O Trono de Gelo e Fogo
15 Prova de Lealdade
Notas iniciais

Mya havia deixando Arya desacordada no quarto, a noite estava muito fria e ela se cobriu no grosso casaco de couro marrom forrado de peles. O calor do vinho e dos momentos que havia passado com a Stark mais nova a mantinham aquecida por dentro.
Que tipo de pessoa eu sou? O pensamento era uma constante na vida da garota alta de cabelos negros.
— Aaah! — Mya se assustou ao topar com Sansa no escuro do corredor que dava para os seus aposentos. — Sansa... você, você quase me matou. — Stone percebeu a frieza nos olhos azuis que estranhamente brilhavam no escuro.
— Venha comigo — dizendo isso Sansa fez sinal para que Mya a seguisse e não olhou mais para trás.
Os corredores do Ninho estavam mal iluminados, onde está o Cão? Não deve estar muito longe. O pensamento fez a bastarda olhar em volta na escuridão sem sucesso.
— Onde estamos indo? Bebi demais e estou vendo duas de você.
Sansa não respondeu nem sequer olhou para trás.
Estamos indo para a torre do velho Colemon. O coração de Mya bateu tão alto que ela colocou as mãos nos ouvidos e deixou o odre de vinho cair no chão.
— Silêncio — após um longo período calada finalmente Sansa falou do meio da escada.
— Como? Como você subiu tão rápido? — Mya estava assustada com alguma coisa.
A escadaria da torre estava iluminada apenas pela luz tênue da noite que entrava pelas estreitas janelas. Eu estou bêbada é normal ela andar mais depressa que eu. Pensar assim fez Stone recobrar a coragem e subir a escada em espiral aos tropeços.
— O que viermos fazer aqui? — percebeu que o lugar estava limpo apesar de Colemon não está mais usando os aposentos.
— Eu faço as perguntas aqui Mya.
O belo rosto da Stark parecia esculpido na rocha cinzenta e fria, e eu pensando que o inverno era frio. Vários pensamentos deste tipo vinham a mente, com a chegada de Arya e do cavaleiro negro, sua lady parecia estar mais cautelosa, como uma serpente pronta para dar um bote em alguém. Espero que não seja em mim.
O ranger das velhas dobradiças da porta a fizeram suspirar alto com a boca entreaberta tamanho o pavor que Stone sentiu ao ver que Sansa a encarava com o dedo indicador na frente dos lábios.
Por que ela estava com medo não sabia explicar, Sansa a conduziu para dentro do cômodo, Stone deu alguns passos para frente olhando para a grande janela de onde o Meistre Colemon foi lançado para o abismo uma luz azulada iluminava o chão de pedra cinza e as laterais estavam um breu horrendo. Foi aí que Mya viu algo mais horrível ainda, dentro das Sombras Clegane estava imóvel dentro de sua capa negra e só era possível visualizar com clareza as partes brancas de seus olhos.
— A minha irmãzinha está dormindo?
Stone se virou para visualizar a face de Lady Sansa.
— Está — voltou a olhar em direção a janela. — O que ele está fazendo aqui?
Sansa passou andando por detrás de uma grande estante que segurava vários potes de vidro com animais mortos dentro deles e havia também alguns frascos com remédios espalhados por todas as prateleiras.
— Cuidando da nossa segurança — ela parou no meio da janela.
A luz azulada da noite que entrava pela grande janela banhava seu vestido desenhando bem sua silhueta corporal e seu cabelo acobreado parecia um pesado véu caído sobre os ombros.
— Nestor Royce quer me ver para perguntar do meistre. — Sansa abaixou um pouco o rosto e uma sombra caiu sobre seu semblante deixando seus olhos com uma luz fantasmagórica. — E é você que irá guiá-lo na subida pela Lança do Gigante.
— Isso eu entendo, mas o porquê desta conversa está acontecendo é confuso para mim. — Mya não tirava os olhos de Sandor que não se mexia dentro das sombras.
Um vento gélido entrou pela grande janela e fez o vestido de Sansa chicotear no ar.
— Essa conversa não pode acontecer — disse a voz máscula do Cão de Caça.
Mya ouviu o barulho de aço roçando em couro. Não, não é só minha imaginação alucinada de vinho quente. Passou a mão no rosto em uma tentativa de se despertar daquele sonho.
— Vocês querem que eu mate o Lorde Royce?
— Escolha bem as palavras minha criança — os olhos azuis da Stark ficaram impacientes.
