O Verão que Você me Deu
5 Quinto Sol
Notas iniciais
25 de julho de 2016
Então, se passou dois dias do festival de verão.
Dois dias que Sakura resolveu se isolar na residência Kagawa.
Dois dias que ela recusava ligações, mensagens e visitas de qualquer amigo e, principalmente, de Sasuke.
Dois dias que ela passava o tempo jogada no sofá da sala de estar, de fones de ouvido, escutando playlists de música para “bad”.
Dois dias que forçava um sorriso na presença do casal responsável por si.
Dois dias que ela se recordava de todos os momentos passado com Sasuke, desde o dia que ele lhe pediu para ser amigo no Facebook, até o beijo no festival que a fez ela se sentir completa.
No fundo, ela sabia que Sasuke já ocupava um espaço especial em seu coração e em seus pensamentos, mesmo antes de ficaram cara a cara. Esta constatação a apavorou, pois, isso queria dizer que ela havia se apaixonado pelo seu amigo virtual.
Suspirou.
E, o pior de toda aquela situação era que ela havia ultrapassado o limite e havia gostado do tê-lo feito. O caminho que seguiria se continuasse o beijando e, consequentemente, se entregando as sensações que ele lhe provocava, era sem volta. É por isso que se afastou, para evitar dores maiores.
Novamente, um suspirou escapou de seus lábios. Provavelmente o vigésimo sexto só naquele dia.
A campainha soou por toda a casa, anunciando que o delivery, pedido há alguns minutos pelo aplicativo, chegou. Ela não via problema em se entupir de comida, já estava triste mesmo.
Respirou fundo, tomando coragem para se levantar. Apalpou os bolsos traseiros do short que vestia e seguiu para a porta ao sentir o dinheiro.
Apertou os olhos pela forte luminosidade dos raios solares. Era a primeira vez que saia da casa de sua tia após o festival. Seguiu andando até a porta de madeira envernizada, ao abri-la, foi surpreendida por um abraço de urso. Não era o entregador que estava ali, o que fez seu coração disparar.
O cheiro único de Sasuke invadiu seu olfato e a sensação de aconchego tomou conta de si.
Foram só dois dias, mas sentiu muita falta dele e tudo o que ele proporcionava.
— Você tem que parar de fugir, Sakura. – O Uchiha disse em um tom exigente, apertando os braços ao redor dela. – Boba. – Murmurou.
— Mas... – Tentou formular alguma frase, enquanto ouvia os batimentos do seu coração ecoar por seu canal auditivo.
— Só me abraça, pequena. – Pediu Sasuke.
A expressão facial dele se suavizou quando os braços da Haruno o envolveram.
— Mas eu vou embora daqui a duas semanas... – Falou depois de engolir em seco.
— E daí? – A cortou e respirou fundo, para escolher as melhores palavras para se expressar. — Você já parou para pensar que pode aproveitar esse tempo comigo? – Suspirou. – Pelo menos, considerou os meus sentimentos e a mim? – Afrouxou o aperto ao redor do corpo feminino e se afastou o suficiente para poder encarar os olhos verdes. — A gente se gosta, não tente negar isso. Estas últimas semanas ao seu lado foram únicas. — Sasuke assistiu os olhos dela se arregalarem. — Então vou perguntar de novo, que mal tem em desfrutar desse sentimento?
— Nenhum. – Murmurou e, prontamente, recebeu um olhar em expectativa. – Mas eu serei mais egoísta do que já estou sendo.
— Por quê?
— Porque eu vou querer mais e mais disso e, é algo que eu não posso exigir de você. Além disso, a nossa amizade...
— A nossa relação já não é mais apenas amizade há muito tempo, eu não sei se você percebeu isso. – Encarou-a com os olhos gentis. — E, se você é egoísta, eu também sou, seremos dois egoístas. Eu prefiro ser isso, do que negar esse sentimento. Agora, por favor, para com as desculpas. – Disse, encarando fixamente os olhos verdes com intensidade. – Vamos passar esses últimos dias do nosso verão, juntos.
Sakura segurou a respiração ao ouvir o pedido. Os olhos ônix estavam resolutos sobre os seus.
