O Vizinho

5 Capítulo Cinco


Confissões à Meia-Noite


Lewis logo se acostumou com a rotina que ele e Mackenzie pareciam ter criado sem perceber. Todos os dias, às 16h, ele sabia que ouviria o som da senha dela sendo digitada na porta do apartamento. Era quase como um pequeno ritual: ela chegava do trabalho, ela colocava as chaves no suporte, tirava os sapatos no hall de entrada, jogava a bolsa com seu notebook em cima da mesa, e suspirava aliviada enquanto sentava no sofá.

Lewis colocou a faca em cima da bancada, apoiado-se na pia da cozinha, os dedos distraidamente batendo nas bordas, enquanto sua mente vagava. Sem perceber.

Ela é tão metódica..., pensou, com um sorriso discreto. Ele lembrava como Mackenzie tinha horários rigorosos, listas para tudo, e uma ordem quase obsessiva para as coisas em casa. Cada livro dela alinhado perfeitamente na estante, até as almofadas do sofá tinham lugar definido. Parecia que ele era a única coisa fora do lugar e fora dos padrões dela.

Mas isso era só a superfície. Ela também tinha uma seriedade que parecia blindá-la do mundo ao redor. Mackenzie era focada, sempre com aquele olhar analítico, como se estivesse tentando resolver um quebra-cabeça invisível. No entanto, havia momentos, raros, mas preciosos, em que essa máscara de eficiência caía. Ele já a tinha visto soltar risadas espontâneas por coisas pequenas, como um dos truques desajeitados de Luna, ou durante algumas trocas de mensagens cheias de sarcasmo e brincadeiras.

Lewis achava fascinante o contraste. Ela era retraída, sempre na defensiva, mas quando se permitia relaxar... Era como ver o sol surgindo por trás das nuvens.

Mackenzie também tinha aquele charme discreto que parecia não perceber. Não era do tipo que atrai atenção de propósito. Sempre com roupas confortáveis, cabelo preso, óculos quadrado no rosto. Nerd até a alma. E ainda assim...

Lewis interrompeu sua linha de pensamentos, ele balançou a cabeça, um sorriso quase melancólico nos lábios. Tudo nela mexia com ele, mesmo as pequenas coisas. O jeito que ela ajeitava os óculos distraidamente, ou como ficava corada quando ele a pegava desprevenida. Ela parecia nunca perceber o quanto isso a tornava única.

Era como se toda a combinação de meticulosidade, inteligência e aquela vulnerabilidade escondida tivessem criado um campo gravitacional ao redor dela. E Lewis, por mais que tentasse racionalizar, sentia-se puxado para ela cada vez mais.

Ela mexe comigo de um jeito que ninguém mais consegue. E o pior... é que nem acho que ela percebe isso. Pensou ele.

- Finalmente em casa. — suspirou ela, trazendo-o de volta. — Como foi o dia de vocês dois?

- Nós nos divertimos muito!

Lewis pegou a faca novamente se preparando para cortar a frango. Ele adorava cozinhar e, mais do que isso, adorava o jeito que Mackenzie olhava para ele enquanto ele cortava os vegetais ou mexia alguma panela no fogão. Era uma mistura de curiosidade e admiração, como se ela estivesse vendo algo extraordinário em algo tão simples. Até porque ela, em termos de cozinha, fazia o básico para sobreviver.

- Hoje temos macarrão com molho branco e frango grelhado — ele anunciou.

- Eu lavo os pratos depois — ela se prontificou, como se essa fosse uma regra inviolável.

Na noite seguinte, Mackenzie trouxe sacolas de comida de um restaurante que ela gostava.

- Espero que você goste de comida tailandesa — disse, colocando as sacolas na mesa enquanto Luna miava ao redor, farejando o cheiro exótico.

- Posso experimentar! — murmurou ele mexendo nas sacolas. — Sou flexível.

Nessas noites, era Lewis quem assumia a tarefa de recolher o lixo e organizar a bagunça depois do jantar. Eles tinham um equilíbrio que parecia natural, como se cada um soubesse exatamente como completar o outro.

A gata estava sempre no centro de tudo. Enquanto comiam, ela às vezes pulava na mesa ou ficava miando suavemente, exigindo atenção. Um deles sempre acabava cedendo, jogando um brinquedo ou oferecendo um petisco.

- Você mima ela demais — reclamou Mackenzie, enquanto observava Luna brincar com outro ratinho que Lewis havia comprado.

