O Vento Entre Meus Dedos
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Abro os braços para o vento e sorrio com o rosto tomado por lágrimas. Quero sentir o vento entre meus dedos. Quero muito.
Levanto meus olhos para o céu, observando as nuvens coloridas do fim da tarde. Eu sempre fui apaixonado pelo pôr-do-sol. Sempre amei aquele show de cores e acordava todas as manhãs apenas para ver aquilo na hora certa. Pode-se dizer que era meu motivo de viver. Era.
Ainda não entendo o que aconteceu ao certo. De repente meu motivo de viver se tornara outro.
Fecho meus olhos deixando o tempo me levar até uma viagem ao meu passado, como uma maré e suas ondas, puxando qualquer coisa para as correntezas. É prazeroso sentir seu rosto levemente chicoteado pelos seus cabelos e sua roupa se debatendo em torno de seu corpo. Quero aproveitar isso como se o conceito “manhã” não existisse.
Aqui em cima é tudo tão quieto. Nem mesmo um pássaro sequer vem me incomodar. Talvez eu possa ouvir o som das folhas amarronzadas do outono caindo, casualmente, mas só isso. É incrivelmente espetacular não ouvir o som dos motores de carros e motos da cidade, fora dos sonhos onde tais sons são eliminados de nossas cansadas mentes.
Já faz um tempo que vejo a beleza em tudo. Em tudo mesmo. Acontece que não sei o que acontece em minha vida simplesmente sedentária e solitária. Eu morava sozinho desde os dezessete anos de idade, depois de nove anos enchendo a cabeça de sonhos estúpidos e que jamais se realizariam. Meus pais me diziam isso. Diziam que meus sonhos quem deveria correr atrás era eu mesmo. Então cresci e aos meus doze anos começaram a ser mais duros, acabando com toda a minha inocência e a vontade de criar coisas novas quando diziam que meus sonhos eram julgados estranhos e irrealizáveis.
Com isso na cabeça, acabei me tornando um garoto fechado em seu próprio mundo, explorando as coisas a sua volta com cautela e medo. Trancava-me no banheiro da escola no recreio, achando que as pessoas poderiam se tornar monstros canibais. Não se pode dizer que os meus colegas de classe me abandonavam, já que eu me auto excluía da sociedade. Tornei-me um antissocial problemático. Irritava-me fácil, mas tentava reprimir tudo: A vontade de gritar, de desabafar, de chorar e de se trancar no quarto e nunca mais sair.
Isso continuou até meus quatorze anos. Desde então comecei a brigar muito com meus pais. Dizia querer fugir de casa, completar logo dezoito para me livrar deles. E o que eu vivia evitando acabou se tornando minha melhor saída. Escondi-me em meu quarto, faltei em diversas aulas do colégio. Nessa época conheci o cigarro e o álcool...
Em seis meses me tornei um viciado repugnante que sequer falava com os pais. Sem amigos, sem nem mesmo um animal de estimação.
Mas (“Mas” a palavra que sempre tive certo amor e ódio. Ela dizia muito em apenas três letras. Significava que há algo a mais, uma continuação mesmo quando se pensa que ali é o final. Como contradizendo tudo dito anteriormente. É uma palavra forte que pode censurar mil outras para dar um sentido novo. E esse sentido pode ser tanto bom quanto mau. Por essa razão eu imaginava que se por acaso as pessoas deste mundo fossem palavras, eu seria esta. Mas) em uma noite olhei pela janela do meu quarto que ficava no sétimo andar de meu apartamento. E vi a beleza da cidade. Observei por horas a avenida logo à frente, que se estendia por muitos metros e quem sabe até mesmo quilômetros? Achei que nunca me cansaria de ver aquela cena noturna, as luzes dos postes alaranjados iluminando um pouco da cidade, os carros deixando aos poucos de passar pelas ruas, o silêncio que nunca tive dentro de mim tomando posse das casas, o céu negro e suas estrelas cintilantes em torno da lua minguante e a brisa fresca refrescando meu rosto, deixando a fumaça do cigarro pendente em meus lábios voar mais adentro de meu quarto.
