à ele.
– Preciso de um vestido — Grunhiu, desconfortável com o pedido. Estava quebrando o seu orgulho ao pedir uma roupa feminina sem uma mulher por perto.
O comerciante riu com as bochechas rubras, aprumando a cabeça para dentro do pescoço, como as corujas fazem quando sentem frio.
– Qual tamanho, meu senhor? — Perguntou, separando alguns vestidos já prontos que possuía.
– Tamanho? — Esquecera-se de que para se comprar roupa era necessário as medidas — Pequeno — Pensou e nisso o comerciante mostrou-lhe um vestido feito para crianças de colo — Não tão pequeno! — Protestou com aspereza — Para uma..– Sandor quando em Porto Real tinha costume de chamá-la de criança, mas agora ela já não o era mais e não sabia quando isso mudara — ... Moça — Completou.
– Seios pequenos ou fartos? — Perguntou o vendedor.
– O QUÊ!? — Esbravejou com os punhos cerrados. Se tivesse pensado duas vezes, não teria se submetido a essa tarefa, mas então, como que Yros conseguira e ele não?
– Para saber o tamanho do busto e não ter tecido sobrando... — Defendeu-se o homem e um longo silêncio se seguiu.
Ele tentara se esquecer durante toda a manhã, mas o comerciante o fizera se lembrar. Durante duas noites Sandor estivera em contato com os seios de Sansa e não havia nada que os separassem, até suas mãos rústicas de soldado entraram em contato com a pele macia dos seios dela. Maldição. Exclamou em seu pensamento. Os seios dela não eram tão grande quanto os que gostava, mas era os dela que ele desejava.
– Esse aqui está bom, e esse também — Apontou dois vestidos, um verde musgo e outro alaranjado.
– E para o senhor? — Perguntou o vendedor enquanto embrulhava os vestidos.
– Uma camisa de linho — Acrescentou ao pedido.
– Só isso senhor? Tudo ficará em 3 veados de prata.
Sandor efetuou o pagamento sem questionar. Ele nunca fora bom em negociar preços. Com os pacotes em mãos, ele se direcionou de volta para a pousada onde havia se hospedado. Quando chegou lá ele notou algo estranho; a pousada que era já silenciosa e escura pela própria construção e localização estava ainda mais sombria do que antes e o velho Fiodor não estava na recepção. Acreditando que ele estivesse no quarto fazendo companhia para Sansa, ele se direcionou até os seus aposentos e ao chegar lá se deparou com um quarto vazio, com as cobertas da cama bagunçada e as roupas de Sansa haviam sumido.
– Sinto muito... — A voz de Fiodor veio do fim do corredor. Ele trazia as mãos na altura do peito em sinal de oração e sua voz era melancólica.
Sandor deixou os pacotes caírem no chão e cruzou o corredor mais rápido que um piscar de olhos e segurou o senhor pelos cotovelos.
– O que aconteceu!? Onde ela está!? — Havia desespero e fúria em sua voz.
– Ela disse que iria atrás de você, eu disse para ela não o fazer e havia até conseguido convencê-la, mas então... — Ele se silenciou.
– Então o quê!? — Sandor esbravejou chacoalhando-o no ar.
– ... Ele apareceu.
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