O Unicórnio de Um Coelho
31 O unicórnio de um coelho.
Notas iniciais (para salvar, quando o novo site sair, edito para adequar o capítulo):
Olá! Faz mais de um mês... :}
Eu sei, deslizei no tempo e sumi. Precisei recuperar a consciência. Estou bem! Hehehe. Mas, convenhamos, foram momentos complicados de produzir.
Agora! Minha frase preferida do capitulo é: “uma mina pisada”
Tempos melhores vem nos próximos (~cof, só um pouquinho~cof)! Deixem um comentário ao fim do capítulo porque quando tudo acabar, realmente acabou! E eu sou legal demais para vocês deixarem a oportunidade de me conhecer :P
Não sei como, mas achei essa musica boa para indicar para o capitulo:Nine Lashers — Galaxye
Não deixem de comentar depois do final do capitulo!
Boa leitura!
—-----------------------------------------------------------------
Era tão cedo que a escuridão da noite ainda se desfazia devagar. Estava frio e com uma chuva fina caindo preguiçosa. Jack despertou, estranhando dormir em um lugar diferente, e levantou-se com todo cuidado, deixando que Francis continuasse aquecido na coberta que estava sobre eles no sofá. O mais silenciosamente que pode, o rapaz visitou o banheiro, sabia muito bem que e a mãe e o padrasto estavam e tinha receio de encontrá-los tão logo.
Por fim, jogou água no rosto e se encarou no espelho. Mesmo que sua expressão soasse confiante e calma, estava assustado por estar sozinho naquela situação onde era o único que poderia dar explicações aos adultos sobre sua presença ali. Sabia que todos daquela casa entenderam que havia algo entre ele e Francis, se preocupava por não conhecer os dois adultos e não saber como reagiriam. Além disso, David lhe soava como uma mina pisada, qualquer movimento podia até mesmo matá-lo nas próximas horas.
Quando chegou ao térreo, são, salvo e sozinho, o coelho cogitou fugir e voltar para sua casa e seu quarto, mas logo percebeu que se fizesse isso deixaria uma impressão ruim e faria Francis, fragilizado, ser a fonte de informações.
Às oito da manhã, Kelly Audrey encontrou o rapaz de cabelos escuros e porte atlético sentado na mesa de sua cozinha com uma expressão neutra. Ela desejou um bom dia e ele olhou-a, pareceu ter o surpreendido, mas Jack assentiu e sorriu levemente nervoso. A mulher o deixou ali e foi passar um café fresco e quente, depois se sentou na cadeira ao lado do garoto, deixando uma xícara bem diante dele e o observando, enquanto bebia o seu, esperando que ele mostrasse quando estaria pronto para falar. Não demorou, Jack puxou a xícara e lhe deu um sorriso fino, olhando-a de forma mais receptivo e simpático: — Obrigado.
Ela sorriu, engolindo o café que tinha na boca.
— Não por isso... Você fez muito por Francis ontem. Eu que tenho que agradecer. De verdade. — Ele não a olhou, mas corou e parecia hesitar em sustentar alguma conversa, porém ela o compreendida, porque era a primeira vez que estavam frente a frente e sozinhos. Após uma pausa Kelly não conseguiu continuar sutil como planejava. — Gosta mesmo tanto de Francis assim?
Surpreso, Jack tomou um gole da bebida quente e depois respondeu com cuidado:
— Mais do que pensei que podia... Ele me conquistou. Ontem foi difícil vê-lo naquele estado — desabafou. — Sinto que não posso mais deixá-lo sozinho depois daquilo. Preciso estar mais perto do que estava. Eu devia estar há mais tempo — disse frustrado — Talvez não tivesse acontecido... Fran precisou passar por isso para eu me tocar, eu gosto mais dele do que estava me fazendo acreditar... Eu amo ele e quero cuidar dele, mas não sei exatamente o que fazer.
Kelly o viu corar, entendendo que o rapaz estava compreender uma parte de si que ele não enxergava antes. Ela sorriu, tomando um gole de seu café e o observando distraída, dava mesmo para ver algo brilhando quando o rapaz falava de seu filho. Além de ter algo fofo era engraçado enxergar aquilo. Francis era seu caçula e um ótimo filho, nunca imaginou que outro menino iria falar algo assim dele ou dizer que o amava. Talvez, por sempre vê-lo como um menininho gentil que nunca iria crescer, nem chegou a pensar que ele poderia ter alguém e formar um par, muito menos supor se seria com uma garota ou um garoto. Foi surpreendida, mas a pessoa escolhida não parecia ruim.
