O Véu Da Bruxa
11 O Conto do Corvo
Notas iniciais
O ano era 1965. Ou seria 64? Não tenho certeza, depois que você passa das centenas, guardar datas e anos fica cada vez mais dificil.
Era o período em que as folhas das árvores caíam secas no chão, de chamativos tons de laranja. O clima era relativamente frio, eu nunca me importei. Aliás, depois dos meus cem anos, eu procurava sempre dizer a mim mesma que eu não me importava com nada. E eu procurava não me importar. Eu já vivi mais do que você, já tive tudo que já pude imaginar em ter e nada daquilo jamais completara essa vazia sensação de que algo está faltando.
Você tem quinze anos apenas, mas eu tenho certeza de que você sabe do que eu estou falando, minha pequena Lacey.
Eu estava passando pela praça no momento em que vi minha pobre Ruby. Ela estava tão bem agasalhada que mal podia ver seu rostinho branco e pálido. O cachecol preto escondia seu pescoço e queixo do frio, ainda era possível ver a ponta do seu nariz rosa, o hálito quente visível a sua frente. O gorro em toda a extensão de seus cabelos pretos.
Ela estava praticamente sendo arrastada pelo monstro de quase dois metros de altura a quem ela chamava de pai. Seu braço pequenino ficava esticado acima de sua cabeça e seus passos curtos eram tão rápidos que ela parecia estar quase correndo.
Ela olhou para mim, eu a encarei por um breve tempo. Ela me encarou de volta, seus olhos inexpressivos. E então ela sumiu de minha vista, ainda correndo atrás do seu pai.
Essa foi a primeira vez em que a vi. Naquela época, ela ainda não tinha conhecido Olivia.
Algum tempo depois, não me recordo exatamente quanto tempo se passou... Ah, sim. Em torno de oito semanas, se não me engano. O período que durou as suspeitas de que eu era uma bruxa. Por pouco eu não fugi daquela cidade.
Depois de oito semanas em que passei sendo humilhada em público, numa noite, quando a lua estava centralizada no céu, mais brilhante do que o costume, eu vi uma sombra surgir no canto de meus olhos. Quando me virei, eu a vi novamente. Estavam elas duas, Olivia e Ruby, paradas, olhando para mim.
Ficamos um bom tempo nos observando, encarando, até que eu resolvi perguntar o que é que elas queriam.
"Nós ouvimos dizer que você é uma bruxa... É verdade?" A pequena Olivia disse. Suas mãozinhas pequenas e brancas apertavam a barra do vestido, Ruby apertava os braços de Olivia, quase como se tentasse se esconder atrás dela.
"E se eu fosse?" Eu perguntei, meus olhos sem expressão. Por costume, eu levantei o queixo e as olhei de cima. Uma atitude que eu poderia ter evitado, mas naquela época, eu ainda não tinha conquistado minha afeição por aquelas pequenas carinhas inocentes e olhos de adulto.
"Nós precisamos de sua ajuda", Ruby disse. Eu levantei uma sobrancelha.
"Gostaríamos de nos vingar de nosso pai". Olivia completou. Eu ri.
"Porque? Ele não lhes deu doce o suficiente?" Eu debochei. A pequena Olivia levantou a manga do casaco. Havia manchas brutamente roxas em sua pele, do tamanho do punho de um adulto. Outras, tinham a marca perfeita de quatro dedos. Então, Ruby levantou um pouco a saia. Na parte interna de suas coxas, havia mais marcas, pouco menores que as de Olivia, mas isso não as fazia melhores. Não as fazia doerem menos.
Eu olhei para as duas e dessa vez eu as observei de perto. Prestei atenção em seus olhos. A inocência tinha se corrompido muito cedo. Fazia um certo tempo desde a última vez que tentei enxergar as auras. Fiquei espantada. As auras das meninas ocilava entre preto, vermelho e cinza.
Ocilava entre ódio, medo, raiva, depressão e tristeza.
A de Olivia era tão densa e tão... Me dá arrepios até hoje, só de lembrar. Nem me lembro quando foi a última vez que senti tanto ódio, mas aquela menina... Era muito cedo para ela odiar.
"Talvez eu lhes ensine algum truque. Mas... Vocês tem que ter a noção de que isso pode custar a vida inteira de vocês". Eu avisei. Eu deveria ter avisado melhor. Eu deveria ter evitado. Eu deveria ter recusado.
"Acredite em mim, já perdi minha vida inteira. Não tem mais nada que eu possa perder". Olivia disse para mim. As palavras eram tão pesadas que eu me espantei e, disso eu tenho certeza, embora minha memória não esteja tão boa, eu recuei alguns passos quando a ouvi dizer aquelas palavras.
Se ela continuasse a alimentar aquele ódio naquela velocidade, tenho certeza de que ela se tornaria uma bruxa pior do que eu. Várias de minhas amigas possuem ódio, muitas vezes o motivo que as fizera entrar em tal crença. Eu já tinha visto o ódio banhar suas auras, tornando-as maligna e tenebrosa. Mas nenhuma delas se compara a de Olivia.
Por vezes, eu me pergunto se não deveria ter sido melhor evitado de tal coisa acontecer.
Eu lembro que eu suspirei. Pesadamente. Eu poderia dispensá-las, dizê-las que estão enganadas, que eu não sou realmente uma bruxa... E eu realmente deveria ter dito isso. Mas, algo me ocorreu naquele instante. Meus instintos falaram mais alto e me falaram para eu ensiná-las tudo que eu sabia.
Eu balancei minha mão no ar e dois pedaços de papel surgiram em minhas palmas, em seguida entreguei a elas.
"Encontrem-me nesse endereço, amanhã às 10 horas. Vou ensinar tudo o que vocês precisam saber".
Fale com o autor