O Verdadeiro Mundo Pokémon

20 Capítulo Bônus — O bobão amaldiçoado do casaco de Zorua


Notas iniciais
Quando terminei de escrever o capítulo e vi a quantidade de palavras, pensei dividi-lo em dois, para tornar mais fácil a vida de vocês, porém pensei melhor e vi que não havia a necessidade disso. Para os que não estão acostumados a ler algo mais comprido, vocês podem ir lendo de pouco em pouco, tudo bem? Prometo que essas 8 mil palavras não vão doer nadinha. Este capítulo é um pouco diferente dos demais, tem um tiquinho de cada coisa: um pouco obscuro/sinistro, rituais, pessoas se aproveitando de religião para se beneficiar, um levíssimo toque policial (que eu venero ♥), Nietzsche e uma busca pelo autoconhecimento sempre interrompida pelo próprio sujeito. Coisas que sempre procuro trazer para adicionar à história e mostrar que apesar de se passar em um mundo fantástico, não é muito diferente da nossa realidade. Boa leitura!

HOJE

~ EXPLOSÃO AÉREA ~

MOLEQUE BOBO!

Se não tivesse usado o Proteção para criar uma barreira em volta do telhado do Manicômio, como uma balaustrada, o idiota teria caído lá de cima e se esborrachado todo no chão!

O bobão achou que iria conseguir alcançá-lo. Era tão lógico! Jorge estava de helicóptero e o outro achou que poderia ficar em seu encalço, usando apenas seus não tão rápidos pés! Não era possível, o período que ficou isolado deve ter prejudicado ainda mais sua mente.

Não, pare de pensar nele!, matutou Jorge. Ele não significa nada para você!

Mesmo forçando a entrada de tais ideias na cabeça, os outros pensamentos o traía.

Desde que, do alto do helicóptero, perdeu de vista um raivoso Hudson correndo por entre as árvores, Jorge se pegava pensando no antigo... colega? A palavra soava amarga.

Se perturbava com a ideia da proposta que apresentou de abrir as portas do manicômio não tinha sido exclusivamente por causa de Hudson, por ter ciência de que ele continuava trancafiado lá. Será?

Não! Você agiu pelo simples propósito de ajudar a companhia Rocket! Aquele bobalhão não tem nada a ver com seus assuntos de trabalho!

— Está muito pensativo, pequenino — observou Jeremy da cabine do piloto enquanto manobrava o helicóptero, a atenção mantida à sua frente. Todos ali dentro usavam fones aeronáuticos. — Saia da entrada e feche essa porta e se não fizer isso virará um poço de gordura antes de tocar o chão da floresta e não me responsabilizarei pela fatalidade.

— Eu não me importo de empurrá-lo — resmungou Jane no banco ao lado.

Jeremy cravou os olhos na companheira, um sinal de aviso no olhar. Ouvira apenas rumores que diziam do que aquele garoto era capaz. Melhor não cutucar.

Jane deu de ombros. Odiava aquele pequeno insolente. Se tivesse oportunidade, estrangularia com prazer o fino pescocinho. Respirou fundo, imaginando seus dedos espremendo, o pirralho sufocando. A sensação de prazer se espalhou pelo seu corpo. Ela só parou de fantasiar quando percebeu estar machucando a si mesma, afundando as unhas nas próprias coxas.

Jeremy estranhou Jorge não responder à provocação de Jane. Era claro que o garoto estava perdido em seus pensamentos; fitava fixamente a paisagem abaixo deles, desorientado em seus devaneios.

‘Você sabe que liberou as portas do manicômio por ele. O caminho traçado, todo o plano, foi tudo por causa dele, para tirá-lo daquele lugar.’ Disse uma vozinha dentro da cabeça de Jorge.

Não é nada disso, eu… — murmurou, se perdendo no meio da frase, mas se recompôs: — Fiz aquilo pela causa!

Jeremy e Jane deram uma olhada desconfiada para trás, procurando a pessoa com quem o garoto papeava. Consequentemente, não acharam o ser específico, então se entreolharam e deram de ombros, já acostumados com a paranoia do pequeno infeliz.

‘Sabia o quanto ele deveria estar sofrendo preso no manicômio. Pare de tentar enganar a si próprio. Se continuar negando, tudo o que conseguirá será desilusão. So-fri-men-to, bobão!

— Nada disso, pare de ficar tagarelando mentiras! — Jorge arranhava as próprias têmporas, mas por sorte, tudo o que conseguiu foi pressão no crânio, pois já tinha roído há muito o restante das unhas.

‘Ha-ha! Não venha com essa! Lembra do prédio no Deserto do Vale, quando você devolveu os Pokémon e libertou os três amigos? Venhamos e convenhamos que você não se importa nem um pouco com as pessoas que te rodeiam. Sabemos que você só libertou a tríplice por causa dele, quando descobriu que a loirinha Lucy era a irmã.’

— O líder ia libertar os três, de qualquer forma… — Jorge estava desnorteado e com o olhar perdido. Não conseguia mais se defender daquela voz interior que tanto o irritava. E a maldita não parava de grasnar:

‘Até antes mesmo de você escapar daquele lugar branco, ele é o motivo de todos os seus movimentos até aqui. Você sabe disso. Negar não te matará.’

Hudson

— ME DEIXA EM PAAAAAAAAAAAAZ! — O garoto surtou, dava socos em sua própria cabeça.

Uma explosão de sombras jogou o helicóptero para o lado, desestabilizando-o, e Jorge foi lançado contra a outra extremidade, indo de encontro à janela, trincando-a. O menino cuspiu sangue.

O frio na barriga prenunciava a morte de um Jeremy que perdeu o controle do helicóptero, porém com muito esforço, o piloto conseguiu estabilizar o transporte aéreo. Olhou para trás e viu Jorge caído, com sangue escorrendo pela boca e nariz.

— Moleque! Você tá bem?! — gritou Jeremy, alarmado.

Oikos não respondeu. A batida foi como um ato de purificação. Sua mente se permitiu vagar. Os primeiros fatos lhe saltavam à mente. Quem ele era, da onde veio.

~x~

ANTES

~ LIBERTO ~

DEITADO, O CALOR DO CASACO DE ZORUA se espalhando pelo tronco, olhou para o céu cinzento e chuvoso… e lindo. Era delicioso sentir os pingos gelados de água que caíam das nuvens e batiam diretamente em seu rosto. Estava em liberdade! Finalmente liberto daquela prisão que ao invés de ajudá-lo a ganhar uma mente saudável — como o Dr. Louis fazia questão de sempre repetir em todas as consultas -, o enlouquecia ainda mais. Há quanto tempo não via o céu?

O casaco ainda estava inteiro. Não é que o guardaram bem no período em que esteve no manicômio? Durante sua fuga, tinha passado no galpão onde guardavam os bens dos pacientes e tomou de volta seu único pertence. Agora ali estava ele, em campo aberto, com uma imensa e fechada floresta ao seu lado com o incessante piar de seus pássaros.

