O Viajante
8 Capítulo VII
Para desespero de Rose, Hugo era uma companhia extremamente agradável para Scorpius quando não estava tentando assassiná-lo. Por um lado, era bom poder tirar dos próprios ombros o peso de ter de esconder Scorpius de todo mundo, e ela definitivamente não poderia ter escolhido alguém melhor do que Hugo para dividir esse segredo.
Mas por algum motivo, se sentia estranhamente… afetada com o fato de Scorpius não ser algo mais exclusivamente seu.
— E como você faz a carroça parar? — questionou Hugo, esfregando a louça que Scorpius secava.
Rose franziu o cenho. Essa era uma pergunta que ela havia feito há menos de dois dias a ele, e agora Hugo sabia da existência dos carros da terra de Scorpius. Ela tentou se concentrar no mapa aberto sobre a mesa, tentou fingir que estava pensando em rotas de fuga que levariam Scorpius de volta a Londres e definitivamente tentou fingir que não estava se incomodando com o fato de Hugo e Scorpius terem se tornado os melhores amigos de todo o mundo com apenas algumas poucas horas de conversa e uma louça suja em comum.
O mapa diante de Rose parecia zombar dela. Só estavam conversando, não havia a menor necessidade de se estressar tanto com algo tão banal. Poderia até ser benéfica a presença de Hugo ali, ele poderia ajudá-los a encontrar uma saída mais fácil para que Scorpius voltasse a Londres. Talvez tudo tivesse acontecido por uma razão, não havia motivo para se irritar com tão pouco.
— Onde você vai? — questionou Scorpius.
Oh, ela havia se levantado. Sequer notou que estava de pé, puxando sua capa de viagem, o cenho franzido profundamente. Hugo a olhou confuso enquanto as sobrancelhas de Scorpius se juntavam, analisando-a.
Rose olhou em seus olhos por um breve momento, um leve arrepio percorrendo a espinha. Por um segundo, lhe passou pela cabeça que nunca seria capaz de superar o quão cinzentos e tempestuosos eram os olhos de Scorpius, especialmente quando eles percorriam por ela com tamanha atenção. Como sempre, não conseguia sustentar o olhar dele por muito mais do que alguns segundos, então baixou seu próprio rosto para os mapas sobre a mesa.
— Preciso espairecer — murmurou.
Hugo olhou de Rose para Scorpius e vice e versa. Nenhum deles falava nada, ambos em silêncio com Scorpius pendendo a cabeça levemente para o lado enquanto Rose fingia não perceber que ele a observava.
— Ok, eu vou com você — anunciou ele.
— O que? Não-
— Está tudo bem — interveio Hugo, e ele podia jurar que os dois se sobressaltaram quando ele ergueu a voz, como se tivessem esquecido de que ele estava ali — Eu termino a louça, podem ir.
Rose olhou para Scorpius novamente. Hugo não percebeu, mas Scorpius conhecia aquele rosto o suficiente para notar um leve rubor brotar em suas bochechas antes de ela franzir o cenho e se virar para sair pela porta da frente. Scorpius secou as mãos e bateu levemente no ombro de Hugo agradecendo pela privacidade antes de avançar porta a fora.
O ar frio ricocheteou o rosto de Scorpius assim que ele botou os pés para fora da cabana, Rose já estava alguns bons passos à frente, o casaco de viagem sobre os ombros enquanto os cabelos ruivos dela voavam para trás como labaredas de fogo.
— Rose! — ele chamou, enquanto avançava atrás dela. Ela não parou, na verdade, pareceu andar ainda mais rápido, abraçando os próprios ombros — Rose!
Scorpius avançou na direção dela, agarrando-lhe gentilmente o braço e a puxando para si. Rose puxou uma adaga de seu coldre escondido na cintura e o plantou no pescoço de Scorpius, não tinha a menor intenção de esfaqueá-lo de novo, era apenas para lhe dar um susto.
Por incrível que pareça, Scorpius não soltou seu braço, mas ao perceber a posição em que estava, riu.
— Achei que já tínhamos superado isso — disse ele divertido, com os olhos cinzentos passeando pelo rosto dela.
