O Voo Do Passarinho
20 Capítulo 20 - Promessas Novas e Antigas

Mesmo com o nariz entupido o cheiro do porão se fazia notável. Era um odor salgado, ácido e quente, uma mistura de água do mar, dejetos e feridas, os dois últimos sendo de sua responsabilidade. Na primeira manhã de quando embarcara no Black Betha, foi presenteado com um pênico e a liberdade parcial. Já não estava mais amarrado no pé de carneiro, contudo as algemas permaneciam, não mais de corda de cânhamo e sim de ferro. Além das novas pulseiras, como decidira chamá-las, recebeu um colchão feito de palha e uma coberta, infelizmente ambos eram pequenos demais para os seus quase dois metros de altura e a palha espetava as suas costas quando se enrolava para deitar como um cão.
O pior de tudo isso continuava sendo os seus grilhões. A algema era composta de duas pulseiras com três dedos de largura e uma corrente com oito elos as interligando. Sandor acreditava que nada poderia ser pior do que as cordas, mas estava ligeiramente enganado. O ferro de sua nova amarra era pesado e estava enferrujado, ferindo os seus pulsos e impedindo a cicatrização. Fora essa nova ferida que ganhara, ele ainda exibia as obtidas durante a fuga do Sufrágio da Donzela. O corte de seu lábio já havia adquirido uma casca em sinal de que estava sarando e não estava mais inchado. Já sobre o outro ferimento que estava em seu braço ele não sabia se deveria ou não começar a se preocupar. O lugar coçava e toda vez que fazia menção para ver a situação que se encontrava, a camisa grudava em sua pele ocultando a região. Teria sido sábio se tivesse usado pelo menos a cota de malha, mas não, toda a sua armadura estava com Estranho e ninguém mencionara o seu cavalo, nem mesmo mencionavam Sansa.
Depois que Melisandre o visitara e conversara com o mesmo, ninguém mais lhe dirigiu a palavra ou lhe oferecera o que comer, porém bebida lhe era trazida mais de quatro vezes por dia, sendo sempre vinho, pois apenas bebidas fermentadas e destiladas não estragavam durante longas viagens. Sandor não fora treinado para a vida do mar, mas sabia de uma coisa ou outra. A curiosidade sobre a água é que ela estragava com facilidade quando armazenada nos barris e o marinheiro que se atrevesse a bebê-la era amaldiçoado com graves doenças bocais e estomacais, vindo sempre a falecer antes que pudesse ser tratado por um meistre. Outra coisa que Sandor tinha conhecimento era que a bebida que lhe era ofertada não tinha a intenção de saciar a sua sede e disfarçar a sua fome, a puta de Stannis queria garantir que ele estivesse bêbado para o que quer que fosse que ela havia destinado para ele em nome de seu Deus, e Clegane estava inclinado a embriagar-se, não para que desse a mulher vermelha o que ela queria, mas porque essa era toda diversão que podia se dar o luxo de ter naquele lugar.
– Se eu tivesse uma galinha bem suculenta agora... — Seu estômago reagiu ao pensamento. A verdade era que até um pedaço de um pão duro já o saciaria da fome que sentia. Esse era o resultado de quatro dias sem comer e de três desde que vira um prato de refeição à sua frente.
Pouco tempo atrás ele pedira para o garoto que viera limpar o seu pênico e alimentar o fogo em sua lanterna algo que pudesse comer. O garoto nada lhe disse e poucos minutos depois de ter feito o seu serviço, ele retornou com um jarro de vinho dourado da Árvore. Não era o que queria, todavia se contentou por isso ser melhor do que nada. Vinho e fogo, a sua paixão e o seu ódio nunca faltariam enquanto estivesse como hóspede de Melisandre. Na ausência de uma lareira, era o pavio da lanterna que a mulher vermelha lhe trouxe que queimava e iluminava o porão, e pelo o que pôde observar, a chama nunca se apagava, pois sempre havia alguém ali para evitar que isso acontecesse. O fogo afasta o Senhor da Escuridão, o jovem intendente lhe contou.
As horas em seu cativeiro passavam bem devagar e não havia muita coisa para se fazer. Sandor aprendera que a melhor forma de passar o tempo durante o dia era encostar-se no canhão e assistir o movimento do mar pelo corte mal feito no casco do navio e durante a noite era observar as estrelas pelo mesmo buraco. Na escuridão, era difícil dizer onde o mar começava e o céu terminava, era como se o navio estivesse navegando no céu com as estrelas abaixo de seu casco. Dessa forma, Sandor passava a maior parte de seu tempo no mesmo lugar observando o sol se pôr e a lua nascer. Foi exatamente isso o que ele fez quando recebeu o seu vinho. No horizonte pôde ver o negro do céu e sob o navio, onde deveria estar as estrelas, tinha uma densa nuvem acinzentada sem formato. Não era necessário entender sobre astronomia para saber que o frio era a promessa para esta madrugada e para o dia seguinte, até mesmo o vento se adiantara, contando a mesma história enquanto assoviava noite afora.
Sandor tomou um gole do vinho que tinha em mãos. O líquido familiar desceu queimando sua garganta e atingiu o estômago vazio dando-lhe a falsa sensação de que estava saciado. A cabeça por outro lado estava pesada pelo efeito do álcool. Perguntava-se onde estaria Sansa, se ela sabia que o destino deles iria levar à separação de ambos. Estaria ela contente com isso? A recordação da última conversa que tiveram o atormentava como um fantasma. Mesmo depois de ter confessado seus sentimentos em relação à ela, Sansa disse que só o via como o homem que a violentou. E ainda assim me prometeu um beijo. Tocou os próprios lábios com as pontas dos dedos da mão desocupada. Se forçasse um pouco a imaginação conseguia sentir o beijo que dera nela, tanto na boca quanto no sexo. O gosto de Sansa era o melhor que já provara. O Passarinho não fora a sua primeira transa e muito menos a primeira donzela que deflorara, porém não existia ninguém antes dela e não existiria ninguém depois dela. Se fosse dada a oportunidade para Clegane de voltar no tempo no momento em que ela passara pela porta de sua cabine no Sufrágio da Donzela e coubesse à ele decidir deixá-la ir ou estuprá-la, ele escolheria a segunda opção e se culpava por isso. Sandor desejava tanto o seu Passarinho que cada fibra de seu ser doía, mesmo depois de já tê-la tido. Preciso pensar em outra coisa, constatou. O seu corpo já respondia aos seus pensamentos. Algumas vezes pensava que não havia amadurecido conforme a sua idade, parecia um maldito garoto que acabara de descobrir o poder de seu pênis, contudo não como controlar suas ereções. Sandor fechou os olhos e tomou um grande gole da bebida que tinha em mãos. Sandor e Robert Baratheon deveriam ser as únicas pessoas que não experimentaram da impotência pelo excesso de vinho e com a morte de Robert, isso fazia de Clegane uma lenda.
