O Verdadeiro Mundo Pokémon

21 Fim PARTE 2 — Grande Festejo


Notas iniciais
Aqui finaliza a parte 2 da história. Mais informações sobre a próxima nas notas finais! Boa leitura!

SEGUIMOS LUCY. ENTORPECIDO, não me importo com o destino para o qual ela está nos levando. A culpa por Roger estar morto é sua!, minha mente insiste em rugir.

Arraigado com suas garras afiadas, algo primitivo está em alerta: não pare de movimentar as pernas, apenas continue seguindo caminho.

É uma confusão dentro de mim, causando este denso torpor. Você o deixou morrer!

A minúscula parte de meu cérebro ainda consciente confia em Lucy; sei que nos levará para um local seguro, longe da bagunça no embate entre Revolucionários e Rockets. Então me deixo levar.

Sempre que uma ameaça se aproxima — seja um Pokémon ou os próprios integrantes de uma das causas —, Kadabra, Capricórnio e Cyndaquil nos defendem sem esperar voz de comando.

Um vento fresco me atinge e sopra da cabeça a neblina da desordem e progressivamente consigo pensar com mais clareza.

Lucy para em um espaço formado por três árvores quase coladas, joga a mochila no chão e cai junto, exausta.

— Mas que merda foi aquela? — resmunga Ben, meio perdido também. — Achei que estavam juntos.

Só então consigo notar que os irmãos Parricidas não estão conosco. Provavelmente fugiram da balbúrdia para o caminho que iriam seguir, para Nochelert, de encontro ao assessor Fred, prometendo o futuro sucesso da dupla.

Dói saber que posso não ver mais Helene, mas há algo também que traz conforto por continuar ao lado de meus dois amigos de jornada. Dói muito saber que não beijarei novamente sua boca, mas é gostoso ter ciência que permanecerei com meus companheiros. Dói demais saber que posso não ver mais seu sorriso, mas ter Lucy e Ben ao lado me traz alívio

É. Talvez o melhor foi ter sido puxado por Lucy e estar aqui, agora.

— A aliança foi quebrada; a voz de um dos Revolucionários que disse pelo megafone — Lucy dá uma pausa. — Aparentemente por Roger ter sido morto pelas mãos dos Rockets.

— Oh, que grande merda! Como se não bastasse as duas unidas, se bem que o grande problema são os Rockets, agora Toran terá que lidar com as causas em conflito… talvez isso perdure até que uma delas destrua a outra.

Tudo por sua causa, seu ser humano desprezível! A voz na mente ruge. Ela nunca tinha me insultado com tantofervor. E isso me assusta. O bolo formado na minha garganta não aguenta mais ficar entalado.

— Roger morreu porque eu não o ajudei! — urro. — Por que vocês tem dificuldade em entender, em afirmar?! Por que ficam fingindo que tudo isso não é minha culpa?!

É assim que começa o embate de gritos.

— O que é isso, Bernardo?! — Lucy carrega o cenho — Por que está gritando conosco?

— Por quê? Porque vocês fingem que a culpa não é minha, fingem estar tudo bem. “Vamos enganar o Bake, pra ele se sentir melhor”. — Tento imitar a voz de Lucy, sem sucesso no fervor da ira. — Mas eu não estou me sentindo melhor, nada está bom! — vocifero.

— Você tá enlouquecendo, Bernardo? — Ben entra na conversa. — Não faz sentido algum. Por um acaso foi você quem o amarrou de cabeça para baixo naquele porão?

— Não, mas se eu tivesse ajudado Ro…

— Bernardo, você parece estar ficando lunático! Não faz sentido, é a mesma coisa que o assassino jogar a faca ensanguentada em suas maõs e você confirmar que é o culpado.

Pensando bem, ele está certo. Mas não quero me dar por vencido.

— Nada disso, não estou dizendo que foi eu quem matou Roger — mudo completamente a minha recém reconhecida autoflagelação —, porém se tivesse ajudado, o coitado estaria vivo e o embate entre os dois R não estaria acontecendo.

Lucy me olha ainda com o cenho franzido. Parece tentar entender a minha lógica ilógica e desiste, esfregando o rosto com a palma das mãos.

— Fala sério. — Levanta as mãos e exclama aos céus: — Arceus, isso não faz sentido nenhum!

Penso nessa repentina crise que tive. E nas coisas que disse. Momento reflexão. O.k., ridículo. Sem sentido algum. O que é que está acontecendo?! Volte a pensar com clareza, Bernardo!

