Notas iniciais
Boa leitura!

Estava um dia ensolarado e caloroso, andar a pé pela estrada em plena faixa interestadual era cansativo. O pior eram as roupas nada refrescantes. Eu precisava manter uma certa quantidade de trajes no corpo porque não caberia tudo na mala que eu estava segurando.

Depois de enfim chegar no ponto de ônibus, na beira da estrada, rodeada de um terreno árido e areia esvoaçante, vi as pessoas uma a uma partirem em veículos diferentes, nenhuma queria falar comigo. E todos os motoristas fechavam a porta quando eu me aproximava por eu ser negro.

Um ônibus enfim parou e abriu a porta, após muita espera, e só tendo eu no ponto. O motorista tinha cabelo comprido e uma barba por fazer.

— Para onde vai? – Perguntei.

— Para Hel. A passagem custa $6,00 euros.

— Eu...não tenho dinheiro. – Gaguejei, nervoso.

— Sinto muito, rapaz. – Ele disse, já engatando a primeira marcha.

— Espere! Eu não tenho para onde ir, e preciso chegar na cidade. – Revelei, omitindo o fato de que vinha daquele orfanato. Se eu dissesse talvez ele me rejeitaria.

— Tudo bem...então talvez possamos negociar. Vamos ver.…tem uma coisa que você pode fazer por mim, novinho. – O mesmo disse, devagar enquanto descia a mão que não estava no volante para a calça, mais precisamente entre as pernas, onde massageou o volume na calça. Ele estava excitado.

— O que? O que pensa que eu sou?

— Que foi? É só uma chupadinha, não seja covarde.

— Eu não vou fazer isso! – Gritei. Eu sou hétero, e mesmo que não fosse não iria fazer um boquete em um motorista de ônibus aos dezoito anos.

— Então boa sorte esperando o próximo ônibus, que só vai chegar daqui a uma hora, seu otário. Vai se fuder! – Dizendo isso, ele deu a partida e foi embora.

Mas que babaca.

Ele tinha razão, o próximo ônibus demorou a vir. Quando veio, fiz sinal para que parasse. Ao abrir a porta, percebi que era um senhor de idade; eu esperava que não fosse como o outro.

— Por favor me deixe passar, eu preciso. E não tenho como pagar. – Pedi.

— Sinto muito, mas eu não posso.

— Espere. Só um minuto. – Digo, começando a fuçar em minha mala até achar o baralho de cartas, depois de confundir com o deck de Pokémon. Para mim, todas as cartas são da mesma cor. O que me ajuda a jogar é o naipe. Como nasci daltônico, não enxergo as cores verde e vermelho, para mim elas são só lendas urbanas.

Depois de embaralhar, trago duas cartas juntas ao topo do baralho, de forma que pareça que somente uma carta foi movida.

Coloco uma carta diretamente embaixo da primeira carta do baralho enquanto as outras estão atrás de mim.

— Escolha uma carta, senhor. – Solicito, fazendo um truque de mágica. Era o que eu sabia fazer. Era o meu hobby no orfanato, que eu passava treinando com as outras crianças cada truque novo que eu via na TV e na internet. Os mais pequenos me viam como um ídolo, e os céticos detestavam minha popularidade. Eu tentei impressionar muitos pais que iam nos visitar, mas mesmo gostando eles sempre escolhiam uma criança branca, nunca uma negra para adotar.

Coloco a carta que o motorista escolhe embaixo da primeira carta enquanto o baralho está atrás de mim, sem que ele possa ver.

— Memorize bem essa carta, tio. – Explico, prendendo a atenção do mesmo.

— Por que escondeu o baralho atrás de suas costas, garoto? – Ele perguntou; era uma dúvida típica de voluntários.

— É parte do suspense. – Respondo.

— Tudo bem, seja rápido.

Acato o homem, mostrando o baralho e pego as duas cartas do topo como se fossem uma. Exibo apenas a carta de baixo para ele, como se o par fosse uma carta só.

— Essa é a sua carta? – Questiono.

— É sim. Como faz isso?

— Isso é segredo. Agora eu mereço uma carona? – Digo embaralhando de novo e guardando as cartas.

— Tudo bem, pode subir. – Ele dá a partida e eu subo no ônibus, sorrindo. No fim das contas, ele é uma boa pessoa e não um tarado.

A viagem foi demorada e cansativa por uma tia passar o tempo todo cantando uma canção em espanhol, mas eu não me importava, cochilei um pouco esperando o tempo passar, eu só precisava ir para o mais longe possível já que precisava começar uma vida de adulto agora que completei dezoito anos e fui obrigado a deixar a casa.

Para se chegar na cidade Hel se levava quilometros. O Orfanato Silvestre ficava na parte rural da Polônia, em um povoado do condado de Pucki.

Era irônico se chamar ‘Hel’ e lembrar sempre ‘Hell’ que significa inferno em inglês. Era comum o povo fazer piadas e trocadilhos envolvendo isso.

*

Quando acordei, já era noite, e o veículo estava parado o que estranhei. Além de muito escuro, não tinha ninguém do lado de dentro além de mim.

Do lado de fora, nem um sinal de vida.

— Ei! Olá! Tem alguém aí? – Gritei, sem obter resposta. Por que me deixariam aqui sozinho? Comecei a pensar se tinham feito algo comigo.

Eu não fazia ideia de onde estava. Era frio, um terreno baldio sem nenhuma casa ou construção e completamente deserto. Será que algum pneu furou durante o trajeto? Ou acabou o combustível?