“É melhor se arrepender de algo que foi feito, do que algo que não foi feito. “ – O conselho de sua melhor amiga, Luana, ecoou por toda a sua cabeça.
Esticou os braços em direção ao rosto do Uchiha, segurando-o com uma mão em cada lado, ficou na ponta dos pés e puxou-o para si. Ali estava a sua resposta.
O seu ‘sim’.
...
Ela ainda se sentiu constrangida quando chegou à área de camping de mãos dadas com Sasuke, naquela noite. Os olhares carregados de segundas intenções, mas que também se mostravam felizes, foram direcionados a eles, junto com comentários e piadas.
— Me desculpem por ignora-las. – Pediu, lançando um olhar arrependido às quatro amigas.
— Tudo bem. O importante é que você está aqui com a gente! – Ino disse em sua costumeira animação. – Só não faz isso de novo, ‘tá?
— Ficamos preocupadas! – Falou Temari num tom de repreensão, mas a expressão suavizou e a abraçou.
— O Sasuke cair de quatro pela Sakura eu já esperava, mas a Temari? – Kiba se mostrou perplexo. – Serei obrigado a me casar com uma brasileira. – E colocou os primeiros pedaços de carne na churrasqueira.
— Só se concentre em não torrar a carne, imbecil! – Esbravejou Sasuke enquanto montava a fogueira com Neji e Gaara.
Então, a noite foi aproveitada com provocações, carne ao ponto e risadas em volta da chama, que fazia a lenha crepitar.
Apesar de Naruto e Hinata serem considerados o casal mais adorável do grupo, este título passou, temporariamente, a Sasuke e Sakura. Pois, até os rapazes menos sensíveis perceberam a sintonia em que os dois se encontravam e acharam, um tanto quanto encantador as pequenas demonstrações de carinho que protagonizavam.
Como a cena de agora, onde a Haruno prestava bastante atenção no relato do primeiro camping que o Uchiha fizera com o grupo, enquanto segurava uma mini cenoura entre os hashis. No final, ela riu e corou quando ele colocou uma mecha de seu cabelo cor de rosa atrás da orelha, encarando-a com carinho.
Suspiros apaixonados foram soltos pelas garotas, alguns rapazes ficaram sem graça e outros desviaram o olhar de volta para o prato que seguravam.
Quando todos estavam satisfeitos, Gaara se sentou sobre o cajon, Sasuke e Naruto retiraram seus violões das cases, e Neji anotava as sugestões de músicas dos amigos.
A parte mais divertida da noite iria começar.
— Antes de vocês tocarem, a Sakura e o Sasuke poderiam cantar uma música brasileira. – Tenten deu a ideia e exclamações em concordância logo foram soltas.
— Tudo bem?
— Claro. Parece ser legal. – Respondeu a Haruno. – Você já fez isso alguma vez? – Mudou para a língua portuguesa.
— Sim, quando o Chorão morreu eu cantei umas músicas dele.
— Então podemos cantar ‘Só os loucos sabem’. – Continuou a falar em português.
— Não. – Sasuke negou, trocando o idioma para o português também, e voltou a ajustar as cordas do seu violão. – Eu pensei em algo mais velho. – Riu da própria piada, fazendo Sakura franzir o cenho em desentendimento. – O que acha de ‘velha infância’?
— Do Os Tribalistas?
— E não é que ela conhece MPB?
— Ei! – Lançou um olhar de irritação. – Pela lógica, sou eu que tenho que dizer isso. – Desfez a careta ao assisti-lo reproduzir a introdução da música no violão. – É uma ótima escolha, Sasuke-kun.
[https://www.youtube.com/watch?v=uJcnDgo5l10]
A Haruno respirou fundo e fingiu uma tosse.
— A música que vamos cantar é conhecida no Brasil inteiro, mesmo sendo de 2002. Ela é cantada por uma banda chamada Os Tribalistas... – E ela continuou com a breve explicação da canção em seu japonês.
...
Assim, Sakura mergulhou de cabeça em seu romance com Sasuke, passando o restante da semana em sua companhia, aproveitando ao máximo cada momento.
