O Voo Do Passarinho

19 Capítulo 19 - Cativo


As cordas lhe feriam os pulsos, os tornozelos e o pescoço. Sentia-se como o javali que matara Robert, exceto que ele não teve o prazer de tirar a vida de nenhum rei. Os seus crimes que o colocara nesta situação eram os mesmos que o condenara por toda a vida: ser o irmão de Sor Gregor Clegane e o Cão de Caça dos Lannisters. Encheu a boca com o musgo que entupia o nariz e cuspiu ao seu lado. A amarra se apertou ainda mais em seu pescoço, os nós da corda lhe feriam a pele. Se não controlasse os seus movimentos, até o amanhecer estaria estrangulado, tinha certeza disso.

– Malditos sejam! — Amaldiçoou seus captores.

Sentia desprezo para com eles não apenas por tê-lo tornado um cativo, mas por terem uma forte relação com o fogo. A grande pira no convés foi o suficiente para assustá-lo quando ainda estava em alto mar. Teria recusado o salvamento se Sansa não tivesse desmaiado em seus braços. Ela também era a vítima de seus xingamentos. Aceitava o fato da garota estar cansada, contudo não o respeitava. Fora ele quem fizera o trabalho duro de garantir que tanto ela quanto Estranho não se afogassem, tinha até mesmo dado o seu melhor para disfarçar o frio e as câimbras que atrasavam os seus esforços para os levar em segurança até à costa mais próxima. Tudo isso fora em vão. A mulher vermelha fora quem os resgatara.

Sandor conhecia todos os rumores da Sacerdotisa de R'hllor que chegara à Porto Real durante o tempo em que esteve sob serviço dos Lannister, e para ele Melisandre não era como o fogo que a representava, ela era tão fria quanto o gelo, manipulando Stannis Baratheon, uma de suas várias marionetes no seu espetáculo de pantomimeiros. O Rei Robert Baratheon teria gargalhado por dias se visse o que o seu irmão mais velho se tornara. Tudo por uma boceta, pensou com escárnio. Se fosse honesto consigo mesmo, o comentário também era conveniente para a situação em que se metera, a única diferença era que só havia experimentado Sansa uma única vez, já Stannis, bem, ele seria um completo idiota se não houvesse possuído aquela mulher menos de uma centena de vezes.

– Estúpido passarinho... — Murmurou, estalando os lábios no fim em sinal de desaprovação.

A ingenuidade de Sansa o irritava na mesma medida que o seduzia. Desejava que ela fosse um pouco mais solicita, consciente de seus sentimentos para com ela e que pudesse respondê-los da forma que almejava que o fizesse. Ela me prometeu um beijo, se recordava do consentimento que obtivera ainda a bordo do Sufrágio da Donzela. Deveria ter clamado minha recompensa quando tive a oportunidade. Gostaria de ter pedido o favor da garota quando retornara no quarto de Sansa, ali teria sido o momento perfeito, mas os seus planos foram por água abaixo quando ao voltar para os aposentos que a deixara se deparou com os piratas que estavam atacando a embarcação do Capitão Timothy no encalço de sua protegida. Sansa demonstrara ser mais esperta do que ele lhe dava crédito, esfaqueando um de seus agressores com o punhal que trouxera de Porto Real. Em contra partida, Alíria encontrara o seu fim e Sandor não pôde fazer nada por ela a não ser lhe ceder a misericórdia no gume de sua lâmina. Pensava que seria diferente a forma que a mataria, naquele mesmo dia havia ponderado diversas vezes sobre lhe tomar a vida, e no fim o aço perfurou o coração da mulher como se fosse de um animal qualquer. Que ela encontre a paz na morte que na vida lhe fora negada, fora honesto em seus dizeres. Um ano atrás teria desejado que o Deus Estranho fodesse a camponesa de todas as formas possíveis por o ter chantageado, agora já não mais pensava dessa forma. Algo dentro de si estava mudando, fosse a sua inclinação à simpatizar com as mulheres ou fosse a influência de uma mulher em particular em sua vida, o que era certo, era que a sua identidade de Cão de Caça aos poucos perdia o sentido.

