O Velho Kaije
6 Capitulo 6 - "A Salvação"
Talvez, algum dia, existam historias mais belas,
melhores, mais cheias de heroísmo e determinação.
Talvez, algum dia, o herói não tenha perdido a fé,
a coragem para lutar ou até a esperança.
Talvez, algum dia quem sabe, as marcas que as dores nos causam
não sejam tão profundas e possamos nos livrar delas como trocar de roupa.
Um dia quem sabe, possamos ser livres de nossas memórias e sonhos,
de nossas amarguras e inseguranças.
Talvez o mais importante, sermos livres de nossos arrependimentos
e daquilo que deveríamos ter feito em determinada ocasião.
Um dia para lembrarmos porque viemos, porque lutamos e por quem...
Nesse dia, quem sabe nossa alma seja leve, nossos braços fortes,
nossas esperanças e vontades inabaláveis.
Em cada escudo, uma defesa dada pelos braços que o segura
Em cada espada, o ataque dado pela força de vida, pela própria vida
e o sangue, a alma, o espírito...
... de um Guerreiro..
Kaije jogou o escudo com toda força que havia em seus braços. Em seguida ele imediatamente se levantou. Seu rosto estava encoberto. Suas lágrimas escorriam como um rio de sua face. Ele não deixaria nada acontecer com ela. Ele não permitiria que a violassem de sua pureza ou que isso fosse feito diante de seus olhos. Nada mais importava. Nada. O passado era apenas um lembrança vaga. Sua raiva e fúria estavam em sua magnitude. Sua coragem agora era inabalável.
O escudo chocou-se nas costas do Bafomé que sentiu toda a dor soltando um rugido enorme. Então, com toda a raiva e fúria, assim como um vulcão a muito tempo adormecido que acaba de acordar, Kaije correu não se importando com os ferimentos em sua perna e braços. Com toda sua raiva enquanto corria liberou as luzes e o poder da sua Crux Divinum que foi a sua frente e chegou antes ao monstro o acertando em cheio. Com um grito de raiva o mostro ergueu sua foice tendo como alvo Kaije que imediatamente aparou o golpe com sua espada. Sua aura era límpida e brilhante como já fora a muito tempo atrás.
- NÃO VOU PERMITIR ISSO MALDITO! – Ele gritou com toda sua força.
Enquanto se seguiam golpes de espada ferozes e golpes de foices com brutalidade, Kaije lutou como lutam os templários. Não pela sua vida mas pela vida dela, com bravura, não se importando com mais nada.
Em um momento o ataque do mostro o arremessou para longe. Kaije apoiou-se na espada e levantou-se. Usando seu vigor correu de volta com toda sua velocidade e em um salto, grande salto, caiu sobre as costas do mostro e assim permaneceu agarrado ao pescoço dele enquanto o bicho se debatia freneticamente. Kaije segurou sua arma e com golpes fortes cravava sua espada nas costas do monstro. O Templário rugia e gritava como um selvagem como o próprio Bafomé, em um constante frenesi alucinado.
O mostro se debatia e tentava tirar o templário de suas costas enquanto este permanecia grudado atacando constantemente o monstro. Kaije, com sua espada em punho, não olhava ao certo onde atacava. Apenas queria causar a maior quantidade de dor e sofrimento ao monstro. Ele agora era a fera. Ele era a besta descontrolada. Aquele Bafomé com certeza iria se arrepender de ter cruzado com ele naquele lugar, naquele dia.
O Bafomé jogou-se contra uma árvore e por um minuto de dor Kaije perdeu sua espada. Mas ele sabia o que fazer. Conhecia a técnica. A mesma técnica que matou sua amada. A mesma técnica que ele odiou por anos. Aquela técnica que ele jurou não utilizar jamais.
Em um milésimo de segundo seus olhos percorreram o local e caída ele viu sua amiguinha que assustada apenas olhava a luta próxima a uma árvore. Por ela. Por ela ele quebraria sua promessa!
Kaije segurou-se. Com toda sua força puxou na memória a habilidade. Não foi difícil pois essas coisas não se esquecem. Segurou firme os pelos do mostro e um grito rouco de alguém que está sem ar e recém pega o fôlego saiu de sua garganta:
- CRUX MAGNUN!!!