A grande sombra de Sandor Clegane saiu de escuridão.
— Deves testemunhar um acidente na escadaria entre o Castelo Neve e o Castelo Céu. No início do afunilamento os degraus estão rachados...
— Eu sei, já pedi mais de dez vezes que fizessem reparos.
Sandor olhou com cenho franzido para Stone em sinal de advertência.
— Ele deve cair do penhasco junto com a mula exatamente naquele ponto e os degraus devem ser quebrados como álibi.
Não acredito que você pensou tudo isso. Você é tão doce que posso sentir seu gosto nos meus lábios. Os pensamentos de Mya lhe tiravam a razão. Mas agora trama assassinatos e ataca pessoas enfiando-lhes um punhal pelas costas. A garota balançou a cabeça para afastar os maus pensamentos.
— Mya... — Sansa se aproximou. — Preciso que me ajude a fugir daqui —, tocou-lhe no rosto.
— Mas assassinato é perigoso, eu posso ser descoberta e enforcada — colocou a mão sobre as mãos de Sansa.
Sansa se afastou com uma expressão decepcionada, andou para perto de Clagane e começou a chorar bem baixinho no peito do cavaleiro.
— Sansa... eu...
— Você me disse uma vez que faria de tudo para fugir comigo daqui. — Escondeu o rosto entre as mãos novamente.
Eu disse isso a ela quando o lorde lhe deu a notícia do noivado, eu me lembro dessa idiotice. A verdade era que Mya não sabia o que realmente estava acontecendo ali.
— Eu só quis protegê-las do meistre que estava ensandecido — soluçou. — Lorde Nestor não entendera isso e me manterá prisioneira até que Petyr retorne e me castigue mais que já fez com seus abusos.
Pelos deuses, tenho que ajudá-la. Mya lembrou que foi o velho meistre quem atacou ela e Myrcalla, Sansa me salvou, devo minha vida a ela.
— Ninguém pode saber desta conversa garota das mulas —, o dedo de Clegane estava apontado em riste para o meio dos olhos de Mya Stone.
Um raio cortou o céu bem no meio da janela e por um instante toda sala ficou iluminada, Mya se assustou e arfou colocando as mãos em frente dos seios.
— Não existe outra maneira? Sansa por que está maquinando todos esses planos loucos? — exasperou-se e puxou os próprios cabelos.
Sansa esbofeteou Mya na face.
— Mya... como ousa pensar isso? — afagou a própria mão —, falei que Sandor está aqui para zelar da minha segurança, isso implica em tudo que me cerca.
Então é ele que está prevendo tudo isso? Mya se recompôs, cruzou os braços andou de um lado para o outro e depois falou:
— Desculpe-me Lady Sansa — reparou os duros olhos azuis a olhando.
— Aquele maldito pediu para ser escoltado até aqui quando amanhecer, ele pretende descobrir quem despachou o velho sei-lá-quem para os Sete Infernos. — A sombra de Sandor cobriu Mya quando ele se aproximou dela. — Mas adivinha só garota das mulas, esse porco não vai colocar as mãos na Senhora Stark aqui — olhou para Sansa —, ou você faz ele dá um mergulho suave ou eu abro as tripas dele e de quem mais ameaçar a Minha Lady. — Sacudiu Mya para frente e para trás impaciente com o silêncio.
— Você está me machucando... — gruiu de dor.
— Sandor por favor solte-a — Sansa interveio colocando a mão no braço do cavaleiro.
Mya arrumou o casaco e passou as mãos onde Sandor havia apertado, por que tudo está tão diferente agora? Essa não é a minha Sansa.
— Mya, querida deixe-me ver seu braço, ele te machucou? — Sansa estava com uma feição risonha.
Não, não ela... ela não é má nem poderia ferir alguém sem motivo.
— Está tudo bem Sansa... eu só queria saber os motivos. Agora que sei, não vou deixar que acontece nada contra ti. — Mya colocou as mãos nos ombros da Stark —, você sabe o que está me pedindo? Eu fui criada sob a proteção dele. — A abraçou aninhando sua cabeça em seu pescoço — mas eu a amo...E faria tudo para tê-la a salvo.
— Minha Senhora — a voz metálica do Cão interrompeu. — Temos que ir!
Sansa se livrou dos braços de Mya com gentileza e seguiu Sandor até a porta, ao chegar ela olhou para trás e disse:
— Está comigo?