Sandor abriu um singelo sorriso amarelo com o pensamento e sua atenção voltou-se para a noite no exterior do navio. A nuvem cinzenta havia seguido o seu curso e agora as estrelas se faziam visíveis. Eram tantos pontinhos brilhantes no céu que se por um acaso se movessem poderiam ser confundidos com vaga-lumes. Reyla adorava caçá-los. A irmã costumava arrastá-lo para o jardim quando as flores estavam em plena primavera e os irmãos caçavam borboletas e vaga-lumes, soltando-os no fim.
Reyla deu a vida por mim... Já havia aceito quando mais novo que a irmã falecera para buscar neve para refrescar a queimadura de sua face, não fazia diferença se ela tivesse feito uma troca com R'hllor para poupar a sua vida. Não faz diferença, tentou convencer-se. A verdade era que fazia diferença. Significava que ele errara em acreditar na ineficácia de todos os Deuses e desejava mais do que nunca que estivesse certo, pois isso por outro lado comprovava como os Deuses eram cruéis em brincar com a vida dos seres-humanos.
Reyla era apenas uma garotinha quando morrera, tão pura, frágil e inocente... Se o Senhor da Luz realmente aceitara levar a vida dela em troca da sua, sabia que a troca não fora justa. Antes de ter ganho a cicatriz que ocupava metade de seu rosto, Sandor já demonstrara um caráter ruim. Quando pegara o cavaleiro de madeira de Gregor, ele não encontrara nenhum contentamento na brincadeira, mas não devolveu o brinquedo. Ele queria desafiar o irmão, queria despertar o ciúmes de Gregor e se tornar vítima do mau-humor do irmão para ganhar ainda mais o afeto de Reyla. Sandor só não previra o quão longe as coisas iriam daquela vez. Eu era apenas uma criança, defendeu-se, e Gregor não era. Todas as suas energias se concentrava em matar o irmão desde esse dia. A culpa de todas as desgraças que o acometera era do primogênito dos Clegane, não de Sandor. Se a culpa fosse minha, meu pai não teria ocultado a verdadeira história da minha cicatriz. Lembrar da atitude do pai o incomodava profundamente. Se o Lorde Clegane não tivesse falecido, provavelmente ele estaria em sua lista negra. Depois de Reyla ninguém mais o amara ou o admirara. Foi em um mundo assim que ele cresceu e foi o mundo que provara a inocência de sua ingenuidade infantil.
– Mau vinho... — Murmurou, culpando o vinho pelas recordações de sua infância.
O vento frio começava a incomodá-lo, já não mais lhe agradava ficar sentado onde estava. A cama feita de palha por mais desconfortável que fosse lhe chamava a atenção. Com muito custo, pôs-se em pé apenas para ser vítima de sua bebedeira e cambalear para cima do canhão que estava as suas costas. Sua primeira reação foi apoiar a mão que estava segurando o jarro de vinho no objeto as suas costas para ganhar estabilidade, derrubando o recipiente da bebida no chão e espalhando o restante do conteúdo nos seus pés. Quando sentiu firmeza em suas pernas, elevou uma mão na testa como se a atitude pudesse evitar a tontura e a frustração de sua estupidez. Por um breve instante Sandor se esqueceu de que estava com os grilhões nos pulsos e ao elevar a mão até o rosto, a outra afastou-se do canhão e o objeto começou a deslizar devido o peso do seu corpo que o empurrava. Involuntariamente acompanhou o movimento da pesada artilharia em que estava apoiado antes de tropeçar nos próprios pés e cair de bunda no chão.
– SETE MALDITOS INFERNOS! — Xingou o mais alto que pôde.
A frustração que estava sentindo aumentou. Dominado pela raiva ergueu as mãos na altura do rosto e puxou um braço para cada lado do corpo o máximo que a corrente permitia, o que não era muito, e voltou a uni-los. Chocalhou sua amarra com ira, uma hora ela teria de ceder, sabia disso, mas a corrente não achava que agora era a hora certa. No final, o que Sandor conseguiu foi se machucar ainda mais. Sangue fresco acrescentava uma tonalidade avermelhada ao aço. Vermelho como a puta do Stannis.
– Bruxa filha da puta! — Sua frase não saíra tão alta quanto a última, mas ainda era mais alto do que o seu tom normal.
Dando-se por vencido, abaixou os braços e olhou fixamente para a porta, se perguntando o que fariam se ele deixasse o cativeiro. Essa deveria ser a minha prioridade e no entanto... Riu tristemente com a obviedade do resultado da ação. A diversão em seus lábios ainda estava estampada quando os seus olhos encontraram algo fora do comum no porão. Maldição, agora estou vendo coisas. Piscou diversas vezes para fazer o ambiente voltar ao normal. De nada adiantou. O contorno de Sansa ainda estava visível em frente à porta, que era a única parte escura do aposento.
– Sandor...? — A voz tímida de seu Passarinho chamara o seu nome e só então ele teve certeza de que não era uma ilusão.
Sansa se aproximava dele, deixando a luz da lanterna e a da noite banhá-la. Ela já não mais usava o vestido laranja que comprara para ela em Ponta Tempestade, estava trajando um vestido de lã que pertencia a Melisandre, tinha certeza da posse devido a cor do mesmo, um vermelho escuro com renda nas mangas, no colarinho e na barra. Na sacerdotisa de R'hllor a roupa deveria se ajustar perfeitamente, porém em Sansa estava larga, com ênfase nos seios e no quadril. Tem espaço o suficiente para deslizar a minha mão. O pensamento o fez abrir um sorriso amarelo. Não era algo próprio para se pensar depois de quase quatro dias sem vê-la.
