O Viajante

5 Capítulo IV


O tiro foi certeiro, mas Rose sabia que seria desde o momento em que colocou os olhos no porco selvagem.

Rose naturalmente não nasceu sabendo caçar, mas foi uma das muitas coisas que teve de aprender sozinha à medida que foi crescendo. Ela definitivamente não precisava, haviam centenas de serviçais no castelo preparados para comprar as carnes da melhor qualidade, vendidas pelos melhores caçadores do reino, mas caçar e preparar sua própria comida era algo que Rose achava estranhamente reconfortante.

Eram os únicos momentos em que se sentia dona de si.

Rose se aproximou do animal morto deitado sobre a grama, procurava sempre dar tiros fatais com arco e flecha quando caçava pois vê-los agonizando acabava completamente com seu apetite, fechou os olhos do bicho e arrancou um punhal de caça de uma das botas.

Este não estava envenenado como o que usou para apunhalar Scorpius, era somente para cortar as carnes que ia comer.

Scorpius.

Rose não sabia o que pensar sobre aquele homem. Não era uma ameaça direta a ela, mas se Scorpius – atrapalhado e desengonçado daquela maneira – conseguiu entrar no reino, então qualquer pessoa com uma mera habilidade de espionagem poderia invadir até mesmo o castelo.

Talvez Rose devesse deixá-lo ir embora.

Talvez.

Mas ela ainda tinha perguntas que precisavam ser respondidas, e se Scorpius morresse na floresta – o que definitivamente aconteceria, considerando como ela conseguiu apunhala-lo tão facilmente –, o problema viria a público no reino todo. O manteria em sua cabana por enquanto, decidiu ela.

Rose acariciou a pelagem curta do porco selvagem, lhe devia alguns últimos minutos de respeito depois de tirar sua vida.

Foi um farfalhar intenso entre os arbustos que a despertou de um momento tão solene. Rose agarrou o arco e flecha e o apontou para o inimigo que se aproximava.

Era apenas Minerva.

Rose baixou a arma, a boca escancarada em descrença.

— Quantas vezes já não lhe disse para não se aproximar de mim dessa maneira?

A velha riu e balançou as mãos num gesto de desinteresse.

— Tudo o que você sabe foi eu quem te ensinei, se esqueceu disso?

— Eu poderia ter acertado você!

Minerva se aproximou, sorridente.

— E esta bela caçada? Presumo que teremos um banquete.

Rose voltou a atenção para o animal. Era mesmo muito grande para que apenas ela e Scorpius comessem sozinhos, mesmo mergulhando toda a carne na banha do porco selvagem, parecia coisa demais apenas para eles dois. Com um suspiro, Rose olhou para Minerva. Não fazia sentido esconder dela o que estava escondendo em sua cabana. Apesar de ser a decisão mais sábia, precisava dividir com alguém o fato de que estava mantendo um homem em cativeiro em sua cabana.

— Preciso da sua ajuda — sussurrou Rose — Você precisa vir até a cabana comigo.

A velha lhe fitou com seriedade, mesmo que ainda estampasse um sorriso travesso nos lábios.

— Você se meteu em confusão — Rose assentiu — Uma das grandes.

— A maior de todas.

Minerva riu.

— Então vamos logo, você sabe que eu adoro encrencas.

×

Rose chegou em silêncio, carregava nos ombros um enorme animal que Scorpius não conseguia distinguir o que era. Ele a ajudou a colocar o animal sobre a mesa da cozinha e só então percebeu que Rose não estava só.

Uma senhora de idade, encurvada e enrugada pelo tempo entrou logo atrás de Rose pela porta. Tinha um sorriso malandro nos lábios como se soubesse de todos os segredos do mundo e olhos muito calorosos.

— Ah, que belo problema você arranjou — murmurou ela, lançando um olhar travesso à Rose.

Scorpius fitou Rose, procurando respostas. Não esperava que trouxesse alguém ali, era para não ser descoberto por ninguém que ela o mantiveram trancado na cabana afinal de contas.

— Minerva, este é o homem de quem te falei — Rose anunciou, virando-se para o bicho sobre a mesa, cortando sua carne com uma habilidade minuciosa que Scorpius não havia visto em açougue algum. Sinceramente, era de dar calafrios. — Scorpius Malfoy.

— Scorpius Malfoy — repetiu a velha — Você não é daqui.

— Não sabemos de que reino ele-

Mas a senhora a interrompeu.

— Ah não, querida — Minerva fitou Scorpius no fundo dos olhos e em seguida murmurou: — Você definitivamente não é de reino algum, é de… outro lugar. Não é?

Scorpius sentiu sua pele se arrepiar por completo. Não conseguia entender como, mas ele percebeu que Minerva sabia de onde ele era. Que ele não era daquele mundo. Estava tão eufórico que não sabia se mantinha os olhos no sorriso travesso de Minerva ou nas mãos ensanguentadas de Rose.