Mya ficou parada na escuridão sem falar nada, como ela é amável, não consigo ver mal algum nela. Sua nuca se arrepiou com o pensamento, como posso ser tão cega assim?
— Sim, estou.
Sansa correu até Mya e a abraçou mais uma vez, ela o fez com ternura e suavidade, em seguida elas ficaram se olhando com a fronte encostadas uma na outra.
— Eu sabia que me ajudaria — sussurrou a voz rouca da Stark.
Que cheiro delicioso.
— É claro Sansa — sussurrou Stone. — Faço tudo por você.
— Quero tê-la sempre ao meu lado — Sansa a beijou suavemente nos lábios.
Não acredito que isso esteja acontecendo...
— Sansa, vamos sair logo daqui — disse Sandor olhando para a escadaria com um archote levantado acima da cabeça.
Sansa sorriu para Mya e foi se afastando lentamente até que os dedos das mãos se largaram e ela se virou para sair com seu cavaleiro noite a dentro.
Mya ficou sozinha dentro do quarto de Colemon por um bom tempo, ela queria pensar sobre o pedido do Cão para assassinar Nestor Royce, mas seus pensamentos estavam turvados e ela só pensava em Sansa e seu sorriso cálido.
Ao sair e descer muito lentamente a escada de pedra em espiral, Mya chutou o odre que havia deixado cair enquanto se esforçava para alcançar Sansa. Graças aos ferrados deuses, tomou um gole enquanto olhava para o vazio e balançava a cabeça negativamente. Eu me lembro de ter ouvido Nestor mencionar a suspeita de que o meistre estava sendo pressionado por Sansa... e o que mais mesmo? Parecia que o vinho estava fazendo a cabeça de Stone funcionar melhor. Se ele descobrir que a pressão foi tanta que jogou o rabugento Colemon pelo penhasco abaixo, realmente ele vai querer ferrar com a Sansa. Pensando e andando pelos corredores do castelo Mya chegou até o quarto de Myrcalla e Iris Redfort:
— Abram a porta suas lacaias!
Após alguns instantes Myrcalla apareceu trajando apenas uma camisola branca de ráfia.
— Psiu! — A garota de Asshai tinha o dedo indicador na frente dos lábios. — Não faça tanto escândalo, já é tarde. Por onde andou?
— Ora, saia da frente preciso dormir um pouco antes de retomar a vida de subidas e decidas. — Mya empurrou Myrcalla com o ombro e entrou no quarto.
Iris estava dormindo em uma cama bem no meio do cômodo e a cama onde Myrcalla dormia era mais próxima da parede.
— Que canseira a noite foi de matar — se jogou na cama.
— Fique à vontade — Myrcalla subiu na cama também e tentou se acomodar nas cobertas. — Me diga uma coisa, é verdade que o pai do Albar virá aqui amanhã para saber do meistre?
Mya olhou para a outra garota com os olhos meio vacilantes e balançou a cabeça em sinal positivo.
— Lady Sansa falou algo com você?
— Sobre o quê? — se apoiou nos cotovelos. — Essa garota estava no dia do acontecido mais até onde ela sabe sobre as intenções de Sansa em matar Lorde Royce antes dele ter a oportunidade de conversar com ela?
— A senhora me pediu para não sair dos meus aposentos amanhã. Disse que em conversas de nobres a muitas palavras que confundem a nossa mente.
Principalmente as que ela parece estar usando ultimamente.
O quarto estava fracamente iluminado por 4 braseiros além de iluminar aqueciam um pouco o ambiente.
— Sansa me pediu que tomasse cuidado ao subir a Lança do Gigante amanhã. Parece que tem a ver com um mal presságio. Mal para o pobre Nestor... — Pensou Mya enquanto afofava o travesseiro de penas de ganso. — Vocês dormem como verdadeiras rainhas aqui.
— Mya, eu estou com medo — colocou uma das mãos sobre o ombro da bastarda.
Stone se virou para fitar a garota de pele morena nos olhos amendoados.
— Ei bruxinha, tudo vai dar certo. O velho meistre procurou pela ponta daquela adaga. — Mya pensou no que Sansa disse —, ela fez aquilo para nos proteger.
— Verdade.
— Sim, claro que é verdade — se virou para o outro lado novamente. — Agora vê se me deixa dormir um pouco.
— Eu fiz um amuleto da sorte para Lady Sansa e escondi debaixo de seu travesseiro é magia de Asshai.
