O Vizinho Perfeito - Leonetta

11 CAP. 11 - Cabo –de- guerra, conversa e.....


– Oi, Violetta. — León nunca vira um olhar tão gélido a ponto de deixá-lo desconcertado. — Ah, deixe-me ajudá-la com isso.

– Não preciso de sua ajuda, obrigada — replicou ela, rezando para encontrar logo a maldita chave.

– Precisa sim, se vai mesmo ficar aí vascu­lhando a bolsa.

León tentou sorrir, antes de começar uma espécie de cabo-de-guerra por causa de um dos pacotes. Por fim, conseguiu tirá-lo de Violetta.

– Escute aqui, já disse que sinto muito. Quan­tas vezes terei de dizer isso até que você se con­vença de que estou sendo sincero?

– Vá para o inferno! — bradou ela. — Quantas vezes terei de dizer isso até que você comece a sentir o calor das chamas?

Violetta finalmente encontrou a chave e colocou-a na fechadura.

– Agora me dê meu pacote.

– Eu o levarei para você.

– Já disse para me dar maldito pacote — man­dou ela, por entre os dentes. Os dois voltaram a "brincar" de cabo-de-guerra, até ela deixar escapar um suspiro resignado.

– Então, fique com ele!

Ela abriu a porta com um movimento abrupto, mas antes que pudesse fechá-la, León a segurou e entrou sem maiores dificuldades. Os dois se en­treolharam, estreitaram os olhos e León teve a impressão de ver um brilho de vingança nos olhos dela.

– Nem pense nisso — avisou ele. — Não estou usando cueca de ferro.

Ainda assim, Violetta pensou na possibilidade de causar algum dano. Mas desistiu ao concluir que isso só o faria sentir-se mais importante do que ela estava determinada a fazê-lo se sentir. Então, limitou-se a girar sobre os calcanhares e tirar os tênis cor-de-rosa, como costumava fazer ao chegar em casa. Em seguida foi até a mesa e colocou sobre ela o pacote que estava carregando. Quando León fez o mesmo, ela assentiu.

– Obrigada. Quer uma gorjeta?

–- Muito engraçado. Primeiro vamos acertar isso. — León pegou a carteira no bolso, tirou dela uma nota de cem euros e a entregou a Violetta.

– Aqui está.

– Não vou aceitar o dinheiro de volta. Você fez por merecê-lo.

– Não vou aceitar seu dinheiro por aquilo que acabou se tornando uma piada de mau gosto.

– Piada de mau gosto?! — A sombra de frieza nos olhos dela se transformou em chamas âmbar.

– Então foi isso para você? Bem, mas não estou surpresa. Já que tocou no assunto, acho que ainda estou lhe devendo cinqüenta euros, não?

León enrijeceu o maxilar quando ela abriu a bolsa e começou a procurar o dinheiro. Aquilo já estava indo longe demais.

– Não me provoque, Violetta. Pegue o dinheiro de volta de uma vez.

– Não.

– Eu disse para pegar esse maldito dinheiro de volta. — Dizendo isso, ele lhe segurou o pulso e co­locou o dinheiro palma da mão dela.

– Agora... — interrompeu-se, atônito, quando a viu rasgar a nota de cem euros em pedacinhos e jogá-los no ar.

– Pronto! Problema resolvido.

– Essa foi uma atitude muito idiota — León a censurou.

– Idiota? Bem, para que quebrar a regra, não é mesmo? Pode ir embora agora.

A voz dela estava tão estridente e furiosa que Harry teve de se conter para não pestanejar.

– Muito bom, muito eficaz — disse ele. — A dama da voz supersônica finalmente apareceu.

Quando ela voltou a falar, em um tom ainda mais abrupto, conseguiu sobressaltá-lo.

– Muito eficiente mesmo — ironizou León.

Furiosa demais para continuar o combate ver­bal, Hermione simplesmente foi até a mesa e começou a esvaziar os pacotes. Se insultos e gritos não estavam funcionando, talvez ignorá-lo desse al­gum resultado.

