Notas iniciais
Voltei amores. :3 Demorei um pouco, eu sei. Esse capítulo foi um pouco difícil de escrever, mas aqui está. :3

Sexta-feira

A bagunça foi horrível de limpar, mas, no final, a casa de Ruby cheirava a citronela e eucalipto. Nem parecia que um porco maligno tinha entrado na casa de Ruby — e veja bem, "entrado", não invadido, pois não havia sinais de invasão — e feito a maior bagunça.

—Eu ainda não consegui entender como que um porco entrou na sua casa. — Chelsea voltou a questionar, sentada no chão. O sofá e as almofadas estavam secando no sol do outono. Seus olhos de policial tinham vasculhado a casa inteira e não tinha encontrado nada, nem mesmo uma janela aberta.

—Eu queria saber como o porco morreu. — Emily disse. Ruby não queria voltar a falar sobre o tal porco. Apenas encarou as duas com um olhar sugestivo. Então, voltou a se escorar na parede, respirando profundamente o cheiro enjoativo de limpeza.

—Eu não quero falar sobre isso. — Ruby disse levantando-se e dirigindo-se à cozinha para preparar um chá. Suas duas amigas ainda estavam sentadas no chão, exaustas.

—Eu vou ficar um bom tempo sem comer porco. — Emily disse, com nojo só de lembrar da cena.

—Não me lembre. — Chelsea pediu, fechando os olhos, concentrando-se para pensar em outra coisa. Quando abriu os olhos e não viu sua amiga sentada ao seu lado, levantou-se com um resmungo e foi para a cozinha, Emily indo logo atrás. — Mal posso esperar para ir para a Wilma. To precisando de um tratamento completo para esquecer dessa experiência.

—Na onde? — Ruby perguntou, oferecendo duas xícaras de chá para suas amigas assim que elas sentaram, pegando a sua logo em seguida, sem sentar na cadeira.

—No salão. Não vai me dizer que você esqueceu. — Ruby fechou os olhos, finalmente entendendo aquela sensação de que estava se esquecendo de algo, enquanto Chelsea a encarava com uma expressão de poucos amigos. — Ruby, você prometeu.

—Desculpa, eu tenho planos.

—Mais importantes do que ficar bonita para seu casamento de amanhã? — Emily perguntou, tão indignada quanto Chelsea.

Ruby deu de ombros.

—Vão na frente, vocês definitivamente merecem. — Ruby disse, terminando a discussão.

—Mesmo se você não dissesse, eu iria. Eu to precisando me sentir bonita depois do que você me fez limpar. — Chelsea disse engolindo um grande gole do seu chá e logo em seguida se levantando.

—E é por isso que eu te amo. — Ruby respondeu com um sorriso. Chelsea sorriu.

—Guarde isso para seus votos. Vamos, Emily?

—Eu não sei o que você vai fazer agora, mas depois, não se esqueça de ir ao salão, tudo bem, Ruby? — Emily disse, levantando-se da cadeira e seguindo Chelsea. Ruby acenou e sorriu. Suas amigas pararam na sua porta e mandaram beijo.

Ruby pensou mais uma vez em desistir daquela ideia. Talvez ela realmente devesse ir ao salão e deixar tudo aquilo de lado. Mas, havia uma chance de que... Não. Não era uma chance, era uma certeza. Tudo estava voltando.

Depois de quase uma vida, Ruby resolveu ir atrás de sua parceira de bruxaria.



Olivia Hunter não estava tendo uma boa manhã. As vozes cantando em sua mente estavam fazendo sua cabeça ameaçar explodir. Sussurros, murmúrios e comentários aleatórios de pessoas que nunca conhecera.

Passara vinte anos tendo de conciliar sua habilidade de ouvir os mortos com sua vida normal, mas hoje estava impossível. Sua dor de cabeça estava além do normal e estava realmente atrapalhando seu serviço.

