O Viajante
3 Capítulo II

Rose Weasley precisou engolir em seco e desviar os olhos dos rostos dos pais, sentados na outra extremidade da enorme mesa de jantar. Haviam sido bem categóricos desta vez em dizer que ela deveria encontrar um bom marido até o fim da estação.
Hugo continuou comendo em silêncio, não ousaria dizer uma só palavra durante aquele jantar.
— Porquê? — foi a palavra que escapou dos lábios de Rose sem que ela se permitisse dizer. O silêncio da sala de jantar se tornou mais opressor, e o tilintar dos talheres banhados em outro contra os pratos era pior do que os gritos que ouvia nas masmorras.
Hermione olhou para o marido, o rei Ron, sem conseguir dizer algo coerente. Ela compadecia da dor da filha de ter de se casar com alguém que não amava, mas não ousaria falar por cima do Rei, portanto, apenas lhe cutucou levemente com a ponta do pé por baixo da mesa.
— É o seu dever — respondeu ele condescendente, como se a resposta já não fosse óbvia.
Rose ergueu o olhar para o pai mais uma vez, as bochechas coradas de raiva, tentando segurar o choro para não lhe passar a imagem de uma criança birrenta. Já era difícil o suficiente fazê-lo levar suas palavras e ideias a sério quando conversavam normalmente, se chorasse, ninguém lhe daria a devida atenção sem atribuir seu choro a histeria.
— E se eu me recusar?
— Essa não é uma opção, Rose — retrucou ele.
Ambos depositaram os talheres sobre a mesa, encarando-se sem emitir uma única palavra. Hermione baixou os olhos, não poderia se meter naquela discussão, eram parecidos demais, pai e filha, não dariam o braço a torcer a menos que o outro se compadecesse de suas opiniões.
— Podemos falar sobre isso em outro momento… — começou Hermione, tentando relativizar a situação, não aguentava mais que todos os jantares em família fossem palco para uma briga iminente.
— Não, nós vamos finalizar esse assunto agora — respondeu Ron sem tirar os olhos da filha — Não percebe o privilégio que tem? Você pode escolher um marido, não são todas as princesas que tem o que você pode ter. Em outros tempos, eu era quem o escolheria.
— Então faça isso — devolveu Rose — Escolha o homem que vai mandar neste castelo como se fosse dele ao invés de confiar a alguém que tem o seu sangue correndo nas veias que o faça sozinha.
Hugo tomou mais um gole de vinho, se encolhendo em sua cadeira. Ele e a mãe trocaram um olhar de compreensão, aquela briga terminaria como todas as outras: ofensas jogadas no ar e nenhum pedido de desculpas a proferir, o assunto em aberto, mais uma noite em que Rose não escolheria homem nenhum para se desposar.
— Não seja ingrata!
— Ingrata?! Estou sendo ingrata quando não desejo me casar com qualquer idiota com uma coroa que se apresente diante de nós?
— Você será rainha.
— E serei infeliz! — gritou ela, batendo as mãos contra o tampo da mesa, forte o suficiente para fazer a mãe e o irmão se sobressaltar. Antes que o silêncio voltasse a doer, ela murmurou: — Não se importa com a minha felicidade?
Ron voltou a cortar o pedaço de carne em seu prato sem dizer mais nada, ninguém ousou voltar a comer e Rose se sentiu ridícula e exposta diante de toda a família, em pé, pedindo desesperadamente que a ouvissem, que levassem a sua opinião em consideração.
Para ela, parecia que uma eternidade havia se passado, humilhando-se diante de todos eles, quando finalmente Ron engoliu sua comida com a ajuda de um gole de vinho e murmurou calmamente:
— Você tem até o fim da estação para escolher o marido, sua mãe e eu estamos organizando um baile para que você o apresente ao reino, se até lá você não escolher, me encarregarei de que você esteja no altar até o começo do ano seguinte — Ron ergueu o olhar na direção da filha, tinha os olhos verdes e ardentes como os de Rose, agora cheios de raiva e impunidade diante seus pedidos incessantes para que reconsiderasse toda a situação, por fim, finalizou: — Estamos entendidos?
Fora a gota d’água para Rose, que agarrou o prato dourado e o atirou contra a mesa, espalhando carne assada e legumes por toda a toalha decorada que Hermione escolheu a dedo para aquele jantar.