– Sandor! — A garota exclamou ao reconhecê-lo, transformando o caminhar em uma corrida e se jogando à frente do homem. Suas mãos rapidamente encontraram o rosto dele e o segurou. Sandor pôde perceber que havia preocupação e alívio na expressão dela — Você está bem!? — Perguntou, arfando. Suas mãos frias tremiam.
– Eu estou bem, Passarinho... — Se fez sério. Desejava estar menos bêbado do que agora. Era ele quem deveria ter-lhe perguntado se estava bem; era ele quem deveria tê-la encontrado. Estava falhando na promessa que fizera de protegê-la e a levar em segurança à sua família.
Com a menção de seu apelido, lágrimas rolaram pelas maçãs pálidas do rosto da jovem. Clegane foi capaz de dar uma breve vislumbrada antes de Sansa esconder o seu rosto nos cabelos dele ao envolvê-lo em um abraço. Sandor ficou sem reação a princípio e em seguida amaldiçoou os Sete Infernos por estar com aquelas pulseiras de ferro. Nunca pensara que Sansa se atiraria em seus braços. Talvez aquilo realmente fosse uma alucinação, mas então se recordava que aquilo só acontecia nos lugares mais sombrios de sua mente e, em sua imaginação, Sansa nunca estava vestida. Hortelã, identificou o cheiro da garota depois de dar uma longa tragada nas madeixas escuras que estavam ao alcance de seu rosto. Seus dedos agarraram a frende do vestido dela com toda a força que tinha. Se aquilo era um fruto de sua mente ou não era indiferente; ela estava proibida de partir.
– Eu pensei que estivesse morto... — A jovem confessou, fungando e mantendo o abraço. Aparentemente ela dividia a mesma vontade de separação física que ele tinha.
– O que eles fizeram com você!? — Questionou, com a voz rouca.
O choro de Sansa se intensificou. Os soluços dela se tornaram audíveis e os braços que o envolvia o apertaram ainda mais. Ela teme, compreendeu. Se alguém a tivesse machucado, ele se vingaria.
– Lady Melisandre... — Sansa começou, se esforçando o máximo que podia para deixar a voz no mesmo tom — ... ela disse que... que vai nos separar... — No fim as palavras saíram baixas e finas, sendo dominada pelas emoções — ... e que vai te oferecer como sacrifício para o Deus dela!
Sandor ficou um momento em silêncio antes de soltar uma alta gargalhada que chocalhou todo o seu corpo. A garota, assustada com a reação de seu protetor conseguiu controlar os soluços e tirou os seus braços ao redor do corpo dele, se afastando alguns centímetros, com os dedos de Sandor ainda presos em sua roupa. Os olhos dela o estudavam com confusão, mas mais do que de imediato tampou a boca dele com as próprias mãos, abafando a gargalhada.
– Shiu! — Pediu em desespero, passando o olhar de soslaio na porta — Eles podem ouvir... — Sabia que estava se referindo aos guardas. Fora graças a ausência deles protegendo o porão que ela conseguira visitá-lo — Por que está rindo...? — Sansa perguntou, confusa. Lágrimas ainda escorriam de seu rosto e a voz continuava embargada.
– Me oferecer ao Deus dela!? — Sua voz áspera foi suavizada em baixo das delicadas mãos da garota. A ideia de que teria servido de sacrifício para o Deus de Melisandre ainda o divertia — O Passarinho não é muito inteligente, não é mesmo? — A provocou, com um sorriso maroto cravado nos lábios.
– Eu venho lhe avisar o que Lady Melisandre pretende fazer com você e você me chama de burra!? — A indignação transformava as suas lágrimas de preocupação em lágrimas de raiva e já não mais tampava a boca do homem — Por três noites eu me esgueirei no Black Betha até o amanhecer à sua procura, já que ninguém me falava onde você estava! Eu pensei que tivesse sido sacrificado enquanto eu dormia, mas ninguém me dizia nada à seu respeito... e o pensamento de nunca mais te ver... — Sansa mordeu os lábios tentando ser forte, o que não durou muito tempo, pois logo enterrou o rosto nas mãos e desatou a chorar como uma criança de cinco anos.
Havia mais coisas por de trás do choro que não estavam sendo ditas, Sandor percebeu, assim como o fato de que ela não estava evitando olhá-lo diretamente nos olhos como era de costume. E ela me abraçou, recordou-se, ainda com uma pequena sensação da possibilidade daquilo ser um sonho. Ela não faria isso, não depois do que eu fiz com ela. Com relutância os seus dedos afrouxaram o aperto, dando liberdade à Sansa. Muitas pessoas iriam tomá-la em seus braços e lhe dizer que tudo ficaria bem, mas isso não fazia parte do feitio dele. Nunca fora bom ou se dera o trabalho de confortar as pessoas, fosse com gestos ou com palavras e não era agora que começaria. Ela procurou por mim, sentiu um calor dominar o seu corpo e pela primeira vez em muito tempo se sentiu importante.
– Passarinho, se a mulher vermelha quisesse me sacrificar ela já o teria feito — Ela podia ter me matado com a adaga com rubis no cabo ou podia ter envenenado a minha bebida. Veneno teria sido mais provável, pois essa era a arma de uma mulher, evitando toda aquela sujeira que um ferimento mortal provocaria — Então pare com essa choradeira, não estou no humor para aturar choro de criança — A repreendeu com as sobrancelhas franzidas.
Em Porto Real, Sansa demonstrara estar começando a controlar suas emoções quando seguiu o seu conselho e fez para o Rei Joffrey tudo o que lhe ordenado, entretanto, desde que deixaram a capital, Sansa chorara com frequência por diversas razões possíveis. Se eu soubesse que ela iria agir dessa forma não a teria trazido comigo, pensou com raiva, mesmo que ele soubesse que não o teria feito. Joffrey não merecia ficar com ela, não mais do que ele merecia.