De fato, talvez até houvesse funcionado se León não tivesse visto suas mãos trêmulas, quando ela colocou uma caixa sobre a mesa. Ver aquilo, levou-o a sentir mais uma vez aquela onda de culpa que vinha experimentando nos últimos dias.

– Violetta, sinto muito. — Ele a viu hesitar, então pegar uma latinha de sopa e colocá-la sobre a mesa.

– A situação me escapou do controle e eu não fiz nada para corrigir o meu erro. Eu deveria ter feito alguma coisa.

– Não precisava ter mentido para mim. Eu teria deixado você em paz.

– Eu não menti, pelo menos não comecei. Mas deixei que você, continuasse pensando algo que não era verdade. Quero minha privacidade. Preciso dela.

– Pois agora a tem. Afinal, não fui eu quem acabou de passar pela porta do apartamento de outra pessoa.

– Não, não foi você. — León enfiou as mãos nos bolsos, então tirou-as novamente e apoiou-as sobre a mesa.

– Eu magoei você, e não queria ter feito isso. Sinto muito pelo que aconteceu.

Violetta fechou os olhos, sentindo que o muro que havia levantado para se proteger começara a ruir.


– Por que mentiu?

– Porque pensei que isso a manteria em seu próprio lugar. Porque senti que sua proximidade era um pouco perigosa demais para mim. E por­que, no íntimo, parte de mim desejava que você continuasse querendo me ajudar a encontrar um emprego. — León hesitou ao vê-la encolher os ombros. — Violetta, eu não quis ofendê-la. Mas como poderia não me divertir vendo-a me oferecer cem euros para jantar com você? E tudo isso para não magoar uma velhinha de setenta anos e poder, ao mesmo tempo, oferecer uma boa refeição a um saxofonista desempregado. Aquilo foi muito... doce de sua parte. E isso não é algo muito comum de eu dizer, pode acreditar.

– É humilhante — resmungou ela, pegando o outro pacote e se encaminhando para a cozinha.

– Não deixe que seja. — León deu a volta pelo balcão, de modo que os dois ficaram na co­zinha. — A situação só teve aquele efeito desas­troso porque deixei que a coisa fosse longe demais. Assumo a culpa por isso. Se eu tivesse lhe contado a verdade durante o jantar, como deveria ter feito, aposto que você teria rido muito de tudo. Mas, em vez disso, eu a fiz chorar e não consigo me perdoar por isso.

Violetta permaneceu onde estava, diante da gela­deira. Não imaginara que León fosse se importar tanto com aquilo, e que se desculpar houvesse se tornado uma questão tão essencial para ele. Mas, pelo visto, enganara-se. E ela simplesmente não con­seguia resistir à completa sinceridade de alguém.

Respirando fundo, disse a si mesma que talvez valesse a pena tentar fazer as pazes com ele.

– Quer uma Butterbeer black?

León relaxou os ombros no mesmo instante.

– Claro que quero.

– Foi o que eu imaginei. — Violetta pegou uma garrafa, colocou-a sobre a pia e começou a procu­rar um copo para ele.

– Deve estar com sede. Eu nunca tinha ouvido você falar tanto de uma só vez desde que nos conhecemos.

Quando se virou para ele com o copo de cer­veja, León estava com um brilho de diverti­mento no olhar.

– Obrigado — agradeceu ele, aceitando o copo.

– Mas estou sem biscoitos.

– Ainda há tempo de fazer alguns.

– Talvez. — Violetta começou a examinar as com­pras.

– Para ser sincera, eu estava pensando em preparar uma torta. — Arriscando um olhar por sobre o ombro, arqueou uma sobrancelha.

– Nun­ca comemos torta juntos.

– É verdade.

A visão foi sensual demais para sua paz de es­pírito, pensou León. Violetta estava vestida com um camisão branco de algodão e com uma calça justa de um bonito tom de azul-claro. Porém, o detalhe mais provocante era o fato de ela estar descalça. A visão dos pés delicados, com as unhas pintadas de cor-de-rosa, provocou-lhe uma onda de excitação. As preferências exóticas de Violetta, como aquela de usar dois brincos de argola em uma mesma orelha e uma simples pedrinha de brilhante na outra, deixavam-no quase sempre en­cantado. Violetta era uma surpresa constante. De­liciosamente inesperada.

