O Unicórnio de Um Coelho
2 Sentindo falta de alguém...
Notas iniciais
As aulas tinham terminado e o pequeno grupo de colegas marcou de se encontrarem no ginásio vazio para um jogo descontraído de basquete. Apesar das vozes que buscavam uma estratégia para o time e as conversas paralelas, cada quique da bola ecoava no espaço fechado com um estrondo. Ali não tinha janelas para se notar as horas passando e a noite chegando, e os seis rapazes não foram perturbados na sua concentração para marcar mais cestas e vencer o pequeno grupo rival.
Faltando apenas três pontos para o jogo acabar, alguns fios da franja de Jack grudavam em sua testa enquanto ele marcava um jogador em suas costas, observando o movimento de bola mais a frente e pronto para bloquear um lançamento ou obter a bola para seu time. Todos já estavam ficando cansados, mas se divertiam.
— Isso não é nada inesperado, Kyle. Todos sabem que tipo sua irmã é na internet! — David comentou divertido, correndo com a bola e rindo da cara que o de pele negra lhe lançou depois de ter contado sobre o que viu da irmã na rede. — Agora... Sabe o que Alex me disse esses dias?
— Quem é Alex? — Kyle se aproximou e com um movimento rápido tirou a bola do garoto de cabelos castanhos claros, que logo buscou recuperá-la.
— Meu vizinho... O que saiu da escola.
O outro entendeu a resposta, assentindo, e buscou alguém de seu time para lançar a bola para mais perto do cesto. Era inevitável que todos ouvissem a conversas mesmo no meio ao jogo. E David continuou:
— Ele disse que meu irmão anda fugindo de casa na madrugada.
Kyle parou segurando a bola e encarou David com estranhamento:
— Seu irmão? — o rapaz disse com riso, desacreditando daquela história.
— É! — David tentou bater na bola para recupera-la, mas Kyle longo voltou a se movimentar. — Aquele bebezinho que mal chegou ao primeiro grau tá dando umas voltas noturnas sem ninguém saber. E... — de repente Kyle correu para uma nova posição na quadra, fazendo David se interromper. — E Alex disse que ele até voltou com alguém uma vez, até a esquina de casa... — David tentou erguer os braços a tempo, mas Kyle saltou, lançando a bola para o rapaz que Jack bloqueava.
Jack teria conseguido evitar a recepção do lance, mas o que David contava lhe era familiar e o distraiu. Assim, a última cesta foi marcada graças a sua desatenção. Kyle e seu time comemoraram, enquanto Jack foi encarado por um olhar reprovador de David. O moreno desviou o rosto e foi buscar a bola lançada que quicava abandonada ao fundo do ginásio.
Fazia alguns dias desde que conheceu Francis pessoalmente, os detalhes eram frescos, mas ele tentava esquecer e cumprir o combinado entre eles, por isso não chegou a ver ou notar o unicórnio no seu caminho. No entanto, quando a noite chegava e vinha o silencio ou uma musica eletrônica, ele se lembrava. E era assim todas as noites, a memoria se renovava determinada a não deixar-se perder facilmente.
Durante a ducha no vestiário, Jack continuou meio fora da conversa, ouvindo mais alguns comentários com gozação sobre o irmão de David, fazendo todos rirem, até que mudaram de assunto. Saiu antes de todos, tentando escapar da presença do Audrey mais velho e do assunto Francis. De toalha na cintura Jack pegava suas roupas no cômodo dos armários quando ouviu algo vibrar em um compartimento vizinho. Com boa intenção foi verificar e encontrou o celular de David, na tela uma ligação de ‘o outro filho da minha mãe’. A respiração falhou quando compreendeu que era Francis, pensou em atender, mas ouvir o garoto depois daquele tempo ia fazê-lo ceder á vontade de caça-lo novamente então hesitou. Os segundos em que ficou apenas encarando a tela foram suficientes para a chamada ser encerrada.
Jack resistia bem em ficar longe, em deixar as coisas quietas e manter o segredo, mas depois dos primeiros dias a coisa parecia estar começando á enlouquece-lo de dentro para fora e aos poucos. Na aparência continuava o mesmo jovem calado por opção, mas que não perdia piadas, brincadeiras, conversas ou mesmo alguma briga; e por dentro ainda estava determinado em encontrar o futuro que planejou longe da cidade e das pessoas que achavam que o conheciam. E agora, de repente, estava difícil esquecer alguém naquela cidade, em continuar o plano sem considerar a possibilidade de inclui-la...
Numa ação impulsiva, Jack buscou decifrar a senha do celular de David. Queria aquele numero de telefone, argumentando consigo mesmo que era apenas para um inóspito caso de precisar saber se Francis estava bem ou para saciar uma curiosidade de como o menino estava levando a vida um dia, depois de alguns anos... ou talvez meses.
— Tá roubando meu celular, Jack? — David surgiu no quarto de armários junto com os outros rapazes e zombando de pega-lo com seu aparelho em mãos.