Mais que merda é essa de magia? O pensamento trouxe um calafrio na espinha dorsal de Mya.
— Pare com essas brincadeiras Myrca, se alguém escuta você falando em magia de Asshai, magos que soltam fogos e demônios da noite você será entregue a algum septão que além de te espancar vai abusar e te lançar em uma fogueira.
— Está bem, não se irrita comigo. Lady Sansa anda tendo sonhos mágicos e...
Mya interrompeu Myrcalla abruptamente quando se virou na cama.
— Sonhos são só sonhos, não existe nada de mágico em sonhar. Por que você não me deixa sonhar com o pau do Sandor fortão Clegane!
— Tudo bem Mya vai dormir em paz, boa noite.
— Boa noite...
Um corredor estreito e mal iluminado estava a sua frente, não se ouvi nada a não ser sua própria respiração no fim do corredor havia uma figura parada envolta em uma capa cinza com manchas de sangue na altura dos ombros e nas bordas. Onde estou? Quer porra de lugar e esse? Mya avançou alguns passos, quem é você? Não houve resposta. Estou sonhando é isso. Um barulho de trombeta soou tão alto que Stone teve que proteger os ouvidos. O Norte se lembra! Mya caiu de joelhos no chão enquanto gritava aquela voz quase destruiu seus tímpanos, as trombetas voltaram a soar. Vingança! Vingança! O Norte se lembra! Stone gritou desesperadamente para que o aquele barulho parasse imediatamente, mas alguma coisa fez seu corpo cair e ficar esticado no chão. Passos ou são tambores? Tambores de guerra... uma gritaria de homens e o clamor de aço contra aço chegou como uma tempestade, o corpo de Mya estava dormente preso ao chão gelado como a morte. Winterfell! Bradou um cavaleiro vestido em uma armadura negra com um estandarte metade vermelho metade branco e várias sombras o seguiram. Mya sentiu um calor súbito e resolveu olhar para ver o que era, quando se virou estava sentada na neve e olhava para uma grande construção. Que lugar é esse? Não se parece com o Ninho da Águia. Então sentiu muito frio e cruzou os braços para se proteger. Quem é o senhor Sor? Ela falava com o homem parado a sua frente que não possuía face, ele segurava uma espada com um dragão entalhado na guarda mão e seus chifres protegiam as suas mãos, a espada estava apontada para baixo e de sua lâmina saía um brilho branco azulado. Um rosnado tomou conta do ar, Não! Não, por favor senhor! Mya colocou as mãos para se proteger do lobo gigante que avançou de detrás do homem para atacá-la.
— NÃAAO! — Acordou com o próprio grito e arfando.
— O que foi garota idiota? — Iris Redfort tinha um sorriso sínico no rosto sardento.
— Nada, só um pesadelo — Mya ficou desconcertada com a situação. — Um pesadelo com um lobo de olhos vermelhos...
— Aí que desagradável, preciso ir ajudar a Myrcalla a essa hora aquela mula está tentando equilibrar todo o desjejum de Lady Sansa na cabeça. — Riu alto e saiu andando aos saltinhos.
É, foi muito desagradável mesmo. Ela percebeu que ainda era muito cedo e se deitou novamente na cama de Myrcalla. Que sonho horrível.
Mya ainda conseguiu dormir por meia hora em seguida acordou e calçou suas longas botas de montaria, jogou água fria no rosto e desceu até as cozinhas para procurar alguma coisa para enganar o estômago. Já está quase na hora de descer, vou preparar a Branquinha... oh não! Stone se lembrou que sua melhor mula era a Branquinha e que ela não voltaria hoje da subida pela Lança do Gigante isso por que Nestor Royce desconfiaria se ela não usasse a sua melhor mula. Sacrifícios a Rainha do Norte. Mya engoliu em seco o pedaço de pão com presunto que estava mastigando enquanto divagava sobre como seria quando chegasse a hora de agir.
Saiu para os estábulos do Ninho da Águia com passos vagarosos, hesitantes como se estivesse caminhando ela mesma para a forca. Passou por Calays um jovem com sérios problemas de acne no rosto que recentemente havia sido aceito como um dos escudeiros de Sor Morton. Calays sempre oferecia pão e queijo a Mya quando esta passava no Castelo Céu, ou no Neve ele prestava serviço em ambos. Estranhamente ele tem ficado muito aqui em cima no Ninho, será que está espionando para os Royce? Stone apertou os arreios da sela da mula e alisou o pelo acinzentado do animal.