A partir daí passei a ver a beleza do mundo. A beleza que achei que era inexistente no contemporâneo. Passei a sair aos poucos da escuridão de meu quarto e troquei as garrafas de vodca por caderno e lápis. Comecei a desenhar as paisagens. Claro, no começo tudo ainda era torto e a pintura amadora. Com um pouco de dedicação consegui representar fielmente as construções que eu podia ver pela janela. Criei um mundo totalmente novo de acordo com a minha concepção sobre o mesmo. E de madrugada me sentava na cama e me perguntava se mais alguém no mundo via as coisas como eu via.
Ao completar dezesseis anos, voltei a ser o garoto criativo e sonhador de sempre. Já sorria com mais frequência, porém guardava o segredo do fumo comigo mesmo. Simplesmente de uma forma frustrante não consegui largar aquele veneno. Meu pai descobriu e ficou tomado por repulsa. Falou que eu já havia acumulado dívidas demais com ele e o cigarro fora a gota d’água.
Nunca consegui esquecer-me de como apanhei naquele dia. Fugi de casa o mais rápido que pude antes que aquele homem me matasse.
O bom daquilo tudo foi que tive um tempo de liberdade.
Uma semana se passou e quando voltei para casa, minha mãe chorava descompassadamente e apontou o dedo na minha cara, incriminando-me de ter acabado com o casamento dela. Na verdade nem precisei dizer nada. Aquilo também já era o meu limite.
Saí de casa para nunca mais voltar.
Naquela noite, dormi na rua com um sorriso no rosto de satisfação. Repetia para mim mesmo que eu ia mostrar para os meus pais o quanto eles estavam enganados em relação aos meus sonhos. Iria realizar todos eles, sem ninguém para me atrapalhar.
...
Eram cerca de uma hora da manhã de uma sexta-feira, ou sábado, tanto me faz. Corri pela avenida que passei uns tempos observando só de longe. Corri com todas as minhas forças até ficar sem ar e os meus braços e pernas começarem a implorar por oxigênio. Parei subitamente, uivando o mais alto que conseguia para o céu:
– AAUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUHH!!!
E assim me deixei cair no chão, não ligando se alguém por acaso estaria vendo aquilo. Comecei a rir satisfeito, fazia tempos e mais tempos que eu esperava para poder-me sentir livre assim. Poder fazer qualquer coisa que você quisesse, sem ser impedido por ninguém, como se única pessoa no mundo todo fosse você.
Acabara de realizar um de meus sonhos. Poderia ser estupido, infantil, mas continuava a ser o meu sonho. Correr até não conseguir mais, gritar para o céu sem se importar com nada ao redor e ter esse sentimento de liberdade.
Minha vida nunca fora uma comédia ou um romance. Não havia classificação para o que eu vivia.
Deitado ali, olhando o céu escuro da noite, eu percebi minha respiração acelerada e pesada. Mantive o sorriso e aproveitei um fraco vento que me refrescou.
Peguei-me perguntando se eu continuaria sozinho no mundo, apenas curtindo a vida como nunca. Perguntei-me se em dias de chuva eu me esconderia debaixo de um toldo qualquer e ficaria fumando até criar coragem para voltar para casa... Eram tantas as questões e eu fugia de todas, me esquivando delas para não ter de pensar no futuro.
Fechei meus olhos e nem vi quando adormeci.
– Hey, você – Acordei ouvindo alguém me cutucar. Minha visão estava embaçada com a claridade repentina que me deu as boas-vindas à vida real – Não me parece um morador de rua. O que está fazendo deitado aí no chão?
Sentei-me e olhei ao redor. Ainda estava naquela mesma avenida da noite anterior.
A pessoa que havia me chamado estava agachada ao meu lado, embrulhado em um casaco branco graças ao frio que atormentava minha cidade todos os dias. Eu daria vinte anos ou um pouco mais para o homem desconhecido, apesar da aparência de garoto. Tinha intensos olhos azuis e um cabelo que realmente chamava a atenção, fazendo com que algumas pessoas que passavam por nós olhassem para ele. Era a cor. Vermelho vivo, quase capaz de cegar.
– Acho que adormeci em um lugar que não deveria. – Respondi um pouco tonto, provavelmente por causa do sono.
– Quantos anos você tem garoto? – Franziu o cenho.
– Tenho dezessete.
– Eh?! Sério? – Pareceu assustado – Tem certeza que não tem uns quatorze?
– Não senhor – O fitei sem saber que expressão fazer – Tenho dezessete.
