O Violino Negro
1 Página Desbotada I
Notas iniciais
Lembrem-se de mim. Eu existi.
[...] "Apesar de tudo, bardo... Compreendo teu ponto de vista." Disse-me o jovem de cabelos castanhos e cinzentos olhos bondosos enquanto examinava com certa curiosidade o meu violino negro em suas mãos. "Apesar de toda dor, apesar de todas as lágrimas..." Ele continuava a fitar a madeira de cor opaca como a noite. O violino não era lustroso como tantos, nem refletia ternura alguma como qualquer outro. "Apesar de todos os lamentos..." Ele olhou-me e sorriu enquanto uma lágrima cortava a maçã de seu rosto. "Sentirei falta desta vida."
Tentei sorrir, mas pela primeira vez em uma eternidade um sorriso não riscou minha face. Não houve palavras, sonetos ou acordes. Algo mais alto que qualquer grito, mais alto que qualquer som algum dia já emitido agora ensurdecia meus ouvidos. Não conseguia ouvir o choro de minh'alma ou o gotejar de meu sangue. Não conseguia ouvir meus pensamentos nem minha consciência. Um único som emanava pelo ar como o aroma de uma rosa, um único som cortava o ar como um punhal afiado. O silêncio.
Olhei para baixo. Uma pequena gota brilhava sobre a superfície opaca de meu violino como uma única tímida estrela no céu noturno.
Não me lembro como ou quando voltei a trilhar o meu caminho após isso. É como se meus pés tivessem me levado á milhas para longe num piscar de olhos. Num piscar de olhos atrás eu estava ajoelhado à beira de um lago de águas negras. Num piscar de olhos seguinte eu estava caminhando por uma estrada simpática, onde a neve abria passagem ante aos meus passos, onde os flocos rolavam sobre minhas vestes sem me molhar, nem se amontoar. Eu não sentia mais frio. [...]
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