— Chega! — Ben transpira e cospe enquanto fala: — Querem saber de quem é a verdadeira culpa?

Ficamos em silêncio, surpresos com a reação de Benjamin. Dá pra ouvir sua respiração entrecortada.

— Tudo isso é por culpa de um poder que não sabe administrar os interesses de todos! Se não fosse o culpado inicial, nada disso estaria acontecendo, nenhum inocente fora das causas estaria machucado nesse exato momento em Agrimoo, talvez nem mesmo as duas causas existissem e entrassem em choque. Estou cansado disso! Cansado de ficar assistindo, esperando que alguém consiga finalmente mudar tudo. Eu... — ele engole a saliva com dificuldade. — Eu preciso fazer algo. Não posso esperar que as coisas se resolvam se eu não dou nem uma ínfima ajuda para que isso ocorra.

Ficamos surpreendidos diante de tal revelação. O que ele realmente está querendo dizer?

— Não vou tirar esta razão. Você está certo. Se quisermos mudança, precisamos ser o primeiro a dar o primeiro passo — Lucy dá o apoio. Concordo com a cabeça. Estamos de bem de novo, auxiliando Benjamin.

Ben fica em silêncio, concentrado em algo que revira sua cabeça. Está tomando uma decisão. Isso é muito claro pela expressão que esboça.

— Estive pensando há um tempo e com muita seriedade. E... deve ser a melhor saída. A que mais se adequa ao que acredito.

Esperamos inquietos que ele desembuche tudo o que deve ser desembuchado.

— Irei dar o primeiro passo. E venho decidindo isso desde a primeira vez que vi os cartazes nas paredes das cidades pelas quais passamos… Me juntarei aos Revolucionários.

Meus ouvidos captam um Ledyba que passa zunindo acima de nossas cabeças, deixando para trás um quase imperceptível aroma adocicado.

Incomodado com nossa repentina mudez, Ben continua:

— Vocês... é, vocês podem ir comigo, sei que entendem o motivo e... e assim continuaríamos juntos – ele morde o lábio inferior. — Vamos lá gente, juntos na mesma causa, lutando pelo mesmo motivo. Continuaremos amigos. Vamos… — termina, fracamente.

— Não iremos e nem você irá – impõe Lucy. — Vi o que aconteceu lá em Agrimoo com quem fazia parte da causa e não posso permitir isso. Não vou deixar se lançar para a possível morte.

— Não serei morto se lutar, treinar e souber me defender melhor. E um embate pode ser raro, pois o que os Revolucionários realmente querem, é serem ouvidos e que seus ideais sejam praticados, pois são os melhores para toda população.

— Você fala como se já fizesse parte da equipe deles — censura Lucy. — Parece que fizeram a lavagem sem percebermos.

— Já me considero membro. E nada de lavagem, é o que acredito, Lucy!

— Mas não é o melhor para nós nos separarmos agora, com toda essa bagunça…

— Lucy — chamo. Essa discussão entre os dois não faz sentido. — Não podemos interferir na escolha de Ben — As palavras doem ao serem pronunciadas em alta voz, mas são verdadeiras, então fazer o quê?

— Ele está certo — desabafa Ben. — Há poucos minutos você quis interferir na escolha dele ir com Helene para Nochelert e agora se torna um obstáculo para que eu não faça parte dos Revolucionários. — Os braços e mãos gesticulavam agitados, denotando sua inquietação. — Parece até que somos sua propriedade! Ninguém vai me impedir!

Lucy fita Benjamin com desapontamento no olhar. As lágrimas acumulam em seus olhos.

— Só quero o bem para vocês. E quero acompanhar esse bem. Se vocês irem, como ficarei bem?

Dessa vez uma dupla de Ledyba pousa no galho de uma das árvores em nossa volta e zunem alegremente um para o outro.

— Por favor, Ben — implora Lucy —, pense um pouco mais. Vamos… vamos caminhar só por essa rota, é o que eu te peço, só mais esta rota.

Ben não consegue olhar para a cara de Lucy. Mira o chão, o céu, os Ledybas, mas não Lucy que está desesperada e não para de disparar sugestões.

— E conversamos melhor quando montarmos acampamento para dormir e tenho certeza que encontraremos uma saída para isso. É… vamos arranjar um jeito de permanecermos juntos.

Está claro que Ben não quer discutir, mas Lucy parece não ver que ele já tem sua decisão. Ou vê e não aceita. Acredito mais no segundo caso. Com o contragosto estampado na cara e impondo muito esforço, Benjamin engasga:

— Tá bem.