Ele suspirou e se levantou, oferecendo sua mão para me ajudar a fazer o mesmo. Aceitei e logo eu estava de frente com ele, percebendo nossa diferença de altura.
– Mas o que te levou a dormir no meio da avenida? – Colocou as mãos na cintura.
– Não gosto da minha casa. – Respondi cabisbaixo.
– Problemas com os pais?
Deixei sem resposta. Detestava ter de me lembrar deles, isso sempre acabava me deixando triste.
– Certo – O ruivo levantou as mãos na altura dos ombros, comprimindo os lábios por um instante – Não quer falar disso. Entendo perfeitamente, também tenho problema com os meus. – Então sorriu, esticando o braço para um cumprimento – Prazer sou Ludwig.
– H- hm... Sou Noren – Apertei sua mão, fazendo com que o sorriso de Ludwig aumentasse. Minha barriga roncou.
– Ah, está com fome? – E bateu na própria testa como se a resposta fosse obvia – Mas é claro! Acabou de acordar. Quer que eu te pague um café da manhã, Noren?
– Não precisa! – Mas ele já estava me puxando pelo pulso – Acabamos de nos conhecer e...
– Pode ficar tranquilo! Eu também estava procurando um lugar para comer.
Ludwig era estranho. Seu nome era estranho. Seu jeito de falar era estranho. TUDO nele era estranho. E estava começando a me assustar.
Ele me fez sentar em uma pequena cafeteria ali perto e gastou treze pratas para me alimentar. Devo admitir que Ludwig parecesse mais faminto que a mim. Devorava inúmeros pães com manteiga, ovos, geleia...
– Oe, gostei do seu cabelo. – Comentou ele com a boca cheia, ainda não parava de colocar coisas na boca.
– Meu... Cabelo? – Toquei meus fios.
– É – Tentou engolir com certo esforço tudo que tinha. Gesticulava exageradamente com as mãos para falar – São compridos e azulados.
– Não são tão compridos e... Na verdade são pretos – Respondi, sem conseguir comer o resto que eu tinha em meu prato. Ludwig conseguira matar minha fome só comendo sua parte. Meus cabelos eram lisos, um tanto bagunçados dando a parecer que são ondulados e batiam um pouco abaixo dos meus ombros. Analisei uma mecha e percebi do que o ruivo estava falando. Eram tão pretos que pareciam realmente azulados. Como fui perceber isso somente agora?
– Pela sua cara você só percebe isso agora – Ele adivinhou.
– Bem... O seu cabelo também é assustador. – Saiu sem querer. Juro. Ele riu.
– É eu sei. Muita gente me fala isso. – Limpou a sua boca com o guardanapo, finalmente satisfeito – Também questionam sobre o meu nome.
– Ludwig é diferente mesmo. – Revelei.
– Costumo dizer que é em homenagem à Ludwig Van Beethoven. Gosta dos clássicos?
– Sou um pouco ignorante na parte de música – Admiti envergonhado.
– Não acredito! Você não conhece Beethoven?! – Exaltou-se.
– Já ouvi falar desse cara, mas... Você faz parecer como sou burro... – Resmunguei, fazendo-o rir alto.
– Eu tenho que apresentá-lo a você – Falou colocando sua mão em meu ombro – Sei tocar piano, poderia lhe mostrar uma composição bem conhecida dele para seus ouvidos.
– Claro, eu adoraria.
...
E lá estávamos nós, na casa dele. Uma gigante casa feita praticamente de madeira e vidro, localizada bem longe dos incômodos urbanos.
Ludwig pendurou o casaco ao lado da entrada e dobrou as mangas da camisa também branca até abaixo dos cotovelos, me convidando para entrar em seguida. Hesitante, adentrei sua moradia como se o chão fosse delicado ao ponto de quebrar se eu desse um movimento errado. Que tipo de emprego ele deveria ter? Parecia um milionário...
– Venha por aqui. – Falou o ruivo com um sorriso, levando-me para o segundo andar. As escadas eram assustadoras. Também eram de vidro e minha precaução dobrou na hora de subi-las. Você já subiu escadas que parecem invisíveis? Parece que irá cair a qualquer instante.
– Não precisa ter medo – Disse Ludwig – Elas são confiáveis.
Engoli em seco e continuei a subida.
