O Unicórnio de Um Coelho

3 Um coelho que se aproxima mas foge.


Notas iniciais:

Gostaria de agradecer pelo incentivo Citizen Kane, que ajudou a sair de um bloquei para termos este capitulo.

Musica para esse cap: " Valense — Se a gente quiser", mas se tem problemas por ser em português, ouça antes, ou depois, não sei.
link: https://www.youtube.com/watch?v=2ETlvDJOm8w

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Naquela manhã o ônibus que Francis pegava para ir á escola chacoalhava e tinha uma irritante conversa de alguns adolescentes no fundão. Infelizmente o garoto estava próximo do falatório, sentado ao lado de um desconhecido de óculos mais interessando no celular e com fones no ouvido, ele até tentou se distrair observando a rua, mas estava cansado de ver mesma coisa todo dia. Quando chegou no ponto da escola, deixou que os outros saíssem na frente enquanto virava a tela negra e trincada do seu telefone para ver o reflexo; apesar de latejar, o roxo no rosto não estava aparente para ser notado.

A escola, um prédio de dois andares e com os portões de ferro abertos, estava se lotando de estudantes, e Francis passou quieto, só observando rapidamente um ou outro que não conhecia. Há longos meses ninguém se lembrava dele e naquela manhã não foi diferente. Talvez parte disso fosse culpa do garoto, por sempre preferir se distanciar, ficando sem hábito de saber conversar, e, sem conhecer a si mesmo, se incomodava por não achar companhia que combinasse. Contudo, com os pensamentos mudando e sabendo um pouco mais do que gostava, este menino tinha por onde começar.

No corredor interno e principal, Francis notou um trio que conversava parado diante de um bebedouro. Não lhe importava as garotas do terceiro que estavam de costas para ele, olhou diretamente para Jack, de frente para as meninas e consequentemente para ele também. Fran não interrompeu o fluxo da caminhada ao observa-los enquanto se aproximava, e não demorou para ver Jack o notar rapidamente com uma olhada, mas o moreno retornou em dar atenção ás colegas, contendo-se para não encará-lo por mais tempo. O unicórnio solitário no mundo de máscaras não perceptíveis, seguiu em frente, também fingindo não conhecer Jack... Porém, o corredor estava meio cheio e decidiu passar bem do lado do grupo, trombando de leve no braço do mais velho sem que muitos notassem; a não ser Jack, que sentiu a mão do menino segurar dois de seus dedos naquele toque rápido, deslizar e então o soltar. O rosto do mais velho o seguiu, não compreendendo o que Francis estava fazendo e perdendo qualquer interesse sobre as coisas que as meninas lhe contavam. Em seguida ouviu a garota de cabelos escuros comentar que Francis era um mal educado e pediu que Jack deixasse de lado, porém não era isso que ele pensava sobre o menino, tinha certeza que foi intencional, mas um segundo depois não sabia se aconteceu, tinha uma vontade ir atrás de Fran, contudo, o sinal tocou chamando todos para suas salas.

A paz reinou durante a parte da manhã no colégio.

Depois do intervalo do almoço, Francis estava tranquilo, fechando suas coisas em seu armário de ferro e pronto para as aulas extras, quando percebeu um grupo de garotos falando alto vindo pelo corredor e se aproximando dele. Ao olhar, viu que David estava no meio, o que gerou uma tensão no garoto, mas o irmão o ignorou como sempre fazia. No entanto, Kyle, um dos mais altos rapazes do grupo, encarou Fran, franziu o rosto e depois falou, com um risinho, algo num murmúrio para David, que parou abrupto, virou-se para encarar Francis com estranhamento e sorriso sacana, enquanto o misterioso assunto foi passado por Kyle á alguns outros.