– Minha senhora, não entre aí sozinha! — A voz esganiçada de um homem rasgou o silêncio do outro lado da porta do local onde Sandor se encontrava — O Cão de Caça é perigoso!

Sandor estava tão absorto em sua mente sobre as coisas que foram e as que nunca seriam que não percebera a agitação no corredor. A senhora que o homem mencionara deve ter dito algo em um tom inaudível, porque suas insistências chegaram ao fim.

– Muito bem — Já não estava mais esganiçado, o que imperava em sua voz era o temor — Já que insiste. De qualquer forma, eu e Sor Godry estaremos aqui, esperando até que termine de ter com ele.

A porta às suas costas rangeu. Sandor não precisou erguer os olhos e virar o rosto para saber quem a estava atravessando. Ela trás o calor consigo.

– A puta vermelha de Stannis — Chamou pela mulher antes que fosse chamado.

Melisandre adentrara o cômodo trazendo consigo uma lanterna em uma mão e na outra uma bandeja com um grande volume que Sandor reconheceu como sendo um pão. Duro e seco, concluiu pela aparência do alimento. Também havia um jarro e uma taça, podendo ser tanto de vinho quanto de água, era difícil dizer seguindo apenas o olfato, visto que este estava prejudicado pelo tempo que ficara exposto na água salgada e por ainda estar utilizando as mesmas roupas molhadas grudadas ao corpo. Com um longo tempo percorrido desde que subira à bordo era de se esperar que suas vestimentas já estivessem secado, entretanto no porão do navio não chegava nenhum calor, como se a grande fogueira queimando no convés estivesse à quinhentas milhas de distância de onde estava.

– Não é uma forma educada de se direcionar à alguém que acabou de conhecer — A sacerdotisa de R'hllor acocorou-se na frente de Sandor, depositando o que trazia ao lado do homem. Sandor pôde ver com clareza que o conteúdo da jarra era vinho e na bandeja havia algo além do que identificara: uma cumbuca com sopa rica em legumes. O calor que o refratário emitia lhe aquecia o corpo gélido e se estava gostoso ou não era indiferente, sabia que gostaria só pelo fato de poder colocar algo quente no estomago.

– Ouvi o suficiente à seu respeito para dizer que a conheço — Rosnou de volta para a mulher, com muito custo desviando os olhos da comida que lhe era ofertada.

Já tivera muita experiência de vida para desconfiar da boa ação de Melisandre. Nunca confie em nada vermelho, pensou consigo mesmo, observando o quão rubra era a mulher na luz emitida pela lanterna que lhe lambia o rosto, criando sombras negras e laranjas que dançavam como serpentinas. Os animais não se alimentavam de coisas vermelhas e evitavam o contato com esta cor, porque na maioria das vezes se tratava de veneno. O fogo, com diversas tonalidades avermelhadas também não se mostrara o mais leal dos companheiros quando derretera metade de seu rosto. Havia apenas um vermelho que ele confiava, e este estava negro no presente momento e distante de seus olhos.

– E eu ouvi o mesmo ao seu respeito, devo por esta razão tratá-lo como um cão? — A mulher vermelha o desafiou. Seus olhos rubros eram severos para com o cativo.

Sandor fungou uma risada.

– Não é para isso que serve essas amarras? — Teria demonstrado mais desprezo em sua frase se a corda não tivesse fincado suas ásperas pontas soltas em seu pomo de Adão.

As cordas grossas feitas de cânhamo estavam amarradas ao pé de carneiro do navio e foi assim que Sandor descobriu que estava no porão do mesmo. Diferente do Sufrágio, esta embarcação era feita com madeiras mais finas, o que significa que sua proficiência para navegar em águas rasas era maior do que os de casco grosso. Era um típico navio mercante, sua função não era guerrear, mas nem por isso estava desprovido de munição, com um grande e potente canhão posicionado a poucos passos de distância de onde estava aprisionado. Pequenas alterações feitas após a derrota em Blackwater, crispou os lábios. O corte amador da parede externa do navio no lugar onde o canhão atiraria nos inimigos revelava a necessidade de transformações das frotas restantes de Stannis e não era pra menos, o fogo vivo engolira mais da metade das forças navais do mesmo, sem contar a quantidade significativa de homens.

