O Unicórnio de Um Coelho
25 A mancha do unicórnio.
Notas iniciais
O homem era um tanto estranho de estar olhando. Fazia meses que não se viam e ele lembrava muito David, ainda mais porque os dois estavam com um corte de cabelo quase igual e conseguiam conversar como se fosse velhos amigos. Francis não gostava da caminhonete, ele ficava muito perto do irmão, que volta e meia o empurrava para ocupar mais espaço, mas mesmo que fosse um incomodo, o mais novo queria estar ali e ter um momento com seu pai.
Foram para um pub do centro, onde Will deu risada de David querer algo com álcool e deixou – a mãe jamais deixaria isso – e em consequência Francis também acabou ganhando um copo de cerveja, apesar de odiar o gosto. Naqueles minutos, ele tentou entender e ouvir as histórias do pai, médico da marinha, e mal conseguiu contar algo sobre si quando o homem quis saber, pois, no fundo, Will ainda lhe parecia um estranho e David desapreciava ouvi-lo. Não passaram mais de uma hora juntos, e o irmão interrompeu o momento atendendo um telefonema.
— Sim, Charlie, meu pai! Quer falar com ele? — Em seguida passou o telefone para o homem de surpresa. Enquanto Will falava com o amigo mais próximo de David, o próprio roubava a cerveja quase cheia de Francis e bebia com rapidez, o pai assistiu só franzindo o cenho pra aquela atitude.
— É mesmo?... Pode, sim. Sem problemas... Eu não, Charlie, tenho alguns planos, mas podem ir tranquilos e se divirtam um pouco. — o homem deu um riso e devolveu o telefone ao dono que continuou a conversa no aparelho. Will olhou para Francis. — Você parece que cresceu. Ainda tem cara de criança, mas está diferente.
— Ninguém é criança para sempre.
— Não mesmo — riu. — Mas isso é bom, Francis! Já posso confiar que vai saber se cuidar sozinho.
Cuidar-se sozinho. A frase ecoa em sua cabeça e o menino continua sério. Ele não sabia se cuidar sozinho aos nove anos, já era recluso, mas mesmo assim o pai o deixou a própria sorte só para se divertir melhor numa comemoração em uma das casas da antiga vizinhança, enquanto a mãe tinha que ficar ocupada em ajudar com as comidas. E quando você é inocente e fica sozinho, sozinho de verdade, sem ninguém de olho, alguém vem cuidar de você, sendo com intenções boas ou não.
— Então estou indo! — David ficou de pé, sorrindo. Francis estranhou como ele podia abandonar aquela chance de ficar com o pai. O homem também se levantou e deram um abraço forte, se despedindo.
— Divirta-se garoto! E não traga dor de cabeça para sua mãe.
O irmão se foi, sem nem uma olhada para trás.
— Para onde ele vai? — o menino perguntou com o silencio que a mesa ficou.
— Uma festa. É sábado Francis, tem muita coisa acontecendo na cidade. Você também devia aproveitar com seus amigos.
— Não tenho amigos como ele.
Will ficou sem jeito e se silenciou. O filho mais novo não combinava muito com ele, não tinha muita ideia do que dizer ou conversar. Na sinceridade, sua vida e amigos eram como os de David e estava feliz do rapaz ser tão parecido com ele.
— Quer mais alguma coisa?
— Ir para casa.
— Calma. Ainda temos um tempo... Eu acabei de dizer para aproveitar a noite. Podemos ir para algum club ou boate — Francis o encarou sem animo. Se fossem, ele não teria nenhuma atenção do pai, solteiro, marinheiro e com estilo. — Tá, vamos assistir a um filme no cinema e depois vamos, pode ser?
— Okay — concordou e forçou um sorriso. Ao menos seria um programa mais calmo e só deles.
...
