Era por volta das cinco da manhã quando Bill veio ao meu dormitório me chamar. Ele pareceu surpreendido por eu estar acordado aquela hora, mas não fez perguntas. Ele pediu para que eu me dirigi-se ao andar térreo, onde Whitney e Karen já me esperavam. Assim que cheguei lá, Karen veio me cumprimentar com um abraço. Ela parecia feliz, mas Whitney e Bill estavam meio sérios.

– Enquanto o Sol não nasce, nós chamamos vocês aqui por que precisamos que façam algo. – Disse Whitney. – Chamem seus pokémons para fora das pokébolas e interajam com eles. A relação entre um treinador e seu pokémon é muito importante em uma jornada. – Concluiu.

– Aproveitem esse tempo que temos antes do Sol nascer para se conhecerem melhor, você e seu pokémon. – Disse Bill.

Nós fizemos como nos mandaram e eu chamei Pikachu para fora da pokébola e Karen o seu Eevee, que saíram da pokébola meio confusos. Deviam achar estranho sair da pokébola depois de tanto tempo, ou talvez achassem estranho os novos treinadores. Era difícil entender o que pensavem só pelo olhar. Eu tentei fazer contato, mas não sabia o que falar para um pokémon. Eu cheguei a conviver com eles antes do surto, mas nunca tive meu próprio pokémon.

– Uh... Oi Pikachu. – Eu não sabia o que dizer. – Eu sou seu novo treinador. Meu nome é Peter e eu espero que a gente se dê bem na jornada.

Ele me olhava com um olhar desconfiado, como se me analizasse para ver se eu merecia a honra de ser treinador dele. Eu estendi a mão para tentar fazer carinho na cabeça dele, mas ele percebeu que eu ia encostá-lo e correu na direção do Bill agarrou na perna dele, fazendo com que Bill desse um sorrisinho envergonhado. Enquanto isso, eu olhei para o lado para ver como Karen se saia com seu Eevee e ela estava se saindo muito melhor que eu! O Eevee dela já estava no colo dela, ela o abraçava e fazia cafuné. Fazia tempo que eu não a via sorrir daquele jeito. O Eevee parecia estar se divertindo também.

– Pikachu, não seja assim. – Disse Bill se agaixando e passando a mão na cabeça do Pikachu. – Dê uma chance ao Peter, tenho certeza que ele vai cuidar bem de você. – O Pikachu me encarava o tempo todo.

– Que Pikachu mais teimoso esse. – Comentou Whitney.

– Não diga isso Whitney. – Respondeu Bill, sério. – Esse Pikachu sofreu muito já. Quando ele era um Pichu, ele era maltradado pelo seu antigo treinador, mas eu o salvei e cuidei dele até que ele evoluiu em um Pikachu. Ele tem dificuldade em confiar nas pessoas. – Explicou.

Bom, isso mexeu comigo. Jamais imaginaria que aquele pokémon teria passado por tanta coisa, mas eu entendia a dificuldade que ele tinha em confiar nas pessoas. Eu fui até ele, que ainda estava agarrado na perna de Bill, me agachei perto dele e falei:

– Pikachu, eu não sou como seu antigo treinador. Eu não vou te machucar e eu quero ser seu amigo. – Disse, olhando nos olhos dele.

Então eu o abracei, ele tentou recuar, mas ficou completamente paralisado quando eu encostei nele, talvez de medo. Mas eu continue abraçando-o e logo eu senti ele relaxar, não estava mais em choque, acho que senti ele me abraçar de volta também.

– Então Pikachu, o que me diz? Posso ser seu treinador? – Perguntei para ele.

Ele virou a cabeça e então concordou disse que sim, acenando com a cabeça. Bill parecia muito feliz com o que tinha acabado de ver. Karen estava entretida demais com seu Eevee e acho que não tinha visto nada daquele dramalhão.

– Enfim, chega de drama. – Disse Whitney. – O Sol vai nascer daqui alguns minutos e vocês tem que aproveitar o máximo de luz que conseguirem, é perigoso andar por aí a noite. Então seria bom se vocês conseguissem chegar em Azalea antes do anoitecer. Eles certamente lhes darão abrigo. – Concluiu.

Eu e Karen chamamos nossos pokémons de volta para a pokébola e então começamos a ouvir uma movimentação. Boa parte, se não todos, os abrigados na Torre de Rádio estavam decendo para o térreo para se despedir de nós. Muitos deles nos deram materias para nossa jornada, como roupas, cobertores, frutas e poções. Era meio constrangedor, mas eu estava feliz que todas essas pessoas nos apoiavam. Um pouco de luz já entrava pelas janelas de vidro, mesmo que as mesmas estando tampadas com madeiras. Era chegada a hora!

– Vão, Peter e Karen! – Exclamou Whitney. – O Sol está nascendo! E boa sorte na sua jornada!

Bill se prontificou a abrir a porta da Torre de Rádio, que tinha uma trava especial para dificultar a entrada dos pokémons infectados. Enquanto a porta abria lentamente, eu podia ouvir todos torcendo por mim e Karen e um arrepio correu por minha espinha. Enfm, a porta se abriu e eu e Karen saímos correndo. A Torre de Rádio foi ficando para trás e a última coisa que eu vi antes de voltar a me virar para frente, foi Bill e Whitney acenando.

A cidade estava praticamente em ruínas, várias casas haviam caído e as ruas e calçadas estavam dominadas por plantas de baixo porte, mas os prédios e o trilho suspenso de trem ainda se mantinham intactos. Uma névoa causada pelo orvalho cobria a cidade e estava frio, mesmo com o Sol já se levantando. Nem parecia mais a mesma Goldenrod onde eu vivera há três anos, era difícil imaginar que tanta coisa havia mudado em tão pouco tempo. Como não avistamos nenhum pokémon naquele primeiro momento, paramos de correr e começamos a andar, para não gastar energia.