– Posso soltá-lo se desejar — Disse Melisandre, sua voz tão suave quanto seda sobre a pele — Desde que prometa não se rebelar como o fez no momento em que o trouxemos à bordo.

Sandor se recordava de ter lutado com as mãos livres com cinco homens de Stannis, uns dos poucos que usavam armadura no navio, conseguindo acertar todos eles, mas sem os por para dormir, arrancando sangue junto com alguns dentes de apenas um deles por estar fraco de mais para demonstrar a sua boa forma. O que eu fiz foi revidar, não atacar, disse para si mesmo. No momento em que fizera menção para se juntar à Sansa que ainda estava inconsciente os marinheiros o detiveram puxando as cordas que o amarravam, e para se protegerem das investidas de Clegane foi necessário que soldados intervissem a favor deles.

– Não farei nenhuma promessa pra você — Rosnou.

Foi a vez da sacerdotisa estampar um sorriso em seu rosto.

– Então eu terei que simplesmente confiar em você — Dito isso retirou uma adaga de sua manga esquerda. Julgando pela aparência da lâmina a arma era nova e o seu cabo era decorado por três pequenos rubis.

– O que pretende fazer com isso? — Sandor inquietou-se. Não estava disposto a confiar na mulher vermelha, ainda mais quando ela tinha vantagem sobre ele.

Melisandre não o respondeu. Ainda com o sorriso no rosto, debruçou-se sobre Sandor. A mulher cheirava a maçã e canela, e tinha a pele tão quente que o arrepiou quando se tocaram. O corpo da sacerdotisa estava esticado sobre o seu, ficando com os seios a poucos centímetros do rosto do homem. As mãos dela lutavam para cortar a corda que o prendia na garganta pela parte de trás de sua nuca, mas o junco era grosso, dando-lhe um considerável trabalho mesmo estando em posse de uma lâmina afiada. Quando finalmente se viu livre da amarra em sua jugular, balançou o pescoço de um lado para o outro aproveitando o momento de liberdade. A pele estava ferida, podia dizer pela forma que ela puxava no movimento, talvez não devesse ter se debatido tanto quando o arrastaram até o porão.

– Pronto — Anunciou a mulher vermelha, voltando a acocorar-se na frente de Clegane e a guardar a adaga dentro de sua manga.

– E as outras cordas? — Puxou os ombros para a frente para mostrar que suas mãos continuavam presas às suas costas.

– Ganhe a minha confiança e pensarei no seu caso — Melisandre o estudava.

– O que você quer? — A pergunta soou áspera e bruta, diferente dos dizeres da sacerdotisa que eram pacientes e serenos.

A mulher inspirou profundamente o ar, com um sorriso cruel estampado no rosto.

– Eu não quero nada de você, já o Senhor da Luz... Ele tem planos para você, Sandor Clegane.

– Vá a merda você e o seu Senhor da Luz! — Blasfemou a ofensa.

Os olhos de Melisandre se alargaram e escureceram por breves segundos. A mulher ergueu a mão e Sandor pensou que fosse para proferir um tapa em sua face, mas então, ela o surpreendeu acariciando o seu rosto do lado onde o fogo o beijara.

– Pobre criança... — Disse, com as sobrancelhas arqueadas, lamentando por ele — ...Vê o presente de R'hllor com rancor e culpa o irmão por isso.

Sandor não fazia ideia de quem havia contado a verdadeira história de sua cicatriz para ela. Independente de quem fosse, podia se considerar um homem morto.

– A porra do seu Deus me deu a porra dessa cicatriz. Me deixe esfregar o seu belo rostinho no fogo que você tanto adora para entender o que realmente é rancor! — A desafiou, furioso com o comentário da mulher.

Não entendia como ela podia considerar aquela deformidade em sua face um presente abençoado. A carne morta, áspera, dura e bastante insensível comparada com o outro lado do rosto o condenara à uma vida de humilhações e estigma, e como se isso não fosse ruim o suficiente, o impedia de receber o amor das mulheres, embora nunca os favores das rameiras, desde que tivesse uma bolsa cheia de moedas.