- Eu? Você que deixa ela dormir na sua cama todo dia — retrucou ele, com uma risada leve.

- Culpada! — ela levantou as mãos em rendição — Em minha defesa, eu não vejo quando ela sobe na cama.

- Mas também não a tira!

- Fico com dó, ela está gestante precisa de um espaço confortável — disse ela ressentida.

- Como se a cama que comprei para ela fosse de espinhos, hah?

Ambos riram.

Era uma rotina simples, mas para ambos parecia ter mais significado do que queriam admitir. Não falavam muito sobre isso, mas cada gesto, cada cuidado compartilhado, fazia com que aquela dinâmica entre eles crescesse de forma natural e, ao mesmo tempo, inesperada.

Na noite de sexta-feira, a atmosfera parecia um pouco diferente. Lewis percebeu assim que ela chegou do trabalho, inicialmente ele achou que algo tivesse acontecido lá. Ela estava mais silenciosa do que o habitual, sentada no sofá com Luna em seu colo, acariciando-a distraidamente enquanto olhava para a televisão que exibia um programa qualquer, sem nem mesmo prestar atenção.

Ele não comentou nada a princípio. Apenas foi para a cozinha terminar de preparar a sopa para o jantar, como costumava fazer nos dias mais frios, enquanto observava Mackenzie de canto de olho. Algo parecia estar tomando toda sua vitalidade, mas ele sabia que forçar uma conversa nunca era a melhor abordagem. O jantar naquela noite foi silencioso.

Mais tarde, quando ele voltou para casa, enviou uma mensagem:

Lewis: Está tudo bem? Você pareceu meio... distante hoje.

Ele esperou por alguns minutos, mas nenhuma resposta veio. Normalmente, Mackenzie respondia rápido, mesmo com mensagens curtas ou brincadeiras. Desta vez, o silêncio dela o incomodou mais do que queria admitir.

Ele tentou novamente.

Lewis: Mackenzie? Se quiser conversar, estou aqui.

O tempo passou, e enquanto ele mexia no celular, viu a bolinha indicando que ela estava digitando. Mas a mensagem nunca chegou.

Finalmente, quase meia hora depois, ela respondeu:

Mackenzie: Desculpa, estou meio cansada. Foi um dia longo no trabalho.

Era uma resposta simples, quase neutra, mas Lewis sabia que havia algo a mais. Ele não insistiu.

Lewis: Tudo bem, só queria ter certeza de que você está bem. Se precisar de alguma coisa, me chama.

Do outro lado, Mackenzie olhou para o celular, e segurou com muita força a vontade de chorar.

Mackenzie: Obrigada, Lewis. Boa noite.

Lewis: Boa noite!

Ele respondeu, mas ficou deitado na cama por um bom tempo, encarando o teto. Alguma coisa não estava certa, e ele sabia que não conseguiria deixar isso de lado por muito tempo.

O fim de semana passou em um silêncio incomum. Mackenzie e Lewis, que normalmente trocavam mensagens ou se encontravam brevemente para cuidar de Luna, não se viram nem falaram.

No domingo, ele tentou puxar conversa.

Lewis: Ei, como está Luna? Tudo bem com ela?

Mackenzie: Tudo certo. Ela está ótima. Obrigada por perguntar.

A resposta breve e impessoal não era o que ele estava acostumado. Mackenzie geralmente era mais calorosa, enviando fotos ou compartilhando alguma história engraçada sobre a gata. Mas naquele dia, parecia distante, e ele respeitou o espaço dela.

Lewis: Amanhã no mesmo horário?!

Mackenzie: 👍🏻

Aquilo ficou na mente de Lewis pelo resto da noite. Ele tentou assistir algo na televisão, mas não conseguia se concentrar. Caminhava pelo apartamento, pegava o celular para reler as mensagens e imaginava o que a estava incomodando.

- O que será que ela está pensando? — murmurou para si mesmo, pensando na gata que havia se tornado o centro da conexão deles. E se ela queria cortar ele de suas vidas? E se não quisesse mais uma pessoa estranha em sua casa.

- Maldição... — murmurou ele.

Naquela noite, ele foi dormir mais tarde do que de costume, a cabeça cheia de pensamentos, mas nenhuma resposta.

[...]