Quando voltavam para a casa, a caminhonete tocava a musica do radio devido ao silêncio entre eles. Apesar de ter sido momentos simples com conversas neutras, Francis estava feliz de ter ficado como pai por algumas horas.
De repente, o homem deu seta e levou o carro para a guia, numa rua de casas, estacionando e desligando o automóvel. Francis observou atentamente as expressões do homem imóvel até ele se virar para ele com um sorriso fino:
— É rapidinho. Só vou dar uma palavrinha com um amigo, está bem?
O garoto assentiu e observou o pai sair do carro e ir até uma casa.
Observar Will conversando com o outro homem o fez recordar da cena de seus nove anos, pois era o mesmo cara, o mesmo amigo do pai de anos atrás. Francis era um menino pequeno e isolado, sentado numa cadeira no quintal de um desconhecido, sem conseguir interagir com nenhuma criança daquele monte de gente da festa de ano novo. Decidiu explorar os jardins da casa e acabou encontrando um lugar calmo e seguro, um corredor lateral estreito, onde se sentou no calçamento e ficou observando um canteiro de flores e arbustos onde tinha alguns insetos coloridos que voavam ou se arrastavam.
De repente, ouviu a voz de um homem jovem perguntando o que ele fazia ali. O estranho usava óculos e uma camisa larga com bermuda, abaixou-se perto dele e também observou uma borboleta numa flor. Para certo horror e admiração de Francis, o homem pegou o animal no dedo e lhe mostrou de perto, pouco depois pegou sua pequena mão e transferiu o bichinho para um de seus dedos, ganhando toda atenção do menino. ‘Tenho uma coleção delas’, a criança ouviu e ficou mais fascinada. O homem lhe encarava com um sutil sorriso, não parecia má pessoa. ‘Quer vê-las?’ Na inocência e sem nenhum outro amigo, assentiu curioso e o seguiu o homem até um das casas próximas. E aquilo se tornaria o estopim de suas crises psicológicas mal tratadas. Nenhuma pessoa conseguiu fazê-lo contar o que aconteceu de terrível e nenhum médico conseguiu por as mãos nele para exames, e por consequência ninguém conseguia entender seu medo no ano seguinte de absolutamente qualquer inseto, de estar longe da mãe ou do pai ou de ficar sozinho, qualquer pessoa era para se temer.
Will voltou para a caminhonete e logo voltavam para a casa, para um lugar seguro.
— Filho, lembra-se do que eu disse na ultima vez? — o pai perguntou, estacionado na entrada. — Você tem que viver sua vida. Tem que ser confiante, impor suas vontades, fazer o que quer. Você não pode ser feliz se ficar negando o que deseja por causa do medo... Francis, você está curado, cheio de saúde e é um garoto normal! Tem muitas coisas para você nesse mundo e logo o colégio vai acabar. Tudo vai ser diferente.
O unicórnio observou-o por um minuto e então sorriu. Foi um conselho parecido com aquele que o levou a brigar mais com o irmão, revidar algumas coisas, fugir mais vezes de casa, ir para lugares desconhecido e ir para festas, conhecendo desconhecidos por uma noite, mas nunca se lembrou de nomes, e também onde encontrou Jack e ainda estava explorando o que podiam fazer juntos.
***
Jack Robinson não ia conseguir ficar na casa vazia naquele sábado, tinha planos com Francis, podiam continuar com as brincadeiras, mas o garoto havido ido embora.
Quando a noite chegou, para distrair-se, foi para a festa na casa de Kyle, um dos rapazes do basquete e seguidor de David. Não era nada demais o momento, bebia quase sem vontade, participava de alguns jogos e observava as diferentes cenas que acontecia dentro e fora da casa. Da roda de amigos reunida na sala, Charlie parecia ser o mais sensato. O rapaz sempre tinha um boné na cabeça e tentava por responsabilidade em todos, não foi uma única vez que o viu passar por algum dos amigos agarrados a uma garota e avisar para não se esquecerem da camisinha ou fazia alguma coisa para impedir overdoses ou acidentes de carros por embriagues. Mas a parte que Jack gostava de Charlie era quando ele dava uns sermões ou discutia com David para ele parar de fazer algo que não ia acabar bem, normalmente o convencia e jamais acabava em briga. O coelho gostaria que aquela relação de David com o amigo fosse igual com o próprio irmão, as coisas poderiam ser mais fáceis.