Os dedos de Melisandre beliscaram o rosto de Sandor em repreensão as suas palavras. Ele não a culpava. A mulher aguentara o máximo que pôde os insultos proferidos ao seu Deus, que no conceito do homem não passavam de verdades sobre sua opinião.

– Não digo sobre a sua queimadura — A sacerdotisa vermelha o corrigiu — Digo sobre a sua vida. R'hllor a presenteou com ela, recusando a levá-lo enquanto estava se recuperando da agressão de seu irmão.

– O que está dizendo? Que devo agradecer R'hllor pela minha vida? — Poderia ter agradecido ao Deus se Ele tivesse dado o seu presente para Gregor e não para ele.

– Não só R'hllor, mas a Reyla também — A força dos dedos de Melisandre cederam.

Sandor arregalou os olhos. O nome de sua irmã junto com a sua breve história de vida era mais confidencial do que a própria história de sua queimadura.

– Não se atreva a falar de minha irmã... — Rosnou a ameaça.

A mulher mostrou os dentes no sorriso como resposta.

– Você não sabe de toda a história, não é mesmo? Bom, não tinha como você saber, eu mesma não sabia até três dias atrás em uma visão nas chamas, na mesma que eu vi você e Sansa Stark. O Senhor da Luz me mostrou como a sua irmã decidiu dar a vida por você.

– O que está dizendo...? — Piscou algumas vezes, incrédulo.

– Toda vez que a carne humana encontra o fogo o Senhor da Luz aparece ou para levar aquela alma ou para purificá-la, no seu caso, quando ainda era uma criança, R'hllor escutou o chamado e apareceu em forma de fogo fátuo¹ para levá-lo, mas Reyla intercedeu por você quando foi procurar pela lenha recém cortada na mata da Fortaleza Clegane. Ela viu a bola de fogo flutuante em meio as árvores e acreditando ser algum espírito da mata ela pediu pela sua vida. O pedido foi aceito, porém toda vez que uma vida é tomada do Deus do Fogo outra deve ser entregue para ele e a sua irmã aceitou o pagamento. Você acredita que ela morreu por uma doença pulmonar, essa não é a verdade. O Senhor da Luz apoderou-se do calor vital dela e aos poucos foi tomando a vida da menina a medida que você era curado. R'hllor lhe concedeu viver por mais tempo, mas foi Reyla quem lhe devolveu a vida.

Queria estar com as mãos soltas, desejava grudar na garganta da mulher vermelha e lhe retirar a língua para que nunca mais dissesse mentiras. Não acreditava no Senhor da Luz e nem em outra divindade qualquer, aquela história que contava não podia ser real, e ainda assim uma parte dentro de si achava possível Reyla ter feito isso. A sua irmã era tão bondosa e ingênua que teria facilmente trocado a vida miserável acometida pela doença por um de seus irmãos, principalmente se fosse por Sandor.

– Você mente — Disse de forma pausada cada palavra. A sua voz não estava mais alta do que um sussurro.

– Minto? — Melisandre perguntou com simplicidade — Se eu mentisse não teria resgatado você e Lady Sansa, o Senhor da Luz também os mostrou para mim, como já disse.

– Onde ela está!? — Gritou. Desde que fora levado ao porão e separado de sua protegida uma das únicas coisas que pensava era em Sansa, e agora que Melisandre estava ali e podia lhe dar algumas respostas sobre a garota Stark, ele parece se esquecer de perguntar sobre a mesma — Como ela está!? — A última vez que vira Sansa ela havia despertado de seu breve desmaio, porém tornara a fechar os olhos e entregar-se a escuridão depois de alguns minutos.

– Pensei que nunca fosse perguntar — A mulher divertiu-se — Ela está bem e deseja vê-lo.

Sandor tentou escutar qualquer barulho que fosse do outro lado da porta. Não havia mais sons de passos e nem de conversa, Sansa com certeza não esta ali, caso o contrário teria sido ela a entrar com a bandeja de comida que estava posta ao seu lado.

