O Trono de Gelo
22 Antigas Promessas
Notas iniciais
10 anos antes...
— O que vem antes de tudo filha? — Perguntou o general Du Couteau rodeando-a
— A missão! — Respondeu e novamente uma sensação de impotência dominou Katarina, ajoelhada sobre o piso frio.
— Mas não foi isso que aconteceu.
Katarina olhava fixamente as junções dos azulejos, não ousava levantar o olhar. Mas sentia o seu pai estudando-a com os olhos austeros.
— Pai. Aqueles taurinos não tinha feito nada, nem mesmo eram inimigos! — Rebateu Katarina.
Os modos de Katarina tornaram-se ríspidos novamente, o homem segurou mais firme o cabo do chicote.
— Você me desaponta, filha. Foi indisciplinada. Você arrisca saber além do que realmente deveria saber. Não existe outra coisa, apenas a missão. A ordem. A submissão ao nome de sua família e ao comando. O que quer que Keiran Darkwill e eu diga que é verdade, é verdade. É impossível ver a realidade exceto pelos olhos da missão. A ordem é absoluta.
Ele se calou por um instante, para que suas palavras ganhassem força.
— Eles não tinham feito nada... eles eram inocentes. As reuniões dos insurgentes eram apenas realizadas na tribo dos taurinos. Os minotauros não tinham nada com isso! — Tornou Katarina.
— Keiran Darkwill ordenou que você se infiltrasse e desse ao comando os pontos fracos da tribo, mas você não o fez. A compaixão não é uma virtude de um assassino. Por sua falha, um minotauro atacou um regimento inteiro de Noxus. Apenas com a intervenção dos mais habilidosos guerreiros, a ira de Alistar foi contida.
O general colocou a mão sobre o bolso e retirou um ovo. Levantou-o para que a sua ela enxergasse com clareza, então soltou e Katarina segurou.
— Porque você segurou o ovo? — Perguntou ele
— Porque iria cair no chão e quebrar. — Respondeu
— Mas o fato de que você segurou o ovo não impedi de que ela iria cair no chão. A sua missão era apenas recolher informações e matar o líder deles. Nós eliminamos alvos potências que possam comprometer o nosso governo. Elas não mataram ninguém, mas elas iriam matar. Não importa se o que faz o criminoso é a ação ou a intenção. Se alguém deseja te machucar então você deve tomar as devidas providências antes. Você deve acreditar naquilo que os seus superiores dizem. A verdade de seus superiores deve ser a sua verdade.
Ele olhou-a fixamente nos olhos e ergueu o ovo sobre seus olhos.
— O que tenho aqui katarina?
— Um ovo.
— Mas se eu disser que isso é uma maçã, o que é isso?
— Um ovo — A afirmação acabou em uma exclamação de dor, com mais um golpe do chicote. Ela gritou com força. Trincou os dentes, foi ensinada a não temer a dor.
—O que é isso? — repetiu
— Um ovo!
Outro golpe, desta vez rasgando a blusa.
—O que é isso?
— Um ovo! — Disse entredentes. Ela recusava-se a acreditar, ir contra as próprias crenças.
Outro golpe, com mais força. O rosto severo de seu pai tomando toda a sua visão. O ovo estava na sua frente se erguendo como uma montanha.
— O que é isso?
— Um ovo!
O homem levantou sua mão sobre a cabeça colocando toda a força sobre mão e a desceu...
Katarina acordou-se deitada sobre o chão sujo de sangue, seu sangue. Sentiu suas costas dilaceradas. Talvez tivesse perdido os sentidos por alguns segundos, sentia muito frio e tremia, as lágrimas descendo sobre a face.
— Como posso negar a realidade — suplicou ela — como posso não ver o que está diante dos meus olhos?
— Minha filha. Pode ser uma bola, uma espada, um leão, pode ser tudo ou pode ser até nada. Será aquilo que a missão mandar. Você verá o que a missão mandar.
O homem fez um gesto para a outra garota que durante toda a cena estivera imóvel.
— Olhe bem Cassiopeia, olha bem sua irmã, isso serve de lição para ambas.
— Sim papai. — respondeu
Ele mostrou o ovo.
— O que é isso?
— um ovo. Mas estou tentando ver uma maçã.
— Está tentando me convencer de que vê uma maçã ou de fato vê uma maçã.
— De ver, de ver uma maçã.