LUCY CAMINHA LENTAMENTE, não dando outra opção para Ben e eu a não ser acompanhar seu ritmo. Ela conversa alegremente sobre situações engraçadas e boas recordações que vivenciou. Aos poucos, sua alegria nos contagia e quando menos percebemos, estamos compartilhando histórias de nossas vidas.

— ...e então meu vô foi me dar uma bronca na frente de todo mundo da nossa família, e sua tentativa de me humilhar só por eu ter comido mais rosquinhas que todo mundo na festa de aniversário do primo Wallace, foi por água abaixo quando ao abrir a boca para dar o sermão, sua dentadura escapou e saiu deslizando pela casa — relata Ben e rimos todos, juntos.

— ...lembro quando meu pai me colocava em seus ombros e descíamos as encostas cheias de neve das colinas em Montevasca e caíamos nela, fofa e branca… Era uma delícia — conto.

— ...quando brincava de mamãe e filhinho com Hud. Adorava arrumar o cabelo dele, fazer várias chiquinhas amarradas com elásticos coloridos, ha-ha! Ele ficava uma gracinha. — Lucy tem o olhar longe enquanto fala.

É dessa maneira que a noite nos cerca e por andarmos tão devagar com as recordações de companhia, não alcançamos nem metade da rota que é compridinha, segundo Benjamin. Entramos um pouco adentro da mata e montamos a barraca. Fazemos uma fogueira, comemos e continuamos conversando como amigos fazem. Isso dura até eu dizer que irei dormir, não por estar necessariamente com sono, mas cansado, enfadado depois do pandemônio de hoje em Agrimoo. Entro na barraca, mas Ben e Lucy permanecem do lado de fora, curtindo o calor da fogueira.

— Não mexam muito com o fogo para não fazer xixi durante o sono, hein! — aviso, dando um sorriso de boa noite.

Dormi sem notar que fui levado pelos sonhos que me envolveram cada vez mais em seus véus hipnotizantes, cada vez mais fundo, cada vez mais fundo. Mais fundo...

~×~

— ESTÁ PREPARADO? POIS VOU DESCER todo esse caminho... correndo! — exclamou Marcelo, rindo.

— Sim, pode ir, não tenho medo! — respondeu Bernardo, segurando-se com mais firmeza no pescoço do pai.

E então Marcelo, desceu veloz a colina, e chegando ao sopé, fingiu tropeçar e cair. Bernardo enterrou o rosto na neve límpida e gelada e levantou com a boca cheia dela. Ria descontroladamente.

— Essa foi a melhor descida de todas, pai! — Jogou neve para o alto.

Não houve resposta.

— Pai?

De novo, sem resposta. Seu pai tinha desertado. Abandonado os dois. Ele e sua mãe. Mãe? Onde ela estaria?

Olhou em volta e viu que estava cercado por um deserto de neve. O coração acelerou em seu peito, o ar enregelante inundou os pulmões e caminhou lentamente pelo seu corpo, congelando cada cantinho. É o fim. Até que uma voz muito longe desatou a esbravejar: Parece que não valemos nada, você vai nos abandonar!

~×~

ACORDO TREMENDO. Mas não é de frio, e sim de medo. Enquanto me separo do grudento torpor do sono, consigo ver e ouvir tudo pela abertura da barraca. Lucy e Benjamin discutem. E é ele quem fala agora.

— Não são vocês. Amo os dois, pra mim são como irmãos. Mas é a minha decisão, não consigo mais ficar parado. Se ficar, vou enlouquecer, explodir de ansiedade. Preciso pôr em prática minha escolha.

Essas últimas palavras calam Lucy. Kricketunes cricrilam dentro da mata.

Lucinda olha para o chão e as palavras seguintes saem com muito custo em meio ao choro silencioso que escapa.

— Pode parecer egoísmo meu querer prender vocês comigo, mas é tudo questão de amor, preocupação. Nos damos tão bem e acostumamos com a presença um do outro tão facilmente que... Não nos vejo separados… — Ela suspira com dificuldade.

Está tudo muito silencioso. Cada palavra pronunciada reverbera nos ouvidos.

— Bom, parece que não posso te impedir, mesmo. Entendo sua escolha e espero do fundo do meu coração que você a trilhe para um bem maior… — Lucy fala como se um impedimento maior estivesse fazendo de tudo para que ela não dissesse aquilo.

