O Tribunal das Nove Caudas
1 Amigos e Amores
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Amigos e Amores
Sempre tive fascínio pelo fogo. Ele é sempre tão belo e forte. Uma beleza perigosa... sempre quis ser igual ele, linda, mas fatal. Bem, eu não me classificava em nenhuma das categorias, talvez eu até fosse bonita, mas a nível da água e não das chamas ardentes do fogo.
– Zoe? Está me ouvindo, Zoe? – Saí do meu transe com a voz do Andy, meu melhor amigo.
– Estou sim, eu acho... já reparou o quanto o fogo é lindo? – Olhei bem em seus olhos, mas logo fui respondida com uma expressão cômica. – Deixa para lá!
– Marshmallows? – Perguntou com um graveto apontado para mim. – Ou pelo menos o que eu esperava que fosse... – Olhou frustrado para os seus marshmallows, ou melhor, torrões.
Fiz sinal negativo com a cabeça antes de cairmos em gargalhadas. Andy e eu éramos amigos de longa data, mais precisamente quando tínhamos 6 anos e eu era uma pequena garota asiática com problemas de visão. Meus pais vieram do Japão aos Estados unidos uns cinco anos antes de eu nascer, o que facilitou no meu inglês que tecnicamente cresci com ele, mas isso não me impediu de aprender a língua dos meus pais. Também sou fluente em japonês.
Parte do meu ensino foi em casa, meus pais não se sentiam confortáveis em me mandar para uma escola de verdade por medo da minha segurança, porém logo mudaram de ideia e me matricularam em uma escola pública qualquer. Quando cheguei lá fui tomada por um desespero, nunca tinha ficado no mesmo lugar que tanta gente estranha antes, me isolei no fundo da sala por uma semana, até que um menininho de olhos grandes e assustados, cabelos castanhos emaranhados e sorriso com janelinha veio até mim e me chamou para colorir um daqueles livros idiotas de belas princesas da Disney.
Desde aquele dia eu e o Andy nunca mais nos separamos, uma genuína amizade que nunca sequer questionamos.
– Seu queixo está sujo de carvão – afirmei já com a mão limpando a sujeira. Seus olhos brilharam com o toque, mas provavelmente foi o fogo reluzindo. – Não acho que deva comer esses torrões, vão te fazerem ficar com dor de barriga e eu juro se você soltar algo em nossa barraca eu te arrastarei para fora.
Ele deu de ombros e jogou os últimos torrões-mellows fora. Era incrível como mesmo após anos eu sempre via o garoto de olhos assustados que foi até mim, mesmo com todas as mudanças que ele passou. Menos o cabelo, que sempre foram um ninho de cachos castanhos, já o restante evoluiu junto os anos. Seus olhos eram grandes e com uma íris castanha que se destacavam em sua pele bronzeada, seu sorriso também mudou, aliás seria estranho um rapaz de 18 anos com janelinhas. Não deixei de sorrir, mas para mim mesma.
– Qual a graça? Ainda estou sujo? – Terminou a frase já esfregando o queixo com o dedo.
– Claro que não seu bobo, só estou lembrando de coisas antigas, pura bobagem.
– Você é estranha, sempre vou dizer isso – sorriu.
– Cala a boca seu panaca – dei um tapa em seu braço e começamos a rir mais.
Nosso momento de afeto bizarro foi interrompido quando o Roger, um dos nossos colegas de classe, nos chamou a atenção.
– Odeio interromper o namoro de vocês, mas os pombinhos poderiam vir aqui? A Magda vai contar uma história de terror.
Senti as bochechas da Andy arderem em vermelho vivo, demorei alguns segundos para perceber que as minhas também estavam coradas, toquei no braço dele e gritei em resposta.
– Não somos namorados seu babaca – mostrei a língua. – Vamos, Andy, você sabe o quanto amo terror.
– Sim, ama... – respondeu pensativo.
Olhei mais uma vez para a fogueira e puxei o Andy entre tropeços, para seguirmos até a barraca da Magda.

– ... e então o vampiro do mal estroçou todo o grupo de amigos.
Não prestei atenção na história que a Magda, só peguei o final, mas não me importei. Passei todo o tempo pensando na Zoe limpando meu rosto, incrível como um gesto tão pequeno se torna grandioso quando vem de alguém que você ama. Talvez eu esteja confundindo amizade por paixão, mas naquele momento não sabia a diferença, na verdade em nenhum momento. Nunca tive uma paixão arrebatadora antes, não como se lê nos livros, apenas paixonites. Então, provavelmente eu realmente esteja confundindo os diferentes tipos de amor.
Minha guerra interna foi interrompida pela voz da Zoe.
– Andy, o que achou dessa história? Macabro, não? – Apenas concordei com a cabeça e sorri, não queria revelar que não tinha ouvido nada.
Toda a turma comentava sobre o conto da Magda e disputavam quem seria o próximo a recitar algo, por fim um garoto de outra escola foi escolhido. As palavras do menino se perdiam antes de chegarem aos meus ouvidos, naquele momento tudo se resumia a Zoe.
Seus olhos puxados, descendência de seus pais, reluziam em orbitas escuras, como um buraco negro pronto para engolir tudo a sua volta. Seus cabelos, que iam até o seu queixo, moviam-se como cascatas de fios lisos e negros, conforme reagia à partes da história. O sorriso que brilhava, era o mesmo que durante anos eu estava acostumado de ver...
– Por quê está me encarando? – Zoe questionou.
– Nada, só estou perdido em meus pensamentos distantes – respondi.
– Você é quem está estranho hoje – ela fez uma careta. – Talvez todo esse ar livre tenha alterado as substancias do seu cérebro – fez um sinal exagerado com a mão para dar ênfase ao comentário.
– Falou a garota que estava paquerando o fogo – rebati.
Zoe mostrou a língua e mais um soco no meu braço, seu marco registrado. Depois, voltou a atenção para as palavras do menino, que recitava algo sobre as raposas.
O resto da noite passou-se como uma sombra, desde o círculo de histórias à momentos de silencio o intuito de ouvir os sons da floresta, o vento batendo nas folhas das grandes arvores, alguns animais noturnos que soltavam barulhos de alerta e o crepitar do fogo à alguns metros de onde estávamos.
Após um longo período, todos foram para as suas barracas. Eu dividia a minha barraca com a Zoe; nunca tivemos problemas com isso, dormíamos juntos desde os 6 anos de idade, porém naquela noite eu não estava confortável com a sua presença. As palavras de Rogers martelavam em minha cabeça.
– E se fosse real? – Perguntei a Zoe um pouco relutante.
– Do que está falando? – Ela respondeu se virando para me encarar.
– E se fosse real o que o Rogers disse? Aquela coisa sobre sermos um casal e tal – permaneci impassível, mas tenho certeza que estava corado.
Ela franziu a testa enquanto examinava o meu rosto. Depois de longos segundos agonizantes ela abriu um sorriso zombeteiro e respondeu:
– Eu nem consigo imaginar isso... digo, somos quase irmãos, você sabe disso.
– Sim... irmãos, claro... – tentei parecer convincente, pelo visto funcionou, ou ela deixou para lá.
– Vamos dormir bobinho, teremos um longo dia amanhã.
Concordei e logo peguei no sono.
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