— Eu acredito em você e acho isso bom. — O coelho a encarou e sorriu aliviado. Ela também ficou feliz. — Parece que você já é da família, Jack. Francis confia em você. Não tem muito que eu possa dizer contra tudo isso depois de como o ajudou a melhorar e o acolheu a noite toda. Só... continue cuidando dele e sendo bom.
— Claro! — A conversa com a mãe de Francis havia sido mais fácil do que imaginou.
— Mas, então... — a mulher se ajeitou na cadeira mais relaxada. — Onde se conheceram?
Jack parou e engoliu em seco. Levou uns segundos para formular uma resposta digna.
— Eu sempre o via aqui na sua casa ou no colégio, e David falava dele muitas vezes, mas só me aproximei quando... Quando o encontrei numa balada — calou-se, investigando a reação de Kelly, que continuou natural, analisando as informações. — Fizemos companhia um para o outro e o conheci de verdade, desde disso nos aproximamos mais.
— Hm, interessante. Faz muito tempo?
— Um pouco — ficou sem graça de denunciar que Francis saia de casa durante algumas noites.
— E depois? Como vocês... Sabe, assumiram um namoro.
— Ah, a gente se encontrava no colégio, conversávamos, saímos algumas vezes e... — girou a xícara de café, meio nervoso — acho que ainda não admitimos que temos um namoro fixo... — As sobrancelhas da mulher levantaram-se, surpresa, e Jack adiantou-se: — Mas eu quero! Se ele ainda aceitar ficar comigo, se vocês aceitarem, eu quero ser o namorado dele.
— HÁ!HA!HA! — a risada fortemente irônica e inesperada surgiu no cômodo. Nenhum dos dois soube desde quando David estava lá. — Seu babaca mentiroso. — Kelly ficou séria quando o filho rosnou isso encarando Jack. — Não sei até onde essa historia é falsa, mas, que bem me lembro, vocês nunca se encontraram no colégio e nem conversavam! Além disso, aquele moleque não fica indo em baladas, ele é um medroso!
— David, não seja rude!
— Desculpa mãe, fico até agradecido que ele tenha ajudado com Francis, — disse amargo — mas Jack não é nenhum bom samaritano cuidadoso! Nunca foi! E posso te contar tantas coisas dele que vai preferir colocá-lo para fora agora mesmo antes de ouvir mais porcaria que ele diga para enganar você. A senhora mesmo já falou dele e suas idas até o hospital por culpada das pessoas com quem andam e das coisas que faz!
A mulher olhou para o coelho, incerta.
— Isso foi antes — comentou Jack, tentando ser controlado diante do ataque. — E você também não é santo, David. Se quiser jogar os nossos lados sujos aqui e agora, estou disposto. E começo pelas coisas que você disse e fez com Francis todo esse tempo.
O Audrey amenizou sua expressão, contrariado, e inspirou fundo:
— Traidor, idiota e mentiroso! Ninguem vai acreditar em você aqui. E como você tinha relações com meu irmão e agia normalmente comigo?! É nojento! Isso não tem perdão!
— Você é um cara difícil, David! Mas, mesmo assim, durantes esse anos que nos conhecemos, eu gosto de participar dos jogos e de ser parte do nosso grupo de amigos, com você. Eu não queria deixar isso, e nem quero, depois que conheci Francis e me apaixonei por ele. Foi você que me obrigou a fazer isso desse jeito. Você fez Francis e eu achar que era melhor ninguém saber e evitar toda essa tormenta!
— Agora está pondo a culpa em mim?! — David deu um passo revoltado, mas parou, sabendo que Kelly estava entre eles. — Você mentiu que sua amizade com Samuel acabou e depois os dois estavam brincando com Francis, vocês bateram nele e o perseguiram como alvo nesse ano.
— Não é verdade. Samuel e eu não temos mais nada, mas ele não me deixa em paz, e Francis acabou se metendo no caminho quando terminei com ele e ficou marcado por aquele babaca. Você lembra, não? Quando Samuel estava brigando comigo perto da quadra da escola e seu irmão estava no meio, você teve que levá-lo de lá.
— Espera... ‘Terminou’ com ele? — David estranhou. Kelly percebeu e sua expressão disse que entendeu o sentido da frase antes que Jack assentisse com a cabeça, confirmando. — Eca! Ele é um idiota, Jack! Como você pode gost... — interrompeu-se perturbado. — Aquele cara tem parafusos a menos e uma ficha prestes a ser descoberta. O que viu nele?
Jack deu de ombros, no fundo estranhava que David pensasse novas coisas tão rápido, então o Audrey dissolveu sua cara de nojo:
— Você também vai preso. Além de ter participado dos planos sujos dele, vou te denunciar por se envolver com um menor!
