O VALE DAS CERVAS
4 O BAÚ DA TORRE
O sol ainda nem tinha aparecido completamente quando o Castelo de Pedra Alta começou a despertar. Criados cruzavam corredores. Guardas trocavam de turno. O cheiro de pão fresco saía das cozinhas. Mas Tomás já estava acordado. E pensando no baú.
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Tomás empurrava a comida com a colher. Lady Constança percebeu.
— Você está doente?
— Não.
— Então coma.
— Estou comendo. — Helena observava o irmão.
— Ele está aprontando alguma coisa. — Tomás quase engasgou.
— Eu não estou.
— Quando você fala isso, normalmente está. — Artur riu. Afonso nem levantou os olhos do prato.
— Se ele incendiar alguma coisa, desta vez eu mesmo resolvo. — Tomás sorriu nervoso. Porque dessa vez era pior que um incêndio.
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Padre Gabriel caminhava entre os bancos vazios. O símbolo da coroa partida ocupava seus pensamentos. Mateus entrou.
— Dormiu?
— Pouco.
— Eu também. — Gabriel abriu um livro antigo.
— Isso está ficando maior do que imaginei. — Mateus puxou uma cadeira.
— E agora?
— Agora encontramos quem não quer que a verdade apareça. — Pela primeira vez. Mateus pareceu assustado.
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Elisa ajudava Rosa. As duas separavam ervas medicinais. Uma fila de moradores já se formava.
— Dona Rosa, minha filha está tossindo.
— Dona Rosa, meu braço voltou a doer.
— Dona Rosa… — A vila inteira parecia precisar dela. Elisa observava. Um dia talvez fosse ela ali. Ajudando as pessoas. Então Bento apareceu. Segurando flores. Muito feias. Muito tortas. Muito colhidas às pressas.
— Ah não — murmurou Elisa. Bento parou.
— O quê?
— Nada.
— Eu trouxe isso.
— Eu percebi. — Ele estendeu as flores.
— São pra você. — Elisa tentou não rir. Tentou.
— Obrigada. — Bento sorriu. Como se tivesse acabado de conquistar um reino.
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Artur caminhava pela vila. Sem cavalo. Sem guardas. Sem criados. As pessoas estranhavam. Um senhor levantou a mão.
— Bom dia, senhor Artur.
— Bom dia. — Uma mulher acenou. Uma criança correu. Pela primeira vez. Artur sentia que conhecia o próprio feudo. E pela primeira vez. Percebia quantas coisas nunca havia visto.
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Clara ajudava Joaquim. Mas olhava constantemente para a estrada. O pai percebeu.
— Eles já foram.
— Quem?
— Os mercadores. — Clara abaixou os olhos.
— Ah.
— Você quer conhecer o mundo. — Não era uma pergunta. Ela ficou surpresa.
— Como sabe? — Joaquim sorriu.
— Porque sua mãe também queria. — Aquilo a pegou desprevenida. Era a primeira vez que ele falava da mãe em muito tempo.
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Tomás finalmente escapou. Correu pela trilha. Passou pelas árvores. Pulou pedras. Atravessou o riacho. Até alcançar a velha torre. O coração batia rápido. O baú ainda estava lá. Esperando. Exatamente como tinha deixado. Tomás se ajoelhou. Passou a mão pelo cadeado quebrado. Respirou fundo. E abriu.
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Enquanto isso. Lady Constança observava a floresta pela janela. Uma criada aproximou-se.
— O homem está esperando. — Constança fechou os olhos.
— De novo?
— Sim.
— Traga-o. — A criada saiu. Constança permaneceu imóvel. Ela estava começando a perder o controle. E isso a assustava.
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A tampa rangeu. Devagar. Muito devagar. Tomás engoliu seco. Dentro havia uma espada. Antiga. Bonita. Mas não era isso. Havia também um pergaminho. E um medalhão. A mesma coroa partida. Tomás pegou o medalhão. Virou. Observou. Então percebeu algo. Havia um nome gravado. Um nome quase apagado pelo tempo. Tomás aproximou o objeto da luz. Leu. Uma vez. Depois outra.
— Não pode ser...
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Gabriel observava o símbolo desenhado em um velho livro. Então encontrou uma frase. Pequena. Escondida. Quase invisível. Seu rosto perdeu a cor. Mateus percebeu.
— O que foi? — Gabriel levantou os olhos.