— Desculpe, não posso… já fiz minha escolha. — A voz de Benjamin é vacilante. Ele vacila dando um passo na direção de Lucinda, mas muda de ideia, com lágrimas enchendo seus olhos. — Desculpe, eu… eu… — Não termina a frase, pega sua mochila e corre.

Lucy fica parada, chorando e assistindo o amigo que foge. Não, foge não. Percorre seu caminho escolhido.

De início é estranho Lucy não gritar ou correr atrás de Benjamin para mantê-lo ao nosso lado. Talvez ela realmente tenha entendido e aceitado a escolha de Ben, por mais que doa, magoe e entristeça.

Saio da barraca e com calma a abraço.

No céu uma fraca explosão de fogos de artifício irrompe ao longe. Irônico. Parecem estar felizes, comemorando a ida de Ben.

Aos poucos Lucinda silencia os soluços, se acalma e olha direto em meus olhos, forçando um sorriso.

— Feliz Grande Festejo.

Grande Festejo! É isso! Esse é o motivo dos ocasionais fogos de artifício explodindo nos céus. Neste exato momento os iniciais minutos inauguram o primeiro dia de um novo ano. E as raras bombas mostram que os moradores de Toran não estão muitos animados com o novo ano. Não é pra tanto se considerarmos os tantos problemas surgindo...

— Obrigado por ter me puxado junto com você quando a briga dos dois erres explodiu — agradeço.

— Eu interferi na sua escolha de ir para Nochelert com Helene. — Lucy olha para o lado, mas não desgruda de mim.

— Mas obrigado por ter interferido. Não estava pensando com muita clareza naquele momento. Foi algo de impacto, o primeiro pensamento que me ocorreu. Graças a você, estaremos juntos até alcançarmos nossos objetivos nesta jornada. Obrigado, mesmo.

Lucy ri e volta a me abraçar, desta vez com mais força.

— O que acha de descansarmos um pouco? — sugiro.

— Acho que não conseguirei dormir. — Olha para mim. — E nem você, já que descansou. Estava ouvindo seus roncos.

Sorrio. Lucy tem razão. Mesmo se tentasse, não dormiria. Muita coisa pra pensar.

— Vamos seguir pela rota até a próxima cidade. —Lucinda propõe.

Assinto e então desmontamos a barraca. Depois que arrumamos tudo e colocamos as mochilas nas costas, seguimos viagem.

A noite está fresca. O vento traz ar puro carregado do cheiro úmido e fresco do verde que nos rodeia. Os sons de vários Pokémon noturnos enchem o bosque de vida. A lua ilumina timidamente alguns pontos do caminho. Lucy e eu conversamos sobre trivialidades. O clima está até bom se nos concentrarmos no ambiente, na caminhada e na conversa. Se penso nos últimos acontecimentos, o bom clima deixa de existir.

Em dado momento, uma silhueta feita de sombras desponta ao longe da rota. Está caída e com as costas apoiadas no tronco de uma árvore.

Interrompemos os passos.

— Será que está ferido? — pergunta Lucinda, inquieta.

— Não sei, mas em todo caso é melhor tomarmos cuidado, ele pode estar tentando nos enganar. — Sim, estou mais pessimista depois dos últimos eventos. Ou talvez seja somente o senso de alerta desperto. Ou é uma combinação das duas coisas.

Decidimos acercar devagar e com cautela. Conforme nos aproximamos, o brilho da lua revela a forma física do corpo, os traços do rosto escondidos por sombras e reflete o gel que ensopa os fios do cabelo penteado para trás.

Um novo ano. E ao que tudo se mostra, ele começou muito bem! Continuo sem respostas quanto à doença que minha mãe padece. Lucy não reencontrou seu irmão que lhe escapou em Luvander. Duas causas estão em conflito. Benjamin fez sua escolha e se aliará à uma dessas causas. E para finalizar, olhem só quem está na nossa frente! Aquele que junto com sua amiga de trabalho, quase me assassinaram. Um dos membros da Rocket que mais desprezo.

Jeremy.

Notas finais
A próxima e última parte da história se chamará DECISIVOS PASSOS. Nela não somente Baker, como também outros personagens narrarão! Poderemos ver um pouco mais de Lucy, o caminho tomado por Benjamin, mas não se esquecendo também de Hudson Gwinterland, Jorge/Oikos, Jane, Eva (mãe de Baker), Parricidas, etc. Até lá! o/ obs.: Aqui acabam os capítulos que eu já tinha feito e postado em outras plataformas de publicação online. A partir daqui será necessário esperarem até eu pensar no decorrer da história e arranjar um tempinho para escrever o próximo, haha!