Assim ele continuou. Com o tempo os gritos sessaram e apenas ouvia-se o som do chicote. A sua frente o ovo, ao qual tentava com todas as forças acreditar que seria uma maçã. Os golpes pararam e ela ergueu os olhos para seu pai. Agradecida por ele ter parado a dor. Depois do que pareceu serem horas submetida à tortura, Katarina sentia-se inconscientemente agradecida ao seu salvador. Ele tinha o poder de Machuca-la e de salva-la da aflição. Agora ela compreendia, primeiro a missão, sempre a missão. Não importa o que deveria ser feito, ela teria que fazê-lo mesmo que fosse contra seu credo. Então pela primeira vez ela pode ver.
— O que é isso, katarina?
Ela ergueu os olhos
— Uma maçã.
Garen e Katarina se embrenharam no coração da floresta, velozes e silenciosos como animais. O leve friccionar das roupas e o chiado das folhas eram as únicas evidências de suas presenças. Seus corpos se fundiam com a selva que os cercava. Katarina apurava os ouvidos ao menor som, procurando pistas que revelassem qualquer movimento. Observaram por um tempo o acampamento inimigo. Um acampamento noxiano. Katarina havia recolhido informações sobre um batalhão avançado de Noxus que havia se alojado pelas redondezas com ordens direta de Swain. Talvez conseguissem informações dos planos do general.
Os olhos de Katarina estavam hesitantes. Ela se virou quando sentiu a mão sobre o seu ombro. Garen sorriu.
— Se não quiser fazer isso eu entendo — Disse
Katarina abanou a cabeça.
— Há uma diferença entre o que eu quero fazer e o que eu devo fazer!
Garen a beijou e ela respondeu com um sorriso
— Desde pequena eu fui disciplinada a acreditar no que os outros diziam e seguir minha nação sem questionar. — disse ela sem tirar os olhos das cabanas. — Não tem medo das escolhas?
— Uma escolha ruim é melhor que nenhuma uma escolha, então não.
Ambos avançaram, de uma árvore para outra, quando não havia mais troncos que lhe servissem de abrigo, dirigiram-se a uma fileira de arbustos. O ultimo esconderijo antes do acampamento. Eles puderam ver quatro guardas que estavam de prontidão. Dois rente a uma grande cabana e os outros dois mais perto de onde eles estavam. Garen gesticulou para confirmar a estratégia programada e então passou o dedo sobre o pescoço.
A dupla de guarda mais a frente começaram a conversar de costas para ambos. Com uma faca presa entre os dentes, a outra na mão, Katarina avançou o mais leve e rápido que conseguiu. Os guardas se separaram para direções opostas, o primeiro andava de costas para ela e o segundo chegou até uma cabana ao fundo e se virou. O noxiano viu a intrusa, juntou todo o fôlego e levou às mãos a boca. Era agora ou nunca. Katarina jogou a faca com toda a força. O impulso fez com que expelisse a respiração que estava segurando.
O lançamento foi certeiro, a lâmina afundou entre os olhos. Ela correu em direção ao outro que vinha se aproximando, se jogou sobre o soldado noxiano assustado, não lhe dando tempo de sacar a arma. Ele foi eliminado com silêncio. Katarina fez um gesto e Garen avançou. Ele eliminou os outros dois noxianos que estavam de guardas. Os corpos foram levados para longe e ocultados.
Garen olhou Katarina e trocou um triunfante sinal positivo com ela. Mas alguns sinais estabeleceram que o próximo movimento seria o de investigar as cabanas. Garen partiu para outras cabanas e Katarina entrou na maior. Com muito cuidado abriu a entrada, para evitar qualquer ruído. O luar assegurava luz suficiente para enxergar.
Um soldado saiu de sua cabana, sonolento demais para prestar atenção. Cambaleou alguns passos e abaixou as causas soltando um jato de urina. Garen saltou dando uma chave de braço no homem. Um movimento do antebraço quebrou-lhe o pescoço. Depois jogou o corpo em um local escondido.
Além do tamanho, a cabana que Katarina entrou era luxuosa. Os aposentos de um comandante. Ela parou tentando identificar os sons, ouviu um som ritmado de respiração que levou um momento para identificar como roncos. Com todo o cuidado avançou pelo lugar. Um homem meteu a cabeça para dentro da cabana.
— Comandante, o capitão está voltando em...
O noxiano não esperava por problemas. Katarina agarrou-o pelo pescoço e puxou-o de lado de forma selvagem, mas silenciosa. Ela matou o inimigo com uma adaga no coração. Puxou o corpo para o canto e se jogou sobre o homem gordo deitado sobre a cama. Uma mão sobre a boca e a faca sobre o pescoço.
