P.O.V. Ravena Castellyn

Passaram-se duas semanas e ainda estava tendo pesadelos. Isso não estava me afetando tanto, parecia algo normal e como sempre não lembrava do que sonhava depois de acordar… a única coisa que me afetava era que dormia menos. Acordava mais cedo e dormia mais tarde. Estava com um pouco de olheira. Mas, sinceramente, não se comparava as meninas do meu quarto.

Elas estavam um pouco perturbadas. Não conversavam tanto quanto nos primeiros dias, mas provavelmente pelos diversos trabalhos que recebíamos nas aulas. Elas dormiam praticamente o mesmo tempo que eu, mas pareciam mais cansadas. A diferença também eram que usavam mais maquiagem.

Estava bem anti-social dentro das minhas cortinas sentada em minha escrivaninha. Eram sete e meia e estava terminando a lição de Herbologia, aula que eu teria no primeiro tempo. Apoiada no braço e super entediada enquanto escrevia/ouvia/falava sobre plantas. Herbologia era chato demais, mas a falta do que fazer e a vontade de mostrar um boletim impecável para meus tios superava o tédio… ou não. Vamos dizer apenas que valia o esforço. Tudo para esfregar na cara deles que eu sou ótima.

Joguei meus livros de qualquer jeito dentro de minha bolsa, olhei no espelho ao lado da minha janela, observei calmamente a mesma para ver se via algum animal (fazia tempo que nenhum passava ali) e após isso, abri minhas cortinas.

As três sorriam e maquiavam uma a outra como se fosse a coisa mais legal do mundo. Quase vomitei com a cena e sai do quarto rapidamente, olhando para a Sala Comunal de cima. Havia alguns alunos, os mais velhos estavam animados e normais enquanto os da minha idade pareciam cansados. Será que a rotina de Hogwarts não era boa para eles?

Desci e rumei até o Salão Principal. Noah, depois do primeiro dia, passou a me esperar, mesmo que assim que me visse ficava pedindo para eu correr que iriam comer todas as panquecas — sério que aquele menino só comia panquecas?

Hoje sentamos novamente na mesa da Grifinória. Noah se sentia um pouco incomodado com todos os sonserinos o olhando como se quisessem matá-lo, mas eu não me importava com tais olhares então concordamos que, por enquanto, iríamos comer apenas na mesa da Girifnória. Eu até admirava o ódio direcionado a mim; a melhor parte era quando desviavam o olhar. Parecia um jogo bem divertido.

Noah também parecia um pouco cansado. E, a cada dia, mais paranóico.

— Pesadelos de novo — comentou, descontando deu descontentamento na panqueca. — E hoje ainda tenho aula de História da Magia… no segundo período! Essa matéria me cansa.

— Minha primeira aula é Herbologia. Com a Corvinal. Aqueles perfeitinhos que se acham os mais inteligentes me irritam muito.

— Quem nesse colégio não te irrita? Os grifanos são metidos e convencidos, os corvinos são sabichões e autoritários, lufanos te irritam por existirem e os sonserinos são muito grossos. Ou seja: todos da escola irritam você.

Ela pareceu parar para pensar.

— É. O problema está realmente no ser humano — concordou. — Mas não odeio eles. Só me irrita o fato dos corvinos ficarem interrompendo o professor toda hora e atrasando a aula com perguntas idiotas que eles acham ser super inteligentes. É bem irritante.

— Quando vê assim só uma pessoa faz isso e você generaliza.

— Provavelmente — assenti. Era realmente isso.

— Preconceituosa — ele apontou o dedo, julgando. — Isso que você é!

— Eu diria que sou chata — falei, franzindo o cenho.

— É. Se adequa melhor…

Saímos do Salão Comunal. Ele se dirigiu até a sua aula, Feitiços, e eu fui para a estufa do primeiro ano. Chegando lá, todos estavam em seus grupinhos conversando enquanto sentei no primeiro lugar que vi sem ninguém, coincidentemente ao lado de Scorpius e Alvo. Eu os encarei, ambos conversando.

A aula começou chata, como sempre.

— Será que se eu jogar essa semente ela entra na boca dele e ele morre engasgado? — Murmurei, segurando uma semente grande em minhas mãos que tinha pegado na mesa.