Depois disso, fui guiado até um cômodo feito especialmente para seu gigante piano preto. Era uma sala coberta pelo tapete vermelho escuro, com uma lareira apagada em um dos cantos e uma espécie de barzinho em outra parede. No centro havia um sofá confortável onde me sentei, enquanto Ludwig se acomodava na cadeira em frente às teclas brancas do seu piano. A iluminação era agradável, todas as lâmpadas eram amareladas e direcionadas em pontos estratégicos, de modo que o instrumento favorito dele estivesse em destaque.
Ludwig limpou a garganta e estralou os dedos, sorrindo para mim como sempre fez desde que o vi.
– Caro Noren, eu lhe apresento uma das músicas mais apreciadas no mundo, composta por Ludwig Van Beethoven: Moonlight Sonata – E então se inclinou em minha direção e cobriu um dos lados da boca como se fosse me contar um segredo – Meu xará. He, he.
E começou a tocar, o som saindo harmonioso das cordas do piano e preenchendo o lugar com suas notas. Eu não sabia absolutamente nada sobre música. Sequer me lembrava se sabia cantar alguma inteira. Mas os dedos dele se moviam com tanta agilidade, como se dançassem sobre as teclas, me fazendo de certa forma sentir a melodia. Eu estava sentindo a composição do cara chamado Beethoven. Era emocionante e me tocava de uma forma assustadora. O clima pareceu estar tão bom, me senti em paz como nunca antes. Era tão belo que me dava vontade de chorar.
Ludwig estava de olhos fechados, balançando a cabeça de um lado para o outro, me dando a impressão de que se sentia como a mim, só que melhor.
Fiquei com inveja por um pequeno período de tempo, imaginado como o ruivo tinha sorte em saber tocar. Ele poderia sentir aquele clima sempre que quisesse, era só ir lá e deixar os dedos fazerem o resto.
Quando acabou, percebi como o tempo pareceu ter passado incrivelmente rápido, como se a música só houvesse tido um minuto de duração.
– Não, são quase oito minutos de Moonlight Sonata – Me garantiu Ludwig – Mas então, gostou?
– Sinto como se já tivesse ouvido isso antes – Confessei.
– Com certeza já deve ter ouvido – Respondeu, mexendo nos cabelos vermelhos-fogo – Como eu disse, é uma das composições mais famosas de um dos compositores mais famosos da história da humanidade.
– Você parece entender mesmo isso. – Pausa – Poderia... Bem... Ah esquece.
– Pode falar!
– Bem... – Eu senti meu rosto corar, morrendo de vergonha em pedir – Você poderia tocar mais para mim?
– Adoraria! – E olhou no relógio de pulso, dando um suspiro pesaroso – Mas tenho de ir trabalhar. Por que não volta aqui amanhã? E então lhe apresento Für Elise.
– Combinado.
...
Passaram-se duas semanas depois disso. Todos os dias eu ouvia as baladas de Beethoven tocadas pelo Ludwig em sua casa. Pode-se dizer que estava me tornando um grande fã dos dois caras citados. Nunca imaginei que me tornaria um apreciador de música, muito menos clássica. Porém, francamente, a atmosfera que as melodias criavam era simplesmente incrível. Fazia-me desejar mais.
Aquele fim de tarde não foi diferente, ouvi a música mais complicada de toda a minha vida: Vírus. Aquilo foi... Impressionante. Não existia palavra para descrever o que eu estava vendo. Eu sequer conseguia ver os dedos de Ludwig apertando as teclas. Usava todos eles numa velocidade esplendida, uma coisa que eu tinha absoluta certeza de que ninguém conseguiria fazer sem ser ele ou o próprio Beethoven. Acho que assisti tudo de boca aberta e com os olhos brilhando, pois quando acabou, o ruivo se voltou para mim um tanto ofegante:
– Fui bem é?
– Você foi... Incrível!! Como consegue fazer isso?! É um monstro do piano por acaso?! Poxa, acho que ninguém consegue fazer melhor! Seus dedos tem vida própria! Corriam mais que o Flash e... E... Eu os perdi toda hora!
– Que isso – Riu lisonjeado – Existe pessoas melhores que a mim sim.
– Ah, mas eu não consigo acreditar! Invejo-te por ter uma habilidade... Não. Um dom assim! Nunca vou conseguir tocar piano desse jeito.
