O Tribunal dos mortos
1 Capítulo 1
Notas iniciais
No topo das escadas parei um instante para apreciar o sol e seu bronze que se perdia na arquitetura baixa. O calor da tarde me abraçava e tudo em volta resplandecia tons de vermelho, laranja e amarelo. Queria contemplar por mais tempo a sensação e o horizonte, mas era aguardada no tribunal. Olhei para baixo pronta para descer quando notei as cores desaparecendo em meio as sombras.
No pé das escadarias jaz um muro colossal que banha o auto na escuridão durante todo o dia, é uma espécie de zigurate de pedras negras e úmidas. A base larga que ultrapassa dez metros de extensão e percorre oito metros de profundidade é incorporada pela cidade, sendo rodeada de casas e prédios.
Sua altura chega a pelo menos trinta metros, um titã adormecido. As pedras escalonadas chegam a mais ou menos dois terços do muro até que finalmente o todo da estrutura forma o gigante trapézio distorcido conhecido como “Parto das Sombras”.
O Parto cobre toda a extensão da escadaria, de longe é possível ver o amontoado de pessoas definhando à sua base. Todos moradores de rua e boêmios de sonhos perdidos. Alguns se aventuram e escalam um ou dois degraus do zigurate, uma maneira de fugir do ócio talvez.
Já descia as escadarias largas quando um senhor me abordou. Um homem alto, limpo de pele grossa e calejada; não tinha cabelos nem barba e suas roupas surradas exalavam um cheiro azedo, daqueles que ardem as narinas e lacrimejam os olhos.
Por sua existência só pude sentir remorso e piedade. Pensei que poderia ser o guia do qual me avisaram, mas não esperava a figura que se apresentava ao meu lado.
Logo ele pôs a mão sobre meu ombro. Não estava preparada para isso, meu corpo formigou e choques de calafrio passaram por minha espinha como que tentando espantar o estranho. Sua garra pinçou forte no meu ombro enquanto ele se curvava para fitar meus olhos diretamente, notei suas sobrancelhas grossas antes de olhar na profundeza de seus olhos e entender suas palavras ocultas: “É a única maneira”, é isso que ele queria me dizer.
Ele se pôs dois degraus acima e continuamos a descer em direção ao Parto das Sombras. A imagem aos pés do muro se tornava mais nítida conforme descíamos, podia ver as faces dos mendigos e bêbados que começavam a tomar formas distintas. Roupas, sapatos, objetos pessoais, tudo preconcebia a existência de cada um, imagens que diziam a mim mesma: perda, morte, falta de sorte, renuncia; difícil de descrever.
Ao nos aproximarmos o odor azedo do guia atrás de mim somou-se às fezes secas e à urina úmida purgada sob a sombra eterna do muro. Ainda mais, se juntava ao licor nos vômitos e nas garrafas dispostas em linha como que um vislumbre de ordem para os desordenados.Mas eram as feridas enegrecidas borbulhando pus e sangue que completavam o ambiente, com seu cheiro célebre de ferro que exalam os corpos encarniçados.
Todos abandonados por si mesmos a base do Parto, pessoas que já foram um dia, hoje restos desagradáveis de seus âmagos.
Devido a sua altura e falta de luz a impressão é de que a massa do muro se curva sobre sua cabeça. É fácil de distrair-se, olhar para cima e achar que o Parto das Sombras está ruindo. Regularmente gritos de emergência soam aos pés do Parto, seguidos de risos é claro.
Estávamos frente à muralha, sua altura e sombra me acobertavam como se estivesse me afogando em água fria e serena. Engoli seco e sacudi as ideias, abri os olhos e pude ver agora a entrada para o tribunal.
Fale com o autor