O Viajante Sobre o Mar de Névoa

1 My Least Favorite Life


Notas iniciais
Olá! :) eu acabo de entrar de férias e daí escrever/postar fic foi a primeira coisa que decidi fazer depois de uma boa noite de sono. Existem algumas coisas sobre essa história que acho importante que sejam ditas antes da leitura: 1. Cronologicamente, a fic se passa depois do episódio 7x05 (The Angels Take Manhattan) e antes do episódio de Natal (The Snowmen), então se você ainda não assistiu, é importante saber que a fic contem spoilers. 2. O título da fanfic é uma referência à tela do artista Caspar David Friedrich :) 3. O título do capítulo é o nome da musica da Lera Lynn que também serviu como inspiração. Acho que é isso. Espero que vocês gostem. Um abraço!

This is my least favorite life
The one where I am out of my mind
The one where you are just out of reach
The one where I stand and you fly

Seus olhos se fixaram na imagem transmitida pela tela interna da tardis: por algum motivo ela havia pousado no canto de um grande salão oval ornamentado por detalhes em preto e prata.

O Doctor analisou, suspirou e bufou — não necessariamente nessa ordem — antes de vestir-se adequadamente. Depois de ajeitar a cartola sob a cabeça, apalpou os óculos de Amy no bolso interno da casaca e seus olhos transbordaram de tristeza por um instante.

Ele precisou de alguns segundos para se recompor e para lembrar onde havia deixado a bengala. Ele vinha sentindo uma terrível dor psicológica nas costas e, até o instante em que essa história foi escrita, não havia encontrado em si mesmo paciência o suficiente para refletir e resolver sobre a questão.

Dando uma leve batidinha de "até logo" no painel da Tardis, se encaminhou em direção ao desconhecido. Sua pesquisa prévia lhe informara que estava sob o solo intergaláctico da 27ª colônia humana no quadrante de Astriha. O ano era 1000 após o nascimento de algum líder místico do qual ele não se recordava.

Humanos podiam ser estupidamente previsíveis.

Aprumando-se, tentou se habituar ao volume da música ambiente. Ele não tinha certeza de qual gênero musical era aquele, mas podia apostar que se tratava de um tipo de composição elitizada, como todo o resto do lugar.

Descobrir que estava em uma espécie de palácio agravou a sensação de enfado. O Doctor perambulou por entre as pessoas observando suas roupas extravagantes, seus risos afetados e a maneira como seguravam com extrema finesse suas taças de cristal. Um enorme relógio de pendulo metalizado balançava de um lado para o outro atrás do pequeno púlpito onde alguém faria um discurso em breve.

Havia algo de profundamente errado e ele não tinha a menor ideia do que era. Estava se sentindo cansado e lento como há muito não se sentia. A quantidade de vezes por segundo em que cogitava apenas dar as costas e voltar para a sua nave nunca fora tão grande. Precisou de algum tempo de esforço para se concentrar e lembrar-se dos passos básicos.

No entanto, no momento em que estava sentindo-se um pouco mais como ele mesmo, seus olhos a encontraram. River trajava um vestido plúmbeo longo com um decote generoso e à medida que ela andava em sua direção e a luz incidia sobre seu traje, ela parecia se destacar mais e mais, tirando qualquer tipo de traço interessante que alguém ao seu redor pudesse possuir.

Assisti-la o dilacerava por dentro.

— Doctor. – Ela cumprimentou polidamente.

— Prof. Song. – Ele respondeu, meneando a cabeça.

Sem tirar os olhos dele, River estendeu o braço com delicadeza e imediatamente um garçom se materializou ao seu lado, pronto para atendê-la e, a julgar pelo seu semblante, fazer qualquer coisa que ela desejasse.

O Doctor não o julgava.

Ainda exalando elegância, ela se serviu de uma taça de champanhe e continuou olhando para o Doctor por cima da borda de cristal que bebericava. Isso fez com que ele considerasse que aquele era um jogo que dois podiam fazer. Murmurando uma desculpa qualquer, se afastou. Se o lugar lhe cheirava a problemas antes, agora parecia sete vezes mais grave.

River era, para todos os fins, um indicador sintomático que ele gostava de evitar sempre que podia.

Ainda mais agora.

Enquanto andava a passos rápidos, ignorou a iminente frustração ao descobrir que ela não o seguira. Odiando a ela e a si mesmo, sentou-se em uma mesa qualquer, falando alto, sorrindo muito, misturando-se. Pelo canto dos olhos, conseguia observá-la fazer basicamente o mesmo.

Sua presença era sufocante. Ele não conseguiria fazer nada por aquelas pessoas enquanto não conseguisse apaziguar ao menos um dos corações. Conseguiu ser controlado o suficiente para manter mais dez minutos tortuosos de conversas inúteis (que, a propósito, não lhe acrescentaram uma pista sequer) antes de pedir licença e se informar a respeito do lugar onde ficava o toilette.

Afrouxando a gravata borboleta, ele entrou de cabeça baixa dentro do cômodo.

— Olá, Sweetie.

Praguejando mentalmente, ele encarou-a pelo reflexo do espelho. Uma alça do vestido dela estava despretensiosamente caída para o lado e River a ignorava com a mesma precisão em que retocava o batom vermelho sangue.

— River. – Ele respirou fundo, sabendo que seria o primeiro a ceder. Ele sempre era. — O que você está fazendo aqui?

Ela sorriu, apoiando as mãos na bancada de mármore envelhecido.

— Perturbando você, naturalmente.

Ele desviou os olhos, tentando se lembrar de como agir.

— Achei que estava sendo clara. – continuou, virando-se de frente para ele. – Como você está? – Era assustador o quão rápido ela conseguia transformar uma provocação boba em uma preocupação séria.

