O Universo Particular de Maya Cortez
1 Decolando
Adolescência é uma coisa bem esquisita né? A gente fica tão ansioso pra crescer e atingir a tão sonhada independência e quando isso acontece lamentamos a falta de uma máquina do tempo pra voltar e fazer tudo de novo. Tem gente que até nega, diz que prefere a vida adulta, mas isso é balela, todo mundo sabe que é muito mais divertido ficar o dia inteiro sem fazer nada e fritando o cérebro com as porcarias que a cultura pop enfia na nossa goela abaixo. Ignorância é uma benção, pena que eu nunca fui uma pessoa abençoada como o resto das pessoas que conheço.
Mas esse período também não foi nenhum mar de rosas pra mim não… Houve muita crocodilagem e eu passei muito sufoco também. Talvez seja por isso que muita gente acaba não gostando da adolescência, mesmo sendo a primavera da vida. A gente costuma colocar as emoções ruins em cima das boas, não é verdade? E a adolescência é quando desabrocham as emoções, a gente começa a sentir coisas que nunca sentimos antes e que também não vamos sentir depois. É esquisito mas é gostoso, você sabe do que eu to falando.
Como eu já disse, vivi muitos eventos bons e ruins nessa época cujo final agora se aproxima. Alguns episódios dignos de seriado televisivo, outros nem tanto, outros só foram emocionantes na minha cabeça, outros nem merecem ser recordados de tão melancólicos ou irritantes. Já passei vergonha, já fui meme, já arrumei briga (cacete mesmo), já me apaixonei (umas duas vezes…), fui à festas, fui chamada na diretoria, conheci e desconheci pessoas, fiz o que deveria ter feito e o que não deveria também, me arrependo de algumas coisas e de outras me recordo sorrindo mesmo sabendo que moralmente eu não deveria. Mas o importante é que graças a essa série de eventos eu me tornei quem sou hoje. Eu costumava ser uma garota teimosa, pretensiosa e peculiar, hoje sou uma mulher teimosa, pretensiosa e peculiar, nada mudou além das minhas responsabilidades e do fato de que estou com os dias contados para completar 20 anos de idade e não ser mais uma “teenager”. Ainda sou uma viadinha.
Você deve estar se perguntando por que eu estou falando tanta baboseira melosa sobre a adolescência (preciso arrumar outra palavra, já usei demais essa…) e pensando que eu não tenho nada melhor pra fazer ou estou em alguma espécie de crise de identidade devido a vida adulta que se aproxima. E é exatamente isso mesmo! Depois de concluir 4 anos de ensino médio eu não consegui uma vaga na minha universidade dos meus sonhos, não vou me ater a detalhes quanto a isso mas gostaria de declarar que não tenho culpa, o nosso sistema educacional falho é quem tem. De qualquer forma hoje a minha vida é um puro ócio quando não estou estudando para os exames, então resolvi registrar minhas memórias da adolescência em um livro para que o tempo não as apagasse, boa ideia não é? Pense nisso como uma maneira de imortalizar meu eu juvenil e os colegas e amigos que estiveram comigo durante esse tempo.
Antes de narrar os acontecimentos, é necessário esclarecer algumas coisas: a primeira é que não sou nenhum Graciliano Ramos ou Machado de Assis da vida, apenas quero matar meu ócio me divertindo com a escrita. Não te garanto uma obra shakesperiana por aqui, portanto se você é do tipo que só lê livros cheios de palavras difíceis, referências filosóficas e múltiplas interpretações metafóricas, recomendo que vá ler o Inferno de Dante. Não sou nenhuma escritora, sou só uma guriazinha com um computador, você provavelmente me chamará de puta até a metade da história.
A segundo é que eu amadureci bastante desde a maioria desses eventos, então provavelmente já não concordo mais com algumas das minhas atitudes e nem me sinto mais como me sentia naquele momento. Muitas das memórias que narrarei serão retiradas de um diário que mantive durante esse tempo e de fotos que publiquei na internet, então isso que você lerá é quase um diário, porém narrado apropriadamente, afinal, ninguém escreve um diário pensando em quem vai ler, né? Espera-se que ninguém leia. Não sei se vão ler o que eu escrevo aqui também, quem se interessa pelas memórias de uma guria teimosa e pretensiosa? É muito melhor ver seriados e vídeos no youtube.
Mencionar meu diário me lembrou que preciso explicar uma terceira coisa, talvez a mais importante: os episódios que irei narrar não serão sempre contados em ordem cronológica, mas sim na minha ordem, o que eu for lembrando, vou escrevendo. Talvez eu avance demais no tempo e depois rebobine demais, mas não se preocupe, vai ficar tudo claro lá na frente.
Ainda antes de contar o que tenho para contar, gostaria de me apresentar, desculpa pela minha falta de educação em não ter feito isso antes. Olá! Me chamo Mayara Cortez, mas pode me chamar só de Maya, apesar de que esse nem sempre foi meu nome. Antes eu me chamava Bertha, mas por alguma razão meus pais resolveram mudar meu nome quando me adotaram. Minhas memórias mais antigas são de quando eu tinha entre 4 e 5 anos e morava no orfanato que me deu o nome de Bertha mas não me deu nenhum sobrenome. As lembranças que tenho de lá não são tão ruins, mas fiz uma visita ao local quando tinha uns 12 anos e estava uma espelunca caindo aos pedaços, não sei se tudo mudou quando saí de lá ou se minha inocência infantil me protegeu de ver o horror daquele lugar. Fui adotada com 6 anos e, pensando bem, meus pais fizeram certo, eu não tenho cara de Bertha mesmo. Nunca procurei pelos meus pais biológicos, se eles me colocaram para adoção eles tinham algum motivo e eu prefiro não descobrir.
Poucas pessoas sabem dessa história além de mim e dos meus pais, eu nunca fui muito de ter amigos fora da internet, acho que sou complexa demais para a compreensão humana. Mas eu tenho três amigas tão próximas que ouso dizer que são partes de mim, são elas: Electra, Pandora, Gaia e Perséfone, elas me ajudaram muito a escrever este livro, me recordaram de eventos dignos de narração, revisaram tudo que eu escrevi, me proporcionaram outra visão dos fatos etc. Você irá conhecê-las logo, ah se vai… Além delas também tenho minha melhor amiga da escola, a Thalía, algumas garotas da escola que são tão legais quanto eu e alguns gatos pingados também da escola com quem converso de vez em quando, mas sempre achei melhor chamá-los de colegas.
É, acho que você já sabe o suficiente sobre mim para que eu possa dar início a essa história, espero ter prendido seu interesse na compilação de memórias póstumas da minha adolescência. Talvez em algum universo paralelo eu me torne uma grande escritora de renome com esta obra, talvez em outro eu passe despercebida, mas por enquanto, neste universo aqui eu só quero descobrir os prazeres viciantes da literatura. No entanto, vale ressaltar: eu não sou nenhuma escritora.
Fale com o autor