Sansa demonstrou ter compreendido a lógica nas palavras de Sandor, mas nem por isso ela demonstrou estar mais flexível sobre a ideia de que algo de ruim podia acontecer com ele. A garota destampou o rosto e com o dorso da mão secou as lágrimas velhas e as novas que continuavam a cair. Os olhos azuis da jovem estavam fixos na noite através do buraco onde Sandor mais cedo estivera olhando.
– Eu não deveria ter vindo — Murmurou, mais para si mesma do que para ele.
As palavras dele a estava afastando. Não queria que ela fosse embora, isso é verdade, só que o orgulho dele recusava-se a ceder.
– Não deveria mesmo — Respondeu com severidade. Poderia ter exposto a razão para isso, contudo não achou necessário mostrar o seu ponto.
Sansa se pôs em pé, com relutância na ação. Sandor a teria imitado se não fosse humilhado pelo efeito da bebida. Não iria se arriscar de cair novamente, muito menos na frente dela. A garota com certeza sentira o seu odor de álcool e o cheiro de podridão do lugar ao qual estava, ainda que não tivesse comentado nada a respeito.
– Onde pensa que vai? — Dependeu de sua rispidez para impedi-la de deixá-lo.
A jovem já havia andado meio caminho até a porta quando voltou-se para respondê-lo. Metade de seu rosto estava na penumbra, o restante era iluminado pela luz da lanterna. Parece que teremos tempestade esta noite, comentou consigo mesmo examinando a intensidade que os olhos dela o repreendia sem dizer palavra alguma.
– Você concordou que eu não deveria ter vindo — O lembrou.
– E você já sabia que não deveria fazê-lo quando começou a procurar por mim três dias atrás — Rebateu, como se fossem duas crianças dialogando — E mesmo assim você veio — Os lábios de Sansa abriram e fecharam diversas vezes sem emitir som algum, dando o incentivo necessário para Sandor continuar — O que você queria comigo?
Ou a lanterna começara a emitir uma luz avermelhada ou o rosto da garota se tornara vermelho.
– Já lhe disse, queria saber se estava bem! Se a Lady Melisandre não o havia matado! — Sansa exclamou, com frustração. As mãos estava em frente ao seu corpo e uma segurava a outra. Sandor abriu um sorriso pelo canto dos lábios.
– E por que se importa se eu vivo ou morro? — Diga, Passarinho, diga as palavras... A ansiedade o consumia. Precisava saber a resposta de sua pergunta, o que ela escondia nas lágrimas que derrubava. Havia algo que seria a razão de sua alegria ou sua ruína emocional.
– Eu não me importo! — Respondeu de imediato, desviando o olhar.
Mentirosa. Eu posso farejar uma mentira, se esqueceu?
O silêncio reinou entre eles por um longo minuto. Sansa demonstrou ter esquecido o que estava fazendo antes dele detê-la e Sandor esperou que ela pudesse dizer algo a mais antes de dar-se por vencido.
– Pedra do Dragão. É para onde a mulher vermelha irá te levar depois de nos separarmos — Sandor disse, desviando o rumo da conversa.
– Você sabia? — Sansa voltou a erguer os olhos. Pelo o seu tom de voz deu para notar que a garota achava que havia sido traída — Por que não fez nada?
Sandor riu e chocalhou os pulsos, fazendo a corrente tilintar. Foi só então que Sansa percebeu que ele estava algemado. A expressão no rosto da garota mudou e ela tornou a se aproximar do homem, ajoelhando-se novamente à sua frente.
– Eu não percebi... — Confessou. Seus olhos se fixaram nas pulseiras de ferro e nos ferimentos que elas proporcionaram — Você está sangrando!
– Eu prometi que a levaria em segurança para a sua família e eu cumprirei minha promessa — Sandor disse com rispidez — Posso nos tirar daqui em três luas começando por hoje — ou posso morrer tentando. Recusava-se a deixar Sansa para a puta vermelha ou pior ainda, para Stannis. A fuga que planejava era uma atitude muito arriscada, ele estava desarmado, acorrentado e bêbado, mesmo que controlasse o consumo de bebida até a grande data, ainda estava em desvantagem. Se conseguisse conter um par de guardas sabia que seria por sorte — Desde que seja isso o que queira.
Gentilmente os dedos de Sansa deslizaram pelas mãos dele até chegar em seus pulsos e então voltou com os dedos, segurando as mãos de Sandor nas suas. O toque de Sansa era uma carícia em sua pele rústica. Naquele gesto simples, Sandor sentiu uma agitação interior. Se falhasse em tirá-la em segurança do navio, isso significava que perderia até o mínimo contato que Sansa lhe dava.
– Não me deixe... Por favor... — Sansa choramingou o pedido — Eu menti, eu me importo se você vive ou morre... Por favor... Não me deixe! — Implorou. Seus olhos azuis como o mar pareciam estar se dissolvendo em poças que escorriam pelas maçãs de seu rosto. Ela quer partir comigo, o homem compreendeu, enchendo-se de coragem e uma felicidade perigosa.
Sandor estava sendo pressionado por seu dever. Sansa era a única coisa que tinha fora o seu cavalo de guerra, Estranho e não abriria mão dela sem lutar. Eu posso lutar e morrer ou me entregar ao destino e viver, isso era tão certo quanto o alvorecer e o anoitecer. Ele seria mais útil vivo do que morto. Sansa estaria em Pedra do Dragão, ele poderia fazer o seu caminho até ela, independente de onde Melisandre o deixaria. Isso era um bom plano caso falhasse. A puta vermelha não o mataria, se esse fosse o plano teria desperdiçado severas oportunidades.
– Se eu falhar, eu vou te encontrar em Pedra do Dragão — Prometeu.
– Você não falhará — Sansa rebateu de prontidão. Sandor a ignorou.
– Fique lá, você estará em segurança. Stannis não a machucará — Não queria encher a cabeça do Passarinho com ideias de derrotas. Essa é uma possibilidade que não deve ser ignorada.
As mãos de Sansa apertaram as mãos do homem com mais força.
– Mentiroso! — Exclamou — Quando eu disse que Stannis não me machucaria você disse que ele era um assassino! — Sandor não precisava que ela o recordasse do que dissera na noite em que a tirara de Porto Real.