— Se conseguir, acho que até a professora agradece e te dá uns cem pontos — Scorpius havia escutado e, para minha alegria, entrado na conversa.

— É, eu faria um favor para o planeta eliminando esse corvino… podia até eliminar mais alguns para que parassem de responder todas as perguntas como nerds.

— Eles não tem culpa — riu Alvo, maléfico. Caramba, não imaginava que até o Potter entraria na zoação. — Tem a necessidade de mostrar que sabem alguma coisa.

— Isso é triste — riu Scorpius.

— Coitados — concordei. — Pelo menos Douglas para de falar quando um de seus colegas consegue responder primeiro.

— Será que rola pancadaria? — Perguntou Alvo, realmente pensativo. — Eles parecem querer matar uns aos outros para verem quem consegue responder primeiro.

— Corvinos deveriam ter um termo novo. Nerd é pouco para eles — conclui.

— São corvinos. Não existe uma palavra para descrever a vontade que tem de serem irritantes sabe-tudo — riu Scorpius.

— Nem dá para não generalizar — bufou Alvo. — Parecem lobos famintos por respostas.

E assim algo parecido com uma amizade começou. Realmente até a professora parecia um pouco irritada com os sabe-tudo, mas ela nunca admitiria isso. As vezes eu encarava a professora e me perguntava como ela conseguia aguentar… deveria ser pelo fato de só atender o primeiro e segundo ano.

As demais aulas foram tranquilas. Consegui ignorar mais os outros alunos levando a minha atenção a conversas com Alvo e Scorpius, eles eram bem legais. Duas semanas para conseguir uma amizade com alguém da minha casa. Eu era boa com pessoas? Fica a dúvida no ar.

Na aula de poções, depois do almoço ao qual sentei ao lado dos meus dois novos amigos já que Noah se divertia muito com uma galera bem estranha — muitas casas juntas, tive novamente que desgrudar Noah do amigo chato dele, A alguma coisa. Não me dava o luxo de me importar com o nome do garoto.

Ele estava pior que os outros alunos. Quando cheguei perto dos dois, que sentavam conversando (haviam chegado primeiro que eu), tive que encará-lo por alguns segundos antes de puxar Noah.

— Você vem comigo. Tchau, estranho — era habitual. Pelo modo como agiram, ambos já estavam acostumados.

Eu ajudava muito Noah com poções. Ele não era ruim, apenas inexperiente para caramba. As outras aulas passaram com normalidade, até a aula de voo foi igual: Noah caindo da vassoura, eu tendo que pegá-lo antes de bater a cara no chão e os outros alunos rindo. Ele tinha até apelidos por cair demais.

Depois da aula de Astronomia estava muito acordada e resolvi andar pelo castelo como algo animador (e contra as regras, mas beleza). Consegui ver a diretora da minha casa, Eleonor Smethwyck, conversava algo bem sério com Filch. Eles caminhavam em minha direção, conseguia ver a tensão no rosto da Profa. Smethwyck então fiz a coisa mais sensata para não ter uma detenção e, de quebra, conseguir ouvir alguma coisa — curiosa? Muito.

Me escondi no armário de vassouras torcendo para que ouvisse algo ao passarem e para não terem me visto (haviam virado no corredor fazia poucos segundos e não demorou para entrar no armário). E, por sorte, consegui ouvir a voz fria de minha diretora (que eu amava, ainda mais quando tirava ponto dos grifanos sem motivo… talvez ela seja um pouco preconceituosa, mas era bom de ver).

— … são muitos alunos com sonambulismo? — Ela perguntava. — Isso está começando a ficar estranho. Todos os alunos do primeiro ano estão reclamando de pesadelos na minha aula. Acho que a Profa. King terá que fazer uma poção para dormirem melhor. Alguns professores acham que estou pegando muito pesado em minhas aulas — isso era meio verdade, ela só mostrava umas imagens macabras e, por mais que o animal das trevas que vimos e o feitiço defensivo que fizemos eram bem simples e não assustavam muito, as imagens davam calafrios. — Não acredito que terei que mudar meu método de ensino para coisas que dão menos pesadelos.

