O Unicórnio de Um Coelho
37 Não me deixe ir – Final.
Notas iniciais
Naquele acampamento de formandos e convidados, Jack ainda estava ao lado do deslocado Francis Audrey. Sem mais o que fazer e com os outros realmente deixando o garoto de lado, o coelho trazia comida e outras bebidas a sua companhia enquanto conversavam.
Apesar do Unicórnio saber os planos de Jack para os próximos anos, eles chegaram nesse assunto e o mais novo pode ver diretamente como rapaz sorria e seus olhos tinham um brilho diferente ao contar o que faria, fascinado com a ideia de trabalhar sem um lugar fixo e fazendo algo com um sentido mundial. Mesmo subitamente desejando que todos aqueles sonhos se concretizem perfeitamente, porque isso faria Jack feliz, Francis não queria imaginar que o coelho ficaria vários quilômetros, cidades, estados, países e até continente longe. Ainda que seu serviço tratasse apenas das relações internacionais e não o colocasse em risco de guerras, queria Jack próximo. Era egoísta pensar algo assim, mas inevitável.
A noite chegou ao seu ponto máximo e Francis acreditou no que o irmão disse sobre os casais e ficantes da turma buscarem ficar sozinhos. A maioria das pessoas simplesmente sumiu do circulo perto da fogueira e o monitor mais velho só podia alertar sobre as consequências se não tomassem os devidos cuidados. Logo até os solitários e simples amigos também foram dormir.
O ultimo e mais responsável monitor chegou até a dupla de garotos sentados no chão, encostados no tronco e encarando as chamas baixas monotonamente.
― Vão logo para suas barracas. Está tarde e terão um novo dia amanhã. Vão.
Francis não o conhecia, mas obedeceu. Largou o copo da sua sétima ou talvez oitava bebida no chão e, assim que se levantou, deu um passo instável e meio tonto, parou rindo. O monitor, acostumado com coisas como aquela e já cheio, não ligou e se afastou. Jack também se pôs de pé e logo agarrou a roupa do mais novo numa inclinada não planejada, riu também.
― Nossa! Faz tempo que não bebo... ― disse ― E os remédios...
― Você não pode beber se ainda toma remédios! ― Francis o segurou pelos ombros, preocupado e já não tão tonto.
― Eu não fiz isso! Você me cortou ― exclamou o outro, risonho. ― Eu tava dizendo que por culpa deles não pude beber nada.
― Ah.
O coelho sorria descontraído, mas o que o unicórnio notava era que estavam se segurando, próximos e sem nenhum sinal de que iam se afastar. Dava para sentir o calor e o perfume de Jack e, por um momento, Francis desviou a atenção dos olhos azuis para os lábios, sentiu um impulso motivado pela lembrança de como era beijá-lo. Quando ficou pronto para se inclinar, Jack tampou sua boca e o empurrou, afastando um passo:
― Eu sei o que estava pensando. Ficou claro, Francis. ― O coelho fez um instante de silencio, pensativo. Suspirou e falou num tom mais serio: ― Olha, é melhor desistir disso de uma vez. Eu não posso ficar com você.
― Claro que pode.
Jack riu e completou:
― Nem mesmo por uma noite, Fran.
― Jay...― chamou levemente angustiado e manhoso, e foi cortado:
― Não me chame assim, por favor. ― Pois ao ouvir o apelido algo se contorcia dentro de Jack, gerando um desespero incomum de responder. O moreno olhou-o mais sério: ― Nós até podemos ser amigos, mas... Eu não quero uma ancora aqui, Francis. A partir do ano que vem vou estar longe, completamente livre. E você vai ficar e terá coisa para viver e se distrair. Vai esquecer essa paixão logo. ― o mais novo apenas o encarava incrédulo. ― Eu quero ir em paz.
― Você está bêbado! Não sabe o que está dizendo ― insistiu o mais novo.
― Talvez. Mas... Espero que você entenda alguma parte.
― JAACK! Te achei! ― Bianca surgiu carregando uma mochila grande nos braços. ― Houve um troca-troca de lugares. Seu parceiro de barraca foi parar com a Liza e David pegou o lugar dele. ― Francis estranhou. ― E eu vou dormir com ele, então... ― a menina sorriu arteira e empurrou a mochila contra o peito de Jack. ― Estas são as suas coisas e você tem que ficar com o irmão dele. Boa noite!
Antes que o coelho reagisse, a garota deu meia volta e foi embora.