– Eles são todos mentirosos aqui e cada um deles é melhor do que você– Disse — Se lembra dessas palavras? — Sansa concordou com um menear de cabeça. Ela estava claramente confusa — Ninguém pode saber de nossa pequena aventura, entendeu?
– Lady Melisandre disse que todos sabem que eu deixei Porto Real com você... — Murmurou.
– Não estou falando dessa aventura, Passarinho– Sandor abriu um sorriso amarelo no rosto que fez Sansa corar. A garota fez menção de tirar suas mãos das dele, mas agora era ele quem as segurava — Se descobrirem que você não é mais uma donzela eu não estarei lá para te defender. Stannis é um homem muito conservador, uma vez, durante o reinado de Robert, ele ameaçou fechar todos os bordeis da Baixada das Pulgas — Sansa estava tremendo. O medo viera assolá-la como um antigo amigo.
– Eu não sou uma... uma mulher de vida fácil... — Defendeu-se, ofendida com a comparação, conseguindo arrancar um riso de Sandor.
– Bem o sei, Passarinho– Se fosse, não teria lutado tanto contra o meu toque, disse para si mesmo — Você é uma perfeita Lady, sua Septa a treinou bem, mas é esperado de uma Lady que ela não tenha nenhuma mácula em sua pureza — Foi culpa sua! podia ouvi-la gritando, embora tais palavras nunca vieram a deixar os lábios da garota — Você deve fazer o que os passarinhos fazem, vai repetir as belas palavras que aprendeu e dar a Stannis o que ele quer ouvir — E apenas ouvir, se ele a tocar, cortarei os dedos dele como ele cortou os do Cavaleiro das Cebolas – Eu irei te tirar de Pedra do Dragão. Você não deve sair de lá por motivo algum, está entendendo?
– Eu... eu farei o que manda... Darei a Lorde Stannis o que... o que ele quer... e eu... eu não irei deixar Pedra do Dragão... Irei te esperar — Prometeu — Mas só se você falhar, o que eu sei que não irá acontecer.
Sandor sentiu um arrepio subir pela coluna. Sua protegida colocava muita confiança nele e não sabia até que ponto isso era bom. Estúpido Passarinho, a repreendeu mentalmente. Sansa já havia aprendido que não deveria confiar em ninguém, e Sandor não era uma exceção por mais que gostasse de acreditar que fosse.
– Pode ser que eu não falhe, mas tem algo mais que eu quero — Sandor começou, a sua voz estava mais áspera do que o normal. O pensamento de entregá-la para Stannis revirara o seu estômago — Quero saber se sabe manter promessas.
– Eu sei mantê-las. Eu dou a minha palavra de que farei o que me pede! — Sansa exclamou.
– Prove — Exigiu.
– Como posso provar algo se ainda estamos na primeira das três luas? — A garota perguntou, confusa e exasperada.
– Fodam-se as luas, na promessa que me fez elas não eram importantes. Não me diga que já se esqueceu, Passarinho– Sua voz saiu rouca enquanto os seus olhos estavam fixos nos lábios de Sansa.
A jovem emitiu um som de surpresa e ficou tão corada que até o seu pescoço se tornou vermelho. Suas mãos tremiam e lutavam para ganhar a liberdade das dele. A atitude foi vã. Sandor podia estar bêbado, contudo ele ainda era mais forte do que ela e tinha motivação para prendê-la junto de si.
– Eu não... — Sansa começou, tão tímida como uma donzela.
– Devo lembrá-la? — O sorriso se alargou em seu rosto, divertido com a ideia.
– Você está bêbado! — Disparou em sua defesa, buscando argumentos para faltar à sua palavra.
– Sete infernos! — Esbravejou, soltando-a. Havia esperado tanto por sua recompensa que estava frustrado por não conseguir o que era seu por direito — Se não quisesse me dar um de seus beijos deveria ter dito logo de cara! — Eu ainda teria voltado para te resgatar, você sabe disso, Passarinho!, completou mentalmente — Vá, estou cansado de suas mentiras e de seus tchip tchip.
Sansa não fez menção de se levantar. Suas mãos moviam-se inquietamente em seu colo e ela as observava com avidez, como se estivesse ponderando sobre algo. No fim, voltou a falar, mas não a erguer os olhos.
– Um beijo — A voz estava trêmula.
O homem a estudou. A sua tática de mandá-la embora enquanto queria pedir para que ela ficasse funcionou pela primeira vez, e ele estava prestes a conseguir o que queria. Um sorriso de orelha a orelha ameaçava ser esculpido em seu rosto com a vitória ao alcance das mãos e foi necessária muita força de vontade para manter-se sério e fingir que estava zangado com ela.
– Um beijo e a promessa estará paga — Garantiu.
Tão rápida quanto uma lufada de vento Sansa esticou-se para a frente e colou os seus lábios nos de Sandor por segundos tão ínfimos que o homem mal pôde dizer o que acabara de acontecer. Não teve tempo nem para sentir o calor dos lábios dela e muito menos de os umedecer com a sua saliva, como planejara fazer. No fim, estava mais zangado do que quando a jovem negara cumprir a promessa.
– Pronto — Sansa disse, tornando a ajeitar-se sobre os joelhos, claramente nervosa.
– Chama isso de beijo!? — Exclamou, deixando transparecer a sua irritação — Até uma mosca me beijaria com mais intensidade do que isso!
– Meus lábios encostaram nos seus, eu digo que isso valeu! — A garota argumentou.
– Você diz que eles encostaram, eu não senti porra nenhuma! — Sandor rebateu.
– Problema seu!
– É isso? — Sandor endireitou suas costas, continuando sentado. Seus olhos cinzentos penetravam a pele de marfim de Sansa — É isso que as donzelas das canções que você tanto adora dão para os cavaleiros quando eles retornam para resgatá-las? — A desafiou.
Sansa hesitou por um instante antes de responder.
– Você não é um cavaleiro de verdade, ainda que tenha me salvo da mesma forma... — A jovem fez uma pausa em sua fala — ... E eu não sou uma donzela.
