Notas iniciais
Boa leitura!

Percebi alguém chegando enquanto trocava mensagens com Sunori.

— Olha só que bonitinho. – Uma voz masculina soou.

— Quem é você? – Perguntei, levantando da cama e ficando de pé.

— Não sou o Coringa, se é o que está pensando.

— Então o que é? – Falei, no mesmo tom, enquanto tentava identifica-lo no escuro da noite, e minha visão em preto e branco não ajudava.

— O Valete. – Disse ele, se referindo a um dos naipes de baralho. — Parece que você sofreu um imprinting.

Agora que ele dera um passo à frente, percebi que suas roupas remetiam a realeza, eram pomposas e elegantes. Sua figura, de um homem branco, e cabelos longos e claros, as cores, em vários tons diferentes, do mesmo jeito que o bobo da corte, eu conseguia enxerga-lo colorido e não em escala de cinza.

— Ok, você é um dos personagens das cartas. O que é um imprinting?

— Imprinting é o amor à primeira vista dos cães infernais, Gary. É como um crush, só que dez vezes mais forte. Depois que você tem um, encontrou sua alma gêmea. E assim será para toda a vida.

— A Su? Ela é a minha alma gêmea?

Eu não pensava na bruxa desta forma. Era a primeira garota na minha vida, e o mais próximo de pretendente ou namorada. Porém eu ainda não sabia se a amava, e nem se ela sentia isso por mim.

— Seria uma pena se ela não correspondesse, não é? Você ficaria de coração partido até o fim dos seus dias, e nada preencheria esse vazio. – Depois de dizer isso, caçoador, o sujeito gargalhou alto e sem parar.

Outro sujeito também riu. Era o bobo da corte em seu traje a caráter, e logo depois surgiu o rei, também caçoando da piada de mal gosto.

— Sabe o que é melhor que um imprinting? – O rei lançou a pergunta enquanto sua coroa brilhava.

— Uma foda com plateia. – O bobo da corte respondeu, se afastando e rindo enquanto o valete e o rei se aproximavam um do outro, o rosto de um ficando bem próximo do outro, até suas bocas se tocarem e seus lábios brincarem um com o outro, se movimentando e suas línguas se entrelaçando. Ok, eu não estava entendendo por que do nada os dois resolveram se pegar.

Virei as costas para ir embora, e a porta se fechou. O coringa apareceu na frente, me bloqueando com um sorriso malicioso.

— Já vai tão cedo? Por que não se junta a nós?

— Eu não curto isso – respondi, seco.

Qual é, vozes na minha cabeça. Cães infernais, me ajudem. Pensei.

“O coringa é um pervertido. Ele é doente. ”

A primeira voz soou.

“Os gostos deles são peculiares. O rei é um tarado. ”

Ok, isso não ajuda, façam alguma coisa!

— Assista um pouco, e tenho certeza de que vai mudar de ideia. – O sujeito falou, me empurrando até uma cadeira e me forçando a sentar. De alguma forma eu estava de mãos atadas e acorrentadas.

Ele estava usando feitiço em mim. E na minha frente, estava bem animada a brincadeira entre o valete e o rei, e os dois já estavam tirando suas roupas e ficando sem camisa.

“Nossa, Gary agora você é um voyeur. Seu safado. ”

Uma das vozes falou na minha cabeça.

“Esses dois estão te iniciando agora. ”

Me remexi e relutei, sem sucesso, sendo forçado a assistir ao beijo de língua, sem entender nada.

“Não é possível que tendo super força eu não possa me desfazer dessas correntes! ” Pensei.

Continuei resistindo até enfim quebrar as correntes. O Coringa estava me cercando, mas desta vez ele não tinha em mãos o punhal, então não poderia me ferir.

Depois de quebrar os metais, várias peças voaram em direções diferentes.

Eu então corri até a porta. Estava trancada. Lutei contra a maçaneta sem resposta, até ouvir algumas batidas na porta. Um silêncio se prolongou.

