O Unicórnio de Um Coelho
26 Jeito certo
Notas iniciais
Quando Francis e Jack voltaram à escola depois daquele final de semana, se olharam de longe e sorriram. O coelho sabia muito mais de Francis em apenas alguns dias e, mesmo que o assustasse saber do passado que o menino provavelmente não contaria para ninguém, ainda o queria por perto e poder fazê-lo sorrir, como quando se sentavam longe no salão durante o intervalo e ficavam trocando mensagens bobas, tendo que resistir para não se olharem demais só para ver a reação que tinham.
No segundo dia, depois de ter passado o tempo livre num jogo com David e os colegas, Jack entrou no banheiro e deu a sorte de encontrar o unicórnio ali. Sorriram um para o outro, era uma tentação não poderem se agarrar naquela oportunidade. Agiram normais, mas ninguém mais apareceu, então, antes de sair, Jack parou diante da porta com o menino o seguindo e conseguiu um beijo.
— Dias chatos, não? — comentou depois.
— Podiam ser melhores — Fran respondeu e ficaram uns segundos se olhando. — Porque não arruma um tempo para mim?
Jack sorriu com pesar e o soltou.
— É uma semana complicada. Já te expliquei. Kyle e os outros estão em um tipo de compeonatinho na quadra do parque toda a noite, e na escola tem sempre algum treino ou trabalho de fim de semestre — o menino fez um bico, o que comoveu seu coração, então o moreno o abraçou e inspirou fundo ao ser agarrado também. — Se conseguir pode ir ao parque e ver um jogo. Seria bom te ver por lá.
— Hunf. Só quando minha mãe for ao plantão. Desde que você foi atacado ela fica preocupada, apesar de não dizer nada.
— Ótimo. Quando vai ser? — questionou animado, mas o menino não correspondeu.
— Sexta. — Os dois ficaram tristes.
— Bom, até lá você me dá umas piscadinhas para mim no corredor ou então tromba — Jack orientou e riu. — Quero ter motivo para encarar você.
— E porque você não faz isso comigo?
— David não quer que eu faça alguma coisa com você, não disse sobre você mexer comigo.
Francis riu e foram interrompidos por um empurrão na porta nas costas de Jack. Imediatamente, o mais novo se afastou e, com um aceno de despedida, Jack puxou a maçaneta e saiu antes que alguém entrasse, até empurrando quem fosse entrar no banheiro sem dar explicação.
***
O parque da cidade era bem diferente durante a noite. Era muito mais silencioso e havia muitas sombras, apesar dos diversos postes acesos nas trilhas entre ás arvores. Entretanto, a quadra estava bem nítida com os holofotes altos e fortes, os bancos de cimento na lateral estavam ocupados com alguns grupos jovens que riam, brincavam e conversavam.
Sozinho e com as mãos no bolso de seu moletom devido ao ar frio, o garoto sentou-se na ponta da arquibancada e observou o jogo por alguns minutos. Aquilo parecia divertido, mas nunca seria para ele. Ver os empurrões, gritos altos e algumas quedas ou tropeções já o deixava temeroso de se machucar. Mas logo Francis se distraiu, observando um garoto de regata branca, cabelos curtos, escuros e suados, correndo completamente distraído com os passes e disputa. Enquanto observava Jack, o menino tentou entender quem estava vencendo.
De repente, Kyle, que parecia ser o líder do time, foi empurrado contra o alambrado bem próximo de onde Francis estava, assustando-o, e por um segundo eles se olharam, mas o rapaz voltou ao jogo quando Jack o chamou para algum passe acontecendo em direção ao gol. O unicórnio ficou indeciso se devia ir embora ou não, afinal, Kyle ia estranhar sua presença e contar para o irmão, que naquela noite estava ocupado em seu trabalho na mecânica.
O time de Jack venceu o jogo e, enquanto todos estavam distraídos comemorando, o coelho olhou para Francis e mandou um beijo no ar, logo se virando para o grupo. Sorrindo, o menino levantou-se para ir embora.
Junto de alguns adolescentes, o unicórnio foi andando pela trilha principal de saída do parque. O caminho era cercado pelas árvores até o teto e havia alguns postes da lateral sem luz graças a vândalos, o que deixava alguns trechos bem mais escuros. De repente, Francis sentiu uma mão cair em seu ombro direito e um corpo chegar ao seu lado esquerdo, em um meio abraço. Surpreso, o garoto encarou quem era e ia se afastar, mas foi obrigado continuar andando. O rapaz que o segurava estava extremamente perfumado, vestia jaqueta preta, cabelos claros puxados para trás e um sorriso de charme, infelizmente estava bem sedutor.
— Há quanto tempo, não? Conquistando muitos corações? — Samuel perguntou, o levando até o próximo trecho de sombra.
Por alguma razão o coração do unicórnio disparou. Talvez o que o assustasse fosse estarem naquele lugar pouco frequentado, sem ele poder se defender, e com Jack próximo, podendo se irritar com ele se visse a cena.