Quando Mackenzie chegou do trabalho na segunda-feira, Lewis já estava em seu próprio apartamento o que era estranho, porque sempre estava no dela, mas ele queria lhe dar algum espaço, ele continuou sentado em seu sofá. O som dela chegando o alertou, mas ele não se levantou imediatamente, esperou que ela entrasse em casa, o que quer tivesse acontecido com ela, ele queria ajudar e não afastá-la.

Sem conseguir ficar em seu apartamento esperando, foi até o dela e tocou a campainha. Ela abriu a porta e já trazia o semblante cansado, mas um sorriso tímido que suavizou a tensão que ele sentia.

- Ei — disse ela, colocando a bolsa em cima da mesa e tirando os sapatos, porque ainda não tinha feito seu ritual. — Eu esqueci completamente de trazer a comida.

Lewis ergueu as sobrancelhas, tentando esconder a surpresa. Mackenzie raramente esquecia coisas.

- Sem problemas, não falamos o dia todo e não combinamos nada. — respondeu ele, pegando o celular do bolso. — Posso pedir algo para a gente. Alguma preferência?

Ela balançou a cabeça afirmando, jogando-se no sofá com um suspiro. O humor dela parecia ainda mais sinistro.

- Qualquer coisa está bom, desde que chegue rápido.

Enquanto Lewis fazia o pedido, Mackenzie se ajeitou no sofá, olhando distraidamente para Luna, que brincava com um dos brinquedos que ele havia comprado. A gata parecia alheia ao clima levemente estranho entre os dois, mas talvez fosse a única coisa que os mantinha conectados naquele momento.

Quando a comida chegou, eles se sentaram à mesa, dividindo os pratos de forma simples. A conversa que ele esperava não veio imediatamente, mas o silêncio entre eles não era desconfortável. Era o tipo de silêncio que surge entre duas pessoas que não precisam encher o vazio com palavras.

Mackenzie finalmente falou enquanto pegava outro pedaço de comida.

- Obrigada por sempre estar por perto... e por ser tão paciente. — ela suspirou — Não tenho sido uma boa companhia esses dias. Me desculpe!

Lewis olhou para ela por um momento, deixando as palavras dela ecoarem, ela estava se desculpando? Mas...

- Você não precisa se desculpar comigo, somos amigos... — respondeu ele, mas a palavra amigo o incomodou um pouco. — Combinamos que iríamos dividir as tarefas com a Luna, mas se você precisa de mim... Eu estou aqui.

- Obrigada! — ela sorriu de volta, mas o sorriso não alcançou os olhos.

Havia algo no olhar dela, algo que ele ainda não conseguia decifrar completamente. E mesmo que quisesse pressioná-la, ele decidiu esperar. Alguma coisa dizia que ela falaria no momento certo. Ainda em um silêncio que, mesmo carregado de emoções não ditas, parecia quase confortável.

Depois de terminarem o jantar, Mackenzie suspirou e se jogou no sofá, exausta. Luna imediatamente subiu em seu colo, como se soubesse que aquele era o momento de ficar próxima. Lewis, por sua vez, recolheu os pratos e começou a lavá-los, insistindo que Mackenzie descansasse.

- Você já fez os pedidos, Lewis — protestou ela, embora sem muita convicção, os olhos já começando a pesar. — Deixe aí que eu lavo amanhã!

- Você teve um dia longo — retrucou ele, com um tom gentil. — Deixe isso comigo.

O som da água correndo na pia e dos pratos sendo lavados criou uma atmosfera suave que, combinada com o calor de Luna em seu colo, fez com que Mackenzie relaxasse ainda mais. Seus olhos, que antes estavam fixos no teto, começaram a se fechar lentamente, e antes que percebesse, ela estava adormecida.

Quando Lewis terminou, ele secou as mãos com um pano de prato e se virou para encontrá-la deitada no sofá, a cabeça apoiada no braço e Luna acomodada sobre sua barriga. Ele ficou parado por um momento, observando a cena com um leve sorriso no rosto. Ela parecia tão tranquila, tão diferente da tensão que ele havia sentido nela nos últimos dias.

Tentando não fazer barulho, ele pegou a manta dobrada no canto do sofá e a colocou sobre ela com cuidado. Depois, sentou-se em uma poltrona próxima, planejando esperar alguns minutos antes de sair e deixá-la descansar.

