Oi, meu nome não é Sophie, mas eu gostaria de me chamar assim. Meus cabelos não são ruivos, mas eu gostaria que fossem acobreados e reluzissem em vermelho no sol caindo sobre meus ombros em longos cachos. Meu corpo é perfeito, mas eu gostaria de ter seios maiores. Em resumo eu sou uma mulher de 21 anos que não chama atenção de ninguém. E essa é a única verdade até agora.

Mas vocês podem me chamar mesmo de Sophie. E o mais engraçado é eu usar a palavra “vocês”, como se algum dia alguém realmente fosse ler isso com um mínimo interesse. Pois bem, acho que de qualquer forma isso é uma apresentação informal. Eu vivo em uma cidadezinha do norte que não convém citar o nome. É um lugar que não tem nenhum marco histórico, nenhuma marca especial, nenhuma família importante ou famosa, ninguém que tenha inventado algo que revolucionou o mundo e... Nenhum shopping, barzinho ou cinema. Eu nasci aqui, mas definitivamente não queria morrer aqui.

Nunca passei de uma garota mediana, medianamente aplicada que nunca fez nada de errado. E provavelmente nem de certo. A verdade é que eu nunca fiz nada, nada fora da rotina, nada fora de mim. Nada daquelas coisas que as pessoas se arrependem na hora, mas que anos depois se tornam as melhores histórias que elas têm pra contar. Não é que eu não erre, eu já errei muito durante a minha vida, mas eu acho que eu nunca “errei certo”... Se é que isso faz algum sentido.

Mas eu nasci com um ou dois dons. Talvez três se eu fosse levar em conta o que um professor meu disse uma vez:

“— Você tem o dom de incomodar.

— Mas você vai sentir a minha falta quando o curso acabar?

— Claro que vou.”

A ultima resposta dele me fez desconsiderar a afirmativa. Ainda sinto falta dele, de como ele conseguia deixar as aulas de informática divertidas.

Mas voltando aos dons, eu sempre fui uma ouvinte nata. Acho que é coisa de canceriana com ascendente em câncer. É... Por incrível que pareça, é... E as pessoas sempre procuravam meus conselhos, por mais que eu mesma não visse tanto sentido neles muitas vezes. Acabei acreditando que era boa nisso. Porem sei que eu sou do tipo “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço.”

E o outro dom, o que eu tenho certa preferência, é o dom da escrita. Não que eu escreva bem, mas tenho varias idéias sobre as quais escrever e certa preguiça de colocá-las no papel. Por causa disso acabei perdendo varias idéias momentâneas, daquelas que vem a mente e logo em seguida desaparecem. Ah! E as melhores idéias aparecem a noite, e tudo depois de uma boa noite de sono some. E se a noite for péssima então, ai nem se fala. E sabe o que é o mais engraçado desse dom? Eu sempre fui péssima em português.

Tah a minha vida não é um total desastre. É claro que eu tenho lembranças boas. E a maior porcentagem delas estão em folhas nas minhas gavetas ou em um caderno de capa dura marrom em cima do meu guarda-roupa, com uma tarja branca de papel rasgado e colado na capa que diz:

Memórias não vividas.

Notas finais
Continua...