Quando ela se virou para continuar esvaziando o pacote de compras, León lhe segurou o pulso com a mão que se encontrava livre.

– Estamos de bem novamente?

– Parece que sim.

– Então há algo mais que preciso lhe dizer. — Ele colocou a garrafa cerveja sobre a pia.

– Sonhei com você.

Foi a vez de Violetta sentir a boca secar.

– O quê?

– Sonhei com você — repetiu León, aproxi­mando-se dela o suficiente para que Violetta se en­costasse contra a parede.

Pelo menos dessa vez era ela que estava contra a parede, não ele, pensou León.

– Sonhei que estava tocando você. — Sem des­viar os olhos dos dela, ele roçou a ponta dos dedos sobre os seios dela.

– E acordei sentindo o sabor dos seus lábios.

– Ah, meu Deus.

– Você disse que sentiu algo quando a beijei, e que achou que eu também havia sentido. — Enquanto falava, foi deslizando as mãos devagar até os quadris dela.

– Você estava certa.

Violetta engoliu em seco, sentindo as pernas trêmulas.

– Estava?

– Sim. E quero sentir aquilo novamente.

Ela se endireitou junto à parede quando ele se aproximou mais.

– Espere!

León parou os lábios a centímetros dos dela.

– Por quê?

Violetta não soube ao certo o que dizer.

– Eu não sei.

Os lábios dele se curvaram em um de seus raros sorrisos.

– Mande que eu pare quando achar que deve — sugeriu ele, antes de tomá-la nos braços.

Foi a mesma coisa de antes. Violetta não tinha cer­teza de que voltaria a sentir todas aquelas sensações maravilhosas se León voltasse a beijá-la, mas foi exatamente isso o que aconteceu. No entanto, era como se todo seu ser estivesse preparado e esperando por aquele turbilhão de sensações. Fran tinha razão, pensou ela. León havia arrasado sua vida. Nunca mais ela conseguiria exigir menos do que aquilo.

Harry pensou. Linda, receptiva, doce, carinhosa... Violetta era tudo isso. Tudo aquilo que ele havia esquecido de que tanto precisava estava bem ali, em seus bra­ços, concluiu León. Queria tê-la para si. E com uma urgência que nem mesmo ele esperava sentir.

– Quero beijá-la, Violetta- disse, com voz rouca. Roçando os lábios sobre a curva sensível do pes­coço delicado, acrescentou: — Aqui, bem aqui...

Hermione fechou os olhos.

– Não.

Aquela era a última coisa que ela esperava ouvir sair de seus próprios lábios, com as mãos de Harry passeando pelo seu corpo e levando-a a desejar ir além, muito mais além. Ainda assim, porém, ouviu-se repetir:

– Não. Espere.

León levantou a cabeça, fitando-a com os olhos enevoados de desejo.

– Por quê?

– Porque eu... — Violetta se interrompeu com um gemido, quando León pousou a mão em concha sobre um de seus seios.

– Eu te quero, Violetta — sussurrou ele, junto ao ouvido dela. — E sei que você me quer.

– Sim, mas... — Ela abriu e fechou as mãos sobre os ombros dele, lutando contra a onda de desejo que a estava invadindo.

– Há certas coisas que não me permito fazer por impulso. Sinto mui­to, mas essa é uma delas.

Violetta exalou um suspiro trêmulo. León es­tava muito perto, pensou, observando os detalhes daquele rosto bonito. Perto demais.

– Não se trata de um jogo, León.

Ele arqueou uma sobrancelha, surpreso por ela haver sido tão perspicaz em deduzir seus pensamentos.

– Não? Não — afirmou em seguida, entendendo o que ela quisera dizer.

– Você não aceitaria esse tipo de jogo, não é?

Alguém aceitara antes dela. E provavelmente magoara León por isso, deduziu ela, lamentan­do por ele.

