1964

20 ANOS ANTES


No ano de 1960, Joshua Zanini tinha perdido todo o seu dinheiro em apostas de corridas de cavalo.

Ele tinha uma vida considerada boa. Até ele conhecer a emoção de apostar num cavalo que você acha que vai ganhar, mas que nunca ganha. Ele tinha essa pequena mania de viciar em qualquer coisa, e Joshua sabia disso. Por isso tentava se manter longe dos cassinos.

Mas, depois de tanto apostar em cavalos que nunca ganham, Joshua ficou endividado com um homem que preferiria nem ter conhecido. Joshua nem ao menos sabia o nome dele. Só sabia que todos o chamava de Ogro, e, não sabia e nem queria saber de onde ganhara esse apelido.

Com um dinheiro emprestado do Ogro, Joshua colocou tudo o que tinha nas apostas de cassino, 21, poker, roleta russa. Qualquer um. Contanto que ele ganhasse o dinheiro de volta.

Mas nada.

A sorte o abandonara e o deixara apodrecer nas mãos do azar.

Então, para pagar sua dívida, agora mais alta do que nunca, relutantemente, Joshua resolveu entregar sua casa. A casa que tinha acabado de comprar.

Então, ele e sua mulher, Jessica, foram morar na fazenda de uma prima distante que precisava de pessoas para cuidar de seus animais.

Em 1963, Constantine morreu e, por não haver parentes próximos, a fazenda ficou com eles.

E eles viveram felizes por um bom tempo. Talvez, se fosse comparar, eles estavam até mais felizes do que estavam antes, quando moravam naquela casa enorme no meio da cidade. Eles tinham a quietude do mato logo ao seu lado, com o zen que a natureza proporcionava a eles. Não somente tinham a fazenda, onde cultivavam tudo o que comiam, como também criavam vacas, galinhas, cavalos — ah! os cavalos! — e porcos.

No outono de 1964, Joshua acordara assustado no meio da madrugada. Ele e sua mulher sentaram na cama, olhando um para o outro enquanto ouviam um choro desesperado que parecia vir de fora de sua casa. Junto com o choro, vários animais acordaram e pareciam estar assustados, gritando em coro. Um barulho ensurdecedor e alarmante.

—Joshua, não me faça te bater. Vá lá fora ver o que está acontecendo. Eu não me levantarei dessa cama enquanto você não for lá fora.

Não porque sua mulher o mandou, Joshua levantou de sua cama, extremamente cuidadoso. Cada músculo de seu corpo parecia estar travado. Ele demorou alguns minutos até sair de sua casa.

Lembrete mental: Não esqueça de comprar baterias.

Joshua bateu em sua lanterna, já um pouco raivoso, a luz piscando no chão de terra. Até que, a lanterna resolveu funcionar, com uma luz fraca e ainda piscando levemente, conseguindo deixar sua fazenda ainda mais assustadora.

Ele foi atrás do som.

Os porcos estavam atiçados, todos gritando num canto só, enquanto que apenas um corajoso cheirava algo no meio da lama.
Joshua apontou a luz àquele porco corajoso. O porco correu. A luz piscou.

Havia algo dentro do chiqueiro.

Um... bebê?

Joshua olhou para os lados, intrigado. Como que aquela criatura humana tinha surgido do nada junto aos porcos? Alguém a colocou ali? Alguém estava querendo se desfazer da criança? Se era isso, então para que se dar ao trabalho de colocá-la junto aos porcos, e, porque entre os porcos?

—Olá? — Joshua chamou, apontando sua luz a floresta que tinha aos redores. Não havia nada. Nenhum barulho.

Então a lanterna apagou. Joshua assustou-se e se pôs a bater na lanterna até fazê-la funcionar. Seus músculos travaram de novo. Ele sentiu algo respirar em sua nuca.

Quando virou-se para trás, a visão perturbadora de um homem torto, de coluna arqueada, e garras o assustou e ele gritou, dando um passo para trás, tropeçando na grade dos porcos e caindo dentro do chiqueiro. Lama e sujeira em suas camisa e calça, provavelmente, dentro de sua cueca também.
Então, a lanterna resolveu funcionar novamente. Joshua apontou a luz piscante ao monstro que vira, e então se aliviou. As garras eram galhos de árvores, a coluna arqueada, folhas.

Pelos santos descabelados, ele tinha se assustado com uma árvore!

No dia seguinte ele iria cortar aquela árvore.

Joshua levantou-se e tossiu. Ele não suportava aquele cheiro. Ele pegou a criança. Imediatamente ela parou de chorar e o encarou profundamente, olhando dentro de seus olhos, como se encarasse a alma de Joshua. Ela não estava sorrindo e nem chorando. Apenas, ficara quieta e olhava nos olhos de Joshua.

Ele entrou em sua casa, seus pés sujos de barro e terra molhada.

—Por Deus, Joshua, o que você fez? — Jessica exclamou, apertando seu nariz, ainda em sua cama, enquanto observava seu marido entrar em sua casa, todo sujo.

—Eu caí no chiqueiro.

—Como que você conseguiu cair no chiqueiro, mongol? — Ela resmungou. E só então, viu que seu marido carregava algo em seus braços. — O que é isso?

—Estava junto aos porcos. — Ele disse e estendeu a mão. A criança, que parecia ter um ano, olhou diretamente aos olhos de Jessica, sem rir, sem chorar. Apenas a encarava, seriamente.

—Um bebê? — Jessica disse, não conseguindo acreditar. — O que, os porcos cagam humanos, agora?

—É o que parece.

—Aproveita o banho que você já vai tomar e lava ela também.

—Você quer ficar com ela? — Joshua perguntou, surpreso. Jamais imaginara que Jessica queria ser mãe.

—E você quer fazer o que? Dar para os porcos comerem ela? — Jessica disse, agressivamente. Depois que seu marido a fizera morar naquele fim de mundo, tendo de abandonar quaisquer indícios de sua vida passada, ela começou a tratá-lo estupidamente. Jessica gostava de ser rica. — E, outra... Eu sempre quis ser mãe. Algo que você claramente nunca pode me dar.

Joshua suspirou. Ele já estava mais do que acostumado com os palavrões em relação à ele.

—Que nome você quer dar à ela?

Jessica sorriu, lembrando-se de sua falecida mãe. O nome de sua mãe.

—Lacey.