Mesmo livre, seu sistema nervoso ainda estava em alerta. Mesmo fora do alcance dos enfermeiros, não podia ficar vacilando por ali como um bobão. Era melhor se levantar e caminhar até onde tinha prometido ir, ao lugar que tinha combinado comparecer; até porque, aquele grupo tinha ajudado ele a sair daquele lugar terrível.

E foi isso o que fez, porém ao se levantar, um jipe assomou no horizonte, vindo direto em sua direção. O ímpeto inicial de Jorge foi entrar na floresta, fugir daqueles que vieram para o levarem de volta para o local de onde tinha escapado. Mas algo dentro dele disse para se acalmar e aguardar o jipe se aproximar.

Ao ver o R desenhado na lateral do automóvel, Jorge suspirou, aliviado e esperou o carro frear ao seu lado. O motorista fez um movimento com a cabeça, mandando o menino subir. Jorge pulou para dentro e acenou para o espelho retrovisor interno de onde o homem careca o observava.

— Você deve ser especial para me ordenarem vir te buscar. O resto que se alia aos Rockets tem que se dirigir até um centro de alistamento caso queira…

Jorge não ouvia mais. Uma palavra foi suficiente para levá-lo para outro tempo… Outro mundo.

Especial…

~x~



~ OIKOS HEX, LAR DE FEITIÇO ~

— VOCÊ É ESPECIAL… — dizia Kindra. — Por isso se sente tão cansado, é porque está fazendo um grande trabalho para nossa seita.

Mesmo depois de todos aqueles anos, Oikos Hex não sabia exatamente onde estava, nem quem de fato era Kindra Hex. Sabia que aquela mulher de olhar alucinado e cabelo emaranhado, usando um vestido preto e longo, era boa, pois assim que despertava cansado – na verdade, Oikos sempre acordava cansado -, Kindra tentava ter uma conversa com ele, acerca de suas responsabilidades na seita – a conversa não ia muito longe, já que Oikos acordava muito cansado e não tinha pique para papear, só para voltar a descansar — e o colocava para dormir.

Kindra dizia que ele era “o incorporador”. Oikos não fazia a menor ideia do que era aquilo, queria simplesmente se aconchegar entre as cobertas e dormir, descansar a mente e o corpo que não lembrava de usar a ponto de estarem com tanto cansaço. Isso era o importante e mais emergencial: dormir.

“Como um incorporador, você não precisa de comida, nem das necessidades que qualquer outra pessoa necessita”, Kindra não cansava de mencionar. Oikos não se importava muito. Kindra ainda assim, era atenciosa e teimosa, e quando levava comida, ele comia somente uma colher para não parecer mal agradecido, tomava um copo daquele chá amargo e fedido que ela sempre trazia e voltava a dormir. Chá este que de início Kindra o obrigava a tomar por completo, até chegar os dias que ele bebia tudo sem que ela pensasse em implorar para que bebesse. “Você é o próprio alimento, nós da seita nos alimentamos daquilo que você nos proporciona em nossos cultos e rituais”. O interesse de Oikos para o que ela dizia era nulo, até porque, não entendia nada daquilo, mesmo.

— POLÍCIA DE TORAN, PAREM ONDE ESTÃO! — rugiu o policial com a arma apontada para o rosto de Kindra.

Oikos quase se engasgou com a comida que Kindra tinha acabado de colocar em sua boca.

— Não se enerve — murmurou Kindra -, tudo vai ficar bem.

O garoto que sentia uma pressão progressiva em sua cabeça até estar prestes a explodir, se acalmou e a pressão se foi.

Ele viu os policiais algemarem Kindra. Os tiras oslevaram para fora do quarto de Oikos. A fazenda onde os membros da seita viviam, estava apinhada de outros policiais, alguns deles algemando os fiéis de hierarquia alta na seita, enquanto os outros eram levados calmamente para as várias viaturas estacionadas no campo. O dia estava frio, o céu cinza, mas sem indícios de chuva.

Uma mulher de cabelo curto e loiro apareceu sabe-se lá da onde, se aproximou de Oikos e sorriu. Alisou os grandes cabelos crespos dele.

— Olá, pequeno. Eu me chamo Susie e vim te salvar desse pesadelo, te levar para um lugar bom, um lugar melhor.

Oikos olhou para ela, sem entender. Mal sabia ele que seu pesadelo começaria justamente depois do suposto salvamento de Susie.

A AGENTE DE INVESTIGAÇÃO da Polícia de Toran, Susie, caminhava em direção à sala minúscula de interrogatório. Olhou mais uma vez para o campo de observação que continha na ficha em suas mãos. O relato de um dos fiéis. Garoto amaldiçoado, com um espírito imundo alojado e preso, incapaz de se libertar do corpo do menino. Susie riu. A vida lhe ensinara a ser uma mulher cética. Acreditava naquela descrição tanto quanto na frase que o povo injustiçado adorava proclamar: A justiça tarda, mas não falha. Ela sabia que não era bem assim que as coisas funcionavam em Toran, trabalhava com aquilo diariamente.

Entrou na salinha. Jeff, outro agente, já estava lá dentro, esperando a colega de trabalho.

O pequeno garoto estava acuado na cadeira, abraçando as pernas contra o peito, a cabeça baixa.

— Boa noite — Ela analisou a ficha na prancheta, procurando o nome da criança. Nunca guardaria aquele nome complicado na cabeça. — Oikos Hex?

O menino levantou a cabeça, mas permaneceu estagnado. Susie se sentou de frente para ele, com somente uma mesa de metal os separando.

— Oikos… o que esse nome significa? — perguntou ela, com uma sugestão de sorriso nos lábios pintados de vermelho. Susie sabia o significado do nome, estava tudo no prontuário em suas mãos. Oikos, Lar. Hex, Feitiço. Lar de Feitiço. — É um nome tão… diferente.

O garoto manteve os olhos focados na agente. Susie não desistiu, continuou tentando manter o nível de conversa descompromissada:

— Disseram que você não comeu nada nesses cinco dias que esteve conosco. Como consegue se manter de pé?

As palavras de Kindra reverberaram na cabeça do garoto. “Você é o próprio alimento.” Oikos olhou para a mesa riscada. Recordava do que tinha acontecido depois que Susie o tirou da fazenda da seita Hex: Entrou no carro de polícia, eles o levaram até a delegacia da cidade de Rocgris, onde o manteram em um quarto que tinha apenas uma cama com colchão fino, uma pia minúscula e um solitário vaso sanitário no canto. Durante os últimos cinco dias, levaram comida, mas ele não comeu; tentaram leva-lo para tomar um pouco de sol e respirar ar puro, mas ele não saiu.