Minutos depois, sentou-se no degrau da varanda dos fundos da casa com vista para a piscina, onde alguns jovens molhados e com poucas roupas se divertiam. Em paz e em silêncio, aproveitava um copo mais cheio de gelo do que bebida. Contudo, havia uma comoção na casa há certo tempo, pois um jogo de desafios e verdades tinha começado e Jack preferia ficar de fora. Mas, de repente, a barulheira ganhou mais agitação e saiu pela porta dos fundos quando ela foi aberta por Charlie. O garoto o olhou meio preocupado e depois deu um sorriso.
— Achei ele! — gritou, mantendo a passagem aberta. Jack ficou sério. David surgiu completamente indiferente e se encararam. O coelho estava confuso sobre o que estava acontecendo, mas se manteve firme. — Tem certeza disso? — Charlie questionou o Audrey. — Pode deixar isso para lá. Vamos fingir que você fez!
— Não! Quero fazer aquele idiota beber os cinco copos! — Aquele tom de voz fez Jack reconhecer que David já estava bem alterado pelo álcool.
— Não, David. Deixa o Jack em paz, coitado, nem sabe o que está acontecendo — Charlie tentou levá-lo para dentro, mas não foi a favor um grupo de curiosos e incentivadores que estavam ali, então o soltou.
Jack se pôs de pé, bebeu um gole frio do copo e tentou fingir estar tranqüilo, mas deixou passar sua confusão. David chegou até ele com passos rápidos, as pessoas soltam um ‘uh’ longo, e seu rosto foi segurado, um segundo e o outro lhe dava um beijo seco. Ele lutou para se afastar, enquanto o grupo ria e contava cinco segundos, só depois David o soltou e ele limpou os lábios com real aversão. Não recebeu explicações, apenas observou todos comemorarem e voltarem para dentro da casa, David já gritava com algum tal de Caleb que tinha perdido alguma coisa.
Um tempo depois, o coelho teve alguns momentos de paz quando resolveu mudado de lugar, escolhendo sentar no gramado a uma boa distancia de qualquer porta da casa e custava a se livrar da memória do rosto de David tão próximo do seu e de suas bocas se tocando, até mesmo havia enchido o copo com uma bebida mais forte. De repente, viu que o Audrey já estava perto, nem tinha notado, e suspirou com leve ânsia.
— Hey! — falou o outro ao sentar do lado dele. Não respondeu nada. David ficou um minuto quieto até que se virou para ele, o encarando até Jack o olhar de volta. — Foi mal te pegar de surpresa. Foi horrível, eu sei — sua fala era meio lenta. — Aquele idiota de fora da cidade, Caleb, disse: ‘desafio a beijar um garoto que pareça sua namorada’... Ele conhece a Bianca, e é um babaca sem imaginação. Só que a droga é que quase ninguém desse fim de mundo tem olhos claros e cabelo escuro... — a ficha caiu. Jack se encaixava, apesar de Bianca ter olhos verdes. — Charlie me lembrou de você... e aconteceu — deu de ombros indiferente.
Depois ficaram ali, em silencio, ouvindo a musica da casa e as conversas.
— Droga... — resmungou David, incomodado. — Eu vim com meu carro ou não?
Jack riu:
— Não sei — o outro inspirou meio apático e ficou quieto. De repente, o moreno percebeu que se David já estava esquecendo coisas era sinal de que se perguntasse algo, no dia seguinte ele não se lembraria se respondeu. — Posso fazer uma pergunta David?