— A coroa partida não era apenas um símbolo.
— Então era o quê?
— Uma família. — O silêncio caiu entre os dois.
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Artur chegou até a casa de Rosa. Ele pretendia apenas agradecer por um remédio enviado ao castelo. Mas encontrou Elisa. Novamente. Ela estava lavando ervas.
— Parece que você está em todo lugar. — Ela ergueu os olhos.
— Talvez seja você que esteja andando demais. — Artur sorriu.
— Pode ser.
— O senhor não trabalha?
— Estou tentando.
— Então está fazendo errado. — Artur começou a rir.
E Rosa observava tudo da janela. Sem dizer uma palavra.
Artur parou perto da cerca. Elisa continuava separando ervas. Por alguns segundos. Só o som das folhas. E dos pássaros.
— Seu pai não gosta muito de mim. — Elisa nem levantou os olhos.
— Ele mal conhece você.
— Acho que esse é exatamente o problema. — Agora ela olhou.
— O senhor quer que as pessoas gostem de você?
— Quero que elas falem a verdade.
— Tem certeza?
— Sim. — Ela soltou uma pequena risada.
— Então o senhor é mais corajoso do que parece. — Artur cruzou os braços.
— Isso foi um elogio?
— Não se acostume. — O sorriso dele apareceu sozinho.
— Posso fazer uma pergunta?
— Depende.
— Você responde todas as perguntas assim?
— Não.
— Essa resposta conta como resposta? — Elisa revirou os olhos.
— Faça logo a pergunta. — Artur observou a vila. As casas. A fumaça saindo das chaminés. As crianças correndo.
— Você nunca quis ir embora daqui? — Ela demorou para responder. Porque aquela pergunta era séria.
— Já.
— E por que ficou? — Elisa continuou mexendo nas ervas.
— Porque meu pai está aqui. — Minha mãe está aqui. Minha vida está aqui. Artur ficou em silêncio. Aquilo fazia sentido. Mais sentido do que muitos discursos que ouvira no castelo.
— E o senhor?
— O quê?
— Voltou. Por quê? — Agora foi a vez dele demorar.
— Porque um dia isso tudo vai ser minha responsabilidade. — Ela observou o rosto dele. Pela primeira vez. Parecia sincero. Não parecia um nobre repetindo frases decoradas. Parecia alguém tentando descobrir o próprio lugar.
— Posso falar uma coisa?
— Pode.
— O senhor anda olhando demais para as pessoas. — Artur sorriu.
— Isso é ruim?
— Para um senhor feudal? Sim.
— E para um homem? — Elisa não respondeu imediatamente. Os dois ficaram se encarando por um segundo. Um segundo longo demais. Então Rosa apareceu na porta.
— Elisa! — As duas pessoas se afastaram quase ao mesmo tempo.
— Já vou! — Artur tentou esconder o sorriso.
— Acho que fui dispensado.
— Acho que foi.
— Então até a próxima.
— Talvez.
— Isso não parece um não.
— Nem um sim. — Artur começou a se afastar. E Elisa voltou para as ervas. Mas percebeu que estava sorrindo. O que era um problema. Porque ela não queria sorrir por causa dele.
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Na torre. Tomás segurava o medalhão. Os dedos tremiam. O nome gravado ainda estava ali. Mesmo após todos aqueles anos. Um nome que ele já tinha ouvido antes. Um nome presente nos registros antigos da igreja. Um nome que deveria ter desaparecido. Lá embaixo. Os sinos começaram a tocar. E pela primeira vez. Tomás percebeu que aquilo não era uma aventura. Era um segredo.
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O dia amanheceu nublado no Vale das Cervas. Nuvens cinzentas cobriam as montanhas. O vento parecia carregar chuva. E segredos.
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Tomás não dormiu direito. Passou a noite olhando para o medalhão. Agora estava novamente na torre. Sentado no chão. O objeto apoiado nos joelhos.
— Quem é você? — Virou o medalhão mais uma vez. O nome continuava ali. Desgastado. Quase apagado. Mas presente. Então ouviu passos. Tomás escondeu tudo dentro do casaco. Rápido. Era apenas um esquilo correndo pelo telhado. Mesmo assim. Seu coração demorou para desacelerar.
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Padre Gabriel organizava livros. Mas não conseguia se concentrar. A frase encontrada na noite anterior não saía de sua cabeça. Mateus entrou. Trazendo pão.