Mas o silêncio confortável e a visão de Mackenzie e Luna juntas, combinados com o cansaço do dia, foram o suficiente para vencê-lo. Sem perceber, Lewis acabou adormecendo ali mesmo, a cabeça reclinada contra o encosto da poltrona, a respiração suave e ritmada.

Algumas horas depois, Lewis foi tirado de seu sono leve por um som baixo e abafado. Ele abriu os olhos devagar, piscando algumas vezes antes de perceber o que o tinha acordado: Mackenzie estava sentada no sofá, a manta puxada até os ombros, e Luna ainda em seu colo. Mas havia algo diferente. Ela estava chorando.

Os soluços eram pequenos, quase inaudíveis, mas a expressão no rosto dela era suficiente para fazer o peito de Lewis apertar. Ele se levantou da poltrona, esfregando os olhos rapidamente para se livrar do sono, e foi até ela com passos cuidadosos.

- Mackenzie? — chamou ele suavemente, sentando-se ao lado dela no sofá. — O que aconteceu? Você se machucou?

Ela balançou a cabeça negando, tentando secar as lágrimas com a manga do suéter, mas o gesto apenas parecia torná-la mais vulnerável. Ela não queria chorar na frente dele.

- Não é nada — respondeu ela, a voz embargada. — É só... é só muita coisa, sabe?

Lewis não pressionou. Ele apenas ficou ali, observando-a com paciência, esperando que ela encontrasse as palavras. Depois de um momento, ela continuou:

- Às vezes parece que... estou carregando o mundo sozinha. E eu sei que não deveria me sentir assim, porque eu tenho você e... Tenho meu trabalho, tenho a Luna. Mas... — ela parou, respirando fundo enquanto as lágrimas escorriam pelo seu rosto.

Ele pegou a mão dela, apertando-a suavemente.

- Mackenzie, ninguém deveria carregar tudo sozinho. E você não precisa. Eu estou aqui, lembra? — disse ele com sinceridade.

Ela olhou para ele, os olhos vermelhos e úmidos, havia mesmo algo reconfortante na presença de Lewis. Ele não a julgava, não exigia explicações. Apenas oferecia apoio, exatamente do jeito que ela precisava naquele momento.

- Obrigada, Lewis — sussurrou ela, dando um leve sorriso entre lágrimas.

Ele sorriu de volta, puxando-a para um abraço tímido, mas acolhedor. Mackenzie encostou a cabeça em seu ombro, permitindo-se relaxar um pouco enquanto Luna ronronava baixinho entre eles, como se sentisse a tensão se dissipar.

- Vamos dar um passo de cada vez, ok? — murmurou Lewis. — E se amanhã parecer pesado, pode jogar um pouco pra mim.

Mackenzie deu uma risada curta, um som que parecia um sopro de alívio.

- Você tem um jeito irritante de fazer as coisas parecerem fáceis — brincou ela, enxugando as lágrimas que insistiam em cair.

- É um dos meus muitos talentos — respondeu ele com tranquilidade.

Nos braços de Lewis, Mackenzie se permitiu algo que raramente fazia: baixar as defesas. A presença dele, tão serena e firme, parecia um convite para que ela libertasse o que estava guardado dentro de si por tanto tempo.

- Eu... — começou ela, hesitando enquanto sua voz tremia. — Hoje é aniversário de uma pessoa...

Lewis permaneceu em silêncio, apenas afagando levemente seus cabelos em um gesto reconfortante.

- Sabe o por que eu me mudei? Por que deixei meu trabalho anterior, minha vida antiga... — ela respirou fundo, como se cada palavra fosse um esforço. — Foi por causa da minha melhor amiga, Michele.

Ele continuou a ouvi-la, sem interromper.

- Ela... — Mackenzie engoliu seco, sentindo as lágrimas voltarem. — Ela morreu na minha frente.

Lewis não conseguiu esconder o leve choque que percorreu seu rosto, deixando seu rosto um pouco assustador, ele apertou os braços ao redor dela, incentivando-a a continuar. Sabia qual era a sensação de desolamento e da culpa que nunca o deixava esquecer. Não o deixava comer, respirar ou viver sem que tudo voltasse vividamente em sua mente.

- Nós estávamos juntas, como sempre. Ela era meu porto seguro, minha pessoa. E naquele dia eu... — Mackenzie fez uma pausa longa, a voz entrecortada pelos soluços.

Ela fechou os olhos com força, tentando afastar as lembranças, mas elas vieram com toda força.

