O Vizinho Perfeito - Leonetta

9 CAP. 9 - O Brilhante e Premiado Roteirista


Violetta estava descendo para o andar de baixo, após uma manhã de intenso trabalho. Ao ouvir o familiar e agradável som do sax, pensou em bater à porta de seu vizinho para lhe oferecer um café, mas o som do interfone lhe interrompeu os pensamentos.

– Sim?

– Estou procurando o Sr. Vargas, do 3A — disse uma voz feminina.

– Não, ele está no apartamento 3B.

– Oh, droga, então por que ele não está respondendo?,

– Provavelmente porque não ouviu o interfone, já que está tocando sax — explicou Violetta.

– Então poderia me anunciar, querida? Sou a empresária dele e já estou cansada de ficar aqui tocando esse interfone.

– Empresária dele? — Violetta repetiu.

Bem, se Vargas tinha uma empresária, queria conhecê-la. Já havia pensado em indicá-lo a várias pessoas e talvez essa fosse sua chance de ajudá-lo de alguma maneira.

– Claro, pode subir — dizendo isso, acionou o botão que destravava o portão de entrada.

Em seguida, abriu a porta de seu apartamento e ficou esperando do lado de fora. A mulher que saiu do elevador parecia muito profissional e bem­-sucedida(uma mulher de aspecto severo, com óculos de lentes quadradas e os cabelos presos em um coque), segundo Violetta notou com certo espanto. O tailleur preto e uma echarpe verde esmeralda que lhe atribuía um ar de ele­gância e sofisticação, assim como a pasta execu­tiva de modelo feminino.

Violetta franziu o cenho. Então por que o clien­te dela parecia estar passando por dificulda­des financeiras?

– Você é a moradora do 3A?

– Sim, meu nome é Violetta.

– Sou Esmeralda Di Pietro, mas pode me chamar de Esmeralda. Obrigada por haver aberto o portão para mim, Violetta. Nosso "garotão" aqui não está atendendo ao telefone e, pelo visto, esqueceu-se de que tínhamos uma reunião à uma hora, no Restaurante Four Seasons.

– O Four Seasons? — Violetta se surpreendeu. Aquele era um dos restaurantes mais caros da região. — No parque?

– Esse mesmo. — Com um sorriso, Esmeralda apertou a campainha do apartamento 3B. — León é muito talentoso, mas temperamental demais de vez em quando.

– León? — Violetta levou um instante para entender sobre quem ela estava falando. — Ah, León Vargas. — Com um suspiro de indig­nação, acrescentou: — O autor de Rede de Almas.

Isso mesmo — confirmou Minerva. — Vamos lá, León, abra logo esta porta... — falou ela, tam­borilando os dedos sobre a madeira. — Quando ele decidiu passar alguns meses na cidade, pensei que conseguiria ter mais acesso a ele. Mas, pelo visto, eu me enganei mais uma vez. Ora, até que enfim.

Ambas ouviram o ruído das trancas sendo aber­tas com gestos súbitos e, aparentemente, mal-hu­morados. Então ele abriu a porta.

– O que diabos... Esmeralda?

– Você perdeu o almoço — ironizou ela. — E não atendeu ao telefone.

– Eu me esqueci do almoço e o telefone não tocou.

– Você carregou a bateria?

– Provavelmente não. — León continuou no mesmo lugar, olhando para Violetta, logo atrás de Esmeralda.

– Entre — disse à empresária. — Só me dê um minuto, sim?

– Eu já lhe dei uma hora — ironizou Esmeralda, falando por sobre o ombro enquanto passava pela porta. — Obrigada mais uma vez, querida — ela agradeceu a Violetta.

– Não há de quê. — Violetta forçou um sorriso. Então fuzilou León com o olhar. — Canalha — disse ela por entre os dentes, antes de entrar em seu apartamento e bater a porta.

– Não há nenhum lugar para se sentar aqui? — protestou Esmeralda, atrás dele.