– Parece seguro até aqui. – Comentei.

– E pensar que a maior cidade de Johto está nessas condições. – Disse Karen. – Nem imagino como estão as coisas em New Bark.

– Bom, é melhor continuarmos, precisamos chegar em Azalea antes do Sol se pôr. –

– Espera! – Exclamou Karen. – Tive uma ideia! – E saiu correndo.

– Espera! Onde você vai? Não devíamos nos separar! – Gritei. – E você tá indo pra direção errada, temos que ir para sul e não norte! – Terminei e sai correndo atrás dela.

Enquanto corria atrás dela, pude vir a Torre de Rádio e perceber como ela era grande. Aquele era o lugar que eu chamava de lar fazia três anos. Karen então virou num beco e a príncipio eu achei estranho, mas quando eu fui atrás dela no beco, já havia entendido. Ela estava indo para a loja de bicicletas e eu finalmente a alcancei. Agarrei o braço dela e disse:

– Karen! Você não pode fazer essas coisas, se separar assim de mim é perigoso. – Dei bronca. – Você podia ter sido atacada por um pokémon e eu nada poderia fazer...

– Me desculpa... – Ela respondeu. – Mas está tudo bem e estamos na loja de bicicletas agora e nenhum pokémon nos atacou ainda.

– Está bem, mas não faça mais isso. – Conclui. – Vamos entrar na loja...

A loja não possuia mais porta, por algum motivo. Ela tinha alguns furos na parede, mas eles pareciam forçados, não parecia que tinha caído sozinhos. Olhando nas construções ao lado, percebi que elas apresentavam as mesmas marcas.

– Karen... – Chamei, preocupado. – Acho que é melhor você não entrar aí. – Mas era tarde demais e ela já estava quase lá dentro, então a segui.

Dentro da loja, percebia-se que um pedaço do teto havia caído, deixando entrar a luz de fora. Quanto as bicicletas, estavam todas destruídas. Mas era estranho, parecia que alguém, ou alguma coisa havia entrado lá e destruído todas elas. Algumas tinha marcas de mordida, como se tivesse sido comidas. Mas nenhum rastro de pokémon lá dentro, ainda bem.

– O que aconteceu aqui? – Perguntou Karen, olhando as bicicletas. – Estão todas destruídas...

– Karen, vamos sair daqui. – Falei. – Precisamos continuar.

Karen concordou, saímos da loja, passamos pelo beco e continuamos seguindo para o sul. Aos poucos a cidade foi acabando, havia cada vez menos casas e a grama começava a predominar. Entravamos na rota trinta e quatro quando Karen começou a falar.

– O que você acha que fez aquilo com as bicicletas? – Perguntou.

– Eu não sei, talvez elas tenham quebrado quando o teto desabou. – Disse. – Quem sabe.

– Qual é, Peter. – Ela respodeu. – Você viu o estado daquelas bicicletas. Estavam comidas e partidas. Não foi um evento natural que as destruiu. – Completou.

– Por que? Você tá com medo? – Brinquei, tentando quebrar o clima.

– Estou. – Respondeu seca. – E se foi um pokémon contaminado? E se ele estiver perto?

– Não se preocupe, Karen. – Tentei acalmá-la. – Não vimos rastro algum de pokémon até agora. A loja deve ter sido destruída a muito tempo e o pokémon já deve estar longe nessas horas.

– Acho que tem razão. – Concordou.

Continuamos seguindo para sul a quanto mais nos distanciavamos da cidade, o mato ia ficando mais alto e mais difícil de se andar por. O mato já atingia minha cintura de tão alto. Foi quando ouvimos um movimento no mato. Só podia ser um pokémon.

– Karen, se prepare. – Disse, sério.

O mato ficava cada vez mais agitado, em pontos diferentes. Estavamos cercados. Começamos a escutar um barulho difícil de descrever. Parecia uma cantoria, desafinada, com um couro formado por bruxas. É, acho que assim é um bom jeito de descrever o que eu ouvi.

– Peter, eu tô com medo. – Comentou Karen.

– Não fique, apenas chame seu Eevee e se prepare, acho que teremos que lutar.

Lançamos as pokébolas para o alto e elas liberaram uma luz amarelada que tomou forma de Pikachu e Eevee. O mato estava tão alto que Pikachu tinha que ficar nas pontas do pé para poder enxergar alguma coisa. Pobre Eevee, só via suas orelhas para fora do mato. O barulho foi ficando mais alto e então se levantaram da grama várias criaturas de coloração amarela e pele enrrugada.

– O que são eles? – Perguntou Karen, assustada.

– Eu acho que são Drowzees. – Respondi. – Mas estão diferentes. Devem estar infectados.

Eles tinham olhos vermelhos e muitos deles tinham feridas abertas, que fazia um cheiro de carniça se espalhar pelo ar. Um deles sequer tinha braço e era possível ver o corte aberto como se houvesse sido cortado naquele dia.

Eles foram chegando perto, andando lentamente. Eram cerca de quatro Drowzees. Eu evitei provocá-los até o último instante, mas eles já estavam tão perto que eu não tive outra escolha.

– Pikachu, use Thundershock! – Mandei.

Pikachu pulou e suas bochechas avermelhadas brilharam em intenso amarelo, disparando verdadeiros relâmpagos na direção dos Drowzees, que recuaram momentaneamente. Isso devia ter deixado eles furiosos, porque eles avançaram para cima de nós com tudo!