De repente, Jack ficou nervoso. O espaço para seu coração bater parecia menor e uma sensação de medo surgiu. Apesar de ter dito à Francis uma decisão, não podia negar que o Audrey mais novo o fazia se sentir diferente, como se não tivesse que esconder segredos dele ou fingir ser alguém, era uma sensação de liberdade diferente, e era isso que o fez ceder em ser amigo. Mas, depois daquelas horas juntos, ficar ainda a noite toda juntos podia ser um problema.
Sem ter o que distrair seus pensamentos no acampamento, havia outras sensações brotando em Jack e, apesar de negar, elas ganhavam forças facilmente – sem dizer que o rapaz já notava que tinha estranhos déjavus que às vezes soavam reais e o perturbava sem ter lógica de onde vieram. Jack não podia deixar que essas coisas fossem alimentadas com mais tempo perto de Francis, pois essas emoções novas podiam vazar por sua barreira de pura ignorância e persistência, e ele bem sabia que quando isso acontecesse seria derrotado.
***
O pontinho vermelho do laser vagou pelo teto da barraca atingindo as juntas da lona numa sequência definida pelo coelho por longos minutos. Jack e Francis já estavam prontos para dormir, um ao lado do outro. Todo o acampamento estava silencioso e calmo, havendo apenas uma alta luz elétrica no centro da clareira que ficaria acesa a noite inteira, porém estava muito distante e era quase inexistente para os dois garotos afastados.
A barraca dos irmãos Audreys era espaçosa o suficiente para David não reclamar de ficar muito perto de Francis quando a mãe escolheu na loja; e talvez fosse seu tamanho que deu trabalho ao menino mais cedo. Contudo, naquela noite, abrigava um coelho e um unicórnio com distancia demais entre eles.
Cansado de assistir o ponto vermelho, Francis virou de lado e observou Jack concentrado em sua distração.
― Não vai dormir?
― Não consigo.
― Você nem tentou.
Jack sorriu de leve, pois era uma verdade, e desligou o laser-chaveiro.
―... Eu não consigo parar de pensar.
― Pensar em que?
O moreno deu um sorriso travesso, ainda olhando para cima:
― No que metade dos que estão aqui devem estar fazendo agora nas barracas. Eles são bem quietos ou nós estamos longe de mais para ouvir? ― riu enquanto o unicórnio corou perturbado. Houve um breve silencio. ―... Mas... também penso em nós dois.
Francis encarou-o, o brilho fraco e distante da lâmpada e os olhos acostumados à escuridão permitiu que o enxergasse um pouco.
― Como assim? ― quis saber.
― Só estou... confuso. Mas não se preocupe com isso. Não importa.
Jack virou-se para o outro lado e Francis logo se ergueu, apoiando-s em um cotovelo. Entendeu que o coelho estava tentando estabelecer uma distância e ele tinha que reagir. Puxou-o pelo ombro, obrigando-o a virar e olhá-lo:
― Não seja idiota Jack. Eu amo você ― confessou no embalo. Depois percebeu e corou, mas suspirou e continuou com coragem: ― Tudo isso me importa! Eu quero me preocupar para te ajudar, independente do que vai vir amanhã. Não quero que você se afaste de mim assim! E é importante você saber disso antes de tentar jogar fora... E eu... ― sentiu-se um pouco mal ao pensar: ― Eu não sei o que fazer se me deixar livre quando não quero estar.
Um aperto preocupante surgiu no peito do menino quando o coelho não reagiu, apenas o encarava de volta indiferente. Antes que ouvisse algo que o magoasse, arcou-se e beijou-o forçado.
Jack simulou empurrá-lo e Francis resistiu, mas a surpresa e relutância do coelho sumiram, dando espaço para a uma sensação familiar. De repente, ele sabia o que fazer para tirar o melhor proveito e segurou unicórnio, cedendo e obtendo algo que ele sentia falta e nem sabia. Tudo deixou de importar enquanto segurou-o perto o máximo que pode. Quando deram uma breve pausa, Jack ainda segurava o mais novo, quase não o deixando ir para mais longe, e podia estranhar sua própria reação, mas sentia um alivio reconfortante que era maior que a lógica.
Francis subitamente estava feliz, encarando o coelho com esperanças de que o que ele sentia tivesse revivido naquele momento e pudessem, finalmente, aproveitar o que eles tinham.
— Ham... Isso pode muda as coisas — comentou o moreno com um leve sorriso. Seu olhar desviou para um movimento no pulso da mão que ainda segurava seu rosto. — Esse é meu pingente... Estava com você o tempo todo. — Jack começou a tentar entender por que, de repente, adorava o garoto mais do que nunca, e já não tinha certeza de nada do que tinha decidido mais cedo. — Eu gostava muito dele. Como foi parar com você?