— Pode.
— Porque você não gosta do seu irmão?
Levou alguns segundos de silencio e inexpressividade para o Audrey começar a responder, com um amargor crescente:
— Ah, ele nunca devia ter existido... É um peso que está arrastando todo mundo para o fundo do buraco. Ele deu um grande problema pra todo mundo. É um câncer que nasceu um ano depois de mim, era destinado a dar problemas... A gente tinha uma vida muito boa quando meu pai e minha estavam juntos. Uma casa enorme, qualquer coisa que quiséssemos ou pedíssemos, uma geladeira cheia e íamos para lugares legais nas férias... Era perfeito. Ai, aquele desnutrido sempre foi esquisito... Para ser sincero, quando criança, eu acreditava que ele era adotado e já não gostava dele, vivia chorando e grudado na mãe... Então teve um momento que ficou louco. Completamente!
— Mesmo? — Jack forçou um riso, fingindo que aquilo era engraçado e esquisito, mas David lhe lançou um olhar sério, não era algo engraçado para ele e nem brincadeira.
— Ele agredia todo mundo, até minha mãe. Não é engraçado. Mas na maior parte do tempo ele era tranquilo... Só que a coisa nunca passava, bastava ele dormir, se assustar, lembrar de qualquer coisa, ouvir algum som súbito e o dia ficava escuro, cheio de gritos, cansativo e... solitário — o olhar de David pareceu se perder nas lembranças. — Ninguém se importava comigo. Ele me assustava e eu não tinha para quem fugir, meus pais tinham que controlá-lo para que não se machucasse sozinho, para que calasse a boca ou para tomar os remédios... Era tudo ele.
O Audrey ficou em silencio, ainda perdido em seus pensamentos, e aos poucos foi deitando no gramado, até se esparramar.
— Ele não parece ter problema. O que aconteceu depois? — Jack já tinha esquecido a bebida e a festa, parecia assistir a um filme de suspense inédito.
— Bom, aos poucos meus pais usaram o dinheiro que tinham para pagar remédios e tratamentos, mas ele era duro para permitir. Meu pai estava perdendo a paciência com a situação, porque ele não conseguia chegar em casa depois de uma longa viagem e enfrentar aquele problema. Até que acharam alguém caro que não tentou concertar o passado, mas sim ajudá-lo a continuar sua vida daquele ponto em diante. Francis fez alguns tratamentos nas férias, a casa ficava bem mais calma apenas comigo e o pai, mas minha mãe ficava com ele. Foi assim que ele melhorou... Ou parece que ficou bom. Agora é aquele patético pálido.
— Eu... ainda não entendi porque não gosta dele. Devia ser até o contrario, não? — tomou um gole da bebia e foi encarado pelo David tombado.
— Como não? A porra é que aquele idiota estragou a minha vida ótima, minha infância feliz e rica em, no máximo, dois anos! Estragou e levou tudo por onde passava. Meu pai foi embora, simplesmente nos abandonou querendo uma vida normal. Minha mãe, com raiva, não quis nada dele e nos arrastou junto para qualquer fim de mundo pobre. E ele ainda teve outros momentos de crise, mas só havia minha mãe em casa para acudi-lo e ela me obrigava a tentar acalmá-lo também. Nunca o odiei tanto falando o que ela queria... Tudo teria sido melhor se ele não existisse! Eu vou odiar ele sempre.
Jack observou o rapaz encarar o céu, tinha as sobrancelhas franzidas, com uma ruga entre elas, e uma expressão dura e irritada. Naquele momento, o coelho compreendeu melhor e teve até uma pena. David tinha se traumatizado nesse reboliço todo quando eram crianças, Francis também deve ter sofrido muito mais, só que ninguém deve ter percebido a situação do primogênito, assim David alimentou a raiva pelo irmão ao mesmo tempo em que se virou sozinho, se tornando confiante, rebelde e um babaca.
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