– Você não é uma puta e muito menos uma donzela, então me diga, o que você é? — Sandor tornou a desafiá-la. A pergunta era mais uma diversão com elementos de seriedade. Sansa não soube o que dizer, murmurando apenas o pronome eu e conjugando o verbo ser, mas nenhuma outra palavra acompanhava a frase — Você é o meu Passarinho, então venha e me dê um beijo de verdade — Sandor respondeu por ela.
O rosto de Sansa estava tão vermelho quanto as chamas de Melisandre e quando as mãos de Sandor encontraram os braços dela, pôde perceber que ela estava arrepiada. Ele riu com a constatação. Sansa não fugiu de seu toque, deixando-se ser conduzida pelo puxão que o homem lhe deu, de modo a trazê-la em sua direção.
– Não seja teimosa e faça o que eu digo — Sandor ordenou com a sua voz áspera habitual, carregada de um elemento sensual — Não irei fazer nada o que não queira, mas eu quero o que me foi prometido — Avisou — Abra as suas pernas e sente-se em meu colo, de frente para mim.
O homem esticara as próprias pernas para facilitar a ação. Muito lentamente e cheia de preocupações Sansa fez o que lhe foi dito, tendo de levantar a barra do vestido até a altura dos joelhos para se sentar no colo dele. As pernas expostas da garota eram realmente pálidas, mas estavam quentes quando roçaram a lateral de seu corpo. Tinha consciência de que a estava colocando em uma situação difícil. Apenas uma fina camada de roupa separava o seu sexo do dela, e ele a desejava com cada fibra de seu ser. Seria necessário muito auto-controle para não fodê-la.
– Coloque as suas mãos em minha cintura — Sansa acatou esta última ordem dele com mais facilidade do que a anterior. O homem por sua vez passou os seus braços acorrentados por sobre a cabeça dela e os abaixou até a altura do quadril da mesma, prendendo-a em seu abraço — Agora, passe os seus braços por dentro dos meus e coloque as suas mãos nos meus ombros — Sansa tornou a obedecê-lo, sentindo dificuldade em mudar os braços de lugar por não haver muito espaço para se mexer. Ela realmente estava na forma a qual ele queria, bem presa a si — Feche os olhos e separe levemente os lábios — O último comando veio em uma voz rouca. Seu rosto estava tão próximo ao dela que conseguia sentir o fraco odor de vinho vindo dela. Ela deve ser castigada por isso, era o que Lorde Eddard faria se descobrisse que a sua filha andou bebendo álcool oferecido por um estranho, porém a ideia de castigo dele era bem melhor do que a do pai de seu Passarinho teria se estivesse vivo.
Estando Sansa de olhos fechados, foi a vez de Sandor fazer o seu movimento. Dessa vez ele não fechou os seus olhos, ele queria vê-la enquanto a beijava. Com agilidade cessou quase toda a distância que os seus lábios tinha entre os dela. A respiração da jovem estava pesada e entrecortada, ela sabia o que estava por vir, e isso a deixava desconfortável. Por outro lado, o homem se divertia com a inocência da mesma.
Sem dizer palavra alguma, colocou a língua para fora de sua boca e tocou de leve os lábios entreabertos da garota, que estremeu com a ação. Os lábios de Sansa estavam secos, talvez fosse a vergonha ou o medo saudável que tinha de Sandor, ou talvez fosse algo além disso, não sabia dizer ao certo, mas tinha curiosidade em saber se quando terminasse de beijá-la os lábios inferiores dela também estariam secos. Ainda com a mesma delicadeza, empurrou a sua língua contra o lábio superior de Sansa e o sugou entre os seus próprios, umedecendo-os com a sua própria saliva. Em seu lado, as mãos de Sansa fecharam-se em seus ombros, segurando-o com tanta força quanto usaria se estivesse caindo.
Tímida do jeito que era, foi uma grande surpresa quando ela por iniciativa própria resolveu retribuir a carícia. Imitando o companheiro, prendeu o lábio inferior de Sandor ao seu usando a própria língua para umedecê-lo. Foi nessa hora que Sandor fechou os olhos entregando-se ao momento, contudo isso não durou muito tempo. Inexperiente do jeito que a garota era, ela acabou por inserir o dente na ação como ele mesmo o fizera outras vezes, só que Sansa não fora gentil na mordida e o gosto de ferrugem que era uma característica forte do sangue invadiu a boca de ambos. Não foi preciso ver para saber que o sangue viera do antigo ferimento que estava cicatrizando.
– Porra, Sansa! — Exclamou, cessando o beijo e prendendo o próprio lábio inferior entre os dentes em uma atitude instintiva.
– M-me desculpa..! — Gaguejou, voltando a se ruborizar — E-eu não queria... — A mão direita dela desajeitadamente deixou o ombro de Sandor para tocar o lábio que acabara de morder.
Seus olhos cinzas encontraram com os dela. Vendo-a de tão perto com a pouca luz que havia no ambiente era quase impossível ficar bravo com a sua ingenuidade, ainda mais quando os olhos azuis revelavam o quão assustada estava pelo o que fizera.
– Está tudo bem, Passarinho – Suspirou a frase, já não mais mordendo o próprio lábio para poder sentir o toque delicado do polegar dela roçar-lhe a pele. Havia ali um gosto sútil de sal que fez arder o seu machucado aberto e ao mesmo tempo o dedo dela era tão quente e macio que sentiu vontade de devorá-lo. E foi o que ele fez, em um movimento rápido inseriu-o em sua boca e o prendeu entre os seus dentes, sem lhe ferir.
Os olhos de Sansa se esbugalharam e o queixo dela caiu alguns centímetros, deixando-a boquiaberta. Foi inevitável que o homem abrisse um sorriso amarelo ainda tendo o polegar inserido em sua boca. Com a língua empurrou o dedo da garota contra o céu de sua boca e o sugou, fazendo a sua língua deslizar sob ele, o umedecendo com a sua saliva.
