O Ultimo Dragão Negro
3 Capítulo 3 - All Men Must Die
Dois leves baques empurraram seu escudo para trás e forçaram seu braço. Rolbo estava de joelhos no misto de grama e lama que havia se tornado o acampamento. Um pouco mais ao fundo ouvia Sor Estace gritar:
– Vamos seus bastardos imundos. Aos cavalos! Aos cavalos!
"Aos Cavalos?" Pensou confuso. Os arqueiros ainda estavam disparando, não poderiam avançar contra as fileiras inimigas enquanto a batalha ainda estava em fase de escaramuça.
Entendeu a situação quando Cale apareceu ofegante e com sua espada bastarda em uma das mãos.
– Levanta Rolbo, porra! Osgrey ordenou a retirada. Precisamos atravessar o Vago antes desses pombos miseráveis nós alcançarem.
– ... são falcões... — Disse Rolbo pasmo.
– Estou a um ponto de te matar eu mesmo. Vamos!
As flechas caiam escassas, os arqueiros Osgrey recuavam e corriam em direção ao oeste, onde o Vago deveria estar. Ao fundo os cascos furiosos da cavalaria Arryn já podiam ser ouvidos.
– Merda, merda! Vincent! — Berrou Cale.
O garoto que esperava com os cavalos enquanto os flancos do Leão Quadriculado se desmanchavam e corriam a sua volta olhou para frente compenetrado, retesou o arco e uma flecha silvou pelos troncos da Mataderrei.
Um pouco mais atrás, um dos primeiros cavaleiros Arryn a alcançar o acampamento caia com uma flecha entre a viseira.
– Bom trabalho garoto! — Gritou Cale. — Traga os cavalos Vincent! Rolbo, a espada!
Rolbo desembainhou sua espada longa a tempo de bloquear um ataque vindo de cima. O cavaleiro atacante deu meia volta e se preparou para a segunda investida. Ele não aguentaria muito tempo naquele ritmo, mais homens Arryn estavam chegando, não podia ficar empacado em um só. Precisava jogar sujo como todo bom Clegane fazia.
Rolbo Clegane se abaixou a tempo da espada do oponente passar raspando por seu elmo pesado e com a espada longa desferiu um golpe rápido e forte contra as patas do cavalo. Sangue e cartilagens cobriram sua viseira enquanto um misto de berros e tufos de grama se levantavam em suas costas quando o cavalo desesperado esmagava o cavaleiro.
Um pouco mais a frente a espada de Cale trespassava suavemente a abertura entre o braço e o peitoral de um soldado alto, com a elegância que só um Lannister de Lannisporto conseguia ter.
Sua visão estava limitada pelo sangue em sua viseira. Ouvia gritos distantes de Osgrey coordenando a retirada estratégica do seu exército. Percebeu que estava quase cego e sozinho no campo de batalha.
Arrancou o elmo com uma das mãos. Um soldado da casa Royce corria furiosamente com uma espada curta em sua direção. Precisava ser rápido e cruel. Segurou a espada longa com as duas mãos e bloqueou o ataque do inimigo com um ataque ainda mais forte. A espada do adversário voou por metros acompanhada com a ponta de quatro dedos. Rolbo rodou no próprio eixo elegantemente mutilando com um misto de suavidade e selvageria a cabeça do Royce.
A espada pendeu por um momento em suas mãos. Podia ver cinco cavaleiros se aproximando. Não daria conta daquilo. Foi então que sentiu a mão pesada de Cale no seu ombro.
Ele estava sem elmo e um corte leve marcava seu rosto da bochecha direita até o olho esquerdo. Sua feição estava empapada de sangue.
– Vamos Rolbo! — Disse enquanto montava em seu palafrém. Vincent estava em seu cavalo logo ao lado.
Rolbo hesitou por alguns instantes e montou em seu cavalo de guerra. Em segundos as arvores da Mataderrei passavam rapidamente por eles, como um borrão.
– Vincent! — Gritou Cale por cima do barulho dos cascos. — Ganhe tempo!
O garoto obediente agarrou o arco e se virou na própria cela. A flecha não acertou o alvo por poucos metros, mas assustou a cavalo a ponto de derrubar o cavaleiro e atrasar os demais que vinham atrás.
– Esse é meu garoto! Esse é meu garoto! — Uivou Cale de satisfação. Quando menos esperou os três cavaleiros andantes estavam gritando de sastifação no ardor da batalha enquanto Mataderrei ficava para trás.
Passaram direto pela Estrada das Rosas. As ordens de Eustace eram estritas: Evitar estradas, atravessar o Vago próximo a Mesalonga.
Os cavalos arfavam; já conseguia ver o castelo a distancia e as águas do Vago passavam suavemente a sua frente. Rolbo sentiu seu corpo gelar. Seu braço era uma enorme mancha de sangue. A luta com o maldito soldado Royce não havia saído impune. Rolbo era grande e forte; mas selvageria e auto preservação não costumavam andar juntas.
Arqueiros a cavalo dos Arryn se aproximavam pela retaguarda. Do outro lado do Vago os arqueiros Osgrey disparavam uma saraivada de flechas para atrasa-los, sem muito sucesso. Eram muitos inimigos e a distancia era muito grande. Se eles resolvessem segui-los pelo Vago estariam perdidos.