- Eu não deveria ter deixado eles me invalidar no julgamento, Lewis. Eu deveria ter feito algo. Eu... eu a perdi porque fui fraca.

Lewis sentiu o coração apertar ao ouvir aquelas palavras. Ele podia sentir o peso esmagador da culpa que Mackenzie carregava consigo.

- Mackenzie, não... — ele começou a falar, mas ela o interrompeu, a voz agora quase desesperada.

- Não, você não entende! Eu fiquei lá, paralisada! Não fiz nada, enquanto ela... Eles acabavam com ela. — sua voz falhou, as palavras perdendo-se em um choro silencioso. — Ela não aguentou a pressão, ela... Ela... Subiu até o último andar do fórum e se jogou de lá! Ela caiu na minha frente... Eu consigo ouvir o som do impacto...

Ela fechou os olhos com força e Lewis a puxou para mais perto, segurando-a como se quisesse protegê-la da dor que parecia transbordar dela.

- Mackenzie, escuta. — ele falou com convicção, mas sem perder a suavidade. — Você não é culpada. O que aconteceu foi horrível, mas você não é responsável por isso.

Ela balançou a cabeça contra o peito dele, claramente não acreditando.

- Eu devia ter protegido ela...

- E você faria isso, se pudesse. Eu sei que faria — disse ele, segurando o rosto dela entre as mãos para que ela olhasse em seus olhos. — Mas às vezes, as coisas acontecem fora do nosso controle. Isso não te torna fraca ou culpada. Isso só mostra que você é humana.

Mackenzie o encarou por um momento, como se procurasse por alguma verdade nas palavras dele. Finalmente, ela desabou novamente em seus braços, deixando que as lágrimas fluíssem sem resistência.

- Eu sinto tanto a falta dela... — sussurrou ela em meio ao choro.

- Eu sei — respondeu Lewis, a voz baixa e reconfortante. — E está tudo bem se sentir assim.

Lewis apertou Mackenzie contra si, suas mãos passando levemente pelas costas dela em um gesto de conforto, mas seu coração pesava mais a cada segundo. Enquanto tentava aliviar a dor dela com suas palavras, uma memória que ele guardava em silêncio há tanto tempo voltou à superfície, como uma onda inevitável.

Ele se lembrou do sorriso de seu sobrinho, o brilho nos olhos dele enquanto brincavam no quintal da casa da irmã. Era uma lembrança tão doce quanto dolorosa, porque logo depois vinha o dia que mudara tudo. O acidente.

Lewis fechou os olhos com força, tentando afastar a cena. Ele se lembrava de cada detalhe: o momento em que tirou os olhos dele por um instante, a distração que parecia insignificante na hora, mas que agora era uma sentença gravada em sua memória. Se ele tivesse prestado atenção, se tivesse segurado a mão dele, se tivesse agido mais rápido... talvez o menino ainda estivesse ali.

“Você não é culpada”, ele havia dito para Mackenzie. E, racionalmente, ele sabia que isso também deveria se aplicar a ele. Mas o peso da culpa que carregava não permitia que ele acreditasse nisso.

Por isso, quando Mackenzie desmoronou em seus braços, ele apenas a segurou mais forte, como se o ato de cuidar da dor dela pudesse, de alguma forma, apagar a sua própria.

- Está tudo bem — murmurou ele, mais para ela do que para si mesmo.

Mas em sua mente, a frase ecoava como uma mentira. Ele queria tanto acreditar que poderia ajudar Mackenzie a se curar, mas como alguém tão quebrado poderia ajudar outra pessoa a se recompor?

Enquanto Mackenzie chorava, Lewis deixou que as lágrimas dela molhassem sua camisa, sentindo-se pequeno diante da dor dela e da sua própria. Mas ele permaneceu ali, firme, porque, mesmo que não pudesse apagar o passado, talvez pudesse oferecer a ela algo que ele nunca soubera aceitar para si: um lugar para se sentir seguro para desabafar sem medo.

[...]

Na manhã seguinte, Mackenzie acordou com uma sensação incômoda que não era apenas o desconforto de ter dormido no sofá. Ela abriu os olhos lentamente, viu a manta dobrada cuidadosamente no braço do sofá e o sol filtrando pelas cortinas. Luna estava aninhada no tapete, puxando seu rato de brinquedo, mas Mackenzie mal registrou a cena. Sua mente estava presa ao que havia acontecido na noite anterior.