Ouviu um riso e soube que Francis estava feliz, o que o fez sorrir também. Calmamente, o unicórnio explicou:
— Na primeira vez que nós nos beijamos, eu soube seu nome por causa dele. — E Jack mergulhou em peças rachadas e cenas turvas de sua memória que logo desapreciam como areia escorrendo entre os dedos, sem seu controle e o deixando frustrado. — Depois, quando David e nem ninguém sabia que ficávamos, você me deu para mostrar que estava comigo mesmo sem poder estar perto. Disse uma vez que juntos somos duas coisas que você gostava... Provavelmente sem essa prova comigo, eu já teria acreditado que imaginei tudo sozinho depois do acidente.
— O acidente... — repetiu o coelho, distante. — Não me lembro de nada.
— Eu tenho alguns sonhos assustadores, mas você normalmente aparece me protegendo, como fez de verdade.
— Sério? — duvidou o outro.
— Com certeza. É uma das únicas coisas eu lembro nitidamente. — riu. — Obrigado por ter feito isso, Jack.
Era um alivio mutuo estarem juntos daquela forma e um desejo não dito que durasse mais do que aquela noite.
O coelho sorriu e puxou o unicórnio mais para cima de si, voltando a beijá-lo. Não dava para resistir, provocava-o deslizando sua mão pelas costelas, costas e mais abaixo. De alguma forma Jack reconhecia os toques mais gentis do outro quando passou a acariciá-lo de volta. E, ao deixar que o unicórnio conduzisse o ritmo, descobriu que a calma inflamava seu desejo por algo mais intenso e rápido, contudo deixava-se ser torturado, incerto de até aonde iriam.
Em um momento, o coelho precisou separar-se do beijo para abrandar o calor que dominava seu corpo, mas Francis não o acompanhou. Suaves beijos desceram pelo seu rosto, alcançando seu pescoço e causando um arrepio na pele, sem interromper o momento, sem deixá-lo amenizar os batimentos ansiosos do coração e a excitação. Era uma surpresa descobrir que o menino aparentemente tímido estava agindo com tanto desejo. Jack não entendia muito bem como ele estava tão à vontade em pouco tempo que estavam juntos, mas a iniciativa o estimulava o suficiente a dar-se para o que Francis quisesse; Por isso não atrapalhou quando sua camisa foi puxada e tirada, sorrindo mais quando o garoto sentou sobre ele e parou o olhando enquanto inspirava igualmente rápido, dava para sentir que o queria.
O unicórnio não enxergava muito do que expôs e nem da expressão do coelho ao assumir aquela posição, mas de acordo com o aperto das mãos que apoiaram em sua cintura e a impressão de que o outro sorria nas sombras, indicava que estava agradando. Sentia-se um pouco vulgar por tomar a iniciativa, mas Francis sabia que não tinha o que perder; Ou melhor, tinha sim, se deixasse que Jack decidisse o destino deles sozinho. Deslizou as mãos pelo abdômen em direção ao tórax, provocando um suspiro do mais velho enquanto sentia a temperatura da pele dele e se inclinava para beijá-lo. Havia se passado bastante tempo desde que tocou o corpo de Jack com suas mãos, sentia falta de ter o coelho e não dava para perder o momento.
—... Ei — Jack sussurrou em seus lábios, o unicórnio afastou-se em duvida e, subitamente, ele retribuiu o favor de tirar a blusa e jogá-la para um canto. — Nós... já chegamos perto disso antes?
— Você lembra alguma coisa? — Fran teve esperança.
— Não... — balançou a cabeça e depois sorriu: — Mas eu tive uns sonhos interessantes algumas vezes que me faziam acordar... E, diferente de um sonho comum, podia me lembrar deles por vários minutos... Mas isso também me deixava mais frustrado e irritado. Era bem esquisito ter sonhos com irmão de um amigo e eu não o conhecia.
— Você me conhece Jack... E já me ensinou algumas coisas — beijou-lhe no rosto, apesar da expressão desconfiada do coelho sobre o que poderia ter ensinado. — Mas não chegamos a transar...
— Por quê? — se surpreendeu. Só naqueles minutos estava claro que tinha desejo pelo menino e o mesmo gostava dele, e se já ficavam por meses devia ter acontecido. Ao menos com Samuel foi rápido.
Francis aconchegou-se na dobra o pescoço, abraçando-o um pouco enquanto aproveitava para sentir sua companhia com calma.
— Eu não estava pronto... — respondeu simples. — O que é diferente de hoje — sutilmente deslizou a mão entre seus corpos e chegou à calça do coelho. Jack riu nervoso.
— Não... brinca comigo, Francis...