— Faça um som e você terá o mesmo destino do seu subordinado. — Ela prometeu
O homem olhou trêmulo para o corpo no fundo. O retrato da morte violenta estava cravado rosto da vítima. Depois voltou o olhar para ela com os olhos arregalados. Ela retirou a mão, mas manteve a faca na garganta dele.
— Não tenho tempo para cordialidades. O que Swain está planejando?
— Não fui informado — Respondeu com a voz trêmula — Apenas nos disseram para deslocar um batalhão avançado para essa região e esperar as ordens.
— Está blefando! — Rugiu ela aumentando a pressão da lâmina
— Eu juro! As ordens chegaram hoje, disseram que deveríamos entregar um pacote para Swain. Nossas ordens são de regressar de manhã.
— Onde está, onde está o pacote?
Ele apontou para mesa. Katarina o deixou inconsciente com um golpe certeiro com o punho cerrado. Dirigiu-se até a mesa pegou o pacote. Era um embrulhado de couro atado com elásticos. Seja o que fosse deveria ser de vital importância por deslocar um batalhão apenas para escoltar um embrulho. Ela levou-o contra a luz, tentando imaginar o que era. Deu um sorriso triunfante.
Garen entrou eufórico na cabana.
— Qual o problema? — Perguntou Katarina
— As cabanas elas estão... vazias. O acampamento está vazio!
— Merda! — Xingou Katarina — Os soldados não devem está longe. Precisamos sair daqui.
Nesse instante eles ouviram o som de dezenas de pés socando o chão. Era um batalhão em marcha.
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Mãos em manoplas empurraram a porta da frente da taberna. O vento frio da noite soprou para dentro do salão. O taberneiro parou de passar o pano sujo sobre o balcão e encarou a figura. A luz fraca do luar, tudo o que o homem conseguia ver era uma silhueta parada na entrada.
O lugar estava um pouco escuro a música tocando no interior. O sujeito adentrou o recinto. A pesada armadura chacoalhava a cada passo. Além da grande espada presa no lado da armadura, O homem também carregava um grande escudo. Sendo da metade de seu tamanho. A armadura fazia tremer o assoalho de madeira da estalagem a cada passo.
As poucas pessoas começaram a reparar a presença dele, a música parou por um instante e todos os olhos se viraram para ele, exceto duas figuras sentadas próximo ao fundo. O taberneiro o saudou em um discurso ensaiado.
— Bem-vindo à taberna Dragão Travesso, o que vai querer?
O sujeito levou a mão ao elmo e o removeu. Cabelos ruivos lisos caíram por sobre os ombros — os ombros dela. A boca do homem se abriu com a surpresa. Ele jamais vira uma armadura de batalha tão detalhada e reluzente na vida, nem entre a elite de guardas de Demacia que costumavam passavam pela cidadezinha.
Ela virou os olhos para o rapaz e sorriu. Era uma expressão gentil e agradável.
— Mil desculpas, meu senhor... madame. — Ele dava olhadelas nervosas para a armadura. — Bem-vinda à taberna Dragão Travesso. O que gostaria?
A mulher pousou o escudo no chão.
— Não precisa me chamar de madame. Meu nome é Leona.
— É claro, mad... Senhorita Leona. Gostaria de beber algo?
Ela sorriu
— Apenas cerveja amanteigada. Estou aqui para ver uns amigos.
Leona atravessou o salão enquanto o taberneiro se retirava para pegar a bebida. Ela andou em direção ao fundo junto às duas pessoas que estava em total silêncio. Ignorou os olhares dos clientes e sentou-se no banco em frente deles.
— Está atrasada. — Disse um deles.
— Tive meus empecilhos.
Ela encarou o homem à direita, parecia ignorar o frio. Estava vestido como um mendigo, usando pouco mais do uma roupa enrolada ao redor de seu corpo, deixando metade de seu peito musculoso exposto. A guirlanda de madeira pendurado ao redor de seu pescoço grosso. Sua cabeça estava completamente raspada, com exceção de uma barba e uma trança que se projetava detrais da cabeça. Havia em seu rosto uma venda vermelha. Era um monge, havia inúmeras histórias sobre os monges. Pele tão duras quanto pedra, punhos que poderia quebrar pedra tão facilmente como alguém quebraria um galho. Socos e chutes que rechaçariam tropas.