Sansa não fez menção de se afastar, muito pelo o contrário, passado o espanto inicial, ela mordeu o próprio lábio inferior e continuava a encará-lo com uma ferocidade digna do lobo gigante dos Stark. Ela é um lobo, não um pássaro. Sandor por um instante se esqueceu de que era ele quem a estava provocando. Apenas com o olhar que estava recebendo sentiu o seu pênis responder ao comando. Sentia que a garota à sua frente o estava despindo com os olhos, o arrancando de sua barreira mental e mostrando para ele o que de fato os lobos fazem com os cães. Como se tivesse recebido uma ordem liberou o dedo dela. A garota de prontidão afastou a sua mão da boca do homem e segurou o lado queimado do rosto dele. Sandor estremeceu com o toque e apoiou o seu rosto na mão que lhe fora oferecida, conseguindo sentir o membro úmido que inserira em sua boca encostado em sua bochecha.
Respeitando que ela estava em seu colo, trouxe-a ainda mais para junto de si ao levantar os joelhos. Sandor viu Sansa deslizar por sua coxa até se sentar no vão que foi formado entre as suas pernas e a sua barriga, bem em cima de sua pélvis. Fosse qual fosse a magia que a garota jogara sobre ele, ela durou pouco tempo e ele estava de volta ao comando da situação com o sorriso amarelo estampado no rosto.
– Beije-me, Passarinho – Ordenou, apertando as costas dela de modo a encostar a garota em seu peito.
Sansa o obedeceu desajeitadamente. Encostou os seus lábios inseguros nos de Sandor e este foi o responsável em intensificar a ação, inserindo a sua língua entre os lábios dela para encontrar a sua parceira dentro da boca da jovem, dando início à uma dança sensual, quente e molhada. Sansa estava aprendendo lentamente a beijar e ser beijada. Se não tivesse tanta necessidade de agradar aprenderia mais rápido, concluiu, enquanto a língua dela era conduzida para dentro de sua boca e os dedos de Sansa emaranhavam-se em seus cabelos. Suas mãos por sua vez subiam e desciam pela coluna de Sansa, algumas vezes apertando a carne dela na palma e outras arranhando-a com as unhas. Os piores momentos era quando encontrava a amarra do vestido. O seu lado mais selvagem o mandava desfazer os nós, o mais civilizado o obrigava a simplesmente passar os dedos por cima dos laços. Sandor odiava ter de ser civilizado.
Por mais de três quarto de hora eles ficaram nesse jogo, quando finalmente se separaram, foi para buscar ar. Ambos estavam arfando, o rosto de um estava escondido no pescoço do outro, sem forças para deixar o orgulho falar por eles. A intensidade do beijo deixara o seu olfato mais apurado, ele conseguia distinguir o cheiro de lavanda que Sansa tinha nos cabelos aquela noite, misturado com o habitual odor de hortelã. Em sua calça o tecido estava apertado demais mediante o volume que formara. Se Sansa sentia alguma coisa, ela não dizia nada.
– Sandor... — Ela o chamou com a voz rouca e o seu nome soou mais como um lembrete para ela de que ela tinha uma voz e sabia como usá-la.
– Uma palavra, Passarinho... — Sandor a recordou, virando o rosto em direção ao pescoço de Sansa e depositando os seus lábios ali, aplicando beijos e chupões. Sansa gemia ao toque mais simples que recebia. O homem tinha certeza que ela estava tão afetada quanto ele — Me dê a sua permissão... — Seus pulsos podiam estar amarrados, mas ele conseguiria fazer o que queria mesmo assim, não havia nada que pudesse impedi-lo de possuir Sansa, exceto a permissão da mesma.
– E-eu... — Sansa hesitou, deixando-se ser levada pelos beijos que recebia ao longo do pescoço. Ela estava inteiramente arrepiada.
Sandor a desejava cada vez mais. Impaciente com a resposta que receberia, decidiu apressá-la um pouco mais, tornando a abaixar os joelhos e esticar as pernas, deixando-a sentir o quão duro ele estava por de baixo do calção. Sansa assim que sentiu algo que antes não estava ali roçar-lhe a virilha se debateu em busca de liberdade. A garota estava presa ao homem e só conseguiria sair de seu abraço da mesma maneira que entrou: pela vontade dele. Cada vez que ela se movia sobre Sandor, ele soltava um gemido rouco. Inconscientemente, ela o estava estimulando.
– Sansa, pare... — Ordenou, com a voz entrecortada como se estivesse sentindo dor.
– Oh, não... por favor... Não! — Pediu, tomada pelo terror. Sandor compreendeu que isso lhe trazia a memória a sua primeira experiência sexual — ... Deixe-me ir, por favor!
Sandor deslizou a sua mão pelas costas da jovem até chegar em sua cintura e então a deteve ali. A corrente não era muito larga, porém tinha o tamanho ideal para que a contivesse.
– Pare, Sansa! — Gemeu, nervoso com a decisão dela, sentindo a forte pressão sobre o pênis. Sabia que se a luta dela persistisse um pouco mais ele poderia vir a gozar da forma em que estava — Eu disse que não ia voltar a tocá-la a não ser que me pedisse!
– Eu posso sentir... — Murmurou horrorizada, com as duas mãos espalmadas no peito de Sandor, como se isso fosse mantê-lo longe — ... Tem algo em baixo de mim... — Sansa tremia — ... Por favor... Eu não quero...
– Eu não vou te machucar — Prometeu.
– Mentiroso — Sansa chorou.
– Diga, Passarinho, e diga a verdade... Você não sente nada? — Não pode ser possível que apenas eu sinta, pensou.
Sansa hesitou. As mãos que estavam no peito de Sandor se fecharam em punho, prendendo a camisa dele entre os dedos. A garota abaixou a cabeça, escondendo o rosto e todas as suas emoções que deixava transparecer.
– ... Eu não quero sentir a dor de novo... — Confessou.
– O sexo não precisa ser dolorido — Rebateu de prontidão. Não conseguia acreditar nas coisas que estava ouvindo. Não sabia se devia culpar o vinho por isso ou agradecer aos Deuses por suas preces terem sido ouvidas, mesmo que o que ele pedira não fora em uma oração. Ainda tinha a alternativa daquilo ser resultado do fogo da puta vermelha, podia até ser Melisandre em seu colo se fazendo passar por Sansa. Não, esse é o Passarinho, ele conhecia Sansa muito bem, era o que acreditava, mas não conseguia achar razão lógica se a garota o desejasse, não enquanto ela não tivesse conhecido a sua melhor forma na cama.