– Não. Quer dizer, sim. No andar de cima — resmungou em resposta, tentando ignorar a onda de culpa que o atingiu. — Não costumo ficar muito neste andar.

– Estou vendo. Quem é a garota que mora em frente?

– O nome dela é Violetta Castilho.

– Achei que ela me parecia familiar. É a cria­dora das tiras cômicas Amigos e Vizinhos, Vilu Castilho, é como ela assina, não é? O Pablo é o empresário dela. Ele é louco por ela. Vive dizendo que ela é sua única cliente à prova de ego e livre de neuroses. Nunca se queixa, não atrasa os prazos e está sempre lhe dando lucro com a venda de seus personagens em agen­das, calendários e outras coisas do gênero. Claro que ele trabalha por diversão, já que os Black são ricos ( bom... teve o caso da mãe de Naty*).

Diante do silêncio de León, Esmeralda resolveu mudar de assunto e acrescentou:

– Imagino como seria bom ter um cliente livre de neuroses, que se lembrasse dos almoços de negócios e que me mandasse presentes no meu aniversário.

– As neuroses fazem parte do pacote, mas sinto muito sobre o almoço.

O aborrecimento de Esmeralda cedeu lugar à preocupação.

– O que aconteceu, León? Parece alterado por algum motivo. O roteiro não está indo bem?

– Não, ele está caminhando. E melhor do que eu esperava. O problema é que não tenho dormido muito bem ultimamente.

– Continua saindo para tocar seu sax até altas horas da noite?

– Não.

Estava era passando as noites em claro pen­sando em Violetta, León admitiu para si mesmo. Andando de um lado para outro e desejando tê-la em seus braços. Só que agora ela devia estar pro­fundamente magoada com ele.

– Bem, já que não teremos mesmo o almoço, que tal me oferecer um café? — sugeriu Esmeralda.

– Ainda há um pouco na garrafa — disse ele. — Estava fresco às seis horas da manhã.

– Então, deixe-me preparar outro.

Depois de preparar o café, com os ingredientes que já se encontravam sobre a pia, Esmeralda abriu alguns armários, à procura de algo para comerem. Considerava o bem-estar de León como parte de seu trabalho.

– Meu Deus, León, por acaso está fazendo greve de fome? Não há mais nada aqui, além de restos de batatas fritas e do que um dia foi um pão francês, mas que agora só serve para expe­rimento científico.

– Não fui ao supermercado ontem — explicou ele, sem conseguir deixar de pensar em Violetta.- Para jantar, geralmente faço um pedido a algum restaurante.

– Pelo mesmo telefone que você não atende?

– Eu vou recarregar a bateria, Esmeralda.

– Espero que sim. Se pelo menos ele estivesse funcionando, agora estaríamos sentados a uma mesa do Four Seasons, tomando champanhe Cris­tal para comemorar. — Com um sorriso, acres­centou:

– Fechei o contrato, León. Rede de Al­mas vai se transformar em um grande sucesso do cinema. Terá os produtores que quiser, o di­retor que preferir e a opção de fazer o roteiro pessoalmente. Tudo isso regado a uma generosa quantia, claro.

– Não quero que estraguem o roteiro — foi a primeira reação dele.

– Isso só dependerá de você. — Esmeralda suspi­rou.

– Para não correr o risco de que algo não o agrade, faça você mesmo o roteiro.

Sem dizer nada, León se aproximou da ja­nela, ainda tentando absorver a notícia. Um filme mudaria a perspectiva que a peça havia atingido no teatro, mas, por outro lado, geraria uma renda de milhões de dólares.

– Não quero me envolver demais nisso, Esmeralda. Toda aquela loucura do cinema não me agrada.

Ela serviu duas xícaras de café e se aproximou da janela, entregando uma a ele.

– Então faça apenas o trabalho de supervisão. Ou de consultoria, se preferir.