A sua esquerda estava uma mulher de aparência angelical e rosto claro. Os ângulos de sua face eram perfeitos e suaves, trajada com uma armadura dourada e coruscante. Os cabelos loiros caindo por sobre o ombro. Ao seu lado, apoiada sobre a cadeira, estava uma grande espada dourada. Seus olhos apareceram em um vislumbre por trás de seu cabelo, olhos azuis e profundos. Eram jovens, e ao mesmo tempo não eram.
— Os mortais são uma raça interessante — disse ela — Tantos séculos entre eles. Os homens enfrentam a morte e as trevas todos os dias e ainda sim encontram forças pra seguir em frente. No final das contas, somos nós os imortais que temos muito a aprender.
O taberneiro colocou sobre a mesa a bebida. Leona sorriu agradecendo e entregou ao homem três moedas.
— Kayle. Eles perseveram porque é preciso, a única maneira de fugir da vida é através da morte. — Respondeu Leona
— Essas vozes na minha cabeça, elas não se silenciam.
— Isso, minha cara, é o que nós mortais chamamos de enxaqueca.
Kayle suspirou e empertigou-se para frente
— Você compreende o grau do problema — Disse Kayle girando o copo de vinho — apesar de nossas diferenças, precisaremos unir forças para impedir esse mal. É por essa razão que estamos aqui. Um dia as raças se uniram e enfrentaram as legiões do mal. Mesmo que a vitória tenha sido alcançada e o mal banido. A aliança tênue entre os mortais praticamente se desfez. Mas a paz não pode existir quando o próprio mundo é devorado pela raiva. Um mal ancião está para acordar. Determinado a abalar os alicerces de Runeterra até suas entranhas.
Lee sin tirou vários rolos de pergaminho finos e bem apertados de um bolso sob o cinto.— Eu tive visões de câmaras subterrâneas — disse ele. — Elas estão infestadas de magia concentrada. Este rolo é uma reprodução de um original encontrado nas ruínas de Shurima. Como bem sabem, o monastério de Shojin é o maior acervo de escritos de Runeterra — Ele desenrolou um segundo pergaminho. — Esse é uma profecia. — Desenrolou um terceiro. — E este veio das entranhas da Ponte de Howlling Abyss. Todos eles falam de uma guerra iminente entre a luz e a escuridão.
Leona pegou os rolos e passou os olhos pelos textos. Seu coração bateu mais rápido. Apesar de estarem escritos em outras línguas, uma antiga língua de Ionia, todos continham referências a um exército de criaturas sombrias que se levantaria quando o vazio retornasse.
— Estas informações são legitimas?
O monge fez que sim com a cabeça.
— Eles foram verificados pelos patriarcas de minha ordem. — Respondeu
Leona passou observando mais uma vez a escrita antiga que se desenrolava naquelas frágeis páginas. Se os rolos fossem verdadeiros, o início da invasão do vazio estaria muito mais próximo do que ele havia presumido. Isso podia significar a queda do mundo dos mortais e o colapso do Paraíso Celestial e o fim a vida como ela a conhecia.
Kayle não costumava ter ataques nervosos, e acreditava que sua maior força era a atitude calma e contida que demonstrava diante de uma crise. Ela estudava o problema, avaliava as soluções e escolhia o melhor caminho. Mas o que se desenrolava a perturbou mais do que ele pensava ser possível.
O monge sentiu algo se movendo na direção deles, duas presenças, duas pessoas — um homem e uma mulher. Lentamente ambos andaram até a mesa. Lee sin sorriu levantando-se.
— Bem vindos — disse — é bom ver que aceitaram minha oferta. Garen e Katarina.
Algumas horas antes...
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Katarina e Garen se viraram para encontrar os inimigos. Podiam estar em desvantagem numérica, mas tinham a vantagem de poder se defender em terreno mais elevado. Em seus encalços, soldados Noxianos.
Logo o embate irrompeu na floresta. Os aços se chocaram, golpes eram dados e recebidos. Katarina saltou por sobre os dois homens jogando-os ao chão, não ouve tempo de reação, ela enterrou as lâminas gêmeas e se levantou para encarar o terceiro. Garen cortou o ar com sua lâmina, o homem executou um mau movimento e a espada mergulhou por cima do seu ombro. Garen rapidamente puxou a lâmina e bloqueou um ataque de outro adversário. Defendeu três investidas e com um deslize do inimigo, que estendeu o braço além da conta, desceu a espada com força no braço exposto, separando mão e pulso. A mão caiu ainda segurando a espada. Com um movimento lateral Garen deu fim a sua agonia.
