O Universo De Sophie
5 Capítulo V
Notas iniciais
Boa leitura.
Amigos
Amor
Mais que
Incondicional com
Gostos
Obviamente
Similares
Ou
Apatia continua
Muito sermão que
Irrita facilmente e
Geram desavenças
Ótimos conselhos ignorados, mas nunca
Separados.
Só eu que me divertia fazendo isso na escola? Acabei pegando gosto pela coisa, você pega uma palavra e a desmembra para formar algo maior relacionado a ela. Aprendi isso com a minha professora da 1ª serie. E é incrível eu ainda me lembrar disso se for levar em conta que a minha tendência pro Alzheimer deve ser extremamente alta. Costumo dizer que se juntar a minha memória e a da minha mãe não da uma.
Mas em fim, a minha intenção agora era falar um pouquinho de amigos. Mas porque duas definições tão diferentes? Simplesmente porque eu tenho poucos amigos, mas cada um deles é único e muito diferentes um dos outros. Tenho amigos que são só amor e outros que só geram brigas – o que não quer dizer que eu não os ame igualmente. Deixemos claro que não é só porque você briga com uma pessoa freqüentemente que ela não seja essencial na minha vida, as vezes é até mais importante do que os que são mais amor que qualquer outra coisa.
Uma vez eu assisti a uma palestra do meu palestrante preferido, seu nome é Mario Sergio Cortella, ele é incrivelmente inteligente, tem um currículo invejável e pratica a oratória com maestria digna de poucos. Sem falar do seu senso de humor, o que é essencial para que eu não durma em uma palestra por mais interessante que ela seja. Nessa palestra em especial ele dizia:
“— Preste atenção em quem discorda de você.”
Essa frase ficou na minha mente porque ela realmente faz sentido, as vezes, para não dizer quase sempre, as pessoas que discordam de você estão te ajudando. Elas te instigam a fazer alguma coisa, seja para defender a sua própria teoria ou acabar concordando com a deles se assim lhe convir. Essas pessoas lhe ajudam a mudar. Seja pra melhor ou pra pior, seja muito, ou seja, pouco, acabe bem ou em uma discução... Seja como for, elas te obrigam a exercitar suas atividades cerebrais, te forçam a deixar a sua zona de conforto mental. E só existem dois motivos pra alguém concordar com tudo o que você diz: Ou ela não ta nem ai para o que você está falando ou ela quer te ferrar.
Mas voltando aos amigos, eu já tive amigos de todos os tipos, amigos que apareceram e logo se foram. Amigos que permaneceram por algum tempo e também amigos que permanecem até hoje. Amigos de longe, amigos de perto. Pessoas que eu vi crescer e mudar, pessoas que me viram mudar também. Pessoas com as quais eu cruzo na rua nos dias de hoje e nem se lembram mais de mim. É estranho, mas real. É... Real.
Mas eu preciso citar o meu primeiro melhor e inesquecível amigo. Ele era bem mais velho que eu e me conhecia desde que eu nasci seu nome era José, ele era meu amigo, meu parceiro, meu professor... Ele era meu avô. Ele foi muito importante para mim. Mais que a média de importância que um avô tem na vida dos netos, considerando que eu não conheci e convivi com meu pai. É porque ele não me assumiu, afinal ele engravidou a minha mãe quando ela tinha 15 anos e ele mais que o dobro da idade dela, e ele era casado. Acho que isso é o bastante pra explicar alguma coisa. Nunca convivi com ele e também nunca fiz questão disso.
Meu avô me contava histórias do que agente fazia quando eu era pequena demais para me lembrar. Ele contava que me levava no açougue sempre que precisava comprar carne, eu deveria ter uns 3 anos, e todo mundo já me conhecia. Passávamos no barzinho da esquina pra comprar guarda-chuvinhas de chocolate eu não me lembro, mas sei que isso maravilha qualquer criança, meu é um guarda-chuva... De chocolate. Tem algo mais incrível pra se comer? Tah talvez as bolinhas de futebol coloridas de chocolate. Ainda não sei como eu comia isso e achava gostoso, hoje descobri que é um aglomerado de gordura marrom que nem tem gosto de chocolate. Mas vá lá... E depois quando por fim ele comprava a carne eu fazia questão de carregar e ele sempre perguntava:
“— Não está muito pesado filha?
— Não, é só colocar nas costas e ir borá.”
Essa ultima frase eu aprendi com ele com certeza. Outras vezes ele me levava pra ver a “caixa dos urubus”. Tah bem eu explico. A caixa d’água da cidade ficava, na verdade fica até hoje na praça da igreja matriz. E se tem existe sinônimo de praça, esse é: Pombas. Sim pombas, daquelas grandes que aparecem no desenho do pica-pau com uma velhinha dando pedaços de pão. É isso realmente existe. E uma vez eu perguntei:
“— Vô? O que é aquilo?
— Tudo urubu filha, tudo urubu.”
E desde então isso ficou e volta e meia eu dizia que queria ir ver a caixa dos urubus. Minha mãe demorou algum tempo pra descobrir o que eram os urubus e onde era a caixa deles. Praticamente o mesmo tempo que ela demorou pra me convencer que existia uma diferença gritante entre o pé direito e o esquerdo do chinelo. Isso eu aprendi, mas o problema com direito e esquerdo eu tenho até hoje, maldita coordenação motora.