– Mas ela não me verá, não é mesmo? — Abriu um sorriso pelo canto bom do lábio, o canto queimado se contorceu.

Desejava ver Sansa e se certificar de que ela estava bem. Queria lhe repreender por sua imprudência de não ter controle sobre o corpo e, acima de tudo, sentia necessidade de alertá-la sobre a sacerdotisa vermelha.

– Lamento — Mentiu a mulher sobre o seu pesar -, mas não. Suponho que queira a sua comida agora? — Melisandre tomou a cumbuca com a sopa, agora morna, em suas mãos e encheu a colher com o caldo grosso.

– O que irá fazer com Sansa? — Deu pouca importância à comida que lhe estava sendo oferecida.

– Prefere começar pela sopa ou pelo pão? — A sacerdotisa demonstrava ter outra preocupação no momento, e nenhuma inclinação para voltar a falar de Sansa — Acredito que prefira comer algo quente — A sopa foi a escolha dela. Com a colher suspensa sobre o recipiente onde estava o caldo, aproximou-a da boca de Sandor.

– Posso comer com minhas próprias mãos — Disse de forma áspera, virando o rosto.

Sandor preferia passar fome à ser humilhado dessa forma, sendo tratado na boca como se fosse uma criança. Sem contar que não tinha certeza se não havia veneno naquela comida. O cheiro estava tão bom e sentia tanta fome que a razão ameaçava perder a vez. Não posso morrer agora, pensou, não enquanto tenho que proteger o Passarinho. Ele era um homem em uma missão, precisava se lembrar disso.

– Bobagem — Melisandre respondeu, fazendo outra investida em vão com a colher.

– Me desamarre — Ordenou.

– Depois de tudo o que disse, acha que confio em você a ponto de soltá-lo de suas amarras?

– Quem me garante que não há veneno no que me trouxe? — Clegane rebateu com sabedoria, virando-se para encará-la. O olhar fora devolvido na mesma intensidade.

Pela primeira vez Sandor realmente observou Melisandre. A mulher não era muito mais nova que ele, provavelmente haveria uma diferença de cinco anos² entre eles. Tudo nela era vermelho, com exceção da pele. Os cabelos eram de um rubro escuro, a cor se assemelhava mais a de sangue do que a de cobre, diferente dos de Sansa. Sansa ainda é a mais atraente, avaliou. Entretanto havia algo na sacerdotisa que faltava na garota, não foi preciso muito tempo para saber o que era. Sensualidade. Melisandre era uma mulher que sabia o valor do próprio corpo e o utilizava sem se deixar cair na vulgaridade. Por uma vez o homem desejou possuí-la, mas a vontade logo passou. A mulher deveria ter dentes na boceta, enquanto Sansa, bem, ela tinha mel.

– Me ofende com as suas desconfianças — A sacerdotisa mostrou o seu ponto, e para provar que Clegane estava errado, tomou duas colheradas do que o oferecia.

Sandor enrugou o nariz com a ação. Estava mais inclinado a esquentar o seu estômago antes que a sopa esfriasse de vez. Teria aceitado a oferta da mulher dessa vez se o seu orgulho não tivesse falado mais alto. Se ela me soltar, eu como, decidiu.

– Não comerei enquanto estiver amarrado — Avisou.

– Muito bem — Depositou a cumbuca com o alimento de volta na bandeja e encheu a taça com o vinho que trouxera. Tomou o primeiro gole e então ofereceu o conteúdo para Sandor — Se não for comer, pelo menos tenha a decência de beber.

Havia duas coisas que não se devia recusar, vinho e mulher, sendo que a segunda dependia muito da situação. Já a bebida... Não havia lugar impróprio e nem tipo evitável de vinho. O líquido quente desceu queimando a sua garganta. O estômago vazio acolheu bem a bebida e ansiou por mais. Após ter esvaziado a primeira taça, Melisandre tornou a enchê-la e tornou a despejar na boca de Sandor, que de prontidão esvaziou o seu conteúdo mais rápido do que o anterior.

– Me deve uma explicação — Sandor a avisou, com um filete de vinho tinto em cada canto dos lábios que se perdia no emaranhado de sua barba.