— Oikos, você também não dormiu nos últimos cinco dias — Susie tentou novamente, observando os círculos negros em volta dos olhos do garoto, semelhante à um Zigzagoon, o Pokémon guaxinim. Como esperado, Oikos não respondeu. A agente apurou o olfato e também confirmou o que já haviam lhe relatado: Oikos também não tinha se lavado desde que chegara ali. Susie rendeu-se e pulou para o assunto para o qual estava ali, o assunto que queria tratar.

— O que Kindra fazia com você?

Oikos, visivelmente mais desconfortável à menção do nome, se encolheu mais ainda em sua cadeira Só se ouviam as próprias respirações no ambiente pequeno e claustrofóbico. A agente, aproveitando o descômodo do menino, largou a ficha, juntou as mãos, apoiou os antebraços na mesa de metal fria, se inclinou para frente e olhou diretamente nos olhos de Oikos.

— Kidra te usava. Sem você saber.

Oikos arregalou os olhos.

— Não… quando eu acordava, ela tava do meu lado pra me dá comida e conversar.

Finalmente abriu a boca. O garoto não sabia de nada, era um pequeno inocente. A agente olhou para o outro sujeito encostado no canto da sala, pronto para anotar tudo de importante que podia acontecer.

— É isso o que ela quer que você pense – Susie foi direta. Agora que conseguira chamar a atenção do menino, não permitiria que ele se trancasse em seu casulo novamente. Oikos olhava confuso para Susie, então ela continuou: — A seita Hex é uma doutrina que crê na magia negra e se beneficia dela, fazendo feitiços para seu próprio benefício. Até aí tudo bem. O porém começa quando Kindra foi denunciada por escravização de fiéis, falsidade ideológica, lavagem de dinheiro, e, no seu caso, ao qual você é a vítima... subtração de incapaz.

O garoto a fitou, sem entender. Houve outro momento de quietude onde a agente certificou que ele não sabia de nada da própria história. Susie não esperava que um dia teria que contar a história de vida de alguém para este próprio alguém.

— Kindra era enfermeira na Maternidade de Nochelert e em seus últimos dias de emprego, testemunhas declaram que ela começou a enlouquecer, dizendo que uma criança prodígio estaria para nascer ali. Infelizmente, foi naquela maternidade que sua verdadeira mãe deu à luz você; assim, Kindra te sequestrou.

Oikos gemeu. Se controlou para não chorar.

— Quem é... minha mãe?

Susie não respondeu, continuou com o relato:

— Ela sumiu do mapa e desde então a Polícia de Toran está tentando localizar essa mulher. Porém, assim que a localizamos, mal imaginávamos que ela teria acumulado mais crimes do que apenas o de subtração de incapaz.

"Após o sequestro, Kindra se movimentou até Rocgris, e nos últimos nove anos, formou uma seita que de início não resultou em popularidade alguma, porém aos poucos cresceu e se tornou essa organização criminosa que é hoje, mas que felizmente já detivemos e paramos os movimentos.

“Os fiéis eram persuadidos a irem para a fazenda da seita, plantada na cabeça a ideia de viverem em situação de igualdade, vivendo em moradas compartilhadas. Acontece que, em sua esmagadora maioria, as pessoas às quais Kindra e seus comparsas ganhavam, se encontravam em situação frágil, com problemas familiares, por exemplo. A ideia de que seriam recompensados de alguma forma, seus problemas completamente resolvidos era muito pregada também. Os devotos eram seduzidos a doarem todos os seus bens, na promessa de um bem maior, era dessa forma que pregavam a igualdade absoluta, tudo… os bens, quero dizer… eram de todos, transformando a comunidade onde viviam, justa. Inicialmente, os bens doados realmente foram usados para melhorar o ambiente em que viviam, sendo o dinheiro gasto com o básico que o humano necessita em seu dia a dia. A verba e os bens doados, conforme mais fiéis chegavam, foram aumentando e não havia finalidade para aplicá-los. Foi então que Kindra arranjou aliados e juntos começaram a fazer a lavagem de dinheiro, se beneficiando das posses dos outros."

— Q-quem... é minha mãe? — tremendo, o garoto indagou novamente.

Susie ignorou a pergunta outra vez, pegou uma folha da prancheta e a analisou.

— E você estava no meio de tudo isso, sendo usado sem saber. Os relatos que temos, é que você seria o incorporador da seita, aquele que recebia os espíritos que falavam através de você. Nos disseram que te levavam desacordado aos cultos e te colocavam em volta de um círculo formado por Litwicks por onde os espíritos encontravam um caminho mais fácil para se agregarem a você. Você servia como um canal de transmissão de mensagens, onde os fiéis ficavam sabendo se o que estavam fazendo era correto ou não, ouviam conselhos, algumas raras e simples predições... basicamente, Oikos, você era como um Oráculo, igual ao de Delfos, o Oráculo dos Hex.

"Assim que os espíritos desincorporavam e os ritos findavam, você continuava desacordado. Te levavam ao seu quarto, onde Kindra te acordava, alimentava e dava um suposto chá que te induzia a um estado crítico e profundo de sonolência, já que era feito… o chá, quero dizer... da mistura de cogumelos retirados de Paras com Habilidade Efeito Esporo*; Pó do Sono extraído de Pokémon capaz de executar o movimento; e outras variadas ervas, algumas conhecidas por ajudar a dar sono, outras… — a agente retesou, antes de dizer a palavra — alucinógenas, que, com o uso frequente, causam distúrbios e esquecimento definitivo, sendo esta futura causa multiplicada por três, já que a mistura dos outros ingredientes intensifica o poder do chá.

“Tememos que você tenha adquirido algumas dessas consequências e precisamos fazer alguns exames para ter certeza de que está tudo o.k. contigo, já que você está há 9 anos com Kindra e não sabemos quando foi que ela começou a te drogar. Se foi há muito tempo, precisamos recorrer para que você não sofra tanto”

Para que você não sofra tanto. Ela disse certo, aquilo já era um sofrimento, um tormento. O que faria aquele fardo reduzir de peso? Exames? Remédios?

Tudo o que ela dizia, atingia Oikos, agora ele entendia o motivo pelo qual sentia tanto sono e cansaço. Kindra o drogava. E isso o enfureceu, porém algo mais urgente o incomodava e Susie não lhe tirava esta inquietação, não respondera a única pergunta que ele fizera.

— E talvez seja este o motivo das suas noites mal dormidas nos últimos dias, por seu corpo estar sedento, dependente, pedindo o consumo do chá.

A única pergunta que ele fizera. Ela não respondera.

— Por… por favor… — Oikos gemeu, a voz embargada. As lágrimas escorriam pelas bochechas. Somente assim conseguiu chamar a atenção da agente. — Minha mãe tá’qui?

