O Vale Das Marionetes
2 II — Capítulo Um
dear diary,
Não consigo enxergar outra saída para uma situação tão complicada. Estou naquela fase em que a esperança já morreu a muito tempo; todas as possibilidades se esgotaram com tanta facilidade que pareciam grãos de areia escapando pelas brechas em minhas mãos.
Tudo começou quando acordei. Habitualmente, os ovos já estavam cozidos em alguma das panelas sobre o fogão, e uma fervorosa caneca de leite já repousava sobre a mesa da cozinha — um ritual matinal que eu julgava essencial —, me ajudava a lembrar de que alguém ainda zelava por mim, além de mim mesmo. Com seu sorriso cordial, minha mãe já me esperava ao pé do armário, recolhendo alguns pratos e xícaras da copa. Sorri em resposta, puxando uma das cadeiras para conseguir saborear meu leite em silêncio, apenas observando seus movimentos.
Tudo estava tão perfeito, sabe? Já era de se esperar que algo acontecesse para quebrar minha sorte da manhã. Olhei na direção do calendário como faço todos os dias, e mentalmente sofri diversos golpes: meses, dias, horas, minutos… Quanto tempo eu teria que passar por aquilo? Olhar o calendário é o momento da rotina que eu considero mais masoquista. Definitivamente.
O ônibus buzinou no mesmo horário, tal como havia periodicamente feito durante todo o primeiro mês de aulas. Confesso que mesmo durante as férias mentalizo a buzina tocando, às oito, sem um minuto de atraso ou adiantamento. Não é nenhuma novidade que fico sem reação ao entrar no veículo: e quem não ficaria? Ser tachado como louco da cidade não facilita para ninguém, muito menos pra mim. Ultimamente tenho procurado sentar perto da janela, assim posso ignorar o fato de que o banco ao meu lado permanecerá vazio durante todo o trajeto até a escola. Se isso ainda me atinge? Acho que passei a criar uma espécie de barreira introspectiva, e isso tem me ajudado a ignorar a maioria dessas coisas.
O primeiro período seria um pouco cansativo: química. Srta. Duffer era a pior das professoras que eu já havia superado; pontual, rude, sempre insatisfeita. Não é novidade que eu nunca gostei da matéria, mas de alguma forma a presença dessa mulher tornava tudo ainda pior. Sempre tento me sentar no fundo, mantendo minha invisibilidade como uma proteção que me mantém são em meio à toda essa loucura. Ilusão minha.
Minha maré de azar começou quando os olhinhos miúdos de Srta. Duffer se voltaram para o fundo da sala. Mais especificamente: eu. Minha primeira reação foi afundar na cadeira, quem sabe ela achasse que eu estava tendo um colapso e requisitasse a presença de alguma enfermeira —, não seria nenhuma novidade; Sr. Nechromancerquem o diga. Ter o corpo arrastado para a enfermaria com todos os olhares voltados na sua direção definitivamente seria menos vergonhoso que aquilo. Talvez eu tenha sentido saudades do antigo professor naquele momento, mas não tive tempo para pensar.
Os dez minutos mais embaraçosos da minha vida se seguiram a partir daí, e prefiro deixar essa cena fora das minhas lembranças. Posso adiantar que tropecei durante o trajeto até a mesa da professora, onde tive que responder algumas questão sobre a aula, e adivinhe? Eu simplesmente não fazia ideia do que ela estava falando. Assistir aulas não era uma das minhas habilidades. Na verdade, eu nunca tive habilidades, acho.
Enfim… Provavelmente você, querido diário, deve estar achando que essa maré de má sorte acabou por aí. É óbvio que não. Os dois períodos seguintes foram exclusivamente reservados para as piadinhas sobre meu comportamento na aula da Srta. Duffer, e tentei me manter o mais invisível possível — talvez me esquecessem ou simplesmente mudassem de assunto. Mais uma vez… Ilusão minha.
Mr. Ashford era um professor legal, ou pelo menos eu pensava ser. As aulas de marcenaria nunca foram tão objetivas como eram aquele ano. Ashford simplesmente conseguia resumir todo o conteúdo em algumas palavras e frases jogadas no quadro negro, e isso era extremamente vantajoso para mim: não precisava cansar meus dedos anotando aquele monte de porcaria. Mais tempo para escrever em você, amigo.
Tudo estava perfeitamente em controle. Por alguns minutos achei que os assuntos que me envolviam tinham se dissipado com o tempo: mas eu realmente me iludi em relação à isso. Como em um dejavú, vi toda a situação se repetindo novamente: depois de algumas palavras, o professor voltou seus olhares para o fundo da sala. NÃO, eu gritei. Definitivamente, eu gritei… E me arrependo tanto disso, que seria capaz de rasgar todas as páginas que acabei de escrever para que pudesse voltar à essa cena.
A vergonha no primeiro período era só um aperitivo para o prato principal. Simplesmente um mar de risadas invadiu a sala de marcenaria e o rosto de Mr. Ashford ficou tão vermelho, que jurei que o vapor escaparia por sua boca como se o homem funcionasse como uma panela de pressão. Demorei um pouco para entender: ele não estava olhando para mim, e sim para Evelyn Chamber, que agora melecava meu casaco com sua baba. Isso mesmo, minha companheira de bancada estava cochilando em meu ombro esse tempo todo, e eu não havia notado. Provavelmente, os olhares de Ashford não eram direcionados para mim, e o grito… Bem… O grito foi um equívoco.
Mais piadas, mais frustração mais um dia longo. Minha frágil amizade com Chamber se reduziu ao ódio da garota por mim: as risadas foram para ambos. Meu grito simplesmente denunciou a soneca da garota, e nos garantiu semanas de piadinhas. Eu era o Sr. NÃO, e ela a Sra. SONO. Um casal perfeito, na cabeça dos caçoadores.
Aproveitei o intervalo para escapar na aula de ginástica. Sempre foi fácil ludibriar Srta. Dearborn durante as aulas: ela jamais notou minha ausência em todas elas. Costumava ficar nas telhas da cantina, mas as cozinheiras descobriram quando lascas do teto começaram a cair nas panelas de chilli. Bem… Meu novo abrigo era o banheiro. Silencioso, exceto pelo barulho de zíperes e… Você sabe.
O resto do dia foi previsível: piadas, por toda a parte. Finalmente estou em casa, e acho que minha mãe está preparando waffles, a julgar pelo cheiro de mel aquecido. Vou ouvir um pouco de música emo enquanto os como, e provavelmente vou ler um pouco antes de dormir. Em breve nos falaremos novamente.
goodnight diary.
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