Meu sapato pisoteou algo duro. Era uma máscara. Ela tinha muitos detalhes decorados, mas era algo que eu não notaria por causa da bagunça que minha mente fazia com as cores. Se tratava de uma máscara de palhaço. As pessoas descreviam fantasias de palhaço como coloridas, porém para mim eram distorcidas e opacas.

Foi aí que lembrei da moda de se vestir de palhaço na véspera do Halloween, que estava acontecendo pelo mundo afora, e amedrontar as pessoas. Se isso fosse uma pegadinha, era de muito mau gosto e não explicava o sumiço dos passageiros.

A partir daí comecei a correr em linha reta, como um louco, sei que não era a coisa mais sensata a se fazer, mas se houvesse alguma casa naquele campo aberto ela estaria perto, e eu a alcançaria. Eu não iria gritar de novo, iria tentar permanecer em silêncio e não chamar atenção, até entender o que estava acontecendo.

Acho que vi uma casa naquela escuridão, no meio daquele nada. Parei de correr, depois de quase tropeçar. Olho para o chão e vejo um objeto circular. Um volante, não, o volante, do ônibus! Por que removeriam e deixariam aqui, tão longe? Com certeza, quem fez isso estava querendo causar problemas.

— Fique parado e deixe suas mãos onde eu possa ver. – Uma voz grave soou, e eu sabia nesse momento que eu estava ferrado.

Virei levantando os braços e as mãos, visualizando um sujeito alto e armado, vestido, adivinhem, de palhaço.

— Olha, Golias, achamos a sua máscara! – Ele exclamou, e outro cara surgiu, igualmente armado e caracterizado, porém com o rosto a vista, um rosto feio e maduro.

Um terceiro homem apareceu andando pelo terreno baldio, desta vez não sozinho e sim puxando pelo braço, algemado o motorista do veículo. Seus olhos estavam vendados e a boca coberta por fita isolante.

— Por favor, não machuquem ele. – Pedi, sem me preocupar em parecer sereno agora.

— Cala a boca, neguinho. – O líder, pelo menos ele parecia isso, gritou e um capuz grosso e fedido cobriu o meu rosto. Depois disso, fui empurrado e conduzido por uma grande distância, eu podia andar por mim mesmo, mas eles estavam cercando a gente e tentar fugir só pioraria tudo.

Depois de um tempo, a caminhada ficou mais devagar e eu fui jogado em algo que amorteceu a minha queda, era macio. Eu nunca sentira tanto medo na vida. Choros estavam audíveis, femininos e masculinos. O meu capuz foi removido e eu percebi onde eu estava: em uma piscina de bolinhas, junto com boa parte dos passageiros do ônibus, entre eles a senhora que cantava, algumas crianças feridas e todos parecendo assustados e abatidos.

Se isso era apenas uma pegadinha, conseguiram nos dar um susto. Mas eu sabia que era mais do que isso.

— O que vocês querem? – Um homem perguntou de dentro da piscina, lotada, em voz grave.

— Quieto, ou será pior. – Um dos sequestradores respondeu, em sua fantasia de palhaço macabro.

A venda do motorista foi tirada, e a fita isolante arrancada sem dó em um segundo, arrancando alguns pelos da barba que estava por fazer. Ele gemeu.

— Doces ou travessuras? – Um bandido perguntou, e não houve resposta.

Depois de um breve silêncio, e algumas choramingadas ao meu redor, o sujeito repetiu a pergunta.

— Suponho que seja travessuras. Vamos aprontar rapazes! – O mesmo continuou anunciando e erguendo a arma que segurava ao contrário, pronto para usar o lado do cabo para agredir o senhor, e estava nítido em seus olhos o medo.

— Espere! Não faça isso! – Gritei, atraindo a atenção de todos, e pausando a tempo a tortura no velho. – Eu fico no lugar dele!

Sei que iria levar a primeira surra histórica da vida logo após fazer dezoito anos, mas era o certo a se fazer do que assistir a um idoso apanhando no lugar de um bando de jovens, que iriam simplesmente fechar os olhos diante disso. Nessa hora o medo só me deixou e eu dei uma de Katniss defendendo a irmã como tributo.

— Ora, então temos um corajoso aqui! – Um dos mascarados insultou por baixo da fantasia. – Golias, vá pegar o valente!

O mesmo grandão caracterizado como palhaço veio até mim, e me puxou da piscina, espalhando as bolinhas enquanto esbarrava nos outros reféns que faziam ruídos de medo. Depois fui arrastado até os demais, que agora seguravam tacos de basebol, raquetes ou mãos livres, algumas equipadas com soqueira inglesa.

A covardia a seguir foi épica, foi injusta e foi dolorida. Fui atingido no rosto, no pescoço, na nuca, fui chutado, socado até receber hematomas e expulsar sangue. Gemidos foram soltos durante o processo, sem conseguir evitar e sem reagir, fui o saco de pancadas do grupo de brutamontes. Me perguntei se eu merecia, e por que estavam fazendo isso. Se era por diversão, estava sendo tão divertido assim?

Tudo parou depois de um tempo, e eu já não enxergava muito, minhas pálpebras se fechavam contra a minha vontade, meu olho devia estar roxo; minha face estava abatida.

— Muito obrigado, filho. – O motorista pronunciou de dentro da piscina de bolinhas.

— Calado, velho! – Um dos criminosos gritou. – O bom samaritano aqui já recebeu o que merecia. Você é o próximo. Ele só adiou o seu sofrimento.

Depois disso eu apaguei.

Notas finais
Se chegou até aqui...por favor comente.