O Velho Kaije
5 Capitulo 5 - "Revelando o Passado"
"Era um dia de primavera bem típico. A grama estava verde, as árvores majestosas e uma brisa suave trazia consigo o cheiro de flores. Sob uma árvore, aproveitando a vista da cidade de Geffen, dois namorados se abraçavam e ficavam se amando. Um escudo, com uma enorme cruz, caído perto, refletia o sol, dando às folhas da árvore um tom de dourado.
Nada parecia que os incomodaria naquele instante enquanto trocavam beijos carinhosos. Kaije acariciava o rosto da sacerdotisa que recebia seus carinhos com ternura.
- Você me ama?
- Mais do que tudo na vida! — o templário a abraçou — A ponto de te querer pra sempre ao meu lado. — Kaije abriu a mão revelando algo sobre ela.
O brilho do anel reluziu nos olhos da sacerdotisa que o abraçou forte, em um momento somente deles."
A dor o tonteou. Levantou-se cambaleando. Kaije puxou sua espada e preparou seu escudo enquanto virava-se para ver o agressor. Tomou um enorme susto com o que viu: um enorme Bafomé empunhando sua característica foice.
O mostro avançou sobre a garota que estava caída e que acordou com o barulho. Num momento de desespero ela começou a arremessar tudo que estava ao alcance de suas pequenas mãos no bicho que avançava cada vez mais sobre ela.
O velho Kaije correu. Não queria fazer aquilo mas era necessário. Ergueu sua espada e desferiu no monstro o golpe:
- Impacto Explosivo!
O golpe não surtiu efeito algum no monstro que o empurrou para o lado derrubando-o. Era essa a intenção do templário: que aquele monstro verdadeiramente poderoso o tivesse como alvo e não a menina.
- Corre!!! — Ele gritou para a pequena templaria. A jovem tentou erguer-se mas logo caiu, sua perna estava muito machucada.
O M.V.P. atacou Kaije. Sua foice cortou o ar e tirou faíscas do escudo do velho que quase não defendera o golpe.
- Impacto Explosivo!
Nem mesmo um arranhão surgiu no mostro. Kaije sabia que assim nunca iria ganhar. Mas prometeu, jurou que acima de tudo nunca mais usaria as técnicas de templário.
O Bafomé não tinha dó e nem cessava com os ataques. Kaije colocava o escudo a frente do corpo e se defendia como podia. Alguns cortes já sangravam em seu braço e o suor descia de sua testa. O monstro atacou com a foice e logo deu um soco do qual Kaije não pode desviar. E assim perdeu sua defensiva sendo alvo fácil dos golpes seguintes. E foram muitos golpes. De direita. De esquerda. Com o cabo da foice. O Bafomé dava-lhe uma surra.
Com sangue vertendo de todo seu corpo, Kaije tentava se defender mas ainda assim não usava nenhuma habilidade de templário, nem mesmo o bloqueio. Kaije tentava ferir o bicho com a espada mas com um soco o M.V.P. lançou a espada longe, deixando-o desarmado, apenas o seu escudo. O velho se defendia como podia. — "Posso até Morrer! Mas não vou quebrar minha promessa!" — pensava.
Conforme a Luz entrava, reluzia naquele escudo que tinha uma enorme cruz que refletia um tom avermelhado. Aliás, em todo lugar havia a cor vermelha. No chão. Nas paredes e nos pedaços de madeira que foram dos banco minutos atrás. A luz entrou. Kaije pôde ver o cabelo loiro, a roupa da paladina e até mesmo o rosto da figura misteriosa que guardava sua espada. Ela virou-se e saiu pelo corredor, sem demonstrar qualquer expressão, mesmo levando em conta as dezenas de corpos caídos que ela mesma matou, em solo sagrado, na sua maioria crianças, idosos e religiosos.
Jô Mungandr passou por Kaije no corredor. Naquele momento, naquele exato momento, Kaije podia tê-la enfrentado, ou ao menos, tentado enfrentar. Ele era um templário e sua aura estava no auge do poder. Ele podia ter vingado todas aquelas vidas. Ter vingado sua amada que fora morta de forma tão covarde. Podia ter feito algo mas não fez. Isso resultou no remorso que iria carregar por toda sua vida.
Ficou ali parado olhando, petrificado, para a cena. Chocado demais para ter qualquer reação enquanto Jô passava por ele e ele não representando ameaça alguma, ela seguiu seu caminho, deixando um templário sem reação para traz.
Ele deu alguns passos. Viu o corpo de sua namorada, noiva, a poucos dias do casamento. A pegou no colo. Sempre achou que haveria tempo para dizer adeus. Que haveriam ultimas palavras a serem ditas. Mas não não foi assim. Em seus braços a mulher que amava partiu sem um adeus, sem um tchau ou um até logo. Olhou o chão e haviam vários rostos de crianças. Noviços. Aprendizes. Muitos que vira nascer e crescer. Todos mortos numa crueldade sem tamanho.
Kaije levantou e andou. Seus olhos choravam. Seu peito parecia que iria partir em dois de tanta dor. Com as botas molhadas com o sangue dos inocentes Kaije andou pelo corredor da catedral. Parecia tão longo agora. Imenso talvez. Ao final com um chute escancarou as portas da Igreja e com sua amada no colo, seu lindo rosto sem vida, Kaije gritou:
" — Sacrilégio!!! Sacrilégio!!!"
O mostro o deixou no chão. Kaije caído, cuspindo sangue e os poucos dentes que ainda tinha estava acabado. Esperava o último golpe ou o golpe de misericórdia. Mas o Bafomé não deu esse gosto a Kaije. Virou-se e foi em direção a segunda pessoa que estava naquela região, a garota, que estava com a perna quebrada.
- Por favor, não... Por favor, não! — Kaije suplicou ao Monstro — Mate-me e vá embora, por favor, deixe-a, eu suplico! — O M.V.P. não ouviu a suplica do velho e foi em direção à menina que tentava se levantar e fugir a todo custo.
Agora, Kaije pensou, que na frente de seus olhos ele iria ver uma inocente novamente perder a vida. E ele não podia fazer nada. É engraçado como as vezes a vida nos faz reviver momentos que antes foram muito difíceis como se reservasse para nós uma segunda chance. Um jeito de rever alguns pesadelos que passamos no passado. Isso podia ser bom ou ruim. Dependia de nossas escolhas, aceitar ou encarar algo que desistimos lá no passado.
- Não! — Kaije sussurrou cuspindo sangue. E em sua mente vieram todas as lembranças que lutou tanto para esconder. Que o faziam triste e cada vez mais fraco. As mesmas lembranças que o fizeram recorrer à bebida para esquecer. Que o fizeram envelhecer antes do tempo e desistir de tudo.
- Não, Não de novo! Não na minha frente. Não, nãoooo! — Kaije gritou.
Fraco, pegou seu escudo e levantou-se. Não importava mais a sua promessa. Não importavam mais os seus sonhos ou pesadelos ou lembranças ou honra ou o que ele achava que era certo e errado no mundo. Naquela criança estava tudo que ainda sobrevivera de bom durante todos este anos que ele desistiu de si mesmo.
- Escudo Bumerangue!
Fale com o autor