— Gary, é você? – Uma voz feminina exclamou.

— Meu filho, somos nós, seus pais! – Outra voz, de homem, soou. Como assim? Eu nunca conheci meus pais.

— Queremos dizer que sentimos muito por não termos te criado. – A voz de mulher continuou, de outro lado da porta.

— E que estamos orgulhosos de você por ter crescido! – Explicou o som masculino.

— Se tornou um bom rapaz, como queríamos.

— Não fale assim, mulher. O que ele vai pensar?

Depois disso um choro começou, e se estendeu por algum tempo, aumentando de tom.

O que estava acontecendo? Eu estava sonhando?

Ouvi um assobio e me virei, vendo na minha frente o rosto de meia idade do Hades, sorrindo. As vozes se calaram.

— Desculpe pelos meus serventes aqui. – Sua voz sarcástica soou, e o cenário a sua volta era uma igreja em tons de cinza que eu nunca vira antes.

— O que aconteceu?...você também é gay?

— Não. – Ele riu. — A rainha é a minha esposa.

— Onde estamos?

— Na Academia. – O homem respondeu, movendo a cabeça careca.

“Ele mente! ”

Uma das vozes caninas avisou.

— Eu nunca vi este lugar na Academia. – Afirmei sério.

— Esta é a parte da Academia que existe aqui embaixo. Na verdade, você nunca esteve em Mystique Campus de verdade. Esse lugar sempre foi o inferno.

O quê?

Isso é verdade? Cães?

“Ele está blefando. ”

“Essa é uma reviravolta interessante! ”

— Impossível.

— Sinto muito Gary, mas o submundo é um reflexo do mundo superior, só que em uma versão pior. Sou eu que governo este lugar, o diabo, Hades. Eu criei uma parte da Academia para que pessoas como você se sentissem em casa aqui embaixo. – O mesmo discursou.

— O senhor não é Hades mesmo, é?

“Por que acha isso, Gary? ”

“Se ele não é Hades quem ele é? ”

— Cãozinho esperto. Como descobriu?

— Quem você é? – Questionei.

— Meu nome não é importante. Sou só uma das muitas almas que morreu e foi parar no inferno. Eu não acredito que Deus exista para me acolher no Céu. No entanto eu fui um dos poucos que conseguiu se destacar.

“O inferno é uma bagunça. As almas torturadas ficam vagando em meio às almas condenadas, e esse lugar está superlotado! Eu fui o único que quis se revoltar, e pregar algumas ideias para esse povo alienado e manipulado pelos demônios.

Dizem que todos no inferno se tornam demônios. Não eu. Eu descobri como usar os demônios, eu controlo eles. Eles fazem o que eu mando. E você Gary é a minha arma contra o Hades, ele precisa sair do poder, ele não faz nada para essa prisão! ”

“Caramba ele gosta de ouvir a própria voz. ”

“Que monologo chato. ”

“Eu tinha apostado que ele era Hades com você. ”

“Você perdeu. ”

Eu estava quase pedindo mentalmente para as vozes se calaram, quando balbuciei:

— Alguma vez viu o Hades? – Não obtive resposta. O silêncio foi longo, e eu sabia que ele nunca o vira antes. – Hades é um deus grego é imortal e inalcançável como pretende chegar a ele e tirar seu trono?

“Eu não quero mais ser um cão infernal. Dê este papel a outra pessoa! ”

— Não quer mais ser um cão infernal? Então é isso, vai me abandonar? – O homem gargalhou, depois ficou sério. – Coringa!

— Sim, mestre. – O bobo da corte apareceu de repente, ao ser chamado.

— Traga a adaga. – Ordenou.

— É claro. – Com a arma em mãos, desfilou até mim balançando o metal e o esfregou em mim, até fazer mais força em minha pele, assim cortando-me e causando dor no meu pescoço, depois acertando um golpe no meu abdome o perfurando.

Notas finais
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