Mas o que realmente me motivou a falar do meu avô hoje? Ele era meu exemplo, minha motivação. Ele passou por um câncer no estomago quando eu era muito pequena, me lembro de ir visitá-lo no hospital e vê-lo mal, e ainda assim ele me fazia rir. Eu era uma criança um tanto sozinha, mas ele me fazia sentir que tinha um lugar pra mim ali, ao lado dele. Ele me ensinou a ser forte e a ouvir. A ser exatamente como ele em alguns pontos e exatamente o contrario dele em outros.
Anos depois ele adoeceu novamente, resultado de uma vida inteira como fumante. Quando descoberto o câncer já havia tomado completamente um pulmão e parcialmente o outro. Ele parou de fumar e passou por uma cirurgia que tomou dele o que restava de elasticidade em seu pulmão, ele respirava pelo abdômen por assim dizer, o movimento sistólico e diastólico que um pulmão saudável exercita com facilidade o dele não fazia mais, ele tinha que contrair e relaxar a musculatura do abdômen para fazê-lo. Respirar era um esforço. Eu morava junto dele nessa época, perdi a conta de quantas e quantas noites eu acordei com as crises de tosse dele na sala. Ele nunca queria acordar ou incomodar alguém. Mas eu levantava, ficava com ele, preparava uma inalação. Virei expert nisso. E o obrigava a ficar ali e dizia que ia ficar de olho nele. Passei muitas noites em claro ao seu lado.
Lembro até hoje de uma vez que eu estava arrumada pra ir pro curso e parei perto dele conversando com a minha avó. Quando olhei pra ele, notei que os profundos olhos azuis dele me olhavam fixamente e a expressão em seu rosto estava longe. Eu sorri e disse:
“— Está tudo bem vô?
Ele não respondeu na hora e chamou a minha avó.
— Vem cá Maria, olha essa menina. Acho que está mesmo na hora de comprar uma espingarda e deixar atrás da porta pra quando começar a aparecer “franguinhos” aqui.”
Eu comecei a rir e o chamei de bobo. Já havia dito que ele sim era o homem que tocou a minha vida, e realmente era. As vezes ele me falava como seria o meu casamento:
“— Ai eu vou estar lá. Bem velhinho, o cabelo bem branquinho, de bengala corcunda, te levar até o altar e vou falar assim pro individuo. Ou você cuida bem dela ou eu te mato.”
E agente ria no sofá da sala por algum tempo... Imaginando. Uma vez ele me disse que viveria até os 120 anos. E ai agente ficava negociando, eu dizia que tinha que ser pelo menos 150. E por varias vezes durante as crises dele eu repetia a seguinte frase:
“— E é desse jeito que você quer chegar aos 100 anos? Hm... Sei...”
E ele mesmo entre tosse, falta de ar e inaladores me dava um largo sorriso que fazia a minha vida ter sentido. Ele brigava muito comigo, mas eu nunca o deixei. Ele ficou internado e eu ia visitá-lo de novo e levar biscoito de polvilho pra ele. Era a única coisa que ele comia por algum tempo. Fiquei com ele quando minha bisavó – Mãe da minha avó – morreu e todos foram pra cidade dela pro enterro, eu disse que queria ficar com meu avô que não podia ir. Não queria deixá-lo sozinho de maneira alguma. E chegou a um ponto que ele teve que ser levado pra um hospital da capital. E ele foi, eu nem vi ele ir. Não sabia que depois disso não o veria mais. Pelo menos não vivo.
Ele foi o velho teimoso até o ultimo momento, esteve no hospital sempre brigando com os médicos, provavelmente tentando ensiná-los a fazer o trabalho deles. Isso antes de entrar em coma. Ele chegou a acordar, e quando o padre passou para dar a benção ele quase o botou pra fora do quarto dizendo:
“— Eu não posso morrer.”
Quando recebi a noticia eu não chorei. Quase não tive coragem de vê-lo no caixão. Quando o vi, então derramei uma lagrima. Mas ainda não me parecia o bastante. Senti a falta dele todos os dias e quando ia na casa da minha avó e ela fazia café por varias vezes peguei uma xícara pra levar pra ele e cheguei até a sala antes de lembrar.
Uma semana depois estava sentada em uma cadeira de área na frente da casa da minha avó olhando para o terreno vazio no outro lado da rua. E juro por Deus que o vi de pé do outro lado da rua por um segundo quando pisquei e olhei novamente não havia nada. Naquela noite eu me olhei no espelho do banheiro e chorei, chorei como nunca na minha vida, tudo doía por dentro e por fora. Não sei quanto tempo passei ali, trancada no banheiro, sozinha. Acho que foi só ali que a ficha caiu de verdade. E que eu descobri que nunca mais o teria comigo. Nunca mais.
Eu o amei da maneira mais linda que uma pessoa pode amar a outra. E sempre irei tê-lo comigo em meu coração.
Porque escrevi sobre ele hoje? Porque meu coração apertou de saudades. Ele morreu perto do natal... E meus natais nunca mais foram os mesmos e isso já faz muitos natais.
E eu acabei de descobrir que ainda choro muito contando essa parte da minha vida. E quando ele se foi, uma parte importante de mim se foi com ele.
“ [...] Descobre que as pessoas com quem você mais se importa na vida são tomadas de você muito depressa… por isso sempre devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas; pode ser a última vez que as vejamos. [...] ”
— Trecho de O Menestrel — William Shakespeare
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