— Nós… — Susie vacilou. Olhou para a ficha e voltou a falar: — Nós não sabemos quem é sua mãe, Oikos. — Suspirou. — Mas irei buscar a informação para que você a reencontre.

Oikos se permitiu, por um momento, sentir gratidão e esperança, porém aos poucos, a desconfiança tomou conta de seu ser. A hesitação de Susie não passou despercebida aos seus olhos.

“Me chamo Susie e vim te salvar desse pesadelo, te levar para um lugar bom, um lugar melhor.”

‘Ela também disse que ia te levar pra um lugar melhor e olha só onde cê tá agora…’ Uma vozinha veio do fundo de sua mente, era a primeira vez que a ouvia. O garoto se encontrava em tal torpor que não se importou pela voz que sussurrava dentro de sua cabeça e se deixou levar. Lentamente, se aprumou na cadeira e cravou os olhos em Susie.

— Cê não vai achar minha mãe. — As lágrimas secaram em suas bochechas, agora eram como leito seco, apenas o rastro de um caminho por onde um dia correu água. Seu olhar era meio perdido, meio acusatório. — Assim como cê falou que ia me levar pra um lugar melhor, agora tá prometendo que vai procurar minha mãe. Tá mentindo.

Susie riu. O garoto era esperto, bom em analisar as pessoas.

— Não estou mentindo, temos em nossa companhia profissionais capacitados que, com absoluta certeza, encontrarão qualquer um que, originalmente, faria parte de sua vida se Kindra não tivesse te raptado. Porém, preciso de uma troca de favores. Nós o ajudamos a encontrar sua família e você nos auxilia, acusando Kindra.



~ DESCOBERTA DE ROCGRIS ~

A CONFUSÃO ERA COMPLETA. Ali estava ele, atordoado, sem saber para onde ir.

A placa no cartaz dizia, em letras garrafais: ROCGRIS, A CIDADE CINZA.

As construções à sua volta eram todas cinzas. Em algum momento, Oikos entrou em um emaranhado de barracas com cobertura que se espremiam aos dois lados da rua, com uma imensidão de pessoas caminhando no meio, se debatendo como uma legião de formigas atabalhoadas. As pessoas atrás das barracas esgoelavam o que tinham para vender e as do meio berravam entre si.

O garoto, de tão desnorteado, não se importunou com o pandemônio que se desenrolava. A visão estava turva, a cabeça latejando, a boca seca e com o gosto metálico do sangue que cuspiu depois de ter se esforçado tanto. Plasma este que o fez recordar o que tinha acontecido há pouco...

SUSIE ESTAVA MENTINDO, disso ele tinha certeza. Ele gritou, gritou e gritou, até que o que parecia ser sua própria sombra, se arrastou até se encontrar com a de Susie, que retesou, os olhos escancarados saltando veias vermelhas, a boca se retorcendo de forma medonha, numa mistura de espanto e dor. Seu rosto começou a tremer, e de suas têmporas os finos vasos sanguíneos se projetaram, roxos. Seus olhos lacrimejaram, seu nariz começou a gotejar um estranho líquido arroxeado. Até que, depois de tanta pressão interna, a agente caiu dura em cima da mesa, como uma marionete sem seu marionetista para lhe dar vida.

Jeff, o agente que anotava informações em seu caderninho, encarou o garoto com um pânico mortal. Fez menção de sair correndo, mas a sombra que se movia, escorreu pela boca de Susie e se materializou na frente do homem. O agente se agarrou à parede e sua calça, aos poucos, se encharcou do líquido vergonhoso que lhe escapou facilmente diante do terror.

— Ge… — murmurou ele, a boca tremelicando. — Gengar

O Pokémon encostou uma de suas mãos no antebraço de Jeff, e imediatamente uma onda de arrepios tomou conta de seu corpo inteiro. Sem forças, ajoelhou-se diante do assustador Pokémon. Gengar colocou a língua para fora, provocando o pobre homem que soluçou, até dar lugar ao choro. O Pokémon lambeu o rosto do agente que tombou, os olhos abertos, o corpo tremendo, parecendo sentir muito frio. Gengar fitou Oikos com seu olhar vermelho e raivoso e voltou a ser trevas, se agregando à sombra original do garoto que, por sua vez, assistia tudo em um estado onde se misturava mais inconsciência que consciência. Nesse ínterim em que Gengar se desuniu de dentro de si, sentiu como se tivesse perdido metade de sua alma, metade de sua força vital.

Quando voltou a si, percebeu o nariz escorrendo um líquido gosmento, vermelho, a garganta quase se sufocando de sangue.

A ficha que Susie segurava o tempo todo estava livre, no meio da mesa. Oikos a puxou e leu alguns trechos, com sua dificuldade e enorme falta do hábito de leitura.

MÃE BIOLÓGICA... PROFISSIONAL DO SEXO... DE ACORDO COM ORG... PROTEÇÃO DE CRIANÇAS DE TORAN... SEM CONDIÇÃO DE CRIAR A MENCIONADA CRIANÇA... POR SE SUBMETER À VIDA DE PROSTITUIÇÃO... NÃO PODE OFERECER BENEFÍCIO ALGUM À CRIANÇA EM SUA CRIAÇÃO E FORMAÇÃO COMO SER HUMANO APLICADO À SOCIEDADE... MÃE NÃO ESTÁ DISPOSTA A ABRIR MÃO DE SUA ATUAL VIDA PARA CUIDAR DO FILHO.

FIM.

OIKOS, ENTÃO MEIO DA FEIRA DE ROCGRIS, longe do Centro Policial para o qual Susie havia o levado depois de tirá-lo da fazenda dos Hex, estava ciente de que o posto policial ficava a poucos minutos dali. Em um piscar de olhos, dariam sua falta e correriam atrás dele. Era melhor fugir.

Sua verdadeira mãe não o queria? Sim, era fato. Estava tudo escrito naquela maldita ficha! Aquilo o atormentava, o deixava sem chão? Sim, era fato. Afinal, a quem recorreria agora que estava sozinho naquela grande região?

Mas não podia ficar, precisava sair dali. Pior do que não ter ninguém a quem pedir ajuda, era voltar a ficar preso. Preso por Kindra, preso por Susie, e, se ficasse ali parado, preso pela Polícia.



~ GAROTINHO LOIRO ~

SUA ETERNA CAMINHADA NÃO CHEGAVA AO FIM, e em uma delas, chegou ao bosque que delimitava uma gigantesca mansão. Um garoto que estava brincando naquela pequena selva com seus brinquedos, perto da cerca que dividia o bosque da mansão, se assustou quando viu Oikos surgir dos troncos das árvores.

— E-ei! – gritou o garoto assustado. – Eu já ouvi falar das pessoas do seu tipo, não se atreva a se aproximar!