– Mentiroso!
– Eu não estou mentindo — Rosnou — Eu posso fazê-la se sentir bem. Posso usar meus dedos, minha língua, meu pau... Você se lembra quando eu a fiz ter um orgasmo só com a língua? — Sorriu com a recordação, enquanto Sansa estremecia em seu colo — Posso fazê-la ter de novo. E se fomos meter posso meter como os malditos cavaleiros metem em suas donzelas naquelas canções que você tanto gosta. Só preciso da sua permissão — Uma palavra e a farei minha.
– Isso não é certo... — A moralidade falava por ela.
– Sete infernos, o que não é certo? Uma coisinha bonitinha como você ser fodida por um monstro como eu? — Soltou uma gargalhada amarga — Ou é o fato de não estarmos casados pela luz das sete bocetas? É isso que você quer, não é? Quer um casamento digno de canções — Zombou, lendo os pensamentos de Sansa e exibindo todos os dentes de sua boca. Nesse ponto, a sua paciência já havia estourado — Acha que eu sou o filho da puta do Florian? O seu Florian morreu naquele navio, o bastardo loiro que enchia a sua cabeça com merda. Se quiser me comparar com alguém de suas canções me compare com o cara sem nome que fode a esposa do dornês. Não é isso que todos estão falando? Que o Cão de Caça fugiu com a noiva do rei Joffrey e fodeu ela de todas as formas possíveis? — Aproximou o rosto do ouvido de Sansa, que ainda mantinha a cabeça abaixada — Não é chocante o fato de que a esposa do dornês nem me deixa ver se ela está molhada?
– Você é horrível! — Sansa exclamou com a voz lamuriosa, empurrando-o para longe de si.
– Não, Passarinho, eu já te disse, é o mundo que é horrível. Diga-me, através de seus conceitos de certo e errado, é certo um merda como Joffrey mandar os cavaleiros de manto branco espancar uma criança? É certo se tornar refém de uma puta que venera a porra do fogo? É certo os seus irmãos mais novos virarem churrasco pelas mãos de uma pessoa que te viu crescer? É certo um desgraçado como Gregor viver enquanto... — Não, não mencionarei Reyla– ... pessoas como o seu pai morrem? — Sansa ficou em silêncio e Sandor soube que ela concordava com essas últimas palavras que dissera — Pois bem, foda-se a sua moralidade! Ela só combina com o mundo de faz de conta que você tem na sua cabecinha oca!
O tesão que Sandor sentira durante o beijo não passava de uma lembrança dolorosa que carregava em baixo da calça. Não tinha mais vontade de foder Sansa essa noite, mesmo que soubesse que teria de arranjar um jeito de se aliviar da pressão que formara em seu pênis mais tarde. A garota também parecia estar mais longe de ceder aos próprios impulsos físicos do que quando as carícias começaram.
– Por que...? — Sansa murmurou depois de um longo minuto em silêncio onde só o mar e o choro dela eram ouvidos — Por que você faz isso? Uma hora você... Não, você nunca faz nada — Balançou a cabeça em sinal negativo — Você não é um cavaleiro de verdade, um cavaleiro de verdade não deixaria nenhum mal me acontecer.
– E quantos cavaleiros de verdade você conhece?
– Eu não sou mais uma donzela, eu não necessito de cavaleiros.
– E o que é que você necessita?
– Mais vinho.
Sandor gargalhou alto e durante um longo espaço de tempo. Sansa finalmente estava demonstrando ter aprendido alguma coisa que lhe ensinara, ainda que não fosse de uma forma boa.
– Vá embora, Passarinho, cansei de ouvir o seu piar esta noite. Quando o vinho acabar e desejar um homem você só precisará pedir, mas se demorar muito, bem, tem sempre um cão faminto na sombra do homem que pode aparecer mesmo quando não requisitado, e você sabe o que os cães fazem com os lobos, você já viu.
Naquela noite eles não trocaram nenhuma outra palavra. Depois de ser liberada dos braços de Sandor, Sansa foi embora, apenas para aparecer na noite seguinte com trapos laranja vindos de seu antigo vestido e uma pasta de ervas que ela mesma fizera, alegando ser bom para o ferimento que fora ocasionado pela corrente. Nenhum dos dois voltaram a tocar em qualquer outro assunto que não fosse a fuga. Sandor diminuíra consideravelmente a bebida, e finalmente recebera um prato de refeição que comera sem pensar duas vezes. Sansa não demonstrara ter aderido ao vício em bebida que Cersei tinha. O cheiro de vinho que a garota trazia consigo era misturado com a sua última refeição, sendo uma fragrância quase imperceptível. Para a fuga, Sandor pensara que a melhor forma de escapar seria passar a corrente que unia as suas pulseiras de ferro no pescoço do intendente, quando este viesse lhe fazer a última visita do dia. Tendo ele como refém e Sansa estando do seu lado, seria fácil ser levado até onde estava Estranho, juntar as suas coisas e saltar ao mar. Nos últimos dias, dos dois lados do navio se via terra, nadar não seria exaustivo até estarem em segurança, e a noite era o momento perfeito para a fuga. Não havia soldados na porta do porão, a maioria iam para os seus quartos ou ficavam no convés apreciando o fogo queimar, Sansa lhe confidenciara.
No dia em que marcaram a fuga, Sandor comeu um pedaço do pão preto com o peixe em salmora que lhe trouxeram, bebendo metade da jarra de vinho para limpar o sal que ficara na boca. Ele deveria ter percebido na hora, mas não o fez, o que foi o seu maior erro. O vinho estava mais doce do que o normal e a noite aquele dia, ele nunca vira chegar. Quando acordou, o sol do meio dia esquentava as suas roupas, o barulho do mar fora substituído pelo de cascos de cavalo e pelo vento batendo na copa das árvores. Apesar de ouvir tudo isso, não conseguia ver nada além do saco de estopa que cobria-lhe a face. Sobre a sua cabeça passarinhos piavam, e nenhum era Sansa. Pedra do Dragão, ela tem de se lembrar da promessa...
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