– Não sei. Nunca agi assim antes.

Ele deu um passo atrás e se afastou, parecendo recobrar o controle enquanto ela ainda continuava trêmula.

– Preciso de um tempo antes de me sentir su­ficientemente segura para compartilhar minha in­timidade com outra pessoa. Fazer amor é uma espécie de presente que não deve ser banalizado. Pelo menos na minha opinião.

As palavras de Violetta o tocaram de alguma ma­neira e, por motivos que nem ele mesmo conseguiu entender, levaram-no a se acalmar.

– E ouvir isso de você significa que devo recuar? — perguntou León, enfiando as mãos nos bol­sos, para conter a vontade de voltar a tocá-la.

– Significa que eu quero que você entenda por que estou dizendo "não", mesmo estando morrendo de vontade de dizer "sim", sendo que ambos sa­bemos que você poderia facilmente me levar a dizer "sim".

A chama de desejo se reacendeu nos olhos verdes dele.

– Sua sinceridade chega a ser perigosa, sabia? — Ele disse a ela.

– Você precisa que eu lhe diga a verdade. — Violetta nunca conhecera alguém que precisasse tan­to ouvir a verdade.

– E não minto para alguém com quem eu esteja pensando em compartilhar minha intimidade.

León fitou-a nos olhos, parecendo surpreso com o que ouvira. Tinha noção de que poderia seduzir Violetta, mas usar esse artifício só serviria para arruinar algo que nem ele mesmo ainda es­tava seguro de que existia.

– Você precisa de tempo — León afirmou. — Tem idéia de quanto?

Ela exalou outro suspiro trêmulo, mas acabou curvando os lábios em um sorriso incerto.

– Não posso dizer com certeza. Mas garanto que você será o primeiro a saber quando eu es­tiver pronta.

– Então, por enquanto, vamos ficar apenas com isso...

Violetta se surpreendeu quando ele se aproximou e roçou os lábios nos dela. Ela manteve os olhos abertos, esforçando-se para não se render às sen­sações. Porém, foi impossível ignorar a onda de calor que invadiu seu corpo.

– Hum... Sim, acho que, provavelmente, isso vá funcionar — respondeu.

– Vamos esperar uma semana — sugeriu León, aprofundando o beijo ao ponto de levar León a se afastar subitamente. Ao fazê-lo, ela levou a mão ao peito dele.

– Duas semanas — disse a ele.

A última coisa que León esperava fazer em um momento de desejo tão intenso era começar a rir.

– Não sei se agüentarei, mas poderei tentar — respondeu.

– Ótimo.

Enquanto Violetta se esforçava para recuperar o fôlego, ele pegou novamente a cerveja.

– Bem, com toda essa... — Ela gesticulou, es­forçando-se forçando-se para encontrar as palavras certas. — Não sei se preparo alguma...

– Comida? — sugeriu León, lisonjeado pela maneira como seu beijo a afetara.

– Comida, isso mesmo. Bem, pensei em preparar...

León ficou esperando que Violetta terminasse a frase, mas ela se limitou a levar as mãos às têmporas e olhar para o fogão.

– O jantar?

– Isso. Isso mesmo, o jantar. Engraçado como as palavras nos escapam de vez em quando, não? Vou preparar o jantar. — Virou-se para a pia, mas logo em seguida voltou a se dirigir a ele.

– Quer ficar para o jantar?

León tomou um gole de cerveja e encostou o quadril na pia.

– Posso vê-la cozinhar?

– Claro. Pode se sentar ali e até me ajudar a picar alguns legumes, se quiser.

– Está bem. — Pensando na visão interessante que teria, León deu a volta pelo balcão e sen­tou-se em um banquinho, diante dela.

– Você cozinha muito?

– Sim, acho que sim. Gosto de cozinhar. Para mim, cozinhar é um processo inesperado, com todos aqueles ingredientes envolvidos, o calor e o tempo corretos, a mistura de aromas, texturas e sabores...

– Alguma vez já cozinhou nua?