— Não seja idiota, David! — a mãe interveio. — Vocês têm quase a mesma idade. E eu já estou cansada desse falatório! — encarou o filho. — Pelo que vejo, Jack fez o melhor que pode ao ir se descobrindo nessa situação toda, o que inclui você e seu temperamento que conhecemos. E o que importa aqui, não é você ter sido enganado e nem o que o ex-namorado de Jack fez ou faz, e sim Jack e Francis. E ele está aqui, expondo-se, protegendo seu irmão e cuidando muito bem dele porque sente algo forte. Você não está entendendo, mas... — ela suspirou, controlando-se, e prosseguiu mais afetuosa: — Filho, ele sente pelo seu irmão o mesmo que você sente por Bianca. É igual, entenda isso. Da mesma forma que você teve suas mudanças por causa dela e em um momento reuniu coragem de trazê-la até nós e anunciar que eram namorados, Jack está aqui fazendo o que acredita ser o melhor para o futuro dos dois juntos. E ele provou ontem que fará tudo para fazer Francis ficar bem. Então, vou te pedir: David, por favor!, não brigue com ele por isso. Sabe que ninguém escolhe quem vai amar.
O garoto pareceu absorver lentamente as palavras da mãe, ainda sério e revoltado, observando-a de volta e mordendo o interior da boca, contrariado. Depois olhou para Jack. Parecia que Kelly lançou um encanto e David estava entendendo, porém ele não disse mais nada, irritado, deu as costas e foi tomar café de pé e logo foi embora, ignorando os dois.
— Não se preocupe — Kelly se voltou para Jack com a calmaria no cômodo. — Ele age assim porque está contrariado, depois de umas semanas ou talvez meses, ele já esteja normal.
Jack a observou e depois suspirou, deixando consigo a preocupação de que David fosse causar mais danos que aquela conversa, provavelmente envolvendo o grupo de amigos e até mais pessoas que não tinham qualquer importância no assunto.
— Sobre ontem, — a mulher chamou a atenção dele — Francis teve uma crise de pânico. Não acontecia fazia um tempo e me pegou completamente de surpresa. E foi realmente bom você estar aqui para ajudá-lo. — Tomou um gole de café. — Isso não é de agora, sabe. Começou desde muito novinho, passou por tratamentos que o ajudaram, mas vive com remédios diários. Às vezes, se não se sente tão bem ele mesmo dobra a quantidade. E pode passar um dia sem, mas dá para notar que fica mais tenso e nervoso... Também tem momentos que Francis vai se achar curado e relutar por uns dias, dizendo que se sente ótimo, aí tem que obrigá-lo a tomar o remédio, porque é certo que vem alguma coisa depois... Se for ficar com ele mais tempo que eu, pode ficar atento a isso.
Minutos depois ouviram a voz do padrasto na sala:
— Ei garoto, está se sentindo bem? Quer alguma coisa? — Não deu para ouvir uma resposta. — Ok, então.
O homem robusto chegou à cozinha, vestia camisa e uma calça de moletom, sorriu para a esposa e acenou para Jack:
— Acho que nunca nos falamos, não é mesmo? Meu nome é Stan — e se aproximou, estendendo uma mão que Jack apertou dizendo seu nome.
— Francis acordou? — questionou a mulher.
— Sim. Ele está sentado no sofá e não quer nada.
O coelho observou Kelly e quando ela se levantou para ir falar com o filho, ele foi com ela.
Francis lançou um olhar para os dois, sabendo que suas atitudes na noite anterior, antes tão obvias, eram completamente sem sentido agora. Quer dizer, não completamente. Por um segundo, enquanto se lembrava da razão, viu um rosto que lhe deu uma pontada de enjôo e tampou o rosto com as mãos, culpando a si mesmo por tentar lembrar e sentindo vergonha por ter acontecido numa festa cheia de gente.
— Tudo bem? — A mãe perguntou, o fazendo revelar o rosto e ele forçou um sorriso fino que foi como se dissesse sim. Depois ela continuou com cuidado: — Quer falar um pouco do que aconteceu?
O unicórnio sabia que ela ia dizer aquilo, balançou o rosto de leve, tendendo a negar. Estava corado, porque Jack e Stan o olhavam com atenção. Mas parou, suspirou e abriu a boca para dar algo para a mãe pensar:
—... Um garoto entrou no meu quarto... — seu coração palpitou e antes que imagens viessem na mente, mudou o foco, lembrando-se do dia que Miriam levou Jack e ele para uma feira longe de tudo aquilo e o coelho havia lhe dado a pelúcia de unicórnio que foi seu primeiro brinquedo depois de anos. — Ele estava dedicado a me deixar sem roupa e... E, quando fiquei bem perturbado, bati nele e saí correndo.
Havia mais detalhes, muito mais, mas era assim que Francis respondia na primeira vez e a mãe aceitava, pescando e analisando os detalhes que ele ia expondo nos dias seguintes até ter noção da gravidade.