— Eu poderia matar você aqui e ninguém saberia que um dia você existiu! — Rose esbravejou de volta.
Ele assentiu.
— Eu sei. Não tenho dúvida nenhuma de que você poderia me matar se quisesse, mas você não quer. — respondeu ele. Ela bufou, tentando se desvencilhar dele, mas Scorpius não soltou seu braço — O que eu fiz? Porque está irritada?
Rose se debateu novamente e Scorpius a soltou, ela enfiou a adaga de volta no coldre fazendo o possível para estender ao máximo uma desculpa para não olhá-lo nos olhos novamente.
— Não estou irritada.
— Rose, por favor…
— Já disse que não estou irritada.
— Você já esteve irritada comigo o suficiente para eu saber que está sim, por favor, me diga o que fiz.
Naturalmente, Rose se manteve calada. Não podia vocalizar suas frustrações, eram patéticas. Como poderia dizer a ele que estava irritada por algo não ser mais particularmente seu? Como poderia dizer que estava irritada, não pelo fato de Hugo ter descoberto seu segredo, mas sim por ele estar usufruindo da companhia desse estranho que era sua responsabilidade desde que o encontrou na clareira?
Ela suspirou pesadamente, erguendo os olhos para ele.
Scorpius estava genuinamente incomodado com sua irritação, como se a mera irritação dela fosse o suficiente para tirar-lhe dos eixos. Os olhos cinzentos e compreensivos não desviavam dos dela nem por um segundo.
— Hugo saber da sua existência é… estou preocupada, é só isso.
Scorpius é quem suspirou agora, aliviado. Rose era extremamente calculista e controladora, provavelmente desenvolveu essa mente brilhante pelas longas horas de caçada na floresta e assistindo as estratégias políticas do pai, imaginou ele. É claro que algo que fugia de seu controle a incomodava profundamente.
— Tenho certeza de que não será necessário se preocupar com Hugo. — Tranquilizou.
Rose revirou os olhos, dando-lhe as costas novamente.
— Não é com isso que estou preocupada.
— E com o que é? — Silêncio de novo. Scorpius estava começando a se incomodar com isso, com o fato de não conseguir ler Rose tão facilmente, de não conseguir resolver qualquer que fossem suas frustrações ou incômodos. — Olhe para mim!
Rose estremeceu, mas virou-se para ele novamente e o olhou nos olhos.
Scorpius não pôde evitar deixar seus olhos caírem sobre os lábios dela. Estava acostumado com uma época em que preenchimentos labiais, liftings e harmonizações faciais eram corriqueiros, mas o rosto de Rose era tão naturalmente bonito que, caso nascesse em Londres, ele tinha certeza de que ela seria a referência dos cirurgiões plásticos. Pessoas pagariam milhões para tentar chegar perto da beleza dela.
Era ridículo, ele sabia, passar toda e qualquer oportunidade olhando para ela como se ela fosse uma peça rara, mas não podia evitar.
— Com o que você está preocupada, Rose? — perguntou ele novamente, sem saber como, visto que não conseguia desviar os olhos dela.
Rose franziu o cenho irritadiça, o leve rubor das bochechas esquentando seu rosto e colo, estava grata por estar escuro.
— Não gosto que saibam da sua existência. — confessou ela. — A sua chegada foi a primeira coisa da qual me recordo que pertencia somente a mim e agora… Bem… Agora você e Hugo são os melhores amigos do mundo e-
Ele tentou.
Scorpius tentou de verdade.
Mas foi impossível não gargalhar.
Por Deus, Rose estava com ciúmes?
— Você não pode estar falando sério.
— Isso não tem graça nenhuma! — ela esbravejou.
Scorpius riu novamente, balançando a cabeça em negativa. Levou a mão ao peito, recuperando o ar.
— Desculpe, você tem razão… Sabe o quão aflito fiquei, achando que tinha feito algo de errado?