Oikos mediu de cima a baixo o menino de cabelo loiro escuro. Sua roupa era alinhada e exalava limpeza mesmo da distância que se encontravam um do outro. Oikos olhou para si mesmo e viu sua roupa desgastada e rasgada, um mal cheiro terrível subindo ao seu nariz. Tocou o oleoso cabelo crespo, tão grande que se assemelhava a uma samambaia negra. Fez uma careta quando comparou a enorme diferença que havia entre os dois. O que eu virei?, pensou.

O menino loiro olhou de forma curiosa para Oikos.

— Meu pai disse que existem umas pessoas sujas que não são capazes de arranjar trabalho e por isso estão sempre pedindo comida e quando não conseguem, roubam de nós que trabalhamos, se bem que na verdade quem trabalha aqui é meu pai, mas você está entendendo, só que a coisa piora quando não damos o que eles querem e eles podem até nos ameaçar com uma faca e nos machucar e...

— Cala a boca! – rugiu Oikos. – Cê fala muito.

O menino que morava na mansão, jogou a cabeça para o lado, analisando Oikos. Franziu o sobrolho.

— Você é triste – ele pegou seus brinquedos, guardou dentro da mochila e a colocou nos ombros. – Eu sei quem é e quem não é triste. Minha irmã fala isso para mim, que eu tenho o dom de conhecer o coração das pessoas – terminou, afirmando com a cabeça, como se tentasse convencer a si próprio das palavras ditas.

— Triste? – Pensativo, Oikos olhou para as palmas de suas mãos. – Eu não sou triste. – Cerrou os punhos. Revitalizado. – Cê não sabe o que tá falando, Garotinho Loiro.

O outro riu.

— Você fala engraçado, parece um ogro das histórias que leio. Da onde você vem? De uma região bem longe de Toran? A minha professora disse que existem várias regiões e dentro delas cidades e vilas, e cada uma têm um jeito peculiar de falar... – Ele tirou um livro de dentro da mochila e o estendeu à Oikos. – Mas aqui está a solução para esse jeito grosseiro que você fala. Quanto mais livros você lê, seu vocabulário ficará melhor e mais rico. Esse aqui você pode me devolver dentro de... deixa eu ver... isso, em uma semana, daí nos encontramos de novo aqui e você me entrega de volta.

Oikos mirou o livro, parecia querer saber o que fazer com o objeto estendido.

— Oh, você não sabe ler...? – perguntou o Garotinho, retraindo o braço. – Como é seu nome, mesmo?

— Oikos... Sei ler, Kindra me ensinou... –Antes de começar a me drogar, sua mente concluiu a frase.

— Quanto nome engraçado, há-há! – Limpou lágrimas de alegria inexistentes nos olhos. — Kira é sua mãe?

— Não! – Oikos vociferou, mas se arrependeu no mesmo instante de demonstrar tão facilmente e abertamente seus pesares, seus sentimentos. Olhou para o chão. Nem se importou de corrigir o nome que o menino tinha dito errado. – Não... Não sei quem... é minha mãe.

Um silêncio caiu entre eles. Os Pokémon pássaros piavam no interior do bosque. Oikos examinou o menino à sua frente. A pele alva e limpa, os cabelos brilhantes e bem cuidados, os sapatos lustrosos. Porque tinha dito aquilo para um riquinho metido à sabichão?

— Agora eu sei porque você é triste – afirmou o loiro, colocando o livro nas mãos de Oikos. – É porque não tem mãe.

Oikos permaneceu calado.

— Ei, Oiculos— Garotinho Loiro sorriu fracamente –, você não precisa ficar envergonhado por ter revelado algo assim ou por querer ser igual à mim... Sou igual à você. Eu também não tenho minha mãe. Também sou triste.

NO DIA SEGUINTE, OIKOS VOLTOU ao bosque e Garotinho Loiro estava lá, brincando com seus brinquedos.

— … vai ter que morrer pela equipe! Ptiu, ptiu! Aaaaaaah, toma essa! !

Oikos se aproximou sorrateiramente.

— Trouxe seu livro.

O loiro pulou, jogando seus bonequinhos para o alto e se colocando em uma posição de combate engraçada. Ao distinguir que era Oikos, relaxou e soltou o ar pela boca, restabelecido.

— Uau, estou impressionado. Dei uma semana e você o leu em apenas um dia! — o menino estudou Oikos atentamente. Havia algo diferente. O cabelo crespo estava arrumado, puxado para trás e amarrado em um rabo de cavalo, mas continuava cheio na parte de trás. Também estava limpo e... de roupa nova? — Ah, não acredito que você fez isso! — gritou, puxando a orelha do outro. — Você nunca mais vai roubar alguém, entendeu?

Oikos grunhiu de dor e concordou. O Garoto Loiro largou a orelha e o outro a massageou, tentando em vão aliviar o sofrimento. O riquinho pediu que Oikos esperasse e saiu em direção à sua casa. Voltou alguns minutos depois com uma muda de roupa limpa e cheirosa nas mãos.

— Da próxima vez, tire a etiqueta da roupa — resmungou, arrancando o papelzinho com preço pendurado na camiseta. Cruzou os braços — Se precisar de mais, tenho um montão lá dentro de casa.

Oikos estava embaraçado.

— Briga.. Obrigado. Cê, arrã, quer dizer, você é uma pessoa boa. Obrigado por me ajudar — Oikos se esforçou para falar corretamente.

Garotinho Loiro desfez o cruzar de braços, feliz por ver que o novo amigo estava se esforçando para dizer as palavras do jeito certo.

— Seu bobão— disse o loirinho -, ficou muito forçado, eu já disse, pra soar natural, só lendo muitos livros. Vou pegar outro para você.

PASSARAM-SE OS DIAS E OS DOIS continuaram se encontrando. Brincavam, liam e compartilhavam experiências de leitura, chamavam um ao outro das variáveis de bobo, mas acima de tudo, conversavam muito.

Em um dos dias, no caminho para a cerca, Jorge tropeçou em um montinho de terra. Curioso, escavou e caiu para trás, estupefato, quando viu o corpo de um Zorua com os olhos vidrados, os pelos sujos de terra. Quando Kindra não o drogava e ele participava dos cultos como um fiel normal, Oikos tinha visto sacrificarem Pokémon, os monstrinhos sofrendo nas mãos do sacrificador, mas aquilo era diferente. Alguém tinha matado o Pokémon por nenhum motivo aparente. Não foi para fim alimentício, pois ele estava fechado, os órgãos internos intactos; não foi para fim religioso, pois ele não estava estripado.

Ao tocar o Zorua para enterrá-lo novamente, sentiu a emanação de energia Noturna que ainda se prendia ao corpo.

Chegando na cerca, Hud estava agachado, chorando.

— Pode parar de chorar, pequeno e bobo frangote, a cavalaria chegou! — Oikos irrompeu, gritando, mas ao ver que o amigo continuou chorando, captou que ele realmente não estava para brincadeiras. — Que se passou?