— O que você me diria se pudesse falar? — encostou a sua fronte na cabeça da mula. — Vamos — seguiu puxando as rédeas para que a Branquinha a seguisse.
O ar está frio e o vento chicoteia, isso é bom. Mya olhava para o céu, continuou seguindo rumo ao portão da amurada interna, dois guardas usando grossas capas e roupas acolchoadas se aqueciam em um braseiro, ela acenou com uma das mãos para eles e sorriu docilmente quando ouviu seu nome na conhecida voz de Sansa Stark:
— Mya, tome cuidado, pois os ventos estão muito fortes e a neve cai serôdia...
Ela realmente está decidida a tudo para fugir daqui, pensou Stone enquanto arrumava seu cabelo e olhava para os frios olhos azuis de Sansa. O que ela me faria se eu não matasse Lorde Royce? Mya engoliu em seco quando seus olhos encontraram o abismo negro que eram os olhos de Sandor Clegane.
— Não se preocupe Senhora Sansa, já fiz isso milhares de vezes. — Mya percebeu que a Stark olhou para o Cão de Caça com um leve sorriso no rosto.
Sansa saiu do campo de visão de Mya, ela entendeu que deveria prosseguir com a longa descida.
— Vamos Branquinha.
Naquela altitude Mya sabia que era perigoso montar sem ninguém para guiar a mula pelas rédeas, ela começou a descer com muito cuidado a neve caía fina e ligeira, Stone cobriu o rosto com um grosso lenço que lhe tapava toda a cabeça deixando apenas os olhos de fora. O lenço de pura lã cinza foi um presente de Lysa Arryn, Sansa o havia achado lindo e aconchegante quando chegou no Ninho da Águia e Mya emprestou por um longo tempo o lenço a sua senhora. Ainda está impregnado com seu cheiro. Pensou enquanto passava entre a faceta das rochas com finas farpas de gelo se formando nelas na direção que o vento soprava, devido à baixa visualização por causa da quantidade de neve Mya ainda não conseguia ver Céu. A decida demorou mais que o programado, mas ela cruzou o gargalo e montou a mula para continuar com maior velocidade. Dali em diante foi rápido, Mya desceu da mula apenas no funil onde as pedras dos degraus estavam rachadas e cobertas por uma fina camada de gelo, ela pisou forte nas rachaduras com o salto da bota e viu que pequenas pedras se soltaram para o abismo, seu coração se acelerou, mas ela continuou até chegar no Portão da Lua no estabulo Mya encontrou com um conhecido:
— Ei Mychel, o que está fazendo aqui?
— Olá docinho — sorriu com covinhas nas bochechas rosadas. — Mal cheguei e já foi agraciado pelos Sete —, ele passou um dos braços pela fina cintura de Stone.
— Não é para tanto assim, garoto. — Mya o empurrou com gentileza.
Alguns homens limpavam a sujeira de uma baia e sorriram baixinho por que Mya chamou o cavaleiro de garoto.
— Cuidado Mya, sou um cavaleiro agora — sorriu passando a mão no queixo.
Mya bateu o pé no chão várias vezes e ficou com os braços cruzados.
— Não respondeu minha pergunta Sor — Mya falou em tom sério. — O que está fazendo aqui no Portão?
— Lorde Royce me convocou, parece que há um intruso no Ninho... — ele girou os olhos como se quisesse zombar dela.
— Oras... pare de tolices e me deixe passar. Se não sabe a pessoa que chegou é irmã de Lady Sansa. — Mya achou melhor não mencionar Sandor Clegane.
Mychel a agarrou pelo cotovelo.
— É mesmo, e ela é tão apaixonada por mim quanto você? — Ele tentou aproximar o rosto, mas Mya o deteve com a palma das mãos em sua face.
— Pare Mychel, o Senhor Nestor me aguarda para levá-lo montanha á cima. — Ela avançou e passou pelo cavaleiro que se encostou em uma porteira.
Quando Mya passou Mychel deu-lhe um tapa na bunda.
— Adoro quando você vem me encontrar, mas gosto ainda mais de ver você partindo. — Deu uma longa olhada para os quadris da garota alta de cabelos curtos.
Stone fez uma careta e mostrou o maior dedo de sua mão para o jovem cavaleiro, e saiu dos estábulos para o pátio que atravessou a passos largos até chegar ao Salão Comum daquela fortaleza do Vale de Arryn. Nestor Royce estava fazendo seu desjejum quando a viu, fez sinal com a mão para que ela se aproximasse.