—... Não... — murmurou e pararam. Francis não sabia para onde ir.
— Não? Eu duvido um pouco — sorriu, se pondo na frente dele, sempre com sua mão o apoiando nele, deixando a sensação de que Francis poderia ser segurado se resolvesse sair correndo. — Escute, eu quero saber de uma coisa... — ficou um pouco sério, calculista, o encarando. — O que tem entre você e o Jack?
Fran pode sentir-se ficar pálido, faltando sangue, e encolheu-se.
— N-nada — gaguejou, encarando os sinais da expressão de Samuel. Por um momento pareceu que ele não ia acreditar, mas então deu um leve sorriso.
— Que bom! Porque eu quero você!
— O que? — disse espantado, e sem perceber havia se afastado um passo para trás, mas seus dois braços foram segurados por Sam.
— Eu sei que quis te matar na primeira vez que nos vimos, mas é passado. Eu acabei gostando de você e acho que até que estou apaixonado, mas você não me deu nenhuma chance de tentar entender se o que sinto é verdade ou não, percebi que anda fugindo de mim. Mas, então, resolvi me abrir e vamos tentar algo juntos.
— Desculpe... — Fran tentou soltar os braços, ganhar distância, mas era sempre pego novamente. — Não...
— Para de tentar fugir — pediu Sam, rindo daquela ação. — Estou sendo sincero, estou disposto assumir você para todo mundo e não esconder de ninguém... Qual é? Sei que tem alguma atração por mim, Francis.
— Me deixa ir!
— Não! — Sam respondeu no mesmo tom. — Estou tentando fazer uma coisa certa e você está fugindo.
— Eu não quer... — e Samuel o interrompeu beijando-o forçadamente. Conseguiu agarrá-lo, forçar um beijo mais invasivo por alguns segundos, até Fran ter força para empurrá-lo e dar um soco. As juntas dos dedos arderam em seguida, a mão toda doeu, ele lacrimejou um pouco, mas havia se libertado.
— Você quase acertou meu olho! — reclamou o de cabelos platinados e se virou para o menino, que segurava o próprio punho. Riu da expressão de dor de Francis enquanto ele mesmo já não sentia nada. — Droga. Você não deixou as coisas fáceis, Fran...
Foi possível enxergar algo perverso na forma que Samuel o encarava, a única opção era a fuga, e, desesperado, o mais novo resolveu correr para quadra, correr para Jack. Foi rapidamente perseguido. As pessoas que passaram por eles não se intrometeram, nem mesmo quando o menino foi facilmente pego por trás pela cintura, levantado do chão e contido. Tentou fugir e pediu por ajuda para um casal de jovens que passava, mas Samuel ria, o que deixava tudo com ar de brincadeira entre amigos e os estranhos ignoram.
— Me deixa ir! Por favor! — pediu, tentando soltar as mãos que os seguravam.
— Eu não vou ser mal com você. Sou apaixonado, lembra? — Sam começou a arrastá-lo. Para onde? Ninguém sabia.
Francis, irritado e frustrado, acabou lhe dando uma cabeçada bruta para trás, que o fez solta-lo e se afastar por tempo suficiente para o unicórnio virar-se e, enquanto Sam analisava se o nariz havia quebrado, acertou outro soco no rosto dele, depois um no peito e na costela, o que fez o mais velho botar um joelho no chão. O unicórnio, enraivecido, achou que tinha o subjugado, mas Samuel fazia aulas de boxer e lutava, não era verdade que os efeitos de seus golpes fossem tão poderosos. Num súbito, Sam se levantou e foi com o ombro em seu abdômen, o levantando do chão e o pondo em seu ombro, levando Francis mais facilmente para onde queria apesar dele ser pesado. Havia certo medo de cair de cabeça no calçamento, mas ele se debateu um pouco. Quando Sam se virou para a saída, Francis viu Jack se aproximar correndo.
— Jack! — não se conteve em chamá-lo. O que fez o de cabelos platinados para e se virar.
— Põe ele no chão, Sam!
Samuel pôs Francis no chão, mas continuou o segurando fortemente pelo braço enquanto encarava de forma fria o moreno que logo chegou o empurrando. Francis foi levado junto até Sam o soltar para acertar um golpe no estomago de Jack, o inquietando. O unicórnio logo decidiu defendê-lo, mas com um simples empurrão foi parar no chão. Depois Samuel levantou o olhar para além e atrás do Jack arcado, sua expressão se suavizou imediatamente e ele levantou as mãos no ar, com um sorriso fino e falso.
— Hey, pessoal, está tudo bem! Já parei — deu alguns passos curtos para trás.
Confuso, Francis olhou e encontrou três dos amigos de David já perto deles, todos de punhos fechados e com olhar raivoso para Samuel. Jack se levantou, arfando um pouco por causa da dor na barriga:
— Vá embora — rosnou. — E deixe Francis em paz.