Violetta estava inspirando o aroma de um maço de manjericão, mas parou de repente.

– León, isso foi uma piada? Se foi, não ima­gina quanto estou orgulhosa de você. Nunca o vi fazer uma piada.

– Não, não foi piada. Estou falando sério.

Ela riu, surpreendendo-o ao se inclinar e dar-lhe um beijo estalado nos lábios. Aquela imprevisibi­lidade de Violetta era o que mais o enfeitiçava. Tanto que o levou a sorrir.

– E então? Costuma fazer isso?

– Nunca quando estou dourando pedaços de frango, que é o que pretendo fazer.

– Tudo bem. Tenho uma ótima imaginação.

Ela riu novamente. Mas limpou a garganta ao notar o brilho de sedução nos olhos verdes de León.

– Acho que quero um pouco de vinho. Você quer? — Ao vê-lo levantar o copo de cerveja, mur­murou:

– Oh, claro.

Em silêncio, tirou a garrafa de vinho da gela­deira e voltou-se para ele, rindo.

– Terá de parar com isso.

– Parar o quê?

– De me fazer sentir como se eu estivesse nua. Vá pôr uma música no aparelho de som, para ouvirmos — sugeriu, indicando a sala com um gesto.

– Oh, e também abra uma janela, porque está meio quente aqui. Depois me dê algum tempo para voltar a pensar direito e poder pensar em algo para dizer.

– Você nunca teve problemas para falar.

– Sei que quer fazer isso soar como um insulto para mim, mas não é. Considero-me uma perita na arte da conversação.

– Ah, então é assim que passaram a chamar os tagarelas agora?

– Ora, está mesmo muito engraçadinho esta noite, não?

E nada poderia tê-la deixado mais satisfeita, , concluiu Violetta, em pensamento.

– Deve ser a companhia — respondeu León, indo até a sala. Então arqueou uma sobrancelha, enquanto examinava os CDs.

– Tem um ótimo gosto para música.

– Não esperava isso?

– Na verdade, não esperava encontrar Black Sabbath, The Rolling Stones, The Beatles, The Who e Muse. Se bem que também há muita "tralha" aqui.

– E o que você considera como "tralha"? — indagou ela,

Em resposta, ele apareceu no corredor e mos­trou um CD intitulado James Blunt- Back to Bedlam

Violetta conteve a vontade de rir.

– Tudo bem, reconheço que não é nenhum clás­sico, mas esse CD me foi dado por um amigo muito querido e coitado do James Blunt.- ela riu.

– Com um amigo desse, quem precisa de ini­migos? — León resmungou em resposta.

Com um sorriso, León recomeçou a picar os le­gumes que seriam servidos com o frango.

– Durante um período da adolescência, Eu e o meu irmão faziamos parte de uma banda, sabia? — disse a ele.

– É mesmo? — León se surpreendeu, en­quanto colocava The Beatles Past Masters- Volume One para tocar.

– Hum-hum. Eu fazia o vocal principal e tocava guitarra e o meu irmão 2° vocal e teclado.- Ela sorriu para ele, que voltou a se sentar junto ao balcão da cozinha.

– Você tocava guitarra? — León riu. Violetta era mesmo uma constante surpresa.

– Sim. Uma Fender vermelha, linda de morrer. Minha mãe ainda a guarda no lugar que antes era meu quarto, junto com sapatinhos da época em que eu ainda era bebê, meu kit de química, os desenhos que eu fazia quando costumava dizer que ia ser designer de moda e também os livros sobre animais que eu colecionava antes de des­cobrir que, para me tornar veterinária, teria de fazer experiências de laboratório com os bichinhos.Começando a cortar cenouras, acrescentou:

– Tudo isso fez parte da minha busca.

León estava encantado. Violetta era mesmo fascinante.

– Guitarras vermelhas e kits de química fize­ram parte de sua busca?

– Eu não conseguia decidir o que ia ser. Tudo que eu começava a fazer parecia muito divertido no início, mas logo eu me cansava daquilo. Sabe cortar cenouras em cubinhos?