— Claro que não! — o moreno se esforçou para disfarçar a cara de susto. — Alguém estava te ligando — e entregou o objeto para o dono, indo vestir suas roupas já separadas.
— Ah, é só meu irmão... Umas quinhentas ligações para me perturbar. — David disse com pouco caso e prosseguiu para se arrumar sem dar mais atenção.
Jack saiu do local enfiando suas coisas na mochila e se despedindo. Mesmo que não houvesse algo de urgente para fazer saiu com passos rápidos e trombou em alguém próximo da porta de entrada do vestiário. Quando se afastou, envergonhado de não ter olhado para onde ia, prendeu a respiração e fixou-se nos olhos castanhos. Francis estava inseguro no ambiente, parado a vinte centímetros de distancia, seu rosto se avermelhou ao reconhecê-lo de volta e o encarou sem pronunciar nenhuma palavra, apesar da boca estar levemente aberta. Novamente, naquele segundo de espaço e tempo, o ambiente foi engolido por um silencio, pela pouca importância, e a energia entre eles era confortável.
Então Francis olhou para trás do rapaz ao som de risos altos, e depois voltou a fitar os olhos azuis que ainda não o tinham perdido, mas que logo se soltou daquela estranha hipnose quando Jack lembrou-se de onde estava.
— David está aqui?
A saudade daquela voz golpeou Jack, que quase optou por ficar em silencio para ouvir mais, porém balançou a cabeça positivamente, desviou os olhos daquele rosto e deu um passo para o lado, disposto á simplesmente ir. Contudo, não conseguiu. Ficou parado próximo, incapaz de comandar os pés e cedendo em olhar Francis novamente. O menino também o observou de volta, como se um esperasse que o outro falasse algo que era importante, mas nenhum deles ia começar. Ao ouvir os passos dos colegas e suas conversas, Jack sorriu para o menor e se foi. Um sorriso que para o unicórnio podia ser traduzido em um: ‘foi legal te ver’.
Francis observou o rapaz de cabelos escuros e ainda úmidos se afastando com a mochila preta no ombro. Perguntava para si mesmo o que era aquela sensação que tinha quando se olhavam, e o que o coelho queria mantendo-o longe, mas dando sorrisos e olhares que o chamava.
— Jack! — Fran ouviu a voz do irmão e se virou de súbito, vendo os outros meninos com risinhos. David já tinha chamado Francis para saber o que ele queria, mas o menino não o ouviu. — Sabe que meu irmão é gay, ele está olhando sua bunda, cuidado!
Tal frase e a vergonha pelos outros garotos explodirem em risos, fez o pequeno unicórnio corar intensamente e olhar se Jack tinha ouvido. Jack ouviu, balançando a cabeça em negativa antes de dar uma olhada rápida para trás, passando os olhos por Francis, e então sair fechando a porta.
— Vai para o inferno, David! — o mais novo retorquiu, possuído por uma raiva e amenizando os risos dos outros. O irmão lhe causava isso por humilha-lo tão diretamente, e também talvez houvesse uma parte ressentida por se desapontar ao ver Jack insistir em negar que nem se conheciam.
— Que seja! Mas eu acho que você vai primeiro. — David disse sarcástico e convencido. — O que você quer?
Fran encarou os olhos castanhos mais claros que o irmão tinha, franzindo cenho e sem paciência. Pouco importava que o ônibus que usava para voltar para casa tinha quebrado, que não queria ter que esperar ou ficar no colégio por mais tempo e ia pedir uma carona ao ingrato irmão mais velho, ia voltar a pé!
— Bateram no seu carro, babaca! — disse o mais novo com veemência e raiva, apreciando o espanto e a aflição na face de David. Ouviu um ‘O quê?’ fraco e em choque, enquanto todos os amigos dele ficaram em silêncio. Francis o deixou naquela situação, pensando que essa foi a razão dele ter desperdiçado seu tempo para encontra-lo, mas era um mentirinha maligna.
David Audrey saiu com passos mais rápidos, com os amigos o seguindo para ver o acontecido, e Francis foi logo atrás, calmo e rindo internamente da sua própria maldade. Sabia que o irmão tinha levado anos para os pais lhe arrumarem um carro que valesse a pena ser exibido e mais um monte de dinheiro para deixar o veiculo mais exclusivo.
A graça não foi contida no momento em que chegaram onde o carro vermelho estava estacionado. Parando em um distancia segura, Francis assistiu o irmão e alguns colegas dar voltas no carro, que estava inteiro e são e salvo. Riu sozinho quando David o encarou cheio de ódio e aproveitou a diversão, apesar de estar sendo xingado em plena rua pela voz alta do irmão.
Quando alguns rapazes do time começavam a sorrir compreendendo a brincadeira, David não suportou mais ver o irmão zombando dele e correu atrás de mais novo. Francis fugiu e fez o que pode para ficar longe dos punhos e ameaças de morte do irmão. Infelizmente ele nunca foi de atividades físicas e não demorou para começar a sentir a falta de ar e o aperto no peito, então começou a torcer, desesperando-se, para que David pensasse em não abandonar o carro e parasse de persegui-lo, ou iria morrer em breve de alguma coisa do coração.