– Não lhe devo nada, Sandor Clegane — A sacerdotisa do Senhor da Luz se tornara séria — Mas posso lhe conceder uma resposta, se a pergunta não for impertinente — Alertou.

– Diga-me o que fará com Lady Sansa — Tinha que saber. Não importava o que fosse acontecer consigo, ele sabia tomar conta de si próprio, diferente do Passarinho. De qualquer forma, irei para onde ela for.

– Levarei-a para Pedra do Dragão — Respondeu com honestidade — Para onde o Rei Stannis se encontra. Seria traição se não o fizesse.

Sandor fechou o maxilar com força. O álcool subia e o afetava como uma antiga paixão, alterando os seus sensores, deixando-o mais vulnerável aos seus sentimentos do que gostaria.

– Acha que Stannis me aceitará como um de seus homens? — Sandor bufou. Já era um risco crer que Robb o aceitaria como um de seus soldados pela fama que o Cão de Caça possuía, principalmente depois de Blackwater. Clegane era conhecido agora como sequestrador da noiva do rei e traidor do Trono de Ferro. Não era uma fama desejada por ninguém com as pretensões que tinha — Ou como um de seus prisioneiros? — A morte era o mais certo para quando chegasse lá e se Stannis estivesse de bom humor, talvez lhe desse um título em troca de alguns de seus dedos, como fizera com Sor Davos Seaworth.

– Eu disse que Sansa será levada para Pedra do Dragão — Melisandre o corrigiu.

Clegane ficou sem reação. Sansa era a sua chance de reintegração na sociedade da qual estava fugindo. Seria ela quem lhe garantiria o lugar de volta na guerra, quem estava resgatando a sua humanidade. Se a tirassem dele, eles lhe tirariam tudo. Sansa tinha uma família para onde voltar e muitos senhores se beneficiariam com o nome de sua Casa em alguma aliança. Sandor já não tinha nada além de Sansa e por diversas vezes se questionara se iria ou não devolvê-la para os Starks. Ele tinha forças o suficiente para a impedir de fugir de si. Ela seria o meu próprio Passarinho, o pensamento o excitava. Ela demonstrava ter mais valor para si do que para qualquer outra pessoa em qualquer continente, então nada seria mais justo do que mantê-la consigo até o dia de sua morte.

– E o que pretendo fazer comigo? — Perguntou quando se tornou possível elaborar uma frase.

– O Senhor da Luz tem outros planos para você — Contou — Você deverá pagar pelos seus pecados e então se purificar.

– Vá para a puta que pariu você com esse Senhor da Luz! — Estourou. Estava cansado e enfurecido com o fato da mulher se esconder atrás de seu Deus.

Melisandre se pôs em pé e levou a bandeja de alimentos junto consigo. A lanterna ficou para trás, servindo como única fonte de luz no lugar.

– Enquanto não controlar os seus modos nada de bom virá para você — Dito isso, lhe deu as costas, deixando-o sozinho com os seus demônios.

Notas finais
N/A: ¹ Fogo Fátuo: a primeira vez que eu vi esse termo foi no livro A Pequena Fadette, de George Sand, refere-se à uma bola de fogo que aparece com frequência em florestas. Minha avó também mencionava a aparição de fogo fátuo em cemitérios, a mãe dela dizia que aparecia como sinal para os casais que brigavam muito, mas na verdade é a reação química dos gases emitidos pelos cadáveres em covas que não são cimentadas. Macabro, mas real... ² Não me recordo se já mencionei isso antes, mas na minha fic o Sandor tem vinte e oito anos, como nos livros, o que dá a Melisandre, vinte e três anos. Não sei se essa realmente a idade dela, enfim, agora é. rs A fanfic está seguindo um rumo totalmente diferente do que eu havia planejado. A princípio pensei que essa seria mais uma história de romance SanSan, mas agora algumas aventuras serão inseridas para fortalecer (ou enfraquecer) o relacionamento dos dois. Espero que estejam gostando do que escrevi até o momento! Comentários em geral são bem vindos (aberta para sugestões)! :D