— Achei que o senhor não tinha tomado café.
— E não tomei.
— Então tome. — Gabriel sorriu. Pegou o pão.
— Obrigado. — Mateus sentou.
— O senhor acredita que alguém possa esconder uma mentira por gerações? — Gabriel demorou para responder.
— Acredito.
— E por quê?
— Porque às vezes as pessoas têm mais medo da verdade do que da mentira.
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Elisa ajudava Rosa. As duas separavam ervas e remédios. Uma mulher da vila esperava atendimento.
— Meu marido machucou a mão.
— Manda ele vir aqui mais tarde — respondeu Rosa. A mulher saiu. Elisa observou a mãe.
— Você nunca para.
— Doente não espera horário.
— Nem o resto da vila. — Rosa sorriu. Então ficou séria.
— O herdeiro esteve aqui ontem. — Elisa continuou trabalhando.
— Esteve.
— E?
— E nada.
— Elisa.
— Mãe. — Rosa começou a rir. Conhecia aquela resposta.
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Artur caminhava em direção aos campos. Mas não chegou lá. Foi parado por um agricultor.
Velho. Rosto queimado de sol.
— Senhor Artur.
— Sim?
— Posso perguntar uma coisa?
— Claro. — O homem hesitou. Como se tivesse medo.
— O senhor sabe quanto trigo sai dessas terras? — Artur respondeu.
— Mais ou menos.
— E sabe quanto sobra para quem planta? — O silêncio respondeu primeiro. Artur não sabia. O velho assentiu. Como se já esperasse isso.
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Clara observava a estrada novamente. Joaquim percebeu. De novo.
— Ainda pensando em ir embora?
— Sim.
— Continua sem saber para onde?
— Sim.
— Pelo menos está sendo consistente. — Clara riu. Depois ficou séria.
— O senhor nunca teve medo de ficar? — O martelo parou. Joaquim olhou para a filha.
— Todo mundo tem. — A resposta surpreendeu ela.
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Helena estava lendo. Como sempre. Ou tentando. Porque Álvaro apareceu. Como sempre.
— Achei você.
— Que pena.
— Eu achei também. — Helena tentou esconder um sorriso. Falhou. Álvaro sentou ao lado dela.
— O que está lendo?
— Um livro.
— Muito esclarecedor.
— Eu me esforço. — Pela primeira vez. A conversa não parecia uma batalha.
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Bento passava pela vila. Quando viu Artur. Novamente. Perto da casa de Elisa. Novamente. Aquilo estava começando a incomodá-lo. Muito. Dona Marta surgiu. Como uma maldição.
— Tá olhando de novo.
— Eu não estou.
— Claro que não.
— A senhora aparece do nada?
— Sim. — Bento desistiu da conversa.
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Na floresta. Longe dos olhos da vila. O homem encapuzado encontrava outra pessoa.
— O padre está avançando.
— E o garoto?
— Ainda não sabe o que encontrou. — O homem ficou em silêncio.
— Continue observando.
— E se descobrirem?
— Então será tarde demais.
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No fim da tarde. Elisa recolhia ervas perto do riacho. Achava que estava sozinha. Não estava.
— Você aparece em todos os lugares. — Ela nem precisou olhar. Reconheceu a voz.
— Estou começando a pensar o mesmo sobre você. — Artur aproximou-se. Sem armadura. Sem capa. Sem símbolos do castelo. Apenas Artur.
— Posso perguntar uma coisa?
— Você sempre pergunta isso antes de perguntar.
— É educação.
— É enrolação. — Ele riu.
— Certo. — Você gosta daqui? Elisa observou a água.
— Alguns dias.
— E nos outros?
— Quero ir embora. — Artur pareceu surpreso.
— Sério?
— Você parece decepcionado.
— Só achei que você gostasse da vila.
— Gostar e querer ficar não são a mesma coisa. — Aquilo ficou na cabeça dele. Porque talvez servisse para ele também.
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Quando a noite caiu. Tomás voltou a observar o medalhão. Curioso. Inquieto. Então percebeu algo. Havia uma pequena trava escondida. Muito pequena. Quase invisível. Ele pressionou. Clique. O medalhão abriu. Dentro havia um pedaço de papel dobrado. Antigo. Amarelado. Tomás começou a desdobrá-lo. E imediatamente ficou pálido. Porque havia um mapa.
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