O demaciano se virou para outro inimigo com um pesado golpe que atravessou a cota de malha como se fosse um tecido. Katarina lutava contra outro oponente. Impediu um golpe de um indivíduo musculoso armado com uma espada larga. Detendo vários outros ataques, ela se abaixou evitando o ultimo. Então retornou a ofensiva, com uma das mãos, encontrou seu cinturão e puxou uma faca. Ela arremessou e perfurou o coração dele.
Os dois atacavam e despachavam os inimigos, partiam crânios, cortavam gargantas, partiam membros. Duchas de sangue tingia o chão quase como uma chuva, ossos eram quebrados. Mesmo assim, eles estavam em desvantagem, um punhado de atacantes passava ao redor da batalha para atacar a retaguarda vulnerável deles. Garen se virou para encarar a ameaça. De costas um para o outro, Katarina e Garen estavam cercados por trinta homens.
Um punhado de atacantes contornava-os cercando, ambos para atacar pela retaguarda vulnerável. Os inimigos organizaram-se e agora pressionavam os dois, um contra o outro, em um cerco cada vez mais fechado. Obrigando-os a lutarem de costas para o outro, circundados por machados, espadas e maças.
Vozes de homens gritando como crianças irromperam próximo dali. Logo, dois dos soldados inimigos apareceram à vista, correndo a plena velocidade, suas armas e escudos esquecidos no chão. Um segundo depois, Garen e Katarina descobriram do que eles estavam fugindo: uma criatura de quase três metros. Meio homem meio touro, seu pelo era azulado com dois grandes que chifres cresciam de sua cabeça avantajada. Seus braços eram tão grossos e grandes quanto um homem. De seus pulsos pendiam duas algemas quebradas e em seus músculos, cicatrizes denunciavam batalhas e torturas que havia suportado.
O Minotauro bufou, baixou seus amplos chifres e atacou a formação inimiga. Era um ataque avassalador, os soldados foram arremessados no ar. Os homens se espalharam desfazendo a formação, o monstro se virou para um grupo de guerreiros. Sua aparência causava temor neles. Os inimigos recuaram atrapalhadamente, embora mantivessem as espadas apontadas para ele.
Um grupo de arqueiros posicionou-se atrás do minotauro, estavam prontos para atirar. Mas eles foram surpreendidos. Um monge saltou, os punhos e os pés atingiram os inimigos com velocidade extraordinária. Os guerreiros revidaram em grupo, mas o monge manteve-se firme, rodopiando e atacando os inimigos. Escudos e armaduras não continham a força dos seus golpes.
O monge rugiu, e atacou, a força do chute jogou o inimigo contra a árvore. Depois se projetou para frente, seus movimentos eram rápido e difícil de acompanhar pelos olhos. O monge agarrou um homem pelo pescoço, puxou o braço livre para trás, e golpeou com a palma para frente, e quando atingiu o inimigo, a armadura se envergou e os olhos dele se reviraram. Ele soltou o corpo sem vida no chão.
Aproveitando da distração propiciada, Garen e Katarina juntaram-se a batalha. Garen desceu um golpe atroz no pescoço de um guerreiro, cortando a carne até o osso, o segundo teve um destino semelhante. Katarina conteve o avanço de uma dupla de agressores que fracassaram ao executarem um ataque combinado de forma errônea. Katarina matou o primeiro com um ágil movimento com a lâmina em sua garganta e o segundo teve o coração perfurado.
Não havendo outro oponente contra o qual lutar, ela voltou à atenção para Garen, que combatia outro inimigo. Um golpe no tórax seguido de um no pescoço deram cabo do inimigo. A decapitação foi perfeita, o sangue borrifou sujando o rosto de Katarina. Ela passou as costas da mão sobre os olhos e cuspiu para limpar a boca. O ato foi puramente um reflexo, a reação teria sido a mesma se o líquido tivesse sido água ou lama.
— Acabou — ela afirmou
Garen não precisava de confirmação dela. Cadáveres dos inimigos espalhados pelo chão, somente alguns permaneciam vivos e estes eram esmagados pelo homem-touro ou golpeados pelo monge. Os restantes dos inimigos fugiam deixando para trás espadas e escudos.
— Você tem meu agradecimento. Eu sou Garen Crownguard — Disse ao monge que estava com as mãos pressionadas uma contra outra, recitando um mantra. — Histórias sobre os monges de Shojin são envoltas em mistérios e lendas. Dizem que sobrevivem a treinamentos exaustivos durante anos no monastério. Forjando suas mentes e corpos.
O monge levou alguns segundos sussurrando algumas palavras e virou-se fazendo uma reverência.