— Eu só estava brincando. Ele é fofo, é quase irresistível quando entra em modo de fuga.
— David já te falou para ficar longe — ressaltou Jack, o encarando sério.
— Não lembro muito bem disso — provocou com um sorriso torto e Jack lhe deu um empurrão:
— É sério! Não perturbe Francis de novo ou vai ser a ultima vez da sua vida!
Samuel, impassível, observou a expressão irritada do coelho tão próximo, o azul de seus olhos ficava mais cor zafira quando ele estava com raiva, era interessante, mas, além disso, Sam podia ver que Jack tinha algo mais intenso, a ponto de torna-lo feroz daquela forma só para defender Francis. E isso o ofendia profundamente, por não conseguir sentir algo assim por alguém e não ter esse sentimento vindo de alguém. Não compreendia porque o menino era diferente para Jack e merecia aquele sentimento especial do moreno que ele não conquistou. Então, simplesmente, Samuel desviou o olhar e deu as costas, indo embora.
— Você está bem? — Charlie era um dos rapazes, se aproximou de Francis o ajudando a ficar de pé.
— Minha mão... — comentou, o punho estava corado e dolorido depois de seus socos.
— Caramba, moleque, você ia ser sequestrado! — comentou Kyle, agora rindo.
— Não parece ter quebrado alguma coisa. Só está vermelho, mesmo. — Charlie havia pegado a mão de Francis e o menino nem percebeu.
— Você deu uns bons socos nele — Jack comentou, tentando manter-se no mesmo nível de conversa dos outros. — Só que ele é uma parede que já resistiu à bem mais que isso.
— Mas vocês viram como ele correu? — Francis não conhecia o terceiro garoto, que falou e o apontou com certa admiração. — Para um tipo estranho que você é, tinha velocidade.
— Porém não ia durar muito — Jack comentou com o rapaz, rindo. — Esse aqui nem faz educação física, a resistência é péssima.
— Bom saber, assim não o escolheria para meu time — Kyle disse.
Era estranho estar entre os amigos de David sem parecer que todos estavam contra ele, apesar de ainda rirem dele.
— Tem como voltar para casa seguro? — Jack perguntou.
— Vou até o ônibus.
— Sozinho? — Charlie questionou, incomodado. O menino assentiu. — Não pode, é perigoso. Você nem sabe quando passa um próximo e não tem como saber o que aquele louco vai fazer depois disso. — Os garotos se entre olharam. — Quer saber, eu vou com você até o ponto.
Kyle riu debochado:
— Você?! — gargalhou. — Você não ia aguentar um soco de Samuel nessa cara de bebê.
— Cara de bebe é sua bunda! — e os dois começaram a brigar amigavelmente. Francis até riu, distraído, e Jack o olhava.
— Charlie, pode deixar... — interrompeu a distração. — Eu vou levar ele para casa.
— Tem certeza?
— É, estou de carro e depois vou dar um volta pela cidade.
— Hm. Ok — o de boné deu de ombros.
Não demorou muito para estarem juntos e a caminho do bairro dos Audreys.
— Fran, você está bem mesmo? — o coelho quis saber ao dirigir.
— Estou — respondeu e observou um olhar incomodado de Jack. — O que foi?
—... Eu... o vi te beijar.
— Mas foi forçado.
— Eu sei. Mas... — o moreno suspirou pensativo. — Ele fez isso em publico, na frente de alguns conhecidos dele que, talvez, apenas suspeitassem que ele pudesse ter um lado que se atrai por garotos.
— O que tem isso?
—... Eu não conseguiria te dar algo assim. Tenho medo do que os outros vão pensar, de como isso afetaria meus planos, de como meus futuros chefes me tratariam depois...
— Jack, eu não me importo. Talvez assumir para todo mundo traga vantagens e poderíamos viver melhor tudo isso, mas também não estou pronto para os olhares, gozações e maldade dos outros.
O coelho sorriu um pouco mais aliviado, Francis pensava como ele naquele momento, e trouxe uma esperança de que possivelmente aquilo pudesse durar tempo suficiente para se exporem juntos.
— Mas é um bom sinal que já esteja sabendo se defender.
O menor concordou e falou um pouco do que aconteceu. Não demorou muito e estavam na casa.
— Você não quer entrar?
— Não — Jack sorriu sutil.
— Por quê?
— Falei para minha mãe que voltava cedo.
— Ah, certo — o menino disse descontente e recebeu um beijo nos lábios, que com os minutos o ajudou a esquecer daquele que recebeu de Samuel. Jack se separou:
— Melhor você ir, agora. David tá longe, mas seu vizinho intrometido está em casa — apontou a casa da frente com luzes acesas.
Fazendo cara de desagrado, Francis ia sair, mas parou.
— Você vai à apresentação do teatro, não vai? — perguntou.
— Quando?
— Sábado que vem, no auditório.
— Parece interessante. Manda os detalhes para mim, Ok?
O menino assentiu, sorrindo e foi para sua casa.
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