— Acho que não tenho mais tempo para isso — beijou-o e acariciou-o devagar, aproveitando que a escuridão escondia seu rosto corado por estar agindo novamente. — Jack, você... me quer?
O coelho riu, deslizando as mãos no corpo do menino e segurando seu rosto firmemente diante do seu.
— Sempre quis ter um unicórnio.
Junto com a surpresa de Francis, ao perceber que Jack não devia se lembrar de que era essa a mascara que ele usou quando se encontraram, o coelho o beijou com uma nova intensidade que o desconectou dos pensamentos. Quando percebeu o moreno tinha sentado e se beijavam enquanto ele puxava seu corpo para si. Tudo parecia mais quente enquanto o unicórnio sem notar permanecia acariciando áreas que antes exploraria com mais receio e calma. Estava confiante, decidido e definitivamente pronto, já que tinha preparado uma pequena parte da bagagem para um possível momento como aquele.
***
Na tarde seguinte, o coelho sorria bastante e Francis estava mais relaxado em estar no meio do grupo de formandos. Os dois fizeram uma trilha junto com alguns outros colegas e almoçaram com um piquenique num ponto alto de uma colina, um mirante cuja paisagem ainda ficaria na memória do mais novo que nunca antes havia presenciado algo como aquilo, tão verde, silencioso, puro e fresco, muito distante da cidade.
Retornaram ao acampamento próximo do fim da tarde calorosa. O unicórnio ficou aliviado de acabar a caminhada infinita e ia seguindo a turma que se dispersava, mas Jack sorriu e puxou-o para outra trilha, se embrenhando sozinho na mata. Logo ouviu as corredeiras sutis de um rio calmo e toda a água surgiu logo depois de uma estreita praia de pedras pequenas e arredondadas atingidas pelo resto de sol. O coelho livrou-se da blusa, revelando cicatrizes e algumas marcas mais recentes ma pele, depois invadiu a água e não preciso mais do que um olhar para Francis o segui-lo.
Havia uma boa diferença entre as habilidades de natação dos dois, Jack participava de campeonatos enquanto Fran aprendeu o básico, mesmo assim o mais velho foi até uma parte profunda para se divertir, e isso deixou Francis nervoso, contudo era uma boa desculpa para manterem-se próximos, mesmo quando outros tiveram a mesma ideia de se refrescar antes que o dia acabasse.
Assim, todas as cenas seguintes daqueles dias de fim de ano foram gravadas cuidadosamente na mente de um unicórnio, que viveu cada momento atentamente, apreciado o presente antes que aquele sonho acabasse.
...
As chamas da ultima fogueira do acampamento dançava laranja no meio da escuridão de uma noite abafada. Francis estava distraído, encarando-a, concentrado em aceitar que tinha acabado e seria devolvido à realidade em breve. Começou a sentir-se triste e sozinho. Jack estava longe fazia um bom tempo, brincando com alguns amigos em algum canto, sem ele... Queria um abraço diante da opressão de que em poucas horas estaria em casa, enfrentando dias de um futuro sem o coelho perto.
Ouviu um movimento atrás de si. Jack pulou o tronco onde ele estava encostado e sentou-se, abrindo as pernas e ocupando o espaço que não existia atrás de Francis, o forçando a deslizar para frente. Depois abraçou seus ombros, o recostando em seu peito, enquanto também olhava as chamas em silencio. O unicórnio sorriu, sentia-se um urso de pelúcia, mas ao mesmo tempo protegido de tudo. Após alguns minutos, notou:
— Jay... Estão nos olhando.
— Eu sei — riu e deu um beijo rápido no alto da cabeça dele. — Mas eu percebi que não vou ver maioria deles no resto da minha vida em poucas horas. Não importa mais.
O menino apenas assentiu, ele mesmo não os conhecia então não fazia diferença também, permaneceu aconchegado e calmo, tão tranquilo que logo podia pegar no sono. Nem mesmo percebeu quando Bianca e David sentaram perto, sem nenhuma hostilidade, e conversaram com Jack sobre assuntos nostálgicos no ultimo ano de colégio.
Um tempo depois, Jack riu de repente e penteou a franja de Francis com os dedos para o lado. O menor virou o rosto para trás, confuso, e ele apontou a frente enquanto sorria levemente. Seguindo a direção, o unicórnio encontrou o garoto que sempre estava com a câmera durante o acampamento, registrando tudo, e a lente estava apontada para eles. Logo o fotografo conferiu o registro e olhou-os com um sorriso, balançando a cabeça positivamente, depois seguiu atrás de sua próxima cena.
《☆FIM☆》
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