— Se eu puder aliviar o sofrimento de uma vida, ou se conseguir ajudar um passarinho que está fraco a encontrar o ninho... A vida terá valido a pena. Fiz o meu dever como uma arma da justiça. Eu sou Lee sin e este é meu amigo taurino, Alistar.
Alistar dirigiu-se até Lee sin, os seus músculos prendendo a atenção Katarina e Garen. Tinha o rosto desfigurado pela raiva.
— Eu conheço o seu rosto fêmea humana. — A sua voz parecia como a de uma avalanche — A maldita filha do general Du Couteau, homem de confiança de Keiran Darkwill. Me dê um bom motivo para não esmagá-la!
Katarina sustentou o olhar enfurecido de Alistar.
— Melhor ficar longe, Taurino!
Os dois trocaram olhares, os músculos de Alistar se tencionaram. As suas enormes pupilas amareladas carregadas de raiva. Ele aproximou o seu enorme rosto e bufou. O ar quente assanhou os cabelos dela. Katarina tomou sua lâmina do chão e seu punho fechou-se sobre o cabo enquanto mantinha-se olhando para alistar.
— Se fosse como algum tempo atrás, seu crânio já estaria sobre meus pés — Pisou forte sobre o chão, esmagando a pedra sobre o casco — bem como muitos outros noxianos que cruzaram meu caminho. Quando fui capturado e obrigado a lutar em seu coliseu. Eu estava à beira da loucura, — Alistar parecia ter os olhos distantes — atormentado toda a noite, pela visão de minha família morta. Com a lembrança do sangue deles escorrendo sobre meus dedos. A minha alma, então nobre, tornou-se corrompida com o tempo, e ele teria sido levado à insanidade se não fosse por um noxiana. Ayelia. Durante todo o tempo que fui torturado. Sua bondade me manteve firme. Ela arriscou sua vida para que eu conseguisse fugir e no ultimo momento de minha fuga soube seu nome, seu verdadeiro nome. Ayelia Du Couteau.
Katarina deixou escapar um murmúrio de surpresa.
— Mesmo a mais espinhosa das plantas ainda germina flores. Existem pessoas boas em Noxus, mesmo na família que eu odiava. Eu posso ver em seus olhos, humana, que mesmo diante de tanta sanguinolência e mortes. Existe o mesmo coração nobre de sua mãe. Mas minha vingança não se estende a todos os noxianos somente a Keiran Darkwill.
— Sinto informar, mas Keiran Darkwill está morto. Swain o matou e ele tornou-se o grão-mestre de Noxus.
Alistar pareceu surpreso
— Maldito seja! Aquele velho conseguiu.
O taurino pareceu estudar Garen lançando um olhar de cima abaixo.
— Eu conheço o símbolo sobre essa armadura. Um Crowgard. O que um demaciano faz tão longe e acompanhado por uma noxiana?
Garen olhou para Katarina e ela assentiu em um acordo taciturno
— Eu sou Garen Crowgard e esta é Katarina Du Couteau, sinto dizer que os eventos que se sucederam nos levaram consequentemente ao nosso estado atual, são de natureza confidencial.
— Receba os estranhos de braços abertos, mas mantenha o coração guardado até que mostrem suas verdadeiras faces. Não é isso que falam seus ensinamentos, monge? — disse Katarina — A desconfiança é o farol que guia o prudente.
Lee sin riu
— A confiança é o reflexo do conhecimento. Se são quem dizem ser, então eu peço que venham comigo. — Pediu Lee sin
— Infelizmente — Disse Katarina arrancando seu punhal do corpo de um soldado. Ela limpou o sangue na lâmina e guardou sobre o cinto. — Temos outros assuntos a tratar em Freljord e não temos tempo a perder.
O monge fez um gesto e Alistar desenrolou um pergaminho e o esticou suavemente sobre o chão.
— Há três dias eu e Alistar estávamos nas ruinas de Kaladoun, procurávamos por um artefato. Mas quando chegamos encontramos o local destruído. Nossa investigação nos levou direto para esse batalhão, então apenas vigiamos. Capturamos um dos soldados, ele nos informou que foram deslocados para proteger algo. — Lee sin apontou para o desenho no pergaminho — Não resta dúvidas que Swain mandou os seus homens atrás daquilo que viemos procurar.
— e seria?
— Provavelmente o pacote que roubaram do capitão no acampamento.