Francis tentou fechar seu armário e ir embora, mas uma parte do grupo já veio na direção dele, rindo. Quando chegaram lhe deram alguns empurrões e tocaram em seu rosto falando algo de maquiagem, porém Fran estava assustando demais para entender o que estavam chacoteando. Em um momento, acabou se desequilibrando e caiu para cima de um deles, que não quis apoia-lo e o deixou escorregar para o chão, onde seu rosto continuou sendo perturbado até que todos se afastaram satisfeitos em deixá-lo naquela posição, encolhido sobre o piso frio. Não foi dessa vez que Francis tinha morrido, mas seu coração tinha se agitado e o medo o congelado.

O grupo se afastou com o sinal distante, inesperadamente alguém lhe tocou e começou a levantá-lo. Era um sonho estranho, segundo Francis, olhos azuis claros como água de piscina o fitavam fixamente, o cenho estava franzido entre as sobrancelhas escuras e algo na sua expressão indicava preocupação e irritação ao mesmo tempo.

Depois de ajuda-lo a ficar de pé, Jack notou o roxo borrado sob um dos olhos castanhos, úmidos e ressentidos, e Francis o surpreendeu, envolvendo os braços magros ao redor de suas costelas e o apertando no meio do corredor da escola. O corpo de Jack retribuiu o abraço antes que ele pensasse direito. Estava combinado que não ia se lembrar, mas isso não acabava com a ligação que tinham criado.

— O que aconteceu? — perguntou para o menino com o rosto em seu ombro, acariciando aquelas costas sutilmente com as pontas dos dedos.

— Você acabou de ver...

— Não — Jack o separou do abraço. — No seu rosto. Quem fez isso?

Francis o olhou estranhando a pergunta curiosa e com intensão de vingança lida através dos olhos sérios que esperavam uma resposta.

— Você... — analisou o rosto de Jack — se importa comigo?

O mais velho desviou o olhar, admitiria tão cedo ou tentaria distanciar-se mais um pouco? E também ainda havia David, o conhecia, era um rapaz convencido, conquistador, que agitava as coisas e sabia de sua capacidade de infernizar outros. Suspirou, dando um passo para trás e liberando-se completamente do abraço.

— Como amigo do seu irmão, não seria tão estranho. — dissimulou e aquele brilho de esperança se dissolveu da face de Francis, que deixou os braços vazios caírem do lado do corpo e depois riu, abaixando o olhar:

— Acho que esse argumento não vai valer quando for tirar satisfações com David.

— Foi ele? — Jack estava surpreso e o outro assentiu. — O que você fez?

— Quê? Eu não fiz nada. É ele que me odeia e não tem nenhuma paciência.

— Falou disso para os pais de vocês?

Fran o olhou de novo por alguns segundos, havia muito interesse sobre sua vida da parte de Jack para alguém com quem mal tinha conversado sobre qualquer coisa. Mas ele respondeu querendo manter a conversa, mesmo desanimado em se lembrar:

— Quando minha mãe perguntou no jantar, eu disse que foi alguém da escola e que não consegui ver quem foi. Aí ela falou para David me ajudar. O idiota riu, falando que ia fazer isso como se fosse um bom irmão longe dos olhos dela.

Um segundo sinal tocou e Jack percebeu o corredor vazio.

— Estamos atrasados... — comentou olhando em volta e depois encarou o rosto de Francis, hesitando por um momento, algumas lembranças o atiçaram, o riso do menino, o beijo, os toques... Jack precisava perguntar se Fran estava conseguindo esquecer o que para ele estava complicado. Era só uma pergunta que tentaria não demonstrar mais que uma curiosidade. Então trouxe o assunto rapidamente: — Fran, sobre aquela a noite — ganhou fácil a atenção do mais novo Francis — você consg...

— Aí está você! — uma menina de cabelos volumosos por cachos surgiu falando alto e ao fundo do corredor. — Nós temos que começar. A senhora Martha quer você lá no auditório agora! Vamos Francis!

Ela estava distante, na esquina do corredor para outro, e chamou o menor com um gesto de mãos sem paciência. Foi como retornar aquela personalidade que encobria Francis quando estava naquele lugar, uma apatia de socializar. Olhou para Jack um ultima vez e seguiu em direção á garota sem dizer nada, simplesmente fazendo o que as pessoas mais legais com ele queriam.