— Você conhece Londres? — questionou num tom quase desesperado.

— Ah sim, já ouvi falar — disse ela, despretensiosa.

A velha sentou-se sobre uma das cadeiras de madeira. Scorpius e Rose trocaram olhares. Era a primeira vez que chegavam perto de um por quê.

— Você sabe como…?

— Não consigo te levar embora, rapaz — retrucou ela impaciente — Mas eu consigo ver nos seus olhos, você não está aqui por acaso.

Scorpius engoliu em seco.

— E porque estou aqui?

— O mundo não dá todas as respostas à essa velha bruxa de mão beijada, vocês é que precisam descobrir.

Scorpius e Rose fitaram um ao outro mais uma vez até que Rose voltou os olhos para o animal sobre a mesa e retornou ao seu trabalho. Ela não conseguia sustentar o olhar de Scorpius por muito tempo, ele já havia notado.

— Então não posso prendê-lo aqui, já que você não é um espião como pensei que era. — murmurou Rose.

— Você está me mandando embora? — retrucou Scorpius, estupefato.

— Sim.

— Eu não tenho para onde ir!

A velha pigarreou, chamando a atenção dos dois.

— Vou conversar com o seu prisioneiro um minuto, querida.

Minerva agarrou Scorpius e o levou até o quarto. O empurrou para que sentasse na cama e estendeu ambas as mãos em sua direção.

— Me dê as mãos.

Scorpius não questionou, estendeu as mãos para a mulher. Ela as segurou com ternura e fechou os olhos, Scorpius os fechou também.

Não que ele fosse uma pessoa religiosa, na verdade nunca foi, nem mesmo quando a mãe o levava à igreja quando criança e se cobria com um véu branco, mas ao sentir as mãos daquela mulher sobre as suas não soube descrever a sensação que sentiu, parecia estar entrando em uma caverna gelada e úmida. Como se estivessem penetrando um caminho desconhecido.

Sentia frio dos dedos dos pés até o último fio de cabelo. Era um frio estranho, gélido e anciente, não era como sentir frio ao esquecer o casaco em casa — como sentia em Londres frequentemente. Era um tipo de frio quase… mágico.

Foi então que ele entendeu. Minerva estava nele. Dentro de sua mente. Passeando e descobrindo, vasculhando cada mísero metro quadrado que conseguia. Não foi incômodo, entretanto. Ela passeou apenas por onde ele permitia dentro de sua mente, e tão rápido quanto começou, chegou ao fim. Ela soltou suas mãos, deixando-o boquiaberto e apontou para a cozinha, para que retornassem.

Rose já estava preparando a carne para comerem.

— Ele precisa ficar aqui — retrucou a velha — Vocês não se encontraram ao acaso.

Rose e Scorpius trocaram um olhar, sem dizer nada.

Estavam presos um ao outro e sequer sabiam a razão.

×

O porco selvagem que Rose caçou estava delicioso, mas todos comeram em silêncio. Minerva se manteve calada pelo resto da noite enquanto trocava os fitava sem pudor algum.

Scorpius também ficou calado, não porque não havia algo para dizer, justamente o contrário, precisava colocar tanta coisa para fora que não sabia nem mesmo por onde começar.

Já Rose estava quieta porque não conseguia falar. Não ousou erguer os olhos para encarar o homem que manteve aprisionado em sua cabana, já não sabia mais o que fazer aquela altura.

Minerva lhes disse que ele deveria ficar ali, que deveriam permanecer juntos por algum motivo. Rose não era a maior crente das forças do destino mas quanto mais pensava em sua situação, mais pensava em como nada fazia sentido naquela história.

Não havia como Scorpius entrar no reino sem ser notado e tudo acerca dele na primeira vez em que se encontraram chamaria a atenção de alguém facilmente: estava vestido como um estrangeiro, estava deitado no meio do bosque sem se manter escondido e só de abrir a boca era possível perceber que ele não era daquele reino.

Mas como?

Rose não fazia ideia de onde começar a procurar as respostas. Minerva já havia deixado claro que não lhe ajudaria em muita coisa, havia um motivo e eles precisavam entender que motivo era esse que os juntou.

Estava começando a escurecer, Rose deveria voltar para o castelo o quanto antes ou notariam sua falta, era muito provável que já estivessem suspeitando de uma ausência tão grande, ninguém ficava tanto tempo assim trancado numa biblioteca sem algum motivo suspeito.

— Preciso voltar para casa — disse Rose de repente e apontou para Minerva — Você pode ficar aqui se quiser.

A velha se levantou junto dela e sorriu.

— Não se preocupe comigo, querida, eu já estava de saída.