Um enorme clarão caiu sobre a floresta. Todos os pássaros voaram assustados. O Bafomé chegou a flutuar do solo tamanha a ferocidade da habilidade. Kaije sentiu o seu sangue jorrar pelos ferimento e a dor ela dilacerante. Com as mão tremendo, ainda sobre o monstro. Kaije berrou pela segunda vez:
- CRUX MAGNUN!!!
Dizem que a segunda é ainda mais dolorida que a primeira. Os olhos de Kaije estavam vidrados em um frenesi constante. Ele não estava mais em seu próprio corpo. Enquanto o bicho se debatia de dor ele gritava alucinadamente:
- Eu vou te matar! Eu vou te matar! Eu vou te matar! Eu vou te matar! Eu vou te matar! Eu vou te matar! Eu vou te matar! Eu vou te matar! Eu vou te matar! Eu vou te matar! Eu vou te matar! MALDITA! VEJA. OLHE PARA MIM. SINTA MINHA FÚRIA. VOU LEVÁ-LA PARA O INFERNO COMIGO MALDITA! — Na mente de Kaije não era contra o Bafomé que ele lutava. Era contra ela. A paladina. A assassina de seus sonhos.
Kaije não aquentou segurar mais. Caiu e rolou pelo chão deixando um rastro de sangue. Sangue vermelho vivo. Ele se levantou. O Bafomé ainda se debatia devido a dor. Kaije andou em direção a ele. Em sua mente flashes de lembranças de seu passado, de como fora um espadachim esforçado, um templário honrado. De como conseguiu o amor de uma bela mulher, para ele, a mais belas das mulheres. O dia maldito. Ele também se lembrou das luzes da Crux Magnun da Paladina Jô. Do rosto de sua amada em seus braços e do fato dele não ter se despedido.
Ele chorava muito. O sangue que descia de sua testa se misturava às suas lágrimas e ambos emolduravam sua fúria e raiva. Ele andou aqueles vinte passou em direção ao monstro. Sua mente não estava ali. Tudo acontecia rapidamente, mas para ele, o mundo havia parado. As árvores não se mexiam. Não havia cheiro ou som algum. O Bafomé vindo em sua direção atacou-lhe com a foice. Desarmado Kaije esmurrou-o e acabou fazendo a foice acertar o chão. E em instantes Kaije juntou as duas mãos e agarrou a cabeça do monstro. Seus dedos polegares penetraram nos olhos do bicho jorrando sangue e um liquido branco. O Bafomé agonizava e nada via, estava cego.
- Vamos para o inferno! — Kaije falou baixo.
Suas mão seguraram o monstro. Esse foi, com certeza, o maior e mais poderoso Crux Magnun que aquele lugar presenciou. Com um estrondo enorme a terra se levantou e as árvores ao redor foram arrancadas. Um vento soprou vindo do templário que gritou. Gritou enquanto a vida o deixava. Gritou sua liberdade, sua honra recuperada. Gritou por todos que não puderiam gritar. Gritou como um templário enquanto seu corpo sumia na luz ofuscante, Kaije gritou como um herói.
Algum tempo depois as árvores voltaram a ficar silenciosas. Os pássaros voltaram aos seus ninhos e nada parecia ter acontecido a não ser pelas duas pessoas próximas a uma grande marca de cruz no chão. Um enorme corpo marrom se arrastava para dentro da floresta fugindo da cena da batalha.
A jovem templária segurava a cabeça de Kaije no colo enquanto acariciava seus cabelos. O olhava com um olhar maternal como uma mãe consola um filho. Ele estava caído. Não se mexia. Não respirava. O vermelho de seu sangue cobria-lhe todo o corpo e misturava-se com o azul do resto daquilo que foi um dia sua armadura. Havia paz em sua face. Seu rosto que fora corado agora estava pálido, mas parecia estar bem. Parecia ter encontrado o que procurava.
Assim Kaije morreu, no calor da batalha, por uma garota muda que mal conhecia e nem sequer sabia o nome. Mas para ele parecia estar certo. Parecia estar bem. Cresceu como um guerreiro, viveu como um mendigo e morreu como um herói.
Um brisa suave correu até os dois, seguido por um farfalhar de asas. A templária olhou para a origem do som, fez um aceno com a cabeça. Em seguida olhou para o rosto de Kaije. A jovem sorriu delicadamente e sua boca se abriu. Uma frase se formou com uma voz doce e inocente de criança:
- Ainda não é hora de ir Templário Kaije!
[FIM]
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