Jack observou-o se afastar, aborrecido de ter sido interrompido por aquela desconhecida, e a menina olhava-o, notando-o ali e cheia de suspeitas não boas. Jack a encarou de volta sério, sem ter que dar satisfações, e seguiu pelo outro lado, indo para sua aula de idiomas antes que fosse impedido de entrar.

***

Era madrugada de sexta para sábado quando Francis, dormindo em seu quarto escurou e cama quentinha, despertou com o som da porta da casa se abrindo e umas falas arrastadas ecoarem sem pudor. Suspirou ao notar perdeu todo o sono e por reconhecer o timbre do irmão mais velho, mas continuou debaixo de sua coberta sem se importar.

— Vamoos caras, deve ter algum outro lugar... Não a minha casa! — resmungou a voz que pouco se importava se tinha alguém dormindo.

— Cala a boca, David! — era Charlie, um dos amigos do irmão, tentando sussurrar enquanto falava bravo, e depois riu. — Assim sua mãe vai aparecer aqui.

— Vai não, não — ploft, David devia ter se jogado no sofá da sala e Francis continuou só ouvindo. — Ela disse que ia ficar de plantão. Tô. Completamente. Sozinho!

— Vamos levá-lo para o quarto dele — Charlie disse para alguém. — Me ajuda aqui.

Ouviram-se alguns resmungos e então passos atrapalhados e pesados sobre o piso e, em seguida, subiam as escadas.

— Ei! — e um estrondo de queda, mas o irmão continuou falando parecendo bem: — Tive uma ideia! Que tal irmos para aquele bar que fica na rua dos semáforos? O que tem as mulheres de garçonetes?

— Chega por hoje — Charlie disse. — Tá muito bêbado para isso. Não vai restar nada de você assim... Vamos, colabora David, vai para seu quarto e durma!

O irmão gargalhou e continuou a subir, suspeitamente sozinho, mas com os passos dos outros o seguindo.

Francis suspirou de novo, encarando a parede do seu quarto de luz apagada, ouviu o irmão derrubar algo no dormitório vizinho, rir e continuar resmungando coisas.

— Ele não vai se afogar ou dormir no banho desse jeito? — era uma voz nova e relaxada, rindo do estado de David, que despertou Francis e seu coraçãozinho antes calmo. O menino até se virou na cama para encarar a porta de seu quarto, onde a luz do corredor iluminava abaixo.

— Eu sei lá. Ele costuma sobreviver — a voz de Charlie veio do quarto do irmão e depois estavam no corredor. — Depois disso, acho que ele vai apagar na cama.

— Não vou! — a voz abafada veio de dentro do banheiro do corredor, onde David já tinha se trancado. — Eu me lembrei do endereço de uma garota! Talvez eu vá visita-la.

Ouviu-se um suspiro impaciente no corredor.

— Que saco — Charlie chateou-se. — Alguém vai ter que ficar aqui. Só por garantia — houve um minuto de silencio, só o som baixo de chuveiro. — Vamos, a mãe dele é legal, vai te aceitar de bem, e o pai deles é motorista e pelo que sei tá viajando, vai ser tranquilo.

— Eu não sei...

— É sério, Jack. Eu tenho trabalho amanhã cedo, não dá para mim. — ouviram-se uns tapinhas no ombro e passos se afastando, assim como a voz de Charlie mais longe: — Só tem que mantê-lo na casa. Ok?

Jack... Francis apenas ouviu tudo invadido por uma ansiedade, a respiração começa a se dificultar só por saber que Jack estava em sua casa, depois de algumas paredes, e ia passar a noite.

Vários minutos se passaram com um cantarolar de David no banho, depois uma conversa no quarto entre os dois garotos e o som da televisão deixada em algum programa. Logo não tinha mais David rindo de algo aleatório do que assistiam, nem frases comentaristas, só um silencio com o desligamento da TV. Francis percebeu e deu um pulo da cama, ligando um abajur sobre a cômoda próxima da porta e analisou a roupa, resolvendo trocar o calção estampado por outro de cor única e permaneceu com a blusa branca e meio larga. Ouviu passos saindo do quarto do irmão e abriu a porta de seu quarto. Os dois pararam de súbito e se encararam com surpresa.

