O Ultimo Telefonema
1 Capítulo 1- o fim
Sentou-se num rochedo e como uma criança curiosa fitou as ondas desfazerem-se enquanto tocavam na fina areia branca. A praia estava vazia, apenas alguém como ela se atreveria a percorre-la em pleno mês de Fevereiro ventoso. Não que fizesse frio, mas não era costume, e como tudo o que não é usual, causa burburinho, conversas, maldizeres. E apesar de continuar ali sentada, podia jurar, que algures, no café da vila, alguém comentava mais uma loucura da estrangeira, mas naquele momento nada mais importava, nada mais fazia sentido.
Olhou de novo envolta, numa esperança remota de que alguém a avisasse que era mentira, pelo contrario apenas ouvias as gaivotas grasnarem ao longe em busca de comida, e então percebeu, apesar de tudo adorava estar ali, era o local perfeito para um fim, aquela era a praia que mais lhe lembrava a sua infância. A infância que perdera aos nove anos quando a sua progenitora se foi, vitima de cancro, e com ela fora também todos os seus sonhos de menina.
Naquela altura não houve tempo para chorar, tinha um irmão pequeno para cuidar e um pai destroçado com a morte do amor da sua vida. Quem poderia cuidar deles se não ela?
Contudo falhara, sim falhara, talvez se tivesse abdicado ainda mais de si, se não tivesse mudado de cidade, talvez o irmão nunca tivesse pegado naquela mota às três horas da manha e não tivesse escrito o seu próprio desfecho com sangue.
Mas voltara a errar, convencida de que a dor ia acabar por ir embora, ou pelo menos camuflar-se, ela voltou a abandonar o pai aos cuidados da velha Gertrudes, a tia solteirona afastada. E hoje, percebera novamente mais um erro seu. O telefonema que lhe confirmara o que já sabia que era impossível de evitar mas que tinha esperança de ser mentira. O ultimo telefonema.
E agora, lá estava ela, sentada no rochedo, mas não por muito tempo, já não havia mais obrigações para viver, ou mais perdas para suportar. Descalçou-se calmamente, como quem diz adeus ao mundo, e entrou no mar gelado e revolto. Por fim desapareceu, traçando ela própria o seu destino final.
Fale com o autor