Rose sentiu vontade de esbofeteá-lo e gritar em seu ouvido que ele, na verdade, havia sim feito algo errado. Havia passado o dia conversando com Hugo como se o conhecesse a anos enquanto ela foi completamente ignorada, mas decidiu que era melhor não dizer nada que remetesse a isso. Scorpius riria de novo dela.
— Tanto faz, só esqueça. — retrucou ela, se afastando para longe dele de novo.
Scorpius segurou seu pulso suavemente, puxando-a para isso.
— Pare de fazer isso — pediu docilmente.
— Não estou fazendo nada!
— Está sim — ele a puxou para mais perto, Rose teve de erguer o queixo para sustentar o olhar de Scorpius. — Está olhando para qualquer lugar, menos para mim, não gosto quando você faz isso.
Ela permaneceu em silêncio por um segundo antes de murmurar suavemente:
— Eu deveria abrir sua garganta agora, te ensinar uma lição.
Scorpius sabia que não devia, mas não se conteve… O rubor das maçãs do rosto de Rose era adorável, especialmente quando ela queria machucá-lo, ele ergueu a mão gentilmente e colocou uma mecha de cabelo ruivo atrás de sua orelha.
— Não pare de olhar para mim, — pediu suavemente — mesmo quando estiver prestes a cortar minha garganta, não pare de olhar para mim.
Estava frio, terrivelmente frio, frio esse que fazia os ossos de Rose estremecerem mesmo por baixo da capa de viagem, mas seu rosto ardia tanto com um mero toque de Scorpius que sentia seu corpo suar por baixo da capa. Pela primeira vez desde que ele chegou, ela conseguiu manter um contato visual mais longo do que alguns segundos.
A ponta do polegar de Scorpius ardia de vontade de tocar a pele da bochecha dela, mas ele se conteve. Tentar se aproximar de Rose era como tentar se aproximar de um animal arisco, todo cuidado era necessário para não assustá-lo.
— Posso voltar lá para dentro e mandar o seu irmão embora se quiser, posso jogar a água da louça suja nele ou chutá-lo para fora da cabana… Qualquer coisa para que deixe de ficar chateada comigo.
— Eu não… Não estou chateada. — murmurou Rose de volta.
Parecia sentir algo na hesitação de Scorpius, algo que lhe dava um imenso peso no peito.
Teriam ficado uma noite inteira presos no olhar um do outro se Rose não tivesse ouvido um galho de quebrando a uma pequena distância deles dois e se distanciasse de Scorpius o mais rápido possível. Vendo por cima do ombro dele, Hugo sorriu envergonhado.
— Desculpe, não queria interromper, é que vocês estão aqui faz um bom tempo, achei melhor ver se estava tudo bem.
Scorpius se afastou dela (como poderia não se afastar? Rose praticamente voou para longe dele com a chegada de Hugo), mas não pode evitar morder a parte interna da bochecha em desconforto. Se ao menos Hugo tivesse esperado só mais cinco minutos…
— Estamos bem, você não interrompeu nada. — murmurou ela, contrariada.
Infelizmente, Scorpius não se considera inteligente emocionalmente o suficiente para responder que estava tudo bem, então apenas assentiu, olhando por sobre os ombros a escuridão da floresta que cerca a cabana.
— Vou preparar nossos cavalos para voltar para casa… Não quero levantar suspeitas — disse Hugo.
Rose assentiu.
Assim que Hugo desapareceu dentro da cabana, ela se virou para olhar para Scorpius novamente. Desta vez, era ele quem se recusava a olhar nos olhos dela. Parecia terrivelmente irritado.
— Você está bem?
— Sim.
Rose sabe que ele está mentindo. Scorpius é educado, irritantemente educado, nunca lhe responderia tão rápido e de forma tão ríspida se estivesse bem. Mas diante da tempestade que está em seus olhos, ela decide que pressioná-lo para saber a verdade agora não é o caminho sensato a seguir.
— Certo… Então nos vemos amanhã.
Scorpius simplesmente assente enquanto ela volta para dentro da cabana.
A única coisa que compartilham é a sensação de formigamento e o calor crescente no peito pelo momento interrompido.