Minerva pegou um enorme pedaço da carne crua embebida em banha e embrulhada em papel que Rose separou para ela e sumiu pela porta, deixando ambos sozinhos. Rose ainda não sabia o que dizer, mas encarou Scorpius nos olhos mesmo assim.

— Pode ir, vou ficar bem — assentiu Scorpius.

Rose concordou e começou a juntar suas coisas. Era tudo tão absurdo, sequer havia forças para dizer as palavras que queria.

— Você… — Rose começou, não sabia o que pretendia falar, mas continuou mesmo assim — Vou deixar a chave na janela, caso você queira sair.

— Porque?

— Você não é mais um prisioneiro — resmungou ela — Só não faça nada estúpido, por favor.

E saiu.

Scorpius correu para a janela para observá-la ir embora. Viu Rose subir em seu cavalo e cobrir a cabeça com a túnica que usava no dia em que se conheceram, o corcel ganhou velocidade e se afastou da cabana com rapidez e logo, Scorpius não conseguiu mais distingui-los entre as sombras.

Agora estava sozinho novamente, desta vez com mais perguntas do que antes. Ainda não compreendia toda a lógica da situação, não sabia como havia chegado até ali ou como iria embora.

Entendia agora somente uma coisa: não estava em seu mundo.

×

Rose colocou o vestido desajeitadamente por cima da calça, escondeu a capa entre uma estante de livros e saiu da biblioteca no máximo de silêncio que pôde.

Já havia anoitecido quando ela regressou ao castelo e com certeza todos estavam à sua procura. Rose estava sendo descuidada demais, passava muito tempo na companhia de Scorpius nos últimos dias, estava alheia aos acontecimentos do castelo e logo notariam os segredos que tinha a esconder.

Rose se esgueirou entre os corredores, caminhando na ponta dos pés, se conseguisse chegar ao seu quarto poderia pensar numa desculpa melhor para dar no dia seguinte, durante o desjejum.

O castelo estava silencioso, seus pais e seu irmão já deveriam ter jantado àquela hora e com certeza estavam se preparando para dormir.

Mal conseguia acreditar que chegaria ao seu quarto sem que ninguém notasse sua presença. Rose abriu a porta de seu quarto com cautela, estava pronta para suspirar aliviada ao entrar no cômodo.

Até ver Hugo.

Seu irmão estava deitado sobre sua cama, lendo um dos livros que ela havia deixado no quarto, estava iluminado apenas pela luz de uma pequena vela, mas era o suficiente para enxergar o sorrisinho em seu rosto.

Rose estava ferrada.

— Você demorou! — murmurou ele fechando o livro teatralmente para poder fitar a irmã. Rose engoliu em seco, fechou a porta atrás de si e caminhou em direção a cama.

— O que está fazendo aqui?

— Esperando você — retrucou ele, revirando os olhos impacientemente — Você tem muita sorte de ter a mim como seu irmão, se soubessem que saiu teriam colocado o reino todo atrás de você.

Rose trancou a porta, com medo de que alguém escutasse a conversa.

— O que eles disseram?

— Nada, porque eu menti dizendo que a encontrei cochilando na biblioteca e lhe mandei ir para a cama dormir — Hugo cruzou os braços sobre o peito — Onde você estava?

Rose deu de ombros, fazendo o máximo para parecer entediada com o rumo da conversa.

— Passei o dia na floresta, caçando, passeando, visitando minha cabana, você sabe…

— Está mentindo! — acusou ele, com um sorriso nos lábios.

— Não estou não.

— Eu conheço você muito bem — Hugo apoiou as mãos atrás da cabeça e sorriu — Você está vendo algum cara?

Rose empalideceu.

— Que cara?!

— Eu é quem pergunto, você tem saído bastante nos últimos dias, acha que eu não percebo?

— Eu não estou vendo ninguém, Hugo — Rose se aproximou do irmão, controlava a voz para não dar tanto a entender que ver um cara era exatamente o que a estava fazendo nos últimos dias quando saia do castelo — Preciso sair para espairecer de vez em quando, quanto mais tempo passo aqui dentro, mais enlouqueço.

Hugo a fitou, ainda com um sorrisinho travesso nos lábios, não parecia convencido o suficiente com as desculpas da irmã, por fim, deu de ombros para ela.

— Se não quiser me contar tudo bem, só volte mais cedo da próxima vez ou não vou conseguir te acobertar para sempre.

Rose assentiu, envergonhada.

— Obrigada, eu te devo uma.

— Você me deve várias! — riu Hugo.

E a deixou sozinha em seu quarto, com o coração pulando dentro do peito descompassadamente.

×

Rose sonhou com Scorpius Malfoy naquela noite.