A calçada era bem regular e mesmo assim Francis tropeçou em algo e mergulhou no chão, esfolando parte da palma da mão e joelho. Apavorou-se pois sabia que ia ser pego, e quando mal engatinhou para se por de pé, o jeans foi puxado, o desequilibrando e o mantendo no chão. David estava bem melhor em quesito folego ao vira-lo de costas no chão de cimento, deixando Francis desajeito sobre a própria mochila. E foi tudo rápido: David imobilizou-o, sentando sobre seu quadril, e lhe deu um único soco no rosto, gritando coisas raivosamente, mas o menor nem ouviu, instantaneamente havia ficado atordoado e quase inconsciente, vendo as coisas em uma câmera lenta esquisita. Apesar desse estado, para Francis David tinha ido além do limite que acreditava que pudesse haver entre irmãos que não se gostavam, agredindo-o tão facilmente daquela forma.
Quando a dor despontou e a consciência voltou, Francis curvou-se na calçada, escondendo o lado do rosto atingido numa mão e gemendo baixo. Depois encarou de súbito e chocado para o irmão, finalmente compreendendo que David, já de pé ao seu lado, gritava que nunca quis que ele tivesse nascido, em seguida dando-lhe alguns chutes fortes na perna, como se fosse qualquer pessoa do mundo, antes de dar as costas e ir embora. Mas o mais velho parou a alguns metros só para se virar e avisar que se ele reclamasse daquilo para a mãe deles, iria matá-lo, em seguida o abandonou.
Era um situação nova e difícil. Não havia apenas dores físicas, mas Francis se sentiu um completo renegado. Não que se importasse, mas havia um pedacinho que acreditava que o irmão tinha algum carinho por ele por trás de tanto menosprezo. Mas isso não existia, muito menos depois daquilo. Acabou caindo no choro, jogado naquela rua vazia e fria como um indigente. As lagrimas que escorriam com amargor vinham de coisas do passado e do presente, onde seu pequeno momento de diversão sobre o irmão custou aquelas dores. Francis de David tinham a mesma mãe e o mesmo pai, mas o mais novo nunca viu uma família feliz e perfeita desde que nasceu, o mais próximo disso aconteceu depois da separação do casal e quando a mãe arranjou um novo marido, mas mesmo assim, Francis não se sentia parte de uma família minimamente acolhedora.
Quando a brisa havia secado a maior parte da umidade de seu rosto dolorido e seus soluços involuntários se acalmaram, Francis buscou se levantar, cansado de lamentar e temendo a noite que se aproximava. Não conseguiu ficar de pé por muito tempo, pois as áreas chutadas doeram nas profundezas do músculo como cãibras e ele preferiu sentar-se no degrau da sarjeta e esperar mais um pouco. Pôs as pontas dos dedos dentro da boca, atrás de algum ferimento na gengiva dolorida, mas não houve sangue. Por um momento observou a rua tão pacifica e silenciosa, parecendo ser uma cidade fantasma. Tanto silencio, junto com um pulsar de dor no rosto, o fez recordar do que havia acabado de acontecer. Deprimindo-se pela solidão, por não ter ninguém para ajuda-lo a ter forças, Francis juntou as pernas diante de si e escondeu o rosto nos braços, apoiados nos joelhos. Não sabia o que iria dizer á mãe sobre as marcas e nem como encarar o irmão sem sentir um medo de ser agredido novamente.
E foi mergulhado na sua tristeza que Jack surgiu na sua mente como um ponto de luz. No vestiário foi a primeira vez que se olharam depois daquela noite. Antes, via o mais velho de longe e ele nunca o notava — o que fez Francis se questionar se havia sido tão fácil para ele esquecer o que houve. Então, o menino que antes chorava, sorriu bobo ao se lembrar do sorriso de Jack Robinson antes dos outros aparecerem, e acreditou que o rapaz era o único que o notava. Um simples momento e o unicórnio teve uma esperança. Talvez houvesse uma chance de alguém no mundo gostar dele, apesar da ironia de este ser amigo de seu irmão.
Em mais um momento em que agia pela revolta, Francis se pôs de pé, resolvendo que tinha que mostrar que já não ligava para o acordo deles ou para o que irmão ia achar, queria ficar mais próximo de quem o achasse útil para algo, mesmo que ainda não compreendesse as intenções que Jack podia ter.

Notas finais:
Se eu conseguir cada capítulo pode ter uma frase/imagem assim (porque sou desses, rs).
Agradeço a paciência com tantas palavras(e por não ter tido nada tão esplendoroso como no prologo).
Incentivem minhas ideias, digam suas impressões, conselhos, correções, pensamentos ou simplesmente como foi seu dia nesse ano novo!
[Ps.: Me perdoe ter feito um irmão desses para o Francis... tadinho. Mas vão saber mais como os personagens são nos próximos.]
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