— As crianças hoje em dia são muito fracas — resmungou Filch. — Até as detenções da Floresta Proibida foram suspensas para os alunos do primeiro ano. Não pode pendurar por pregos nas torres altas para ouvirmos fritar, não podem entrar na Floresta Proibida para encarar criaturas perigosas… o que será das gerações futuras? Ainda bem que morrerei logo.

Isso eu concordo, pensei. Ele era muito irritante.

— O problema está no modo que esses pais bruxos estão criando seus filhos. Entendo que nascidos-trouxas se assustem com a imagem de um dementador, mas desde quando isso deveria assustar um puro-sangue…?

As vozes sumiram. Me senti assustada quando a ficha caiu. Então todos os alunos do primeiro ano estavam tendo pesadelos? Podem me chamar de Noah, mas neste momento tive muitas paranoias se formando em minha cabeça…

***

— Acho que enlouqueci! — Anunciei ao sentar ao lado de Noah na mesa da Grifnória. Ele me encarou com os olhos arregalados.

— Ta irritada por não ter te esperado? — Perguntou ele, parecendo um pouquinho culpado.

Dei de ombros.

— Estou de boa. Não precisa me esperar — comecei a me servir. Aqueles grifanos não iam se acostumar com a minha presença? Estava começando a ficar chato.

— Hm… brava por não almoçarmos juntos? — Ele parecia fazer esforço para pensar.

Franzi o cenho.

— Se estivesse brava por isso porque não teria demonstrado ontem? — Perguntei. Tive várias e várias oportunidades… e entre elas estava a oportunidade de deixá-lo quebrar o nariz ao cair de dez metros de altura. Mesmo com o feitiço que o Sr. Wood lançava ao cair, ele teria quebrado o nariz. — Para com essa paranóia. E eu não estaria enlouquecendo por estar brava com você! — Esclareci.

Ele deu de ombros.

— Vai saber. Você fica irritada com cada coisa estranha…

Revirei os olhos.

— Vamos conversar em um local mais reservado — pedi, pois quando estava prestes a me abrir, Aron se sentou ao lado de Noah e começou a se servir.

Ele tomava café ali muitas vezes e geralmente eu apenas o ignorava completamente, mas eram assuntos que não me importava dos outros ouvirem. Quando disse que queria um lugar reservado, chamei atenção de Noah.

Como era quinta-feira, só teríamos aula de Defesa Contra a Arte das Trevas e, por algum motivo, Noah precisava de uns minutos do almoço para terminar alguma tarefa que não havia conseguido de noite estudando Herbologia (o que não fez muito sentido, já que ele não tinha atividades da aula). Não dava para conversar durante a aula, então após ela eu o arrastei para o jardim.

Perto do Lago Negro e sem ninguém escutando, me sentei e pedi para fazer o mesmo. Por fim, contei da conversa que havia escutado entre Filch e Profa. Smethwyck e, acrescentando por fim, que concordava com ele. Algo estava acontecendo e não era normal.

Noah sorria.

— Eu sabia que não estava errado! Está sentindo esse calor? Ah, acho que só eu sinto, porque estou sempre coberto de razão.

Revirei os olhos. Convencido! Deveria ser o motivo dele ser grifano. É, fazia sentido.

— Tem que ser grifano mesmo para ser tão convencido — joguei em sua cara, o deixando um pouco desanimado. Talvez por todo mundo da sua casa ser meio chato, metido e convencido (sim, sou generalizadora até que me provem o contrário), ele não gostava quando colocava essas qualidades nele… mesmo sendo totalmente apropriadas. — A questão é que tem alguma coisa acontecendo. Os professores não estão ligando muito pra isso, o que nos leva a… — encarei, esperando que ele completasse. Eu sorria.

— Conversar com eles e mostrar que é um problema? — Perguntou.

Revirei os olhos.

— Não, grifano estúpido. Nós vamos resolver sozinhos porque é muito mais legal e satisfatório resolver nossos problemas e, como os adultos não sabem de nada, não vão nos atrapalhar e nos colocar de lado! Simplesmente perfeito.

Ele sorriu, maléfico.

— Gostei bem mais dessa opção. Vamos resolver! Quero isso desde antes de chegar em Hogwarts...