– He, he. Venha aqui – Pediu, dando espaço no banco para mim. Sentei ao seu lado e ele apontou o piano com a palma da mão – Por que não toca um pouco? Nunca te deixei tocar nele, não é mesmo?
– E- eu posso? – Olhei surpreso para Ludwig.
– Claro! À vontade.
Encarei as teclas e apertei uma. O som de uma nota desconhecida por mim se fez presente.
– Uaaa! Que legal – Exclamei. Mas sempre quis tocar nas teclas pretas. E foi o que eu fiz. Um som mais agudo foi ouvido. Abri um sorriso gigante e posicionei todos os meus dedos sobre o máximo de teclas possíveis. Apertei todas juntas e o som não era exatamente o que eu esperava. Não foi um som muito agradável aos ouvidos. Mesmo assim me apaixonei por aquilo – Meu Deus! Isso é... Tão magnífico!
Ludwig riu, mostrando seus dentes brancos.
– Me ensina a tocar? – Perguntei cheio de expectativa – Quero ser que nem você. Poder tocar desse jeito, sendo parte do piano.
– Você conseguiu ver isso? É lógico que te ensino Noren.
Ele me ensinou que existiam notas e elas tinham uma sequência. Havia o dó, ré, mi, fá, sol, lá, si e depois o dó novamente. Explicou que as “teclas pretas” eram os sustenidos e bemol, dependendo de como estaria nas partituras musicais. Mas foi na hora da prática que me embaralhei todo.
Era uma música simples. Não era de Beethoven. Quero dizer, não era um original de Beethoven. Era uma composição dele simplificada, a “Ode a Alegria”, ou uma coisa assim. Tocamos juntos. Ele dando o ritmo nas notas mais graves e eu dando as notas principais nas teclas agudas. Quem disse que eu consegui?
– Droga; não nasci pra isso – Resmunguei chateado.
– Está indo bem. Ninguém nasce sabendo das coisas.
Suspirei.
– Nesse ritmo nunca vou alcançar você – Lamentei.
– Não precisa me alcançar agora. Tocar só é bonito, quando você faz por prazer.
Fitei-o, percebendo tarde demais que eu tentava encarar cada vez mais fundo em seus olhos. Seu sorriso continuava ali, e me dava à impressão que nunca sairia dali. Eu passei anos procurando sorrir, e esse cara fazia isso toda hora, quase que zombando de mim.
– Prodígio idiota – Deixei escapar o murmúrio.
– O que disse? – Franziu as sobrancelhas.
– N- nada!
Silêncio novamente. Droga. Não gostava de poder só ficar encarando seu rosto, me deixava com vergonha. O que mais me irritava na verdade era que eu não sabia o porquê que eu ficava daquele jeito perto dele.
Pisquei e dei conta de que nossa distância estava diminuindo. Seu rosto estava próximo demais do meu, de um modo que eu conseguisse sentir sua respiração se juntando a minha.
Ludwig tomou minha face em uma de suas mãos, acariciando a maçã de meu rosto. Sentia-me corado, como se a minha pele estivesse em condições de ser comparada a uma pimenta.
– Nem todos conseguem tocar como Beethoven – Disse ele – Você muito menos...
– EII!! – Gritei irritado, mas continuei naquela mesma distância.
– Mas você tem sua música – Fiquei perplexo por um instante, congelado, sem resposta... – E eu gosto dela. É a mais bela composição que eu pude ouvir até hoje.
– Ludwig... – Comecei, vendo que quando falava nossos lábios já roçavam uns nos outros.
– Quero uma sonata só nossa Noren. Só... Nossa...
E veio o beijo. Intenso, provocante. Era como se estivesse desesperado e ao mesmo tempo calmo. Exatamente como Vírus. Tratava-me de uma maneira carinhosa, e me segurava como se se me soltasse, eu sumiria. Mesmo assim, sua língua explorava cada milímetro da minha boca, sem ter dado um aviso prévio. Uma coisa realmente confusa.
Ludwig acariciava minha cintura, e então enlacei seu pescoço com meus braços, puxando-o para mais perto.
Eu estava nervoso, e esse sentimento só cresceu quando percebi que era minha primeira vez. Meu primeiro beijo. Pisquei e só então percebi a situação em que me encontrava. Eu estava beijando o Ludwig! Sem nem ao menos saber como funcionava!