– Sim, acho que isso será suficiente para mim. Providencie tudo, está bem?

– Pode deixar comigo. Agora, se você conseguir parar de dar pulos de alegria, poderemos conver­sar sobre seu trabalho atual.

León curvou os lábios, sem conter o sorriso.

Levado por impulso, deixou a xícara sobre o pa­rapeito da janela e segurou o rosto de Esmeralda entre as mãos.

– Você é a melhor e, com certeza, a mais pa­ciente empresária desse ramo.

– Está absolutamente certo. Espero que esteja tão orgulhoso de você quanto eu estou. Vai dar a notícia à sua família?

– Deixe-me primeiro digerir a idéia por al­guns dias.

– A notícia vai se espalhar logo, León. Não vai querer que eles a recebam por outros meios, não é?

– Tem razão — anuiu ele. — Vou ligar para eles. — Com um sorriso, completou: — Depois de recarregar a bateria do telefone, claro. Por que não saímos para comemorar, tomando champanhe?

– Pensando bem, por que não? Ah, só mais uma coisa — falou Esmeralda, em um tom casual. — Não vai me dizer o que está havendo entre você e a bela garota do apartamento 3A?

– Não tenho certeza de que haja alguma coisa para dizer — respondeu León, em um resmungo.

León continuava a não ter certeza sobre aqui­lo quando bateu à porta de Violetta naquela mesma noite. Mas sabia que tinha de fazer alguma coisa a respeito daquela sombra de indignação e tristeza que vira nos olhos dela, horas antes.

Não que aquilo dissesse respeito a ela de algu­ma maneira, lembrou a si mesmo. Não pedira a ela que bisbilhotasse sua vida. De fato, fizera tudo para que ela se mantivesse afastada. Pelo menos até a noite anterior, concluiu ele, com um suspiro exasperado.

Sempre detestara agir por impulso, e fora justa­mente isso que fizera na noite anterior. Para come­çar, não deveria ter aceitado sair com ela. Ainda mais por um motivo tão idiota. E muito menos bei­já-la, ainda que por um motivo louvável: puro desejo.

Quando Violetta abriu a porta, León estava mais do que pronto para um pedido de desculpas.

– Ouça, sinto muito — começou, com um certo tom de impaciência. — De qualquer maneira, isso não era da sua conta. Vamos apenas esclarecer as coisas.

Ele fez menção de entrar, mas parou de repente quando Violetta o deteve, levando a mão a seu peito.

– Não o quero na minha casa.

– Não diga tolices, Violetta, foi você quem come­çou. Talvez eu tenha deixado às coisas saírem um pouco do controle, mas...

– Comecei o quê?

– Isso!

León levantou as mãos, aborrecido pela falta de palavras e detestando ver aquela sombra de tristeza no olhar dela.

– Tudo bem, eu comecei — Violetta admitiu. — Nunca deveria ter levado biscoitos para você. Sim, foi pura idiotice da minha parte. Também não deveria ter me preocupado em arranjar um em­prego para você e nem em lhe oferecer uma re­feição decente, por pensar que você não tinha con­dições de pagar uma.

– Droga, Violetta...

– Você deixou que eu pensasse tudo isso! — ela o interrompeu, furiosa. — Deixou que eu acreditasse que estava passando por dificuldades, que era um músico desempregado, e aposto que deve ter rido muito disso. O brilhante e premiado roteirista León Vargas, autor da magnífica peça Rede de Al­mas. Aposto que está surpreso por eu conhecer o seu trabalho. Uma idiota feito eu não anda por aí lendo críticas sobre peças de teatro.

León continuou em silêncio, e ela o fez dar um passo atrás.

– Não é mesmo, León? O que uma "dese­nhistazinha" de tiras cômicas de jornal iria en­tender de arte? Ainda mais sobre teatro, sobre literatura séria? Deve ter rido muito à minha cus­ta, não? Seu arrogante elitista! — A voz de Violetta falhou, sendo que ela havia prometido a si mesma que isso não aconteceria. — Eu estava apenas tentando ajudá-lo.

