O Véu Da Bruxa
5 Desculpe Por Tudo
Notas iniciais
Se a quinta feira de Ruby tinha começado horrível, a quinta feira de Olivia a tinha deixado extremamente tensa e irritada, o que, ironicamente, aguçava suas habilidades para ouvir vozes, deixando-a mais tensa e irritada ainda. E, embora Olivia tivesse todas as "características" para não ter uma vida normal, Olivia era mais feliz do que Ruby.
Olivia tinha um emprego maravilhoso numa empresa bem conhecida, trabalhava seis horas por dia, recebia um ótimo salário, e, quando voltava para casa, voltava para seu marido que, de alguma forma, sempre conseguiu fazê-la se sentir mais relaxada, mesmo tendo mil vozes gritando em seus ouvidos.
Quinta-feira, às três da madrugada, Olivia acordou de um pesadelo, suada e nadando em cobertas, apenas para ver a imagem de uma menina parada nos pés de sua cama. Olivia não costumava se assustar — não mais, pelo menos — com isso. Mas aquela noite, a menina não era como todas as outras que de vez em quando paravam para pedir ajuda. Não.
Essa tinha um olhar maligno, como se procurasse vingança. Seus cabelos eram uma bagunça, pretos, e duros, como se algo grudasse os fios de cabelo grossos um no outro. Seu vestido era branco e estava manchado de sangue e lama.
A imagem da menina, uma imagem que já tinha visto no passado, a deixara sem palavras, paralisada em sua cama. Até que ela se curvou e começou a engatinhar para cima da cama de Olivia, suas mãos sujando violentamente o lençol, encharcando-o com lama.
Então, Olivia realmente acordara, o grito entalado em sua garganta acordando seu marido. A menina não estava mais ali, nem as marcas da mão suja. Mas Olivia não se importava, estava assustada demais para saber se ela já tinha sumido ou não. Por mais que seu marido tentasse tranquilizá-la, Olivia continuava gritando e esperneando em sua cama. Demorou quase trinta minutos para que ele finalmente conseguisse acalmá-la.
Então ela começou a chorar, a culpa transbordando por seus poros. E até então, não conseguira contar nada à Daniel, ele não sabia o que estava acontecendo e, portanto, não sabia o que fazer a não ser abraçá-la e confortá-la.
No fim daquele dia, Olivia viu a mesma menina mais duas vezes, em distintas ocasiões, quando entrava em seu escritório e quando chegara em sua casa ela estava parada ao lado de seu sofá. E, se sua mente não fosse tão perturbada, se ela não fosse tão paranóica, talvez não teria visto o porco imaginário em seu sofá laranja.
Não precisou de muito para que Olivia adivinhasse que sua antiga amiga, ex parceira, Ruby aparecesse no dia seguinte.
E agora, estavam tomando café, como se aqueles dez primeiros anos nunca tivessem existido.
—Imaginei que você estivesse tendo visões com ela. — Ruby disse, parando para tomar um gole de café antes de continuar a linha de pensamento. — Você sempre foi a talentosa.
—Talentosa e fraca. — Olivia admitiu. Sim, ela era fraca. E durante aqueles vinte anos, nunca fizera nada para mudar aquilo. Porque convencera a si mesma que não adiantaria. Convencera-se que merecia.
—Não diga isso. — Ruby colocou sua mão em cima da de Olivia. Houve um leve choque, fazia tempos que não se tocavam. Que não conversavam. Parecia até um pouco estranho. Olivia quase esquivou, se apenas não precisasse daquele conforto para se sentir melhor. — Se você não fosse forte, Olivia, você poderia ter desistido anos atrás.
Como se a vida de Olivia sempre foi assim tão perfeita. Ela ainda tinha marcas em sua coxa. Porque cortes no pulso era muito clichê, ao menos, foi o que pensou na época.
Olivia a olhou com gratidão. Precisava ouvir aquelas palavras.
—E então? — Perguntou, demorando um pouco para conseguir encarar os olhos negros de Ruby. — O que faremos agora?
Ruby suspirou, dando de ombros.
—Viver com isso, eu acho. A menos que você saiba como matar fantasmas. Ainda está praticando bruxaria? — Ruby cruzou os braços, dizendo num tom irônico. É claro que não voltaria para a bruxaria.
—Eu parei quando você parou. — Olivia disse, dando de ombros. — Estou enferrujada.
—Eu também. — Ruby admitiu.
Mas, mesmo se elas soubessem como acabar com aquela tortura, era muito mais provável que não fizessem nada. Afinal, acreditavam que mereciam. E talvez merecessem mesmo.
Mais tarde, depois de passarem algumas horas colocando o assunto em dia, depois que Olivia se despediu de Ruby, esperavam nunca mais se verem de novo. Por que aquilo requeria circunstâncias desesperadoras, como a que elas se encontravam naquele momento.
Olivia estava em sua casa — finalmente! —, depois de um dia longo. Estranhamente, sentia-se mais relaxada e incomodada do que antes.
Estava relaxada por saber que não estava ficando louca, e estava incomodada por saber que o passado tinha finalmente chegado perto.
Talvez perto demais.
Assim que seu marido chegou de seu serviço, extremamente exausto por ter feito horas extras, jantaram. Tiveram uma conversa relaxante e Daniel percebeu que Olivia estava diferente. E quando perguntou, a única coisa que Olivia disse foi:
—Encontrei uma amiga antiga hoje.
Só isso. Daniel não a forçou a continuar, ou a explicar, e Olivia não estava com vontade de contar. E Olivia se sentia bem por não ter de explicar uma história longa. Bom, talvez não seja uma história longa. Apenas complicada. E Olivia não queria resumir.
Logo após a janta, enquanto Olivia lavava os pratos, um vulto passou pelo canto de seus olhos. Nem se deu ao luxo de responder à pergunta mental que surgiu. Sabia que havia duas explicações. A que ela se recusava a acreditar e a racional.
Mas, quando virou a cabeça para checar, o rosto branco da menina a assustou e Olivia quebrou o prato que estava lavando. Daniel correu até sua mulher, que já tinha juntado os pedaços de vidro, mesmo ainda não tendo se recomposto completamente.
—Amor, você não parece consigo mesma. Tem algo te incomodando?
A vontade que ela teve foi de responder grossa e mal educada, dizendo, "sim, tem. Eu vi minha amiga de vinte anos atrás, estou vendo coisas e tenho quase certeza de que minha vida será tomada em breve". Mas Olivia respirou, juntou os sentimentos para dentro de seu peito já estufado e disse, com resignação.
—Não, não tem nada.
E aquelas foram as últimas palavras que Daniel ouviu de sua mulher.
Porque, aquela noite, depois que Daniel acordou de seus sonhos para perceber que Olivia não estava na cama, ficou preocupado. E quando viu uma carta, não sabia se ficava preocupado ou não.
Na carta, Olivia explicitava porque se sentia culpada — sem revelar muitos detalhes, afinal não poderia puxar Ruby no meio de tudo aquilo — e pedia “desculpas”.
"Por tudo"
Então, quando foi procurá-la, ela estava morta, pendurada, no teto de sua sala. Com uma corda em seu pescoço e lama em suas mãos.
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