—Olivia? — As vozes chamavam e chamavam, mas só depois de chamá-la uma terceira vez que ela percebeu que na verdade era sua chefe Isabella que a chamava. Deixou de massagear suas têmporas para encará-la, com o sorriso mais espontâneo que conseguiu. — Você está bem, querida?

—Só um pouco de dor de cabeça. — Mentiu. Não era um pouco. Era uma enxaqueca, uma dor indescritível. Mal conseguiu ouvir sua própria voz enquanto falava. Agora as vozes gritavam em sua mente e Olivia tinha de usar todo seu controle para não gritar suas palavras.

Era incrível como, mesmo assim, conseguia entender o que as pessoas reais diziam sem nem mesmo ouvir o que elas diziam.

—Não acha melhor ir para casa? Você não parece muito bem. — Isabella sugeriu, docemente. Em ocasiões normais, Olivia nunca deixaria de fazer seu serviço por questões sobrenaturais. Mas naquele dia, talvez fosse preciso.

—Você não se importaria? — Perguntou, já sabendo a resposta. Isabella apenas sorriu. Ela era a melhor chefe que Olivia já teve em toda sua vida. Um amor de pessoa.

—Claro que não. Claramente você não está apta a fazer seu trabalho hoje, então eu deixarei essa passar.

—Deu para perceber? — Olivia perguntou, questionando sua capacidade de manter uma vida. Geralmente ela conseguia ouvir os espíritos e fazer suas atividades normais, mas por algum motivo, hoje eles estavam gritando.

Não, ela sabia exatamente porque estavam gritando. Talvez ela realmente devesse ficar em casa, em sua cama, o lugar mais seguro.

—Você não fez nada até agora. — Isabella disse, esperando não parecer muito dura. — Vá, querida. Vá descansar e não se atreva a voltar com essa dor de cabeça.

—Obrigada, Isa. — Olivia disse, sentindo-se um pouco aliviada. As vozes se acalmaram um pouco. Sorriu e pegou sua bolsa, levantando-se e indo diretamente à porta. Assim que saiu do estabelecimento, não ouviu nada.

Silêncio, finalmente.

Mas eles nunca ficavam quietos daquela forma, a menos que... Olivia deu uma breve olhada ao seu redor, procurando pelo motivo da dessintonização do rádio. Até que viu seu passado naqueles olhos pretos, intensamente sérios, encarando-a sem dó. Cabelos tão lisos que pareciam ter sido lambidos por uma vaca.

—Ruby. — Olivia disse, mais assustada do que nunca. Seu passado tinha finalmente a alcançado.

Ruby sorriu de volta, não muito animada. Olivia foi até ela e a abraçou. Por mais que não fosse uma visita boa — nada que viesse dela poderia ser bom —, sentia-se aliviada por ter ela por perto. Somente quando sua antiga parceira de bruxaria estava por perto que as vozes finalmente se calavam.

Se não fosse pela promessa que fizeram anos atrás, provavelmente nunca a deixaria.

Se não fosse pelo terror que as seguia, Olivia teria apenas a memória para se lembrar de sua amiga.

—Ela também está atrás de você? — Olivia perguntou no ouvido da amiga, ainda abraçada. Olivia não podia ver seus olhos, mas podia "sentir" o medo que estava encravado ali.

—Se ela não estivesse, eu estaria aqui? — Ruby respondeu, um pouco grossa. Gostava de ver a amiga, mas gostava mais de manter o passado no passado. E ela tinha fortes motivos.

Olivia a soltou. O medo e desespero estava em ambos os olhares. Se as pessoas da cidade de Maine, Minnesota, fossem tão curiosas quanto as de Yaak, Montana, estariam prestando atenção na conversa das duas. Nos olhares das duas. E perceberiam muita coisa. Inconscientemente, elas abaixavam a guarda quando estavam perto uma da outra, como se tivessem dez anos de idade, novamente.

Notas finais
*autor carente mode on* Não se esqueçam de comentar se gostaram ou não. :3