O menino fungou e contou que, outra vez, seu pai tinha dado sumiço em mais um Pokémon que ele tinha capturado. Esse devia ter sido o décimo e, dessa vez, foi um Zorua. Um arrepio percorreu a espinha dorsal de Oikos quando ele se lembrou dos olhos opacos e sem vida do Pokémon raposa. Finalizando o relato, Garotinho Loiro pareceu chorar com mais vontade.

— Eu só queria achar minha mãe, porque assim meu pai seria um homem mais calmo e nos amaria mais… — muco escorria pelo seu nariz.

Oikos sentiu a sinceridade nas palavras e o peso da dor do amigo encurvara-lhe as costas. Uma gigantesca força de vontade de ajudar o companheiro preencheu seu interior e estimulou seus sentimentos. Inconscientemente, Oikos se achegou e apoiou as mãos nos ombros do amigo; fez olhá-lo nos olhos. Hex sabia mas não sabia o que estava fazendo; só tinha certeza de que aquilo era o certo. Em um simples e leve encostar de lábios, Oikos conseguiu ver o traço de sombra escapar por sua boca e deslizar para dentro da do amigo; no mesmo instante sentiu um pequeno pedaço de si ir embora e ser absorvido por Garotinho Loiro.

O riquinho se afastou, assustado. A reação surpresa não foi pelo encosto dos lábios e sim pelo revolver dentro de si, algo procurando o local mais confortável em seu interior para repousar. Uma repentina tosse iniciou-se, fazendo seu corpo chacoalhar em espasmos violentos a cada tossida; sangue misturado com fluido roxo era cuspido a cada expectoração.

Oikos correu para ajudar. Estendeu os braços para o Garotinho e sua sombra se tornou maleável, se dividindo em duas. A metade que se separou, tomou forma e virou Gengar, que também estendeu os braços para o garoto, ficando envolto em aura arroxeada. O riquinho se engasgou e caiu de joelhos no chão. Extraída de dentro de seu corpo, uma líquida bolinha roxa de veneno saiu pela boca. A esfera flutuou em direção à boca de Gengar que a engoliu; O Pokémon se dissolveu novamente nas sombras de Oikos, que ficou momentaneamente atordoado, sem forças.

Após um longo tempo respirando com dificuldade e ouvindo o som das folhas das árvores se embrenhando, Hex decidiu quebrar a quietude:

— Des-desculpe — murmurou ele, se apoiando no tronco de uma árvore -, alguma coisa só me disse para fazer isso, eu só quis…

— Tudo bem — acalmou Garotinho, os braços trêmulos, tentando erguer o corpo -, você só quis ajudar… — Engoliu em seco. — Obrigado.

Mas algo tinha mudado dentro de Garotinho. Com o passar dos dias, não percebeu seu olhar tornar-se distante, perdido e sem brilho; a cor da pele um tom mais pálida, os sentimentos difusos, o coração rancoroso.

OS MAUS RELATOS NÃO PARAVAM de crescer e crescer. Garotinho Loiro dizia que começara com pesadelos durante a noite, quando, dormindo, gritava acordava toda a mansão.

As tremedeiras começaram brandas e se tornaram quase incontroláveis. Não conseguia segurar o garfo para comer, o livro para ler. Os sentimentos estavam em guerra, avassaladora a saudade da mãe que não lembrava o rosto.

Oikos se encontrava em um nível profundo de arrependimento. Sabia que o corpo estava rejeitando o novo hospedeiro. Tentou, sem sucesso, sugar novamente aquele pequeno pedaço de seu poder que doara para o amigo. Estava mais do que impotente não podendo reverter o que tinha feito com Garotinho.

Em certa tarde, riquinho estava relatando o pesadelo que tivera durante a noite, quando repentinamente parou de falar. Cravou os olhos nas mãos que a cada segundo que passava, tremiam em gradação cada vez mais agravante.

— Está acontecendo… — arquejou Garotinho Loiro. — Mas desta vez… Ugh! Está pior… não consigo, aaaaaaaaaah! — urrou, muito alto, e caiu no chão, debatendo e arranhando-se, contorcendo e berrando. Estava completamente fora de controle.

— Garotinho? — perguntou Oikos, chacoalhando os ombros do amigo, mas levou um safanão involuntário e se afastou.

Os gritos estavam mais altos, o corpo parecia sofrer mais e mais a cada segundo que passava.

Alguém saiu da mansão e parou à sua frente, tentando descobrir a direção de onde vinham os urros. Assim que localizou, saiu correndo na direção onde os dois amigos estavam. Oikos olhou alarmado para a garota de cabelos loiro escuro que vinha voando em seu sentido. Sem saber o que fazer, fugiu por entre as árvores, ouvindo a menina gritar pelo nome do Garotinho, chorando com a cena que via.

— Hudson, Hud! Fale comigo, Hud…

Com lágrimas embaçando sua visão, Oikos tropeçou em algo e caiu, comendo terra. Parte do corpo do Zorua morto fora desenterrado com o encontrão que Oikos dera no montinho de terra.

Ali, tombado, remoendo seu cérebro, prometeu nunca mais visitar o amigo. De certa forma, ele mesmo era o culpado pela situação que Garotinho estava passando naquele exato momento.

Fato engraçado era que só então descobrira o nome de Garotinho Loiro.

Hudson.

Olhou para o corpo do Pokémon sem vida e a curta ligação que o monstrinho teve com o amigo, chamou-lhe a atenção. O pai de Hudson cortou a relação de Zorua com o filho. Também era culpa do pai que Hudson estivesse tão infeliz. Já não tinha a mãe e o pai não lhe dava a mínima atenção, piorando assim a vida do garoto. O pai foi o responsável por Garotinho estar chorando aquele dia; quem deu sumiço no Pokémon raposa, e justamente pelo ato do pai que Oikos doou a pequena parte de seu poder para o amigo, na falha tentativa de ajudar. Então... O culpado por tudo aquilo sempre fora o pai de Hudson. O que cometera o primeiro crime. O criminoso. Desde o início sempre fora o pai.

O corpo do Zorua fedia um pouco, mas ainda estava inteiro, e a emanação Noturna, ainda que fraca, estava lá, Oikos podia sentir. Também sabia que podia recarregar aquelas emanações para retornarem a sua posição inicial de poder. Simples, era só colocar a raposa em volta de seu corpo; a energia Noturna tornaria a exalar.

Mesmo em meio ao turbilhão em sua mente — Kindra, Susie, a mãe biológica, o pai do companheiro Hudson, o próprio companheiro —, soube o destino que daria ao corpo da raposa de pêlos acinzentados.

O futuro casaco seria o marco, sempre o faria lembrar de que um dia compensaria, repararia todos os estragos feitos, ajudaria o amigo.