Ele invadiu seus sonhos enquanto ela caçava um porco selvagem na floresta, trazia consigo um arco e flecha e estava vestido como um príncipe, usava uma coroa adornada de jóias, sapatos de couro e um sorriso no rosto que beirava o indecente, Scorpius apontou o arco e flecha em sua direção.

— Vou caçar você — anunciou ele, brincalhão.

Rose sorriu de volta, sabia que Scorpius não conseguiria caçar alguém mesmo que sua vida dependesse disso.

— Você faria isto a sua rainha?

— Você me subestima — disse ele, parecia estar se divertindo com o fato de ter Rose em sua mira — Acho que você deveria começar a correr.

O sorriso de Rose morreu nos lábios ao perceber que Scorpius não estava brincando, o sorriso em seus lábios tinha um ar cruel — algo que Rose notou somente depois de analisar por mais um mero segundo. Ele estava apontando uma flecha em direção ao peito de Rose e pretendia atirá-la.

Rose pôs suas pernas para correr o mais rápido que pôde.

Era assim que iria morrer? Com Scorpius lhe caçando até a morte como se ela fosse uma gazela?

Que maneira mais patética de se morrer, sinceramente.

Rose se esforçou para correr sem parar para olhar para trás. Sabia que ele estava a seguindo, podia ouvir folhas e galhos sendo esmagados pelas botas de couro que ele usava, podia ouvir a risada histérica dele enquanto a perseguia.

Scorpius não a alcançou.

Rose acordou antes que ele chegasse a tal, mas seu coração estava batendo descompassado dentro do peito, doendo contra as costelas enquanto tentava recuperar o fôlego.

Que estúpida.

Em que cenário isso seria minimamente possível? Rose duvidava que Scorpius conseguisse correr em linha reta por mais de cinco minutos sem cair…

Suspirando, Rose se levantou, não gostaria de voltar a realidade agora, mas o sol estava nascendo e, inevitavelmente, seu coração ansiava voltar à cabana; questionar Scorpius, procurar por respostas, entender aquela mente tão estranha e ao mesmo tempo tão fascinante.

É, definitivamente, precisava descobrir o porquê de Scorpius estar ali e mandá-lo embora o quanto antes. Se continuasse tendo sonhos como este, enlouqueceria.

×

— Acorda!

Scorpius grunhiu ao abrir os olhos, vendo o rosto levemente raivoso de Rose lhe encarando após lhe dar uma travesseirada.

Cacete. O que ele tinha feito para irritá-la dessa vez?!

Rose lhe acertou com o travesseiro uma segunda vez.

— Okay, okay, acordei, puta mer-...

Rose lhe acertou uma terceira – e última, porque isso já estava ficando ridículo – vez, Scorpius agarrou o travesseiro e se sentou sobre a cama, esfregando os olhos.

— Você baba quando dorme. — disse Rose.

— Qual é o seu problema? — Scorpius franziu o cenho — E que horas são?

A julgar pelo sereno denso do lado de fora, devia ser o comecinho da manhã.

— Você é o meu problema! — retrucou ela, as sobrancelhas ruivas erguidas em afronta.

— Ah, fala sério.

Scorpius se levantou da cama, arrastando os pés pelo chão até esbarrar com uma camisa que Rose havia lhe trago. Não que ele se importasse muito, mas imaginou que uma dama não ficaria confortável diante de um homem sem camisa.

Passando os dedos pelo cabelo desgrenhado, agora devidamente coberto, Scorpius olhou para Rose novamente:

— O que aconteceu? Achei que não voltaria tão cedo.

Literalmente. Scorpius ponderou se ela sequer dormiu, ele havia acabado de pegar no sono quando ela o acordou.

Rose olhou para as mãos em seu colo, franzindo o cenho, e então olhou para ele novamente.

— Acho que nunca paramos para conversar sobre o dia em que te vi pela primeira vez — disse ela — Sabe… Se o que Minerva disse for verdade, não adianta eu tentar descobrir como você veio parar aqui sozinha.

Scorpius ergueu as sobrancelhas, surpreso. Uau. Esse era um nível de progresso que ele não esperava de Rose, ao menos não tão cedo.

— Certo — concordou ele, assentindo — Tudo bem… Quero entender tudo isso tanto quanto você, Rose.

Os olhos deles se encontraram.

Rose dificilmente conseguia manter contato visual com ele, era… Íntimo demais, mas fez o possível e o sustentou enquanto erguia a mão direita para ele.

— Trégua até resolvermos toda essa bagunça?

Scorpius lhe deu um sorrisinho.

— Trégua? Você nunca foi minha inimiga.

Rose revirou os olhos. Nunca?! Ela o apunhalou e sequestrou, pelo amor dos Deuses, quão ingênuo era Scorpius?

— Trégua ou não? — insistiu Rose.

Scorpius agarrou sua mão, balançando-a em um aperto, deixando escapar uma risada de seus lábios.

— Trégua, Rose.