Rose partiu em direção à porta, mesmo com os protestos de Ron às suas costas e correu em direção a biblioteca, lutando com as próprias lágrimas que insistiam em escorrer dos olhos.
Ao chegar à biblioteca, Rose trancou a porta atrás de si e correu em direção a passagem que ficava atrás de uma das enormes estantes. Precisava sair, respirar ar puro, fugir das prisões do castelo e sentir o rosto batendo contra o vento enquanto o orvalho insistia em cobrir qualquer superfície imóvel.
Era tudo tão injusto quando se tratava de seu destino, quando se tratavam de suas escolhas. Rose prezava por sua liberdade e sua felicidade, e depois daquele jantar, entendeu que deveria ser a única pessoa que prezava por isso, já que sua mãe nunca iria contra as vontades e decisões de seu pai e Hugo jamais se envolveria nas questões da família, mesmo que sua vida dependesse disso.
Rose correu por entre os túneis da passagem secreta, tropeçou em um deles, mas não se deixou ficar para trás nem mesmo um segundo, continuou a correr, não conseguia parar, não podia parar.
Ao chegar ao estábulo real (agora vazio, já que os servos já deveriam estar todos em seus aposentos), trocou-se rapidamente em uma das estações vazias e montou em seu cavalo. Precisava cavalgar, correr, ver o mundo real sem que alguém lhe importunasse com os deveres que a realeza havia de seguir.
Rose cavalgou com seu cavalo em alta velocidade, se alguém a visse tentariam impedi-la, precisava ser rápida antes que alguém tivesse a chance de pegá-la. A floresta densa a abraçou como uma velha conhecida e Rose a adentrou com astúcia, conhecia aquele lugar como as palmas das mãos, era sempre o lugar em que fugia quando precisava de um momento a sós consigo mesma.
Ainda assim, mesmo que conhecesse o lugar melhor do que qualquer outro, não podia se dar ao luxo de ficar ali. Ela não era boba como seu pai presumia que fosse, sabia da existência de ladrões e sequestradores por aquelas regiões, era por isso que havia aprendido a manusear tão bem uma espada e um arco e flecha.
Rose continuou percorrendo pela floresta, já estava perto o suficiente de sua cabana. Seu pequeno refúgio, o mais afastado do reino o possível.
Era uma cabana de madeira bem pequena, composta apenas por um quarto e uma cozinha, com uma banheira nos fundos ao lado do estábulo (pequeno o suficiente para que apenas um cavalo coubesse ali). Rose havia ordenado que fosse construída à sua maneira, contratou construtores de partes afastadas do reino — especialmente pessoas que não sabiam como era o rosto da princesa.
Toda a construção foi feita às pressas, sem que ninguém suspeitasse de nada. Sua cabana foi erguida em meio a floresta, ficava escondida entre as árvores e só podia ser encontrada por quem conhecia a região, e eram poucas as pessoas que conheciam de fato, Rose escolhera sua localização a dedo.
A cabana estava vazia, naturalmente, e Rose desabou sobre a cama arrumada. Fechou os olhos, forçando o choro a se manter preso na garganta como sempre fazia, era um treinamento que se obrigava a fazer todos os dias. Sabia que iria precisar quando lhe obrigassem a seguir com um casamento indesejado, de todas as coisas, ela sabia o quão absurdo seria o ato de chorar em frente ao seu marido.
Rose inspirou fundo, podia sentir a dor característica de um choro preso na garganta voltando lá para o fundo de onde quer que os choros eram gerados, engoliu em seco e inspirou novamente. Seu coração fraquejou diante da lembrança do jantar em família, quão humilhante tinha sido estar de pé diante de seu pai, implorando que não se casasse com um desconhecido, ouvindo um não como resposta.
Rose nunca imaginou que esse dia chegaria. Sempre fora próxima do pai, passavam o dia juntos andando pela floresta com um arco e flecha em qualquer tempo livre que Ron tinha. Fora ele quem lhe ensinara sobre a liberdade incondicional da qual ela tanto gostava.
Agora era ele quem arrancaria a mesma liberdade de suas mãos sem hesitar.
Rose engoliu em seco novamente, lutando contra a vontade de chorar. Não podia voltar ao castelo, por um momento começou a planejar sua fuga. Não poderia ficar na cabana, lhe encontrariam depressa demais, mas sair do reino era igualmente difícil.