— É por isso que não entrou no seu quarto ontem — a voz de Jack criou uma vibração no interior do menino, como um escudo que desviava seu sentimento humilhado para algo bom. Olharam-se e o unicórnio assentiu, sorrindo de leve por ele compreender e ainda estar ali.
Jack encarou os olhos castanhos, viu o sorriso e mal percebeu o tempo que aquilo levou, se distraindo com os cabelos bagunçados, os arranhados no rosto e o cordão no pulso de Francis com o seu velho pingente que antes era sua coisa preferida. O pequeno objeto foi do tipo: ver e já amar, e era engraçado que agora pertencesse ao seu unicórnio, pois seus olhos eram facilmente atraídos pelos dois.
— É melhor deixarmos eles sozinhos — Stan disse e sumiu na cozinha. Kelly, que Jack percebeu olhar dele para Francis, sorriu e foi atrás do marido.
O mais velho sentou-se ao lado de Francis, ambos encarando o nada e refletindo.
— Eu contei para ela — o coelho falou sutil e foi olhado com confusão. — Depois do que ela viu, eu disse para sua mãe sobre nós e ela aceitou que eu fosse seu namorado, mas seria bom saber o que você acha disso. — Jack teve vontade de sorrir com a cara boba e aturdida do menino, mas era meio importante o que dizia. — Não quero te pressionar a responder agora, só estou avisando.
Francis insinuou um sorriso de contentamento, mas o conteve:
— Os dois sabem? — perguntou e Jack assentiu.
— E David também. — O sorriso abobado sumiu, ficou tenso e antes que perguntasse, Jay respondeu: — Ele quis discutir, mas sua mãe disse umas coisas e ele pareceu se acalmar, depois saiu rancoroso e ainda não sei o que esperar dele... — Jack suspirou, pensando em diversas situações possíveis que teria dali em diante — É bom ficamos preparados para qualquer coisa.
— Você é bem corajoso, Jack.
— Estou mais para um idiota que se apaixonou e só agora entendeu que pouca coisa importa — sorriram um para o outro. — Eu sei que não te disse algumas coisas e que dei mais importância para mim e meus amigos, e isso não nos levou a muita coisa. Aí, uma noite que tornei você importante, as coisas mudaram e eu me sinto até aliviado porque vou poder aproveitar melhor esses meses com você.
— Meses? — perguntou triste.
— Os melhores que pudemos ter — buscou ser animado, sorrindo. — Depois nos pensamos em algo.
O olhar de Francis se desviou para cozinha, onde havia o som da conversa da mãe e do padrasto. O futuro depois que Jack saisse da escola era um assunto deprimente para ser conversado tão logo, então:
— Pode me ajudar a lidar com o quarto namorado? — Francis experimentou a palavra, se pondo de pé, corou com um sorriso sutil achando-a estranha. Em resposta, uma expressão marota estampou no rosto do coelho e ele logo levantou, pegou a mão dele e o seguiu.
Naquele dia os dois mudaram todos móveis e coisas de lugar no dormitório. Ao fim, Jack já se sentia familiarizado com tudo ali e deitou-se na cama coberta pelo edredom laranja claro que cheirava amaciante, estava cansado, pois Francis o usou para arrastar as coisas mais pesadas, já que o menino tinha ferimentos – apesar do padrasto ter ajudado algumas vezes, o que acabou estreitando o contato dos dois homens.
O unicórnio sentou-se na beirada do colchão, olhando as prateleiras que havia terminado de organizar e depois seus olhos foram para o armário. Era o item que não dava para mudar fácil, lembrava-se de ter sido empurrado contra as portas e dos contatos em seu corpo, mas de repente a manga curta da camisa foi puxada e Jack o trouxe para o lado dele, o abraçando deitado:
— O que ainda não está bom? — murmurou na nuca do menino. Francis sorriu, pensando em como Jack o percebeu tão fácil, depois suspirou, pronto para revelar mais um detalhe.
— Jay... o garoto que veio aqui foi o Samuel.
Houve um longo silêncio, o que fez o menino gira na cama e virar-se de frente para Jack.
— Por que não disse antes? — Sério e expondo só um pouco de sua irritação, o mais velho ia se levantar imediatamente, mas Fran o segurou:
— Por que você ia querer fazer isso mais cedo! Não adiante ir atrás dele. Eu só quero que fique comigo e deixe-o longe, só isso. Além disso, ele não conseguiu nada e até deixei lembranças naquela cara.
O coelho se aquietou, realmente não poderia fazer muita coisa aquele dia, mas assim que tivesse oportunidade, deixaria sua lembrança também.
Fale com o autor