~ PRESÍDIO PARA LOUCURA ~


ESTAVA PRESO PELA CAMISA DE FORÇA. As pernas e pés também acorrentados. Como se aqueles pedaços de pano fosse impedir algum desastre caso ele invocasse seus poderes. Bando de bobocas! Mas quis ajudar, estava cansado de tanto fugir. Era hora de descansar.

A cadeira de rodas em que repousava, dirigida por um enfermeiro, seguia pelos corredores compridos e iluminados. O ranger das rodas sendo interrompido por gritos inconsequentes ou assustadores baques vindo de trás das paredes.

Cortaram seu cabelo grande e crespo. Agora era o Garotinho Careca.

Em algum momento o enfermeiro resmunga que ele está no Manicômio de Luvander.

A polícia finalmente tinha capturado Oikos, enquanto este andava pelas ruas de Granluz. Estava "morando" em um canto fixo de uma das ruas. Tinha certeza de que os moradores que o denunciara. Quando as pessoas de branco saíram da van também branca, ele não reagiu e achou ridículo aplicarem nele tranquilizantes de alta potência.

O enfermeiro entrou em um corredor comprido com somente uma porta em seu fim; se encaminhou até ela, empurrando o garoto. Depois da porta, o cômodo era inteiramente estofado e branco. O enfermeiro tirou Oikos da cadeira de rodas e o sentou no meio do quarto.

— A equipe não sabe o que fazer contigo, diante dos relatos recebidos. Por enquanto, vão deixar você aí; mais tarde eu ou alguém aparece para trazer comida, essas coisas.

Fechou a porta com um estrondo, o barulho de incontáveis fechaduras sendo trancadas.

Ninguém apareceu no resto do dia. Três dias se passaram sem que alguém sequer passasse pelo corredor solitário.

No quinto dia, o som das fechaduras despertou Oikos de um transe profundo, entrando nas sombras do enlouquecimento, por ficar tanto tempo trancafiado naquele lugar branco.

— Venha, a partir de hoje, toda sexta-feira da semana, você vai conversar com o Doutor Black — informou o enfermeiro na soleira da porta.

Oikos tentou se levantar.

— Não consigo. Meu corpo está duro, dói, estou muito tempo sem me movimentar.

— Te ajudo então. Arceus, como você fede!

— Não foi eu que me trancafiei aqui.

— Melhor te levar pr'uma ducha, e assegurarei que eu mesmo esfregue esse fedor todo com a escova de banho.

Depois de limpo, Oikos conheceu o Doutor Louis Black que nas outras consultas não cansava de mencionar que tudo aquilo era uma forma de ajudá-lo a conquistar uma mente saudável. Já na primeira consulta, Black perguntou se havia algo que pudesse oferecer para que o pequeno perturbado (dar pronome que denote o olhar do Doutor Black em relação a Oikos) chegasse nessa conquista. Oikos Hex tinha sim um pedido: livros.

Mesmo durante a consulta Oikos permanecia grudado na cadeira de rodas graças às amarras.

MAIS UMA FATÍDICA CONSULTA com o Doutor Louis. O número de pacientes havia crescido consideravelmente e Oikos tinha agora que esperar no corredor enquanto Black atendia os outros malucos.

O enfermeiro encostou a cadeira de rodas na parede e saiu, dizendo que iria ao banheiro. Oikos inspecionou os próximos pacientes a serem atendidos e reconheceu o cabelinho loiro de um deles que tinha de distância três pessoas entre os os dois.

— Ei, Hudson! – chamou entre dentes, tentando não chamar atenção. Os olhos quase saltavam das órbitas, já que seu pescoço e cabeça estavam também presos por amarras.

O amigo, que também estava em condição igual em sua cadeira de rodas, porém com a cabeça livre, virou o rosto e arregalou os olhos ao reconhecer que quem o chamava era Oikos. Virou o rosto para o outro lado e fingiu não ter ouvido.

— Garotinho, sou eu, Oikos — tentou novamente, mas sem sucesso.

Assim que Hudson terminou sua consulta e o enfermeiro empurrou sua cadeira de rodas pelo corredor, o garotinho fechou os olhos ao passar por Oikos, para não falar com ele.

O TEMPO PASSOU E OIKOS CONTINUOU TENTANDO. Sem sucesso. O fato de Garotinho não dirigir uma palavra, em vez de desconsolar, o enchia de esperança, fazia os dias ficarem melhores, brilhantes, sustentáveis. Tinha um objetivo para alcançar: Fazer Hudson voltar a conversar

— A MINHA RAIVA NÃO É POR VOCÊ ter deixado essa coisa dentro de mim. Foi porque quando estava sofrendo com pesadelos e sem controle algum sobre meu corpo, quando mais precisei, você fugiu. Deixou eu caído no chão, me debatendo — disse Hudson em uma tarde quente, no corredor, aguardando ser chamado, antes mesmo de Oikos ter a chance de abrir a boca para cumprimentar.

Aquilo sim desolou Oikos. As palavras o atingiram em cheio no peito, fez doer a cabeça.

Não conseguiu mais conversar com o Doutor Louis, o livro que lia não tinha mais graça, o tempo passado trancado no quarto estofado branco, insuportável.

Seu corpo inteiro entrou em estado de combustão, inquieto, impaciente, arranhava o estofo. Pensava em maneiras de se libertar dali.


DESVAIRADO, OIKOS TINHA NA CABEÇA IDEIAS de liberar seu poder para conseguir escapar, mas as palavras duras de Hudson tomavam sua mente e o fazia recuar. Aquela outra voz também sussurrava dentro de sua cabeça.

‘Caso libere seu poder aqui, hoje, você deixará todos os que estão aqui com a mesma maldição que presenteou a seu amigo. Quer isto ainda uma vez e ainda inúmeras outras vezes? Pois é, ele irá se repetir infinitas vezes.’

A voz se baseava em algo que Oikos já tinha lido em algum outro momento, mas não se lembrava onde e o quê, não importava. A pressão das palavras dentro de si era como a de uma panela de pressão sem escape de ar. A qualquer momento explodiria. Os dentes rangiam com força, o corpo se lançou ao chão tal qual objeto inanimado. E a voz não calava.

'Os ciclos da vida se repetem, fatos do passado repetem no presente e repetirão no futuro. Não há escapatória, sua vida será um looping infinito, vivenciando sempre as mesmas dores, os mesmos fatos indefinidas vezes. Tormento eterno, Eterno Retorno.’

A voz lhe infundia mais o medo de fazer com todos do manicômio o mesmo que fez com o amigo; era esse o principal motivo pelo qual não ousava encostar um dedinho em seus poderes. Se libertasse seus poderes ali, o futuro lhe reservaria a repetição deste mesmo ato. O pânico de ter que presenciar todo o terror já vivenciado. Não! Não suportaria passar por aquilo infinitas vezes.