— Diga-me Mya acha seguro subirmos com esses ventos?
A garota pegou um pedaço de queijo com a mão, será que ele desconfia? Começou a mastigar o queijo rosa.
— É claro que é, eu subiria essas escadas com os olhos vendados — arregalou os grandes olhos azuis. — Você vai subir de olhos abertos e descer de olhos bem fechados. — Ao pensar assim Mya deu um sorriso e imaginou o rosto de Sansa lhe dando adeus da amurada. — Meu sorriso foi tão frio quanto o dela, estou me perdendo nesse jogo de lobos.
— Queria que Albar viesse conosco — mastigou um pedaço de presunto.
A não isso não pode acontecer de jeito nenhum, o pensamento apavorou Mya.
— Eu posso buscá-lo depois que subir o senhor, afinal não confio em mais ninguém para levá-los pela Lança do Gigante nessas condições climáticas. — Se serviu de um gole de cerveja preta. — Preciso contornar essa situação aqui.
— Isso levaria o dia todo, não podemos esperar.
— Então iremos? — limpou a boca com as costas da mão — fodeu, se Albar for junto não conseguirei dar conta dos dois na escada e posso morrer na tentativa.
Nestor estava mastigando e fez sinal para Mya esperar que engolisse a comida, aqueles segundos consumiram a garota de ansiedade. Nestor estava sério e não olhava Mya nos olhos o que deu ainda mais medo a bastarda, parecia que o velho estava farejando algo no ar:
— Iremos então —, Nestor falou finalmente.
Pelos Sete, e agora como escaparei dessa?
— Vou selar mais duas mulas então — se levantou para sair da sala.
Nestor pigarreou alto com a mão na boca.
— Acho que me entendeu mal filha — ele se levantou da cadeira para acompanhá-la. — Só iremos nós dois. Albar ficará para manter a ordem no nosso castelo. O que Lady Sansa precisa ouvir eu mesmo direi, só o Intendente do Vale tem autoridade aqui e ela precisa entender isso. — Fechou o queixo em uma expressão retorcida.
— Sim senhor! — Mya assentiu com a cabeça. — Mal sabe ele sobre os planos de Sansa. — Foi para os estábulos selar outra mula na esperança que Nestor não fizesse questão de ir montado na Banquinha.
Depois de alguns minutos se encontrou com Lorde Royce no pátio de frente para a longa subida ela lhe ofereceu as rédeas da mula marrom e ele a pegou. Isso! Mya comemorou mentalmente.
— Vamos montar agora senhor, os rapazes do Castelo Pedra já jogaram sal para derreter a neve no caminho. Teremos que tomar mais cuidado na passagem entre o Castelo Neve e o Céu. — Mya montou a Branquinha e deu dois leves toques com os calcanhares na barriga da mula para que ela avançasse.
Nestor Royce vinha logo atrás, ele usava roupas acolchoadas por baixo do gibão de couro fervido que possuía a conhecida cor roxa e laranja da Casa Royce. Mya percebeu o esforço que ele fez para subir na mula, as roupas de Lorde Royce eram pesadas além do gibão e a camisa acolchoada ele usava uma pesada túnica e uma capa toda debruada com pele de animal.
— Mya vamos mais devagar, não estou vendo nada — gritou o velho de uma distância de seis metros abaixo.
O caminho entre o Portão da Lua e o Castelo Pedra estava bem limpo devido ao derretimento da neve sofrido pela ação do sal, mas a neve chicoteava furiosa mesmo naquela baixa altitude. Tomara que ele não desista de subir.
— Vamos continuar senhor Nestor, logo estaremos no abrigo do castelo. — Mya desceu de sua mula e a deixou parada no meio da escadaria e desceu para guiar a mula de Nestor caminho a cima. — Me dê as rédeas — estendeu a mão enluvada.
Mya começou a puxar a mula levemente até alcançarem o ponto onde a Branquinha estava parada, Stone começou a guiar as duas mulas pelo caminho. Meus pés estão dormentes e longa será essa subida até o funil. O pensamento impulsionou a garota bastarda da Casa Baratheon a continuar, Mya Stone não sabia o porquê, mas podia sentir que seu destino estava profundamente entrelaçado com Sansa e o Norte.
Após muito lutar contra a neve, frio e o vento forte Mya e Nestor chegaram ao Castelo Pedra.