O Doctor não se deu ao trabalho de responder. Ao invés disso, voltou a alça para o lugar certo, os dedos demorando-se mais do que o necessário no ombro da antropóloga.

O gesto pareceu durar uma eternidade. Toda a raiva e ressentimento que ele vinha nutrindo por ela estremeceram mediante as outras sensações fortes que ela lhe causava quando fazia coisas simples como lhe tocar o rosto, como agora.

Ele se permitiu fechar os olhos por um instante.

River livrou-o de uma conversa difícil avisando que o discurso estava prestes a começar. Eles caminharam juntos, lado a lado, de volta ao salão. O que quer que ela estivesse fazendo, não importava mais. O Doctor só gostaria de ficar mais alguns instantes em sua companhia, antes que ela fugisse para longe, deixando-o destroçado novamente. Isso era o que River fazia: o reduzia a uma forma miserável e sensível, uma pintura romântica alemã. O termo spleen em pessoa.

Enquanto o homem de estatura mediana e nariz ornamental falava coisas sem sentido no púlpito, o Doctor inspirava lentamente o perfume que irradiava de um ponto especifico da nuca da filha dos Pond. A vontade de encostar o rosto naquele pequeno arquipélago de pele e a batalha interna para não ceder a esse desejo provavelmente foram as razões para que ele não percebesse a mudança no cenário: os semblantes marcados de medo, os olhos úmidos de alguns e, especialmente, o tempo que se esgotava no relógio.

— Está na hora. – River sussurrou, segurando sua mão. O Doctor não tinha a menor ideia de onde ela tinha escondido o teletransportador que estava agora preso em seu pulso. Antes que ele pudesse pensar em protestar, já estava materializado dentro da Tardis. River marchou a passos rápidos até o painel, onde comandou que a nave voasse para uma distância segura.

— O que você pensa que... – Começou a gritar, mas um estrondo poderoso engoliu sua voz e sacolejou a máquina do tempo, fazendo com que ele perdesse o equilíbrio e caísse. Um jorro de luz reincidiu nos vitrais da porta da Tardis e ele observou, através do painel, a causa para aquilo: o planeta em que estava até um segundo atrás acabava de implodir de maneira grotesca. Depois das cores quentes e lastimáveis, veio a névoa. Um mar de névoa.

— Salvando sua vida. – River murmurou, respondendo a pergunta nunca feita. – Disponha.

Do chão, sem forças para se mover e odiando-a como nunca, o Doctor soltou um urro de frustração que lhe fez irromper em lágrimas grossas de amargura, típicas e assustadoramente humanas.

— Me deixe sozinho! – Ele avisou, quando ela ousou aproximar-se. – Não será difícil. Sabemos que essa vem sendo sua especialidade.

River piscou, surpresa, o que lhe doeu ainda mais. Era raro acertá-la, e era triste perceber que não causava conforto algum.

— Você não pode desfazer isto, se é o que está planejando.

— Eu posso fazer o que eu quiser. – Sibilou, entredentes, erguendo-se.

— Querido – ela espalmou a mão em seu peito, no momento em que ele alcançou o painel. – Esse momento autodestrutivo precisa acabar. Você não percebe? Suas emoções estão influindo diretamente em suas viagens, e você vem arriscando a Tardis e a si mesmo nesse processo suicida.

O Doctor abriu um sorriso ácido.

— E como você poderia saber, River?

— Eu sempre estou aqui. – Ela sussurrou. – De um modo ou de outro. Você sabe que não posso viajar com você. Nunca poderia ser tão fácil. — os olhos dela brilharam de lágrimas enquanto ela sorria. – Se você precisa sentir raiva por isso, vá em frente. Mas respeite a vontade de Amy e Rory e cuide-se. Seria uma vergonha para todos nós se você não pudesse cumprir esse único e singelo desejo. Aquele lugar estava condenado, Doctor. Não havia nada que você ou eu pudéssemos fazer. Mas você não está na mesma situação que aquele planeta, querido. A menos que queira.

Era um jeito extremamente amável de dizer “recomponha-se”, especialmente vindo de River e ele sabia disso. Encarando-a, ele pousou ambas as mãos em seus ombros. Ela era tão bonita... Quando o Doctor a olhava, ele lembrava da incrível força criadora e senciente que formava galáxias, inteligências, sorrisos e olhos como aqueles e sentia-se dobrado àquele poder abstrato. Sentia-se pleno na beira daquele abismo recorrente que existia dentro dele.

— Obrigado. – Disse, por fim. – Suponho que você precise partir agora que conseguiu me fazer ter um pouco de senso.

— Ah, bom, sim. – Respondeu, com um sorriso triste. – Tem a prisão e essas coisas...

Ele desviou o olhar. Ainda estava profundamente de luto por Amy e Rory e a perspectiva de ficar sozinho era sempre desconcertante.

— Mas se você ainda tiver um pouco daquele chá de Leadworth, não vejo porque não ficar mais uns dez minutos. Ou quinze.

O Doctor sorriu e pousou os lábios gentilmente nos dela. River era sempre tempo quando ele era espaço. Ou o contrário.

Era terrível, mas por uns dez minutos – ou quinze — eles estavam bem com isso.

Notas finais
Bom, eu sou obcecada pela história do Doctor e da River e eles formam meu ship preferido, haha. Eu tento ter o maior cuidado do mundo ao escrever sobre eles e espero que essa historinha esteja pelo menos razoável :) se você se deu ao trabalho de ler até aqui (surpreendente a sua coragem! ♥) me conta o que achou, eu vou gostar de saber! :D
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!