O PEDAÇO DE PAPEL FOI ENTREGUE por um enfermeiro que o largou no chão acolchoado e saiu, sem dizer palavra.

Hex engatinhou até o pedaço de papel amassado e leu duas, três vezes o pequeno texto escrito em letras feias, mas cuidadosas.

Veio até mim a notícia sobre suas habilidades especiais.

Acredito nelas e quero que me prove que são reais.

Faço o convite de se unir à nossa causa.

Estou disposto a fazer o que for possível para te tirar desse lugar

e te esquecerem para que não te persigam mais, mas a escolha é sua.

Você quem decide se quer ser importante, ou alguém dispensável,

vivendo o resto dos anos em um lugar onde

outra oportunidade não dará as caras.

Equipe Rocket — S.

FOI MAIS FÁCIL DO QUE PENSOU QUE SERIA. As fechaduras da porta foram destravadas. Contou sessenta dez vezes. Se levantou, cambaleando, as pernas tremendo de nervosismo. Bobão, por que está tão nervoso?! Pare de babaquice, você se propôs a ajudar a causa e a partir de agora fará coisas mais complicadas que fugir de um presídio para loucura!

Abriu a porta e em sua caminhada, não encontrou ninguém. Quando ia sair de encontro à soltura, lembrou de seu pertence. Foi até o galpão, que — surpresa! — também estava vazio. Pegou seu casaco e saiu. O ar do lado de fora estava gelado e, enquanto corria, tirou a única peça de roupa que o protegia da nudez — o avental branco —, vestiu seu casaco de Zorua e saiu veloz pela saída da cidade. A energia Noturna do casaco estava fraquíssima, mas assim que o vestiu, Oikos sentiu a energia se intensificar aos poucos, como se seu corpo fosse um tipo de recarregador. Aquele casaco de Zorua seria um tipo de protetor contra ataques Psíquicos, já que emanava energia Noturna; um escudo à esse tipo de ataque.

Entrou na primeira brecha de crescimento de zona verde da rota e continuou a corrida. Seus pés pisaram na grama, na lama gosmenta, em pedras que machucaram os pés, mas não parou. Ria, com a chuva gelada batendo direto em seu rosto. Fazia tempo que não se sentia tão vivo. Quando as pernas estavam quentes e pesadas demais para continuar, caiu, exausto.

Olhou para o céu cinzento e chuvoso… Estava em liberdade! Finalmente liberto daquela prisão que ao invés de ajudá-lo a ganhar uma mente saudável — como o Dr. Louis fazia questão de sempre repetir em todas as consultas -, o enlouquecia ainda mais.

O jipe com a letra R pintada na lateral apareceu no horizonte e quando se aproximou, Oikos pulou para dentro.

— Você deve ser especial pra terem pedido eu vir te buscar. O resto que se alia aos Rockets tem que se dirigir até um centro de alistamento caso queira…

Especial…

Oikos voltou de seu devaneio. Apreensivo, perguntou:

— O que vai ser agora?

— Irei te levar à base que o chefe da Equipe na região Toran se encontra, oras.

— Não, vou entrar direto na causa ou tenho que passar por um treinamento?

— Você foi convidado, com certeza vai ser admitido num piscar de olhos. Só precisa provar para o chefe o que ele pedir.

— E depois?

— Você fará parte dos Rockets.

— Não, depois que eu fazer parte dos Rockets.

— Ah, vão mudar seu nome. Vai ser rebatizado.

Oikos apreciou a ideia.

— Deixar a identidade atual para trás. Um novo começo. Qual seu nome?

— Gunter.

— De rebatismo?

— Rebatismo.

— E seu nome?

— De rebatismo? Já disse. Gunter

— Não, antes de rebatizarem.

— Marisvaldo. E o seu?

— De rebatismo? Ainda não fui rebatizado, você sabe.

— Não, o nome de agora.

— Ah! Oikos.

— Pois então, Oikos, a partir de hoje você terá que deixar tudo o que viveu para trás, sua nova vida começa agora.

Deixar tudo para trás…

Oikos, que viria a ser rebatizado como Jorge, ouviu com atenção a vozinha que murmurava lá dentro de si.

'Você não deixará exatamente tudo para trás. Sabe disso. Igual a vermes inquietos dominando sua cabeça, não descansará até arranjar um jeito de salvar o amigo. Seu coração insiste autodenominar-se pecador e precisa de expurgação. Oikos não passa de um reprimido que não confessa seu sentimentalismo exacerbado, e ainda por cima é comandado por eles. Um autêntico bobão!'



~x~

HOJE

~ PÓS-EXPLOSÃO AÉREA ~

— MOLEQUE! VOCÊ TÁ BEM?! — gritou Jeremy, alarmado.

Como se nada tivesse acontecido, Jorge se sentou, taciturno, e limpou o sangue que gotejava pelo queixo. Fechou seu casaco e puxou o capuz, os olhos vidrados do Zorua tapando os seus. Dessa forma, escondia aquele fiapo de sentimento que odiava ter que mostrar para qualquer outra pessoa, que odiava demonstrar para si mesmo. A cabeça do Zorua que escondia a sua, trouxe sombra e escuridão para sua visão e adormeceu seus sentidos. Em poucos segundos, voltou a ser o Jorge durão de sempre. Se virou para os companheiros.

— Hora de voltarmos à ação — sua voz foi fria, porém fina. A voz de uma criança em que a estrutura do pomo-de-adão ainda não se desenvolveu.

'Redizendo, baseado na teoria que os fatos da vida se repetem infinitamente, você está para sempre condenado a ser controlado por seus sentimentos, boboca! Isto uma vez e ainda infinitas vezes. Sabe por quê? Porque você quer isto.'

Oikos ouvia a vozinha vinda do profundo da mente. Mas fingia não ouvir. Não podia dizer isso em voz alta, dar a razão, mas... ela sempre esteve certa.

Notas finais
*Ability: Effect Spore Este é um capítulo que eu tive certo trabalho para fazer. Demorou para ser escrito e não apenas revisei o texto, como também lapidei. Usei recursos de diálogos que eu não me lembro de terem sido usados anteriormente na fic. Me pergunto quando a fanfic deixou de ter o rótulo de fanfic? Quando tive ideias e comecei a escrevê-la, era algo cru, sem muitos atrativos, feita apenas para me divertir, mas agora ela toma forma de algo meu, meu intelecto, minha história. Não é mais uma fanfic, é uma história criada por Eric Rocha. Este link é de uma imagem que dei uma amadora editada referente a este capítulo. Ficou bacaninha: http://i.imgur.com/t2QzabK.jpg Fontes das imagens usadas: http://www.taringa.net/posts/offtopic/18966931/Gengar-the-little-motherf-cker.html http://jessesjohtojourney.tumblr.com/post/12332360451/the-morty-match-off