×
O galope suave dos cavalos de Rose e Hugo mal ecoava sob a grama, apenas do suave som de grama sendo gentilmente prensada debaixo dos cascos. Ambos estavam com as cabeças cobertas pelos casacos de viagem, apesar de não ser um lugar tão perigoso, toda a cautela era insuficiente ao retornarem sozinhos para o castelo após escurecer.
Rose estava tentando se concentrar em qualquer coisa que surgisse a sua volta, era expert em manter-se sempre alerta quando se tratava de seu retorno para casa, qualquer sinal de algo suspeito ao seu redor já era o suficiente para lhe deixar pronta para um combate.
Hugo, entretanto, não parecia compartilhar da cautela que ela sentia.
— Eu gostei dele — murmurou suavemente. Rose não respondeu, apenas deu um leve sinal com a cabeça para que o irmão soubesse que foi ouvido, mas Hugo se recusava a manter-se em silêncio. — Quando o levaremos ao castelo? Acho que os soldados poderiam-
— Você enlouqueceu? — Rose esbravejou, virando-se para olhá-lo — Não posso levá-lo ao castelo.
— Porque não? Ele não pode ficar aqui para sempre.
— E ele não vai, vou encontrar uma forma de fazê-lo voltar para casa.
— Não — ele balançou a cabeça — Não é isso, na verdade acho que você não quer que ele vá embora.
— De onde tirou isso? É claro que quero que ele vá embora, a mera presença dele aqui é um risco a todos nós.
Hugo ergueu uma sobrancelha para ela, um sorrisinho travesso nos lábios.
— Você não pode se casar com ele. É um pateta, consegui imobilizá-lo de olhos fechados.
Rose segurou as correias de seu cavalo, parando abruptamente.
— Casar com ele? Não quero me casar com ele. Do que está falando?
Hugo parou seu próprio cavalo também, virando-se o suficiente para poder fitar a irmã.
— Você não precisa continuar mentindo para mim, Rose. Posso guardar um segredo.
— Você enlouqueceu! — constatou ela — Está alucinando.
— Eu vi vocês dois do lado de fora da cabana. Estavam perdidos um no outro, fiquei uns bons vinte minutos esperando que notassem a minha presença, mas estavam… Sinceramente, eu nem sei, estavam se olhando como se nada mais existisse. — Hugo bufou, revirando os olhos — Não vou julgar você por cair de amores por um plebeu… Especialmente um plebeu como ele, falei a verdade quando disse que gostei dele.
O rosto de Rose ardeu dolorosamente de vergonha. Não conseguia mensurar tamanho absurdo vindo do irmão. Por Deus, de onde Hugo tinha tirado essa história de que ela e Scorpius estavam apaixonados?
Ela já havia perdido as contas de quantas vezes já ameaçou matar Scorpius.
— Eu não… Mesmo se eu tivesse sentimentos por ele, Scorpius não veio para ficar, Minerva disse que ele pode voltar a qualquer momento para casa — desconversou ela.
— O que? E você ainda tem dado atenção a essa velha maluca?!
— Não fale assim dela!
— Rose, ela é maluca, se lembra das premonições e profecias que ela fez a respeito do reinado do nosso pai? Nada daquilo se provou verdade.
Rose respirou fundo. Não tinha paciência para discutir com Hugo, especialmente sobre um assunto tão delicado quanto Minerva McGonagall. Ninguém sabia o quão lúcida ela era, quanta sabedoria aquele corpo ancião possuía.
O destino é mutável, nem todas as profecias e premonições se tornam realidade. Rose sabia disso, tinha ciência o suficiente para entender que nada na vida funcionava como o tiro de suas setas — certeiro, com um objetivo e mira precisos —.
— Não importa, o lugar dele não é aqui.
Hugo pendeu a cabeça para o lado, lhe lançando um olhar irritado.
— Mas pode vir a ser, nós podemos-
— Hugo!
Hugo bufou, agarrando as rédeas do cavalo para o obrigar a cavalgar novamente.
Ambos seguiram o resto da viagem em silêncio, mas Rose não conseguiu evitar uma última olhada em direção ao caminho que vieram.
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