— Ufá! Finalmente.
— Vamos tomar algo quente para nos aquecer e continuar a subir. — Nestor andou com dificuldade depois que desmontou.
— A sim, um bom vinho quente para repor as energias — a garota arfava por causa do esforço que fez e suas coxas estavam ardendo de dor.
Eles foram para dentro do castelo e foram servidos por um moço que trouxe pão e cerveja preta, e uma jarra de vinho com frutas dentro que estava bem quente.
— Acha melhor desistirmos? — Nestor olhava para dentro de seu copo.
Se eu disser que sim o que ele fará? Mya sabia que as vezes deveria dizer o que não queria para que as pessoas fizessem o que ela realmente desejava. Os homens não aguentam serem desafiados.
— Sim meu Lorde, melhor seriamos esperar um dia mais... — Mya sorriu com um ar de zombaria como Mindinho fazia todo tempo quando conversava com Nestor. — ... favorável. Agora coloquei fogo no circo —, sorriu internamente.
O homem coçou a cabeça e apertou as luvas nas mãos, em seguida soltou uma longa lufada de ar.
— Favorável tu o dissesse! — Se levantou — esperar por situações favoráveis é para mulheres e crianças, não senhorita Stone nós vamos subir até o Ninho.
— Como o senhor desejar meu Lorde, como desejar — Mya bebeu seu vinho quente. — Aprendi algumas coisas observando Sansa e Petyr em seus jogos de poder.
Após terminarem a refeição começaram a subida até Neve, o castelo ficava bem no meio da Lança do Gigante era o menor de todos, mas era possível ver no alto de sua torre as chamas que serviam de guia naquela nevasca.
O caminho era largo e cheio de árvores que flanqueavam e serviam como barreira contra o vento. Mya acelerou o passo e já estava de volta aos degraus de pedra que ficavam bem de frente a muralha de pedras soltas do Castelo Neve. Haviam poucos homens vigiando o muro, o frio deixa todos mais relaxados, mas eu sempre tenho que fazer a subida. Mya teve o pensamento quando passou pelo portão do castelo e entrou na segurança da torre, Nestor Royce não quis fazer parada em Neve, eles subiram as rampas da torre e continuaram rumo ao Castelo Céu e era nesse percurso que o acidente deveria acontecer.
— Aqui o vento está mais forte! — Mya gritou as palavras porque o uivo do vento era muito alto — é perigoso senhor...
Lorde Royce estava enrolado dentro de sua capa com a cabeça baixa, mas fez um aceno com uma das mãos.
— Continue! — Exclamou o nobre enquanto se cobria o rosto com um lenço de lã grossa.
Falta apenas alguns metros para a depressão da agulha. Mya desmontou da Branquinha a mula cinzenta e esperou por Nestor. A depressão em forma de agulha era a parte mais estreita do caminho, e havia abismo de ambos os lados, cair daquele trecho era se lançar ao abismo de quatrocentos e trinta metros de profundidade em queda livre.
— Aqui é muito perigosa a travessia Sor, irei guiar as mulas pelo caminho. — Dentro do casaco de couro Mya levava uma clava com pontas de aço na cabeça.
A mula que Nestor montava ameaçou empacar no início da depressão, ela sabe que vai morrer... Mya manteve a Branquinha na frente dando algumas tapinhas para que a mula andasse. Mya sentiu uma corda sobre seu ombro e:
— O que foi senhor?
— Amarre essa corda na outra mula, eu não quero escorregar daqui e não ter em que me agarrar.
Mya semicerrou os olhos azuis. Essa não, quando ele cair com a mula e tudo a Branquinha será arrastada com ele... para a morte.
— Mya? — Nestor Royce balançou a ponta da corda.
Contrariada Mya pegou a ponta da corda e amarrou no pito da sela de sua mula. Calma garota... vou pensar em algo, Stone percebeu que Nestor portava uma espada média na cintura e que ela não podia falhar, não haveria segunda chance.
— Vamos continuar o vento está muito forte Mya!
— Sim senhor! — Gritou a garota com as mãos em forma de cocha ao lado da boca.
Um falcão solitário passou bem perto deles gritando no céu, Lorde Royce se distraiu com a ave. Mya ia à frente levando a Branquinha pelas rédeas ela chutou o primeiro dos degraus quebrados e começou a contar mentalmente sem olhar para trás. Ela só poderia parar quando a mula de Nestor estivesse bem em cima das rachaduras, falta pouco...dezenove, vinte... o falcão passou novamente gritando e a mula de Nestor zurrou com medo.