Garen enfiou uma faca por entre o couro do embrulho. Despois de rasgar puxou o artefato para fora. Era um polígono pequeno de cinco lados. Ergueu e o examinou. Era radiante com uma forte luz dourada. Perfeitamente esculpido, sem nenhuma falha, rachadura ou arranhão, sendo difícil de acreditar que haviam séculos naquele pequeno objeto. Com uma rápida olhada percebeu uma estranha escrita entalhada no centro do pentágono.
— Parece ouro, só que mais reluzente. — Deduziu Garen
Katarina achou que tinha razão.
— Do que é feito? — perguntou katarina
— Não parece feito de nenhum material que eu conheça. — Pronunciou Katarina — Nem madeira, nem osso ou mesmo qualquer outro minério.
— Poderia ser fabricado a partir de alguma espécie de pedra — arriscou Garen
De inicio, apertou-o gentilmente, mas em seguida passou a aplicar toda a força.
— Seja o que for, é duro!
Garen deu o objeto pra Lee sin. O monge tateou por um tempo e por fim disse.
— Acredito que isso seja o que viemos buscar, uma runa.
— Uma o quê? — Perguntou Katarina
— Uma runa, no velho idioma. Isto é uma prova tangível de uma antiga história que até agora não passava de um mito. Se as lendas forem verdadeiras, essas peças podem ter sido forjadas na grande guerra.
— Especifique!
— Como um totem de grande poder arcano, e de grande verdade, pois dá pistas de um mistério que evolve o passado de Runeterra.
— Como? — Garen exigiu saber
— Tudo o que realmente sei é que cada uma das runas é parte de um todo maior. Um quarto, para ser exato, Selo, Quintessência, Glifo e Marca. Presumo que pela descrição que fizeram, essa seja a runa do Selo. Em todo o caso, quando esta for unidas com suas três outras partes, a verdade será revelada. Não faço ideia do que isso quer dizer, para ser honesto. Mas apostaria minha vida como este artefato é o tesouro mais significativo que qualquer um de nós jamais viu.
Lee sin falou com tamanha convicção que todos foram envolvidos por suas palavras.
— Onde estão as outras partes? O que acontece se unir todas?
— Mistérios dentro de mistérios e perguntas sem respostas. Mas tudo o que posso dizer é que uma está em Freljord e está estava Kaladoun. Aceitem minha oferta, amanhã à noite encontrem-me em na taberna Dragão Travesso que fica na vila aqui nas redondezas. Lá terá respostas para suas dúvidas. Em troca destacarei um barco para leva-los diretamente até Freljord e chegarão mais cedo do que planejavam.
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Dois dias depois...
Garen engoliu o último do seu pão e lavou-o abaixo com um pouco de vinho. Com um suspiro, ele esticou as suas pernas e se aninhou mais ao cobertor. Fechando os seus olhos, relaxou todos os músculos no seu corpo. Abriu os seus olhos para encontrar um rosto Katarina a sua frente. Continua tão linda desde a primeira vez que eu a encontrei — pensou consigo.
— Eu conheço essa cara — sorriu ela sentando ao lado dele e o envolvendo com um abraço. — Não se preocupe, vamos impedir o pior.
Ambos estavam sentados no convés da embarcação que os levava para Freljord. A direita do navio se delineava uma encosta com um campo exuberante. O céu noturno estava claro e limpo e a luz cobria a terra com um brilho suave. O ar era fresco e calmo. O vento despenteou Katarina, de cabelo ainda molhado do banho, o cheiro suave fez Garen sorrir. Puxou-a mais para junto e envolveu com as cobertas. Ela deixou escapar um suspiro.
— Você se faz tão sério e quieto — ela riu — mas eu sei como seu coração é quente.
Ele sorriu, mas seu sorriso se desmanchou em um mar de incertezas.
— Não sei o que mais acreditar, depois que tudo aquilo que ouvimos.
Katarina pegou em seu rosto e o virou na direção dela, de modo que Garen olhasse diretamente para seus olhos.
— Nós vamos salvar a sua irmã, eles não vão conseguir. Nós vamos salvar esse mundo!
Garen a puxou para junto e a beijou
— Ela partiu para Freljord para ajudar um amigo.
— Ora, sua irmã está crescendo, um namorado.
Garen empalideceu
— Namorado? Absurdo! Ela ainda é muito nova, e...
Ela riu dele
— Francamente, o grande herói de Demacia, cheio de orgulho, bravo guerreiro capaz de meter medo nos inimigos. Mas ainda sim não controla as mulheres de sua vida.
Os dois passaram um tempo em silêncio observando o horizonte.
— Há muito tempo eu fiz uma promessa pra ela
— Qual promessa?