Foram ao karaokê e competiram para ver quem fazia mais pontos (26/07); ela acompanhou a mais uma apresentação da Kyuubi em um bar junto das amigas, Shikamaru, Sai e Kiba (27/07); participaram de um torneio de boliche acirrado e Sasuke mostrou que neste esporte não era um zero à esquerda (28/07). Por fim, na sexta (29/07), ela foi arrastada para a principal estação de trem de Tóquio logo pela manhã e andou de trem bala.
A sua adrenalina foi parar nas alturas quando sentiu o trem ganhar velocidade em poucos segundos, fazendo-a apertar a mão masculina. No entanto, a surpresa maior da Haruno foi quando viu onde o Uchiha a levou: a cidade de Kyoto, uma das cidades que conservou o ambiente tradicional japonês. E fora uma empolgante aventura para o casal.
Todos aqueles momentos foram registrados em fotos que eram armazenadas em uma nuvem. Esta por sua vez, era acessada pelos dois, assim tinham o acesso ilimitado das lembranças.
No sábado à tarde (30/07), eles decidiram fazer algo tranquilo, então optaram por uma cafeteria, pois ainda estavam cansados do bate e volta do dia anterior.
— Teve algum mal-estar depois daquele dia?
— Não, por quê?
— Porque nós tivemos uma semana bastante agitada. – Sasuke respondeu, se remexendo sobre a cadeira. O que arrancou um sorriso dela.
— Obrigada pela preocupação. – Apertou as mãos com os dedos entrelaçados em cima da mesa. – Foi só aquele dia mesmo, eu acho que me acostumei com o clima daqui.
— Já pode ficar aqui. – Sugeriu em tom brincalhão.
— Não é uma má ideia. – A Haruno entrou na brincadeira. – Talvez, eu estenda a minha estadia aqui até o inverno. – Fez uma expressão pensativa. — Sou louca para ver a neve mesmo.
— Então já vou reservar uns dias na estação de esqui de Hokkaido. – Deu uma piscadela.
— Maravilhoso! – E riram.
Porém, o clima descontraído logo se desfez, pois no fundo de seus corações, eles desejavam que isso se realizasse.
— Uchiha Sasuke? – Uma voz feminina soou atrás de Sakura. – É você mesmo?
Um misto de surpresa e embaraço estampou o rosto dele ao reconhecer a dona da voz. A Haruno virou o rosto para trás, no intuito de saber quem era. Se deparou com uma figura esguia e sorridente.
— Tomonaga Chizuru! – O rapaz se colocou de pé.
— É você mesmo, Sasuke-kun. Faz bastante tempo, né?! – A garota se aproximou da mesa deles.
— A última vez que nos vimos foi na nossa formatura.
— Sim, sim! – E desviou os olhos castanhos claros para ela. – Oh! Está acompanhado?
— Esta é a Sakura. – Sasuke a apresentou com um pequeno sorriso. — Ela veio do Brasil para passar as férias aqui.
— Hum, uma conterrânea. – Analisou-a. — Prazer, me chamo Tomanaga Chizuru. Sasuke-kun e eu estudamos juntos no último ano do ensino médio.
— Haruno Sakura, o prazer é meu. – Acenou com a cabeça.
— Posso me sentar com vocês?
— Pode. – Sakura respondeu, querendo ser cortês. Apesar de todos perceberam que ela e Sasuke estavam em um encontro.
— Senta aqui, Chizuru. Eu vou ao banheiro. – Cedeu o seu lugar à garota.
— Obrigada. – Sorriu. – Muito gentil da sua parte, Sasuke-kun.
Ele apenas acenou com a cabeça para em seguida, direcionar a sua atenção à Sakura.
— Já volto, enquanto isso pode conversar com Chizuru? Ela é legal.
— Certo. – Concordou e sentiu ele colocar uma mecha atrás de sua orelha antes de andar em direção ao banheiro.
A Tomonaga assistia toda a cena com as sobrancelhas arqueadas.
— Que lindo, ele é bastante atencioso até com a prima. – Comentou, apoiando o queixo sobre as mãos entrelaçadas.