Ela passou as mãos pelo rosto, tentando afastar a lembrança do peso das emoções que havia despejado em Lewis. Levantou-se devagar, com o coração disparado, e olhou para a poltrona onde ele havia dormido. Estava vazia. Ele tinha ido embora sem acordá-la.

Ela tinha chorado. No ombro de Lewis. E não só isso, ele havia passado a noite ali, sem reclamar, sem julgamento, enquanto ela desabava completamente.

- Meu Deus... o que eu fiz? — murmurou para si mesma, olhando ao redor da sala bagunçada. — Eu chorei na frente dele... eu contei sobre Michele... E ele ficou. Ele me viu assim...

Ainda bem que ele já tinha ido pra casa, não tinha coragem de encará-lo depois disso. Mas o alívio durou pouco. Ao passar pela mesa da cozinha, ela viu uma nota deixada por ele, escrita em uma caligrafia simples:

Fui buscar café.

Volto já.

Lewis.

Ela soltou um gemido, afundando o rosto nas mãos novamente. E sentou-se na cadeira.

Antes que pudesse se perder ainda mais nos próprios pensamentos, ouviu o som da senha sendo digitada na porta. Mackenzie se levantou em um pulo, o coração disparando.

Ele voltou?! Ele vai mesmo voltar?! Eu deveria me trancar no quarto até ele ir embora! Os pensamentos dela corriam soltos.

Antes que pudesse decidir o que fazer, ouviu o som da porta se abrindo. Mackenzie congelou.

Ele estava equilibrando um saco de papel em uma mão e segurando dois copo de café na outra.

- Bom dia! — disse ele com um sorriso despreocupado, como se nada de extraordinário tivesse acontecido na noite anterior. — Trouxe café e alguns biscoitos.

Mackenzie sentiu o rosto esquentar ainda mais.

- Lewis... você não precisava...

Ele deu de ombros, colocando a sacola e o café na mesa.

- Achei que você poderia estar precisando de um bom café!

Ela cruzou os braços, ainda sem saber onde colocar os olhos. Ele parecia ter tomado banho e estava com outra roupa.

- Sobre ontem... Eu... Sinto muito por ter te envolvido nisso. Foi tão... tão ridículo da minha parte. Você nem deveria ter ficado aqui.

Lewis ergueu uma sobrancelha, parecendo genuinamente confuso.

- Mackenzie, por que você está se desculpando de novo? Achei que tínhamos pulado essa parte!

- Porque... — ela suspirou, jogando as mãos para o alto. — Eu chorei feito uma idiota, fiz você ficar aqui me consolando, e...

- Ei, espera aí. — ele deu um passo na direção dela, a voz calma. — Primeiro, você não "me fez" nada. Eu fiquei porque quis. Segundo, você tem todo o direito de se sentir vulnerável. Todo mundo tem. E terceiro... — ele segurou um dos cafés e estendeu para ela. — Eu trouxe café com leite, do jeito que você gosta. Isso não resolve tudo, mas é um começo.

Ela pegou o copo, ainda sentindo o rosto queimar de vergonha.

- Eu só... Não estou acostumada a depender de ninguém, sabe?

- Eu percebi. Também sou assim. — Lewis sorriu, mas havia algo gentil em seu olhar. — Mas, Mackenzie, você não precisa carregar tudo sozinha. Eu estou aqui. Não como um peso, mas como alguém que quer ajudar. A vida continua.

Ela olhou para ele, as palavras atingindo algo profundo dentro dela.

- Obrigada... — sussurrou ela, segurando o café com ambas as mãos.

- E, ah — disse ele, já se acomodando na mesa e abrindo o saco de papel — Eu trouxe essa rosquinhas, você merece algo doce.

Mackenzie deu uma risada curta, aliviada pela mudança no clima.

- Você é impossível, Lewis.

- Eu sei. — ele deu de ombros com um sorriso satisfeito, fazendo-a sorrir também.

A tempestade havia passado.

- Vou tomar um banho e ir trabalhar! — ela levantou da mesa. — Você é a Luna vão ficar bem?

- Está com ciúmes? Quer matar o trabalho e se divertir conosco? — ele fez graça.

- Alguém deve ter juízo nessa casa! — dizendo isso ela se afastou em direção ao quarto.

Mackenzie ajustou os óculos no rosto enquanto Lewis abria a porta do apartamento para ela, Luna miando baixinho no colo dele era como uma despedida. Ele entregou sua maleta com o seu notebook e ela saiu para o trabalho.

