Notas iniciais
Isso foi escrito no mais puro tédio enquanto estava escutando Sealed Vessel. Tadinho do Hollow, não merecia metade das marmotas que passou. Boa leitura <3 Capa feita por mim. Arte do Hollow Knight desenhada por mim

Ainda me lembro daquele dia. O dia em que, com muito custo, cheguei até o Palácio Branco. O Palácio de meu pai. Foi um marco desde o meu nascimento, no meio da escuridão opressora e desoladora daquele espaço. Eu era um dos vários que não tinha paz naquele lugar.

Nenhum de nós tinha.

Aquele dia, o dia que alcancei o palácio, um dos meus irmãos também alcançou. Por um momento eu pensei que ele conseguiria, mas ele não pareceu ter mais forças.

Meu irmão. Carregando o mesmo vazio que eu, vindo do mesmo pai, da mesma mãe, experienciou o mesmo tormento, o mesmo vazio. Ele estava quase conseguindo.

Mas meu pai, nosso pai, me chamou. Eu não quis ir a princípio. Quis ajudar meu irmão. Hesitei em ir até nosso pai. Mas fui. Ignorando meu irmão que lutava para alcançar o mesmo lugar que eu.

Não vi quando o escutei despencar para o vazio novamente.

Passei a vida achando ser perfeito. O receptáculo perfeito. Aquele que conseguiria conter a Radiância. Aquele que conseguiria conter a infecção dessa praga que a maioria das mariposas fizeram questão de esquecer, mas uma pequena parte ainda continuava a cultuá-la.

Um deus só morre de verdade quando é totalmente esquecido.

Eu tentei. Tentei não sentir. Tentei me manter são ante todo o tempo que fiquei aprisionado. Tentei de tudo para não deixar essa praga assolar nosso reino, mas falhei. Essa divindade maldita conseguiu ver, no fundo da minha mente, aquele sentimento de hesitação que senti ao ver meu irmão falhar.

Ela invadiu meus sonhos, criou falsas memórias, foi mais forte do que eu...

Radiância é mais forte do que eu, mas não mais teimosa. Eu a segurei o máximo possível durante anos a fio. Cresci, fui selado. Ela deu um jeito de escapar, mas continuei a contendo dentro desse espaço. Dentro da minha mente. Dentro do meu corpo.

Maldita Radiância.

Tempos depois, ouvi os selos se arrebentando. Alguém estava tentando entrar aqui dentro, pronto para acabar ou comigo, ou com ambos.

Meu irmão. Meu pequeno irmão. Aquele que hesitei em ajudar.

Senti remorso a minha vida inteira até agora por não ter feito o que deveria.

Mas o que eu deveria ter feito? Ajudado ele? Será que eu seria descartado? Lembro do meu pai repetir diversas vezes que eu era perfeito. Que eu era digno de receber o título de Cavaleiro do Vazio. Mas eu não estava tão vazio quanto ele pensava.

Meu irmão veio, quebrou as correntes que me prendiam e a Radiância, com medo — impressionante como até deuses sentem medo —, tentou acabar com a vida dele através do meu corpo, me controlando, como um parasita que toma o corpo do hospedeiro.

Maldita Radiância.

Infeliz, ou felizmente, minha mente estava intacta — ou quase isso — e pude retomar o controle de mim durante um tempo de nossa longa luta. Usei esse tempo para me perfurar com minha própria lâmina. Aquele pequeno cavaleiro precisava de ajuda.

Mas nunca tive certeza disso pois ele nunca demonstrou sentir nada durante esse tempo. Mas eu sentia. Todos os sentimentos possíveis.

Tristeza por ter que lutar contra meu irmão.

Raiva por não conseguir fazer meu trabalho direito.

Ódio pela Radiância que controlava meu corpo.

Saudade de nosso pai, pois foi ele quem me criou.

E decepção comigo mesmo por nunca ter atingido as expectativas.

Eu estava nas últimas. Sem força nem para me finalizar, mas Hornet, nossa irmã de outra mãe, me segurou com sua seda. Aquela aranha sabia muito bem que não era só acabar com o meu corpo que traria a paz para o reino... Meu irmão também sabia.

Ele acessou minha mente, minhas memórias e lá ele viu.

Radiância.

Aquela maldita tentou acabar com ele, de todas as formas, mas nada conseguia parar aquele pequeno. Ele só seguia em frente. Só atacava, só cumpria seu objetivo, como se nada mais importasse além da missão. Como se não sentisse nada. E talvez não sentisse.

Ele era perfeito.

O vazio perfeito.

Meu irmão conseguiu cumprir com o objetivo. Nossos irmãos que estavam no vazio, entraram em minha mente graças à brecha que o pequeno abriu. Todos estavam prontos para acabar com a Radiância. Eu ajudei, claro. Não podia ficar parado só olhando.

A Radiância foi finalmente derrotada e nós, todos nós, podíamos descansar. Nos livrar de nossas cascas e descansar no eterno vazio com ou sem sentimentos. Nossos corpos foram destruídos, mas nossas vontades permaneceram inabaláveis.

Eu fui a perfeita falha. Admito isso. Sinto vergonha do que eu fui. O reino perdeu muitos habitantes. Muitas histórias foram finalizadas antes da hora e vou carregar essa culpa enquanto o vazio existir.

Meu irmão foi a falha perfeita. Aquele pequeno era o mais capacitado dentre todos nós. Não sentia nada, só reagia às coisas que o mundo impunha a ele. Só avançava, só cumpria suas obrigações como um cavaleiro que não fala, não opina, não sente. Ele quem merecia o título de Cavaleiro do Vazio. Tinha todos os méritos para isso.

Meu pequeno irmão...

Quando voltamos para o vazio, eu o agradeci e, pela primeira vez, ele pareceu se permitir sentir. Parecia... Grato? Orgulhoso? Não sabia dizer, mas aqueles olhos continuaram indiferentes.

— Não fiz mais do que o correto. — escutei ele dizer.

Depois disso, só consegui sentir paz, quando todos nós descansamos.

Eu nunca fui o cavaleiro vazio.

Mas meu pequeno irmão?

Ele sim era. Sempre foi.

Pena que nosso pai nunca quis enxergar isso.

Notas finais
Ele merecia um abraço? Sim. Teria coragem de abraçar ele? Não, mas ele merecia Obrigada por ler até aqui <3
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.