Jack olhou Francis do rosto para baixo de forma lenta, depois voltou a encara-lo, sorriu torto e seguiu pelo corredor, descendo as escadas. O mais novo foi atrás, ainda sem saber o que ia fazer. Observou Jack tirar a jaqueta, deixando-a sobre a mesinha de centro da sala, e beber o resto de líquido de uma garrafa, depois ele se encaminhou para a cozinha.

— Aí não! — Francis falou, acendendo a luz do cômodo e chamando atenção de Jack. Aproximou-se, pegando o vasilhame vazio dos dedos do outro: — Deixa em cima da pia, normalmente jogo no lixo de fora antes da mãe chegar — e fez Jack andar trás, depois que seus corpos se encostaram, só para alcançar a bancada, onde deixou a garrafa.

Jack não estava exatamente se importando, observava o menino alheio às razões da aproximação, e Francis também parou o olhando. Houve uma pressão interna e inconsciente. Estavam sozinhos, porque não? Só um momento, uma parte dizia para Jack, mas o garoto desviou o olhar do de Fran, desafiando-se a não fazer nada.

Contudo o mais novo não o ajudou quando tocou a palma em peito, apenas apoiada, sentindo seus batimentos. Jack voltou a encara-lo, tinha sido pego com aquele coração agitado, então tomou o rosto de Fran, de seu unicórnio perdido nesse mundo, e lhe beijou como naquela noite, assustando Francis por um segundo. Era tão fácil esquecer tudo, deixar o resto do mundo de lado e dar o melhor que tinha quando o capturava... Encostou o irmão de um de seus amigos na bancada, incomodou-se um pouco que o menino gostava de segurar seus cabelos mais longos que o comum e puxa-lo, desejou que fosse um pouco mais gentil, porém o que importava isso se Jack podia aperta-lo contra seu corpo e até morde-lo em troca. No entanto, de repente, ouviram o som da porta da casa abrindo e se batendo. Jack teve que largar o que vazia para saber se não era David fugindo. Chegou na sala com passos rápidos e deu de cara com uma mulher, guardando as chaves na bolsa e se assustando com a presença súbita dele.

— Quem é você? — Ela perguntou para o Jack, hesitante e desconfiada.

— Amigo do David. — Francis foi atrás dele e respondeu antes, surpreso de ver a mãe — O que está fazendo em casa?

A mulher, de cabelos castanhos e lisos, o olhou dando um suspiro, cansada:

— Ah, filho, o supervisor disse que estava trabalhando demais, aí ele chamou outra pessoa, mas disse que não tem problema. Vem cá — ela estendeu a mão e Francis se aproximou, recebendo um abraço, momento constrangedor pra Jack que mal a tinha visto nas vezes que já esteve naquela casa. — E você, vai passar a noite aqui? — a mulher perguntou calma depois de soltar o filho.

— Vai sim, mãe. — Francis contou a conversa de novo. — Está tarde e ele trouxe seu filho de volta para casa...

— Ah — ela disse não muito surpresa, apesar de não saber que o mais velho estava fora de casa. — Tudo bem, então.

— Vou voltar para a cama. Boa noite — Jack disse, dando um sorriso fino para a mulher, buscando a jaqueta sobre a mesinha de centro e subindo as escadas. Sua frase deixou Fran abatido e sem reação para trás, mesmo com o olhar rápido que o mais velho lhe deu antes de sumir.

Notas finais:

Espero que tenham curtido o capítulo!
Acho que esse episodio teria o " Continua..." no fim. Porque eu não to vendo outros caminhos se não dizer o que acontece em seguida, os fatos desse momento importante em que ambos estão juntos, na mesma casa, na mesma noite...
Obrigado por ler e acompanhar!
Não esqueçam de deixar um comentário! (Eu mando abraços grátis *--*)