Com a maleta em uma mão e o café na outra, ela desceu as escadas do prédio, mentalmente revisando as tarefas do dia.

Seu trabalho como programadora era algo que a definia: metódico, analítico e desafiador. Ela gostava de resolver problemas, de transformar códigos em soluções funcionais. Chegando ao escritório, cumprimentou os colegas com um aceno breve e sentou-se em sua mesa, onde duas telas a aguardavam com linhas de código brilhando.

Mackenzie abriu seu editor de código e verificou as tarefas no quadro da equipe. Uma das funcionalidades do aplicativo que estavam desenvolvendo apresentava um bug que precisava ser resolvido antes da atualização.

Ela mergulhou nos logs, digitando comandos rápidos para rastrear a origem do problema. O silêncio da sala era quebrado apenas pelo som constante de teclados. Durante a primeira reunião do dia, Mackenzie apresentou suas descobertas.

- O erro está no script de validação de dados. Parece que o parâmetro userID não está sendo passado corretamente quando o formulário é submetido. Achei outras falhas também que parece estar liganda a outros problemas de lentidão da aplicação.

O líder da equipe concordou com um aceno, e Mackenzie fez anotações sobre as alterações necessárias.

De volta à sua mesa, ela começou a editar o código. Sua concentração era tão intensa que ela quase não percebeu quando uma colega do departamento de teste se aproximou com uma caneca de café expresso.

- Trouxe pra você, Mackenzie — disse ela. — Parece que não piscou desde que chegou.

Ela sorriu de leve, aceitando a xícara.

- Obrigada. Mas, honestamente, o trabalho está fluindo bem hoje.

- Você é um achado para a equipe de desenvolvimento. Sei que não gosta muito de socializar, mas se precisar de mim pode me chamar. Me chamo Liz.

- Obrigada Liz.

Mackenzie preferia almoçar sozinha. Não era exatamente antissocial, só introvertida, o silêncio lhe ajudava a reorganizar os pensamentos. Ela levou sua comida para a área de descanso, onde aproveitou para revisar um artigo técnico.

Enquanto mastigava distraidamente, lembrou-se de Lewis e de Luna. Não tinha falando com ele a manhã toda, mas também estava muito ocupada.

Pegou o celular e mandou uma mensagem.

Mackenzie: Tudo bem por aí? Luna já destruiu algo hoje?

Lewis respondeu quase instantaneamente

Lewis: Luna acabou de derrubar uns livros. Tá treinando para virar destruidora profissional?

Mackenzie: Ela tá seguindo seu exemplo. Sempre destruindo minha paz.

Lewis: Ai. Vou me fingir de ofendido aqui.

Mackenzie: Você é durão, aguenta. Como está minha menina?

Lewis: Fazendo pose de inocente depois do crime. Igualzinha à dona.

Mackenzie: Você só não tá dormindo no sofá por mensagens porque já tá no meu sofá. Sorte sua.

Lewis: Não seja ingrata! Estou trabalhando também e cuidando da SUA gata!

Mackenzie: Minha? Que eu me lembre, a guarda é compartilhada! Ela é tão minha quanto sua.

Lewis: Agora eu sou o culpado? Daqui a pouco vai dizer que ela puxou ao pai.

Mackenzie não aguentou e mandou um emoji chorando de rir.

Mackenzie: 😂😂😂

Lewis: Agora que se divertiu, como está seu dia?

Ela soltou uma risada silenciosa, balançando a cabeça antes de responder.

Mackenzie: Mergulhada em bugs. Mas pelo menos um de nós está se divertindo.

O horário de almoço acabou e ela voltou para seu departamento com a cabeça mais tranquila.

No fim do expediente, Mackenzie organizou sua mesa, atualizou o status das tarefas e revisou o cronograma da semana. Ela gostava de sair do trabalho sabendo exatamente onde tinha parado, pronta para retomar no dia seguinte.

Quando voltou para casa, sentiu um misto de alívio e cansaço. A programação era sua paixão, mas também consumia sua energia mental. Ao abrir a porta, foi recebida por Luna, que veio correndo até ela com miados animados. Enquanto o cheirinho de comida fez o estômago dela roncar. A ideia de que, ao voltar para casa, havia alguém, ou alguns, no caso de Luna e Lewis, a esperando tornava tudo mais leve.