A falta de ar veio, e ele se afastou. As respirações de nós dois estavam pesadas e aceleradas. Os pulmões gritando por oxigênio, assim como em minhas corridas. Mas Ludwig não parecia nada satisfeito, descarregou vários chupões e mordiscadas em meu pescoço. Inconscientemente deixei baixos gemidos escaparem.
– Ludwig, eu não sei... – Comecei, porém fui incapaz de terminar. Aquilo era bom demais.
– Apenas acompanhe o ritmo. Sei que você consegue tocar essa música Noren.
Ele me levantou com facilidade. Era bem mais forte que a mim, então jogar-me no sofá pareceu uma tarefa simples de se realizar.
Encaixou uma de suas pernas entre as minhas, ficando por cima. Prendeu minhas mãos em cima de minha cabeça e voltou a beijar-me. Ajudou a tirar meu casaco, tacando-o para qualquer canto, assim como minha camiseta. Em situações comuns, eu diria que estaria envergonhado em mostrar meu corpo fraco para ele, todavia aquilo estava longe de ser comum.
Sua boca veio até meu ouvido, sussurrando:
– Eu te amo. Muito.
Talvez aquela tivesse sido também a primeira vez que alguém dizia que me amava. Foi como se eu tivesse levado uma facada no coração. E não sabia se era algo bom ou ruim. Senti um líquido morno escorrer pelo meu rosto. Eu chorava. Chorava como se Ludwig pudesse me ajudar a descarregar tudo que eu tive aguentando por todos esses dezessete anos de minha vida. Ele me fazia o bem como ninguém nunca fizera. Fazia-me sentir-se como se o mundo fosse realmente belo. Como se o pôr-do-sol lá de fora não chegasse nem aos pés da maneira como ele me tratava.
– T- também... – Respondi entre soluços – T- te amo.
Ludwig beijou minha testa e passou a mão em meu cabelo, de uma maneira protetora.
– Eu nunca vou te deixar cair – Continuou sussurrando, tentando acalmar-me – Sempre vou te segurar. Não precisa temer.
Acontece que eu apenas continuava chorando. Não de tristeza, mas sim por saber que ainda havia uma pessoa ao meu lado nesse universo. Saber que ainda havia uma pessoa que se importava comigo.
...
Abro os olhos e vejo o sol quase se indo, dando espaço para a lua e seu exército de estrelas.
Sim, quero sentir o vento entre meus dedos. Quero sentir, pois talvez se eu realizar isso, terei acabado com a minha lista de sonhos. Eu havia jurado para mim mesmo que realizaria todos, todos, TODOS os meus sonhos para provar que meus pais estavam errados. Porém de nada valia se o preço seria a perda de uma vida com Ludwig.
Se eu penso assim, por que estou me jogando? Por que estou acabando de realizar meu último sonho?
Ah, o vento aqui de cima é bom. Bem melhor do que os das corridas nas avenidas. Tão bom que me parece câmera lenta. Não tenho como voltar, não é mesmo? Estou deixando meu primeiro e único amor para trás, por conta de um sonho... Estupido.
– Você estava aqui!
Alguém me puxa de volta ao solo, um pouco antes de eu cair para a morte certa. Ludwig está com esse maldito sorriso no rosto, satisfeito por ter me puxado a tempo. Ele me abraça fortemente pela cintura, e seca minhas lágrimas.
– O vento aqui em cima é bom – Disse como se não soubesse das minhas intenções em estar ali – Poderíamos escrever nossa sonata aqui mesmo, não é?
– Ludwig... – Um tímido sorriso consegue surgir em meus lábios.
– Que título você daria para a nossa história, meu amor?
Ah, já senti o suficiente do vento.
Dei uma última olhada no horizonte, como para me despedir dos últimos raios do sol que escapavam de além das colinas. Então me viro para Ludwig, imitando aquele belo sorriso, mesmo achando que nem isso eu conseguia copiar dele. Havia outro modo de dizer que meus sonhos todos estavam realizados. Respondi-lhe com um sorriso singelo:
– “O Vento Entre Meus Dedos”.
Notas finais
Sério, demorei um tempão para essa one-shot. E mesmo assim acho que ficou um tanto confusa. Mas tudo bem, Hehe. ^^
Obrigada para quem leu até aqui! o/
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