— Eh? – Processou a frase. – Mas nós não somos primos.
— Não? Poxa, me desculpe. Eu pensei que vocês fossem, acho que me enganei.
— Sim, você se enganou, mas tudo bem.
De repente, o sorriso gentil de recém-chegada sumiu, dando lugar a uma expressão de desdém e, o ar receptivo dela evaporou. Por um momento, Sakura imaginou que viu um brilho maldoso nos olhos castanhos claros.
— Então, o que uma garotinha vinda de um país de terceiro mundo faz aqui no Japão?
— O quê?
— Sasuke-kun te pediu para conversar comigo. Só estou curiosa, porque não é todo dia que eu encontro uma brasileira com traços japoneses. – Falou, lançando um olhar de superioridade.
Então, Sakura percebeu que não imaginou o olhar maldoso vinda da garota, sentada a sua frente.
— Sasuke-kun também é brasileiro.
— Ele tem que ser desconsiderado, pois vive aqui há mais de dez anos, já é um japonês autêntico. – Endireitou as costas. – Mas é muito mais bonito. Você sabia que nós fomos namorados no ensino médio?
Com um sonoro ‘click’ em sua mente, a Haruno lembrou-se do distanciamento que sentiu dele ano passado, que foi justificado por ele ter começado a namorar uma garota muito bonita que estudava com ele.
— Não sabia. – Respondeu em um tom de voz controlado, mas por dentro atônita com a descoberta.
— Pois é, nós fomos considerados o casal modelo da escola. Diferente dos garotos daqui, Sasuke-kun não tem vergonha em demonstrar afeto, andar de mãos dadas pelos corredores ou ser abraçado. Acho que a gente se beijou na frente das pessoas mais de três vezes. – Contou num tom de voz nostálgica. – Ele fez isso com você também?
Sakura paralisou.
— Pela sua cara, nem precisa responder. – Soltou um riso anasalado. — Mas você não é muito nova para ele?
— Acho que isso não tem a ver com você, Tomonaga-san. – Respondeu, tentando ignorar a crescente sensação incômoda dentro de si. Pois, ela não podia ser afetada pelas palavras dela, de tal maneira que sentisse vontade de sair correndo daquela cafeteria.
Por que Sasuke demorava tanto?
— Oh! – Tapou a boca com a mão, em uma surpresa fingida. — Eu me esqueci de como vocês são para frente. – Falou venenosa.
Em um sobressalto, Sakura se pôs de pé, vermelha de raiva pela clara discriminação que acabara de sofrer. Quem Tomonaga Chizuru pensa que era?
— Eu falei alguma coisa de errado? – Fez-se de desentendida. – Se falei, me desculpe. Por que não volta a se sentar, Sa-ku-ra-chan? – Sorriu cínica. – Está chamando a atenção e incomodando as pessoas ao redor.
A Haruno fechou os olhos e contou até três mentalmente, puxou o máximo de ar que conseguiu para dentro dos seus pulmões e sentou. Estava furiosa, mas não podia ser deixar levar pela provocação da ex-namorada do Uchiha. Quando ele voltasse do banheiro, iriam sair dali, era só esperar.
Porém, a única coisa que ela não conseguiu suportar foi a dor que todas as palavras de Chizuru lhe causaram. Seu estômago se embrulhou quando viu o brilho maldoso nos olhos dela novamente.
— Não me chame pelo nome, não te dei essa liberdade.
— Me desculpe, achei que podia fazer isso por ser mais velha. Vou te contar uma coisa interessante para compensar a minha indelicadeza. – Se debruçou sobre a pequena mesa quadrada. – Sasuke-kun e eu perdemos a virgindade juntos. Foi maravilhoso. – Disse com a mão esquerda próxima à boca, como se estivesse contando um segredo.
Aquele foi o golpe final que não precisava ter sido dado.
Seus olhos se encheram de lágrimas, mas ela apertou os lábios e segurou a respiração para conter o choro, que estava prestes a ser exteriorizado.
Era a primeira vez que se sentia diminuída, desde que pisou em solo japonês. Para ser sincera, era a primeira vez que sentiu esta sensação.
...
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