— Mya! Me ajude Mya... — A voz do homem parecia exasperada.
Stone deixou a sua mula e começou a descer segurando na corda que unia as duas mulas o espaço não era tão grande e Mya logo chegou a Nestor:
— Calma senhor é só um falcão em sua caçada. — Mya começou a conduzir a mula degrau a cima.
Ela passou o primeiro e o segundo sem acontecer nada, mas de repente no terceiro degrau uma grande lasca de pedra se soltou e a mula abriu as patas traseira. É agora! A garota Baratheon puxou a clava de dentro do casaco e a segurou com as duas mãos a levantando acima da cabeça e acertou a pata esquerda da mula com tanta força que o osso apareceu na fratura exposta.
— Mya o que é isso? — Nestor tentou se equilibrar na sela e sacar a espada ao mesmo tempo.
Stone rugiu como um animal e bateu com o ombro na mula a empurrando para fora dos degraus, o animal despencou e seu cavaleiro largou a espada para se agarrar a corda que estava atada a sua cintura e ao outro equino que estava à frente.
— Por Lady Sansa! — A corda que estava entre Royce e a mula veio em direção a cintura de Mya Stone, mas ela foi rápida e se jogou sobre o chão deixando a corda passar a centímetros de seu corpo.
Em seguida Mya rolou mais uma vez quando ouviu o zurro da Branquinha que lutava para não cair do degrau acima. Mya se levantou rapidamente para tentar cortar a corda que mantinha Nestor Royce pendurado, mas era tarde demais a mula perdeu o equilíbrio e caiu com Lorde Royce para o abismo em meio a gritos de bastarda e outras maldições. Não havia tempo para choro Stone pegou a clava e deu uns golpes no degrau para danificá-lo ainda mais, apenas no oitavo golpe ela conseguiu quebrar a metade do degrau. Preciso voltar ao Ninho. Respirou fundo e continuou subindo até o Castelo Céu a pé.
Ao chegar no castelo ela não falou com ninguém apenas subiu pelas rampas e pediu a um dos rapazes que a içasse pelas correntes que levavam os mantimentos para as cozinhas do Ninho da Águia. Apesar do frio, Mya estava suando e seu cabelo curto estava molhado devido ela ter rolado na neve que estava acumulada nos degraus. Consegui, eu fiz o que Sansa me pediu. A garota ainda não havia se dado conta de que tinha cometido um assassinato.
Que satisfação é essa que está tomando conta do meu ser? Será tão importante para mim agradá-la? Será que nossas vidas estão tão ligadas assim? Tantas perguntas faziam o coração da garota acelerar de emoção. Juntos nossos pais derrubaram um império, agora construiremos o nosso... Stone tinha sonhos que não contava a ninguém nem a Lady Sansa, Mya sonhava com nobreza e coisas douradas com um palácio em cima da montanha e um grande rei guerreiro para lutar junto a ela as suas batalhas.
Ao terminar a subida Mya correu a procura de Sansa e uns servos lhe disseram que ela estava nos antigos aposentos de Lady Lysa, Stone se apressou a chegar lá para dizer as boas novas.
Abriu a porta dupla e entrou a passos largos pelo quarto.
— Está feito conforme me ordenaste.
Sansa estava deitada na cama, em pé ao seu lado estavam Sandor Clegane, Iris e Myrcalla.
— Mya... venha cá! — Havia algo mórbido na fala de Sansa. — O que aconteceu?
Mya entendeu na hora em que Sansa fez a pergunta que fora Sandor, Sansa e ela mais ninguém sabia sobre o que Stone falava. Que merda, quase estraguei tudo me confessando na presença da Língua de Cobra.
Mya fez cara de choro.
— Eu fui buscar Lorde Nestor no Portão da Lua... conforme fui ordenada.
Sansa a olhou com aprovação e segurou-lhe a mão.
— ... Mas ele caiu no abismo, eu sinto muito.
Sansa se sentou na cama e abraçou a garota.
— Oh! Que tragédia, me sinto culpada, pois o tempo estava muito ruim para arriscar a subida até aqui. — Afagou as costas de Stone — Myrcalla traga água para Mya.
Sansa e Mya se encarraram e no olhar Stone percebeu o próximo passo de sua Senhora. Vamos fugir para o Norte.
Fale com o autor