O primeiro a alcançar a água foi Cale, respingos voaram ao seu redor quando o peso do cavalo entrou em contato com o leito frio do rio. Vincent entrou logo atrás, o arco totalmente esquecido em suas mãos e a aljava de flechas pendendo como um peso morto em suas costas. Rolbo olhou para própria bainha. A espada longa havia sumido, devia ter deixado a cair em Mataderrei quando montou no cavalo.
Atingiu a água suavemente. O rio estava mais fundo do que esperava. O cavalo de guerra lutava para nadar em alguns trechos, com a armadura pesada o empurrando para baixo.
– Vamos garoto! Vamos! — Disse Rolbo dando tapas gentis na crina do cavalo. Ele ouviu um "glup" isolado ao seu lado. E logo depois mais deles a sua volta. Flechas! Os arqueiros estavam disparando contra ele da margem do rio.
O cavalo berrou quando uma flecha atingiu o começo de sua coxa. Logo depois foi a vez de Rolbo gritar quando teve o ombro ferido.
Sentiu o sangue quente escorrer por dentro de sua armadura. O cavalo estava afundando em meio ao peso e a dor. Do outro lado do rio Cale e Vincent chegavam a margem e davam um olhar desesperado ao amigo. Cale gritou algo. Ele não podia ouvir. Não podia ouvir nada a não ser a água entrando no elmo, pela armadura, em cada fresta possível. Gelando o aço e a alma. Sufocando.
Deu um ultimo vislumbre para o local onde os amigos deveriam estar.
Estavam rodeados de cavaleiros negros.
Seus elmos tinham um formato estranho entalhado em seu topo. Animais?
Animais... Dragões? Pensou enquanto a água entrava em sua viseira e a sua consciência esmaecia. Dragões negros?
Sua cabeça latejava.
– Não se mecha seu bastardo. — Disse uma voz familiar.
Abriu os olhos.
Cale o fitava com seu tradicional sorriso frio.
– Quase perdemos você. Sorte que Sor Eustace alcançou os Blackfyre e pediu reforço enquanto ainda corríamos.
Rolbo assentiu com a cabeça. Seu braço doía, mas já havia lutado com dores piores. Sua armadura repousava sobre a mesa e uma espada longa nova o aguardava junto aos seus pés.
– Presente de Daemon. Ele ficou impressionado por ver Clegane's e Lannister's se juntando a sua causa. Ele acha que isso pode ajudar quando a batalha estiver ganha. Sabe... Mostrar que eles não são os vilões da história ou coisa do tipo. — Disse Cale enquanto entornava um odre. — Vinho?
– Não, obrigado. — O costume do velho amigo de nunca estar sóbrio, até mesmo em vésperas de batalhas irritava Rolbo. — Onde estamos?
Vincent que até aquele momento havia permanecido em silencio na entrada da tenda disse com uma voz trêmula.
– Sor... Você vai querer ver isso...
Cale se levantou relutante. Botou a cota de malha e andou com passos curtos até a porta da tenda.
O sol atingiu seus olhos como uma flecha. Cobriu os com as mãos até a visão se acostumar a claridade. A sua frente uma visão assustadora se erguia.
Centenas, milhares e milhares de cavaleiros, negros e com flores, sulistas e nortenhos se estendiam pela Campina. Correu os olhos por cada homem e escudeiro que encontrava. Havia homens de todos Sete Reinos lá, todos reunidos embaixo do Dragão Negro dos Blackfyre, todos armados. Seus olhos passaram até o começo das fileiras e além delas. Onde seu rosto se empalideceu.
O mesmo numero estrondoso de homens se reunia embaixo do estandarte dos Dragões Vermelhos Targaryen. Sua boca estava escancarada, seu rosto pálido como leite. Em toda sua vida não havia visto um contingente daquele tamanho.
Ao seu lado Eustace Osgrey apareceu calmamente.
– Vai ser um baita festim, não acha? — Perguntou melancólico. Rolbo conseguia ouvir a ansiosidade e o medo em sua voz. — Fireball esta morto. Ele cruzou o Mander e matou todos os filhos da Senhora Penrose deixando só o mais novo vivo, ele o poupou para agradar a senhora. Um cavaleiro de verdade. — Sua voz soava triste.
– Como ele morreu?
– Um arqueiro qualquer o matou enquanto dava de beber ao seu cavalo.
Então era assim que bons homens morriam? Se perguntou. Um silencio pesado preponderou por alguns segundos até Rolbo voltar a falar:
– Vale a pena?
– Vale a pena o que?
– Lutar por isso? Dever e honra. Vale a pena lutar por isso e correr o risco de terminar assim?
Eustace Osgrey olhou de relance para os filhos que afiavam as espadas um pouco mais abaixo no capim. Olhou para as fileiras inimigas e aliadas e os milhares de homens que lá residiam. E por final olhou para Rolbo.
– Todos homens devem morrer rapaz. — Deu um sorriso triste e prosseguiu. -Vale a pena lutar por isso. Vale a pena matar por isso.
A expressão de Rolbo ficou obscura, e então Osgrey completou:
– Vale a pena morrer por isso...
Todos homens devem morrer...
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