– Não. Nunca pensou que acabaria fazendo o que faz hoje em dia?

Violetta suspirou, começando a cortar a cenoura em cubinhos.

– Não — admitiu ela. — Mas gosto muito do que faço, embora eu tenha muito trabalho. De qualquer maneira, é muito divertido. Você não gosta de escrever?

– Não completamente.

Violetta olhou para ele, surpresa.

– Então por que faz isso?

– Porque não consigo me imaginar fazendo ne­nhuma outra coisa. Essa é minha única busca — respondeu León.

Ela assentiu com um sorriso. Entendia-o mui­to bem.

– Também é assim com minha mãe – disse a ele. — Ela nunca pensou em fazer outra coisa, exceto pintar. Às vezes, quando fico olhando ela trabalhar, noto quanto é doloroso para ela ter uma visão e ter de se esforçar ao máximo para conse­guir retratar na tela aquilo que ela quer comu­nicar. Mas quando ela termina um trabalho, quan­do este se mostra suficientemente bom, ela se rea­liza. A satisfação, ou talvez o choque de ver o que ela é capaz de fazer, é que surte esse efeito nela. Deve ser assim com você também.

Violetta levantou a vista, então notou que Harry a estava observando com um olhar perscrutador.

– Sempre se surpreende quando demonstro sa­ber algo a respeito de um assunto que você não esperava, não é?

Dizendo isso, colocou a tigela com os legumes picados sobre o balcão. León segurou-lhe o pul­so, antes que ela pudesse de virar.

– Se isso ainda acontece, é porque sou eu quem não consegue entendê-la, Violetta. E é provável que eu continue a magoá-la por isso.

– Mas é ridiculamente fácil me entender!

León riu.

– Era isso que eu pensava antes, mas estava enganado. Você é um labirinto, Violetta. Com deze­nas de caminhos e curvas inesperadas.

Um belo sorriso se insinuou nos lábios dela.

– Esta é a coisa mais bonita que você já me disse.

– Não sou do tipo que vive se derramando em gentilezas. Teria sido melhor me manter fora de sua vida, deixando que eu continuasse trancado no meu apartamento.

– Acho que até eu mesma já me convenci disso — admitiu ela. — Porém... — Pousou a mão no rosto dele, com gentileza.- Você parece haver se tornado minha nova busca.

– Até ela deixar de ser divertida e você deixá-la de lado?

A expressão de León mostrou muito séria. Ele parecia preparado demais para acreditar no pior.

– León, você está falando demais e traba­lhando de menos. Sabe cortar batatas em formato de palitos?

– Não tenho a mínima idéia de como fazer isso.

– Então olhe e aprenda, meu caro. Da próxima vez, quero que você prepare o jantar. — Violetta pegou uma batata descascada e cortou-a com des­treza, formando palitos. Então arriscou um olhar para ele. — Ainda estou nua?

– Você quer estar?

Ela riu e tomou um gole do vinho que deixara ao lado.

Levava muito tempo para preparar um sim­ples jantar quando se era distraída por uma conversa agradável, por olhares provocantes e toques sedutores.

Levava muito tempo para comer uma simples refeição quando o perigo de se apaixonar e a von­tade de fazer amor com o homem sentado à sua frente se tornavam cada vez mais evidentes.

Violetta reconheceu os sinais: as batidas acelera­das de seu coração, o insistente calor pelo corpo acumulando-se deliciosamente entre suas per­nas... Tudo isso aliado a sorrisos irresistíveis e a suspiros incontidos era um forte indício de que seria muito fácil se entregar ao amor.

Imaginou como seria se deixar levar. Provavel­mente maravilhoso.

Levava muito tempo para se despedir quando se era arrebatada por longos beijos provocantes à porta de seu apartamento. E mais tempo ainda para conseguir pegar no sono quando seu corpo ardia de desejo e sua mente se encontrava repleta de imagens eróticas.

De fato, só conseguiu dormir quando o som do sax vindo do outro apartamento finalmente ces­sou. Somente então se entregou ao sono. E com um sorriso nos lábios.