O frio chegou primeiro.




Ele subiu pelas pontas dos meus dedos, infiltrando-se pelos ossos como veneno silencioso. Senti-o nas costas, espalhado pelas pedras de Hogwarts, como se a própria escola estivesse dizendo: “Chegou a hora, Severo.” Mas não era isso que me doía. O que me doía... era estar morrendo sem ter dito tudo. Sem ter mostrado tudo.




Meus olhos ardiam. O sangue, quente, escorria pela minha garganta, abafando minha respiração. O cheiro metálico era mais forte que qualquer poção que já preparara em minha vida. E à minha frente… ele.




Harry Potter.




A imagem viva do homem que eu desprezei — e da mulher que amei.




Quis amaldiçoá-lo, por ter o rosto de James, por me lembrar todos os dias do que perdi. Mas agora, nos meus últimos segundos, tudo isso parecia… irrelevante. Ele estava ajoelhado diante de mim. Ajoelhado. Os olhos arregalados, as mãos tremendo. E, nos olhos dele… havia compaixão.




Nunca soube lidar com isso.




Meu braço levantou-se com esforço. Agarrei sua túnica. E disse a única coisa que importava:




“Olhe… para mim…”




E ele olhou. Pela primeira vez, sem escudo, sem rancor, sem o peso do passado. Ele olhou.




Eu me perdi dentro dos olhos de Lily.




E então, fui levado.






---




As memórias vieram como uma inundação. Nada mais podia contê-las.




Lily rindo, deitada na grama, chamando borboletas com um movimento de dedos.


Lily perguntando sobre poções, com um brilho de descoberta no olhar.


Lily, minha melhor amiga. Minha luz.


E depois…


Lily se afastando.


Lily dizendo que estava cansada.


Lily me olhando com mágoa.


Lily partindo.




E eu? Eu segui adiante como uma sombra do que fora. Mergulhei nas Artes das Trevas, buscando um poder que me fizesse ser visto, notado, temido. E quando percebi o erro, já era tarde demais. Eu a tinha perdido para sempre.




Aquele dia... aquele maldito dia da profecia. Eu me lembro da minha voz, bêbada de arrogância, sussurrando palavras que selariam o destino dela. Quando compreendi o que fizera, senti meu coração se partir. Fui até Dumbledore como um homem quebrado. Implorei. Supliquei. E, em troca… tornei-me cão de dois senhores.




Sim, fui espião.




Sim, fui cruel.




Sim, fui arrogante.




Mas tudo isso… tudo isso foi por ela.




Não para trazê-la de volta — isso eu sabia ser impossível —, mas para honrar o que restava: seu filho. Seu sangue. Sua esperança.






---




Agora, enquanto a morte sussurra meu nome, percebo o quanto me escondi atrás da máscara. O quanto me tornei prisioneiro do meu próprio ódio. Fui duro com Potter porque ele me lembrava James, mas também porque eu temia vê-lo morrer. Eu o preparei do único jeito que sabia. Com rigidez. Com frieza. Com vigilância.




Mas agora… agora ele me olha com olhos de verdade. E eu gostaria de pedir desculpas. De dizer que fui injusto. Que desejei protegê-lo desde o primeiro momento, mesmo quando não conseguia demonstrar isso.




Mas as palavras não vêm. Só o silêncio.




Sinto minhas forças falharem. O mundo perde cor. O som se afasta. A dor cede espaço a um vazio absoluto. Ainda assim, minha mente não se cala.




Imagino uma vida diferente.




Uma onde eu a segurei pelo braço e pedi perdão. Uma onde Lily me perdoou. Onde não houve guerra. Onde ensinei poções para crianças felizes, e ela aparecia às vezes com o filho pela mão, dizendo: “Este é Harry. Ele adora você.”




Mas essa vida nunca existiu. E nunca existirá.




O que existiu foi luta. Arrependimento. E amor — um amor que nunca morreu.






---




Estou caindo. Caindo para dentro de mim mesmo. E, no último instante, algo muda.




Há luz.




Há perfume.




Há calor.




E uma voz. A voz que me salvou, mesmo depois de me destruir.




“Severo.”




Meu nome. Dito como se nunca tivesse sido uma maldição.




Lily.




Ela está aqui. Não como memória, não como sombra. Mas como promessa. Como perdão.




Meus olhos se fecham.




E eu, Severus Snape, o homem das sombras, encontro paz.



Notas finais
Espero que tenham gostado ^-^
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!