Garen sorriu enquanto as lembranças invadiam sua mente.
O sol subia alto e brilhante dando boas vindas ao novo dia, à luz reluzia sobre o topo da cidade demaciana. Nos meados da cidade, sobre um galho da árvore. O gato se sentou e olhou, através da janela, interessado para a ampla porta. Quando uma mulher falou animada entrando no quarto. O bichano saltou para o chão e começou a andar devagar, ronronando. Uma mulher alta de cabelos brancos surgiu, segurando uma trouxa. Deitada na cama, vestida com uma camisola branca, ela sorriu para a senhora que entrava.
— Meus parabéns! — Disse a senhora — É uma linda menina.
Recaia sobre o local uma paz e sossego acolhedor. A luz entrava pela janela e lá fora Uma brisa suave soprou as copas das arvores com um doce chiado, alisando as folhas. A senhora entrou e entregou com grande cuidado a trouxa para a mulher e logo depois se retirou. Com um carinho próprio de uma mãe. Ela pegou e aninhou em seus braços. De dentro do pano um rosto rosado e enrugado de uma criança linda e saudável. Durante um tempo, ela passou ali, olhando o pequeno e frágil ser em seus braços: sua amada filha.
Na beira da porta, um garoto de dez anos observava tudo em silêncio com uma curiosidade notável. A mulher sorriu com ternura para ele
— Venha meu filho, não precisa ser tímido meu amor. – Sorriu — Garen meu querido. Venha ver sua irmãzinha.
Com relutância o garoto se dirigiu até sua mãe timidamente, na beira da cama. Se apoiando nas pontas dos pés para enxergar o bebê.
— Quer segura-la? — propôs a mãe
Garen nada disse. Com carinho a ela entregou a criança. Meio hesitante e temeroso estendeu as mãos. Ao pegar nela, sentiu-a quente. A menininha bocejou e levantou o punho cerrado. Garen sorriu, tocando-lhe com a ponta do indicador direito e ela sorriu suavemente. A mãe observava rindo em silêncio.
— Com cuidado assim mesmo. — Instruiu ela
Garen pegou sua pequena irmã no colo. O bebê sorriu e se remexeu. Ele sorriu de volta.
— Olha só — disse a mãe sorrindo — ela gostou de você.
O garotinho fez carinho nela e uma minúscula mão rosada segurou firme o dedo dele. Os dois permaneceram em silêncio. Garen empurrou o bebê de volta aos braços da mãe. Mas ainda sim, a criança não soltou o dedo de seu irmão. Os dedos finos da caçula ainda seguravam com força.
— Muito bem — Disse a mãe com um meigo sorriso — Ela precisa de um nome. Que tal me ajudar a escolher um nome para sua irmãzinha?
Por um tempos os dois pensaram.
— Helena — Disse por fim a mãe
A criança não reagiu. Garen ainda estava pensando.
— Hilda — Disse ela
Ela tentou outro
— Olga?
A mãe tentou e tentou. Mas nada parecia servir. Garen sorriu e disse em alto e bom som.
— Lux!
A mãe olhou para ele e depois para a filha
— Lux?
O bebê esboçou um pequeno sorriso, bocejou e se pôs a dormir.
— Parece que gostou do nome — sorriu — Luxuanna Crowguard. Lux, um belo nome. Significa Luz. Sim eu gostei, ela veio para iluminar nossa família. A luz da esperança. É isso que ela significa, esperança. Um bom nome. Todos precisamos de um pouco de esperança nas nossas vidas e é isso que ela dará a esse mundo, esperança.
Garen olhou determinado para a mãe e bateu continência. A mãe riu.
— Eu prometo! — Disse ele com a cara mais seria que conseguia fazer nos seus dez anos de vida — Eu prometo! Que vou proteger ela de todo o mal e que vou ser um grande herói. Vou transformar Demacia em um lugar incrível que ela possa viver. Eu prometo que vou proteger ela e ficar muito, muito, muito forte!
A mãe sorriu e beijou com carinho a testa dele
— Sim meu bem, eu sei que pode. — Ela olhou para filha — Não é verdade, Lux?
Lux esboçou um pequeno riso. Garen subiu na cama e se aninhou no colo da mãe junto a sua pequena irmã. A mãe cantarolava uma música de ninar. Começou suavemente, em voz baixa, deixando o som fluir. O som da sua voz era acolhedora como o calor de uma fogueira e suave como uma brisa de outono. Por um tempo ele ficou ali admirando-a, até que por fim adormeceu ao lado de sua irmã.

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