Idelin, o reino onde moravam, era totalmente cercado por muros. Foi o avô de Rose quem ordenou a sua construção assim que recuperou o trono de um golpe de estado. Não que ela se importasse muito com isso agora, o Reino vivia sempre tão isolado que era até difícil para Ron fazer acordos com outras cortes.
É por isso que Rose tinha a certeza de que acabaria presa em um casamento. Era um acordo bom demais para se deixar passar, Ron não queria ter a mesma imagem que o pai teve, queria ser visto como o rei que tinha relações amigáveis com reinos vizinhos.
Se tudo dependesse dele, pensou Rose, era provável que Hugo acabasse em um casamento de conveniência também, ele só tinha dado a sorte de ser o filho mais novo. Rose apreciava os esforços do pai a respeito de seu desejo em melhorar a imagem de Idelin para o resto do país, mas preferia que essa imagem não dependesse dela e com quem se casaria.
Em meio a tantos pensamentos turbulentos, Rose acabou pegando no sono, sozinha na cabana.
Foi um sono inquieto. Imagens dos pais, do irmão e de uma floresta densa a perturbaram. Rose passou a madrugada rodando de um lado para outro na cama, até o dia amanhecer.
Preciso ir embora. Pensou consigo mesmo.
Rose se levantou e colocou sua capa novamente. Precisava voltar ao castelo antes que dessem por sua falta. Se apressou para voltar para o cavalo e correr em direção oposta por onde veio.
Estava quase chegando quando percebeu uma movimentação estranha em meio ao bosque. Rose pensou ter visto um homem em meio a clareira, vestido de forma estranha.
Um saqueador? Não, definitivamente não, ninguém seria tão burro de estar no meio da clareira pronto para ser pego desprevenido. Pedinte? Também não, apesar da roupa estranha, estava limpo e não parecia com os (poucos) pedintes que Rose já avistara na rua.
E então, ele a avistou, cambaleante se escondeu atrás de uma árvore, o que quase fez Rose rir de tão patético. Um homem daquele tamanho, se escondendo atrás dos galhos de uma árvore como se estivesse numa brincadeira de criança.
Rose se aproximou e anunciou em voz alta, cansada de esperar que ele notasse o quão patético era:
— Não pense em correr ou eu o matarei — Já estava com o arco e flecha em mãos. Rose era adepta da estratégia de que o ataque era a melhor defesa. Se fosse necessário, o mataria sem pensar duas vezes — Quem é você?
Houve um breve momento de hesitação da parte dele, mas logo murmurou sua resposta, com a voz trêmula:
— Scorpius.
Rose franziu o cenho.
— O que faz aqui? Como conseguiu entrar aqui?
Scorpius soltou uma lufada de ar dos pulmões. Parecia estar não tentando surtar de vez.
— Sinceramente eu nem sei onde ‘aqui’ é.
— Mais uma piada e você é um homem morto! — respondeu, Rose, sua paciência quase atingindo o limite.
E, por incrível que pareça, aquele homem trêmulo e patético teve coragem o suficiente para tentar nocautear Rose. Agilmente lhe agarrou pela cintura, levando-a ao chão num movimento único.
Rose pensou em um milhão de palavrões diferentes para proferir. Ela lhe desferiu um soco no rosto, fazendo-o choramingar como uma criança diante da pancada.
Definitivamente um estrangeiro, pensou Rose consigo mesma.
Rose não tinha tempo para ponderar sobre os possíveis perigos daquele homem então arrancou um punhal de sua bota e o proferiu logo abaixo de suas costelas. No local certeiro para não lhe causar nenhum dano grave ou morte.
Quem quer que fosse esse tal de Scorpius, ela precisava interrogá-lo.
Como esperado, ele desmaiou. Rose inspirou fundo e arrancou o punhal de suas costelas, tinha um pequeno veneno (não letal, apenas forte o suficiente para adormecer alguém) e estancou a ferida com um pedaço da camisa esquisita que ele estava usando.
Assim que cuidou da ferida, Rose o jogou sobre o lombo do cavalo (com muita dificuldade, pois ele era quase o dobro de seu tamanho). Sinceramente, não sabia de onde estava tirando tantas forças, mas de alguma maneira, conseguiu levá-lo para sua cabana.
Encarando o homem adormecido e ensanguentado em sua cama, o coração de Rose batia descompassado.
Algo diferente estava acontecendo, as cordas de seu destino estavam mudando.
O que quer que fosse aquele encontro, era seu. Não de seu pai, não do reino, apenas seu.
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