– Mas eu não pedi sua ajuda. Eu não queria sua ajuda.

León notou que ela estava prestes a explodir em lágrimas. E quanto mais isso se evidenciava, mais furioso ele se sentia. Sabia muito bem como as mulheres usavam o choro para arrasar um ho­mem, e não deixaria isso voltar a acontecer em sua vida.

– Meu trabalho diz respeito apenas a mim — acrescentou.

– Seu trabalho é produzido na Broadway e, se você não sabe, isso o torna público – retrucou Violetta.

– Não tinha nada que andar por aí fingindo ser um saxofonista.

– Toco sax porque gosto de tocar, só isso. Não estava fingindo ser, alguma coisa, foi você quem deduziu isso.

– E você não fez a mínima questão de me esclarecer.

– E se eu tivesse feito isso? Eu me mudei para cá em busca de um pouco de paz e tranqüilidade. Queria ficar sozinho. Mas quando me dei conta, lá estava você me trazendo biscoitos, seguindo-me pela rua e me fazendo passar metade da noite em uma delegacia de polícia. Como se não bas­tasse, depois apareceu pedindo que eu saísse com você para se livrar do olhar bisbilhoteiro de uma mulher de setenta anos, só porque não tem coragem de dizer a ela para não se meter em sua vida pessoal. E quando pensei que já tinha visto tudo que poderia ver, qual não foi meu espanto ao receber a proposta de ganhar cinqüenta dólares por um beijo.

O sentimento de humilhação finalmente fez uma lágrima rolar pelo rosto de Violetta, enquanto uma espécie de nó se formava em sua garganta.

– Não comece com isso — disse León.

– Quer que eu não chore vendo-o me humilhar desse jeito? Vendo você me fazer sentir idiota, ridícula e envergonhada? — Violetta não se importou com as lágrimas que começaram a molhar seu rosto. Simplesmente continuou a encarar León com toda sua indignação. — Sinto muito, mas não sou tão fria assim. Ainda choro quando alguém me magoa.

– Foi você mesma quem pediu isso.

León tinha de dizer aquilo. De fato, ele estava desesperado para acreditar naquilo.

– Você conhece os fatos, León — disse ela, num fio de voz. — Têm todos eles à sua disposição, mas insiste em ocultar seus sentimentos por trás deles. Levei biscoitos para você porque pensei que poderia precisar de um amigo. Já me desculpei por havê-lo seguido, mas posso me desculpar novamente.

– Eu não quero...

– Ainda não terminei — Violetta falou com tanta dignidade que o fez sentir uma onda de culpa. — Levei-o para jantar porque não queria magoar uma senhora muito doce e por pensar que você poderia estar faminto. Gostei de sua companhia e senti algo diferente quando você me beijou. Na verdade, pensei que você também houvesse sen­tido. Portanto, você está certo — ela assentiu, en­quanto outra lágrima rolava por seu rosto. — Fui eu mesma quem pediu isso. Suponho que guarde todas suas emoções para o seu trabalho e que por isso não encontre uma maneira de aplicá-las em sua vida. Sinto muito por você. E sinto muito por haver pisado em seu solo sagrado. Nunca mais farei isso.

Antes que León pudesse pensar em algo para responder, Violetta fechou a porta. Então ele ouviu as trancas sendo acionadas com fúria. Girando sobre os calcanhares, voltou para seu apartamento e seguiu o exemplo dela, também fechando as trancas da porta.

Finalmente tinha o que queria, disse a si mes­mo. Solidão. Quietude. Violetta não voltaria a bater à sua porta, não o interromperia, não o distrairia e nem o envolveria em conversas das quais ele não queria participar. Não lhe traria sentimentos com os quais ele não sabia o que fazer.

De pé, na sala vazia, suspirou alto. Estava exausto daquilo tudo.