O Tratador de Leões
2 Capítulo um — a morte de um homem bom
Notas iniciais
Edmund sempre achara que o correto era que chovesse em dias de enterro. Era quase uma falta de respeito que o tempo parecesse tão alegre, com seu céu azul sem nuvens e o sol brilhando, no dia em que alguém querido fosse enterrado. Quanto mais querido, mais chuva devia haver. Naquele dia, em particular, devia haver uma tempestade, daquelas de afundar tudo em água e de fazer transbordar os rios.
Ou então um furacão, embora ele não conseguisse ver Miraz feliz com a quantidade de destruição que isso traria. Não, a boa e velha chuva torrencial seria o suficiente. Pelo menos, combinaria com seu humor.
Ele vestia seu velho terno preto, que, apesar da idade, ainda cabia perfeitamente e mal parecia ter sido usado. Isso talvez se devesse ao fato de que ele só o usava em situações extremas, como reuniões megaimportantes, casamentos e enterros. Odiava o terno porque o fazia se sentir preso, com a gravata em volta do pescoço e o preto cobrindo cada espaço de seu corpo.
Ed estava surpreso com a quantidade de pessoas que apareceram. Geralmente, surpreendia-se com o quanto algumas pessoas eram queridas, mesmo que isso fosse óbvio (Miraz era o tipo de pessoa que se dava bem com todo mundo, por exemplo). Tinha o costume de tomá-las por si e, uma vez que tinha poucos amigos ou pessoas que se importassem com ele, imaginava que todos eram solitários assim. Era mais fácil encarar a própria solidão dessa maneira.
A maioria das caras ele conhecia e eram do circo ou dos arredores. Uma vez que Nárnia ficara parada por uns três anos num mesmo lugar por causa da doença de Miraz, a vizinhança se enturmara. A pequena capela onde, supostamente, haveria um velório familiar, encontrava-se lotada de gente de todos os tipos.
Era possível saber quem era quem muito facilmente: o povo do circo estava num canto, evitando falar ou olhar para quem quer que não fizesse parte de Nárnia e, principalmente, evitando o cômodo onde o caixão fora colocado. Ed entre eles e, ainda assim, separado. Sozinho num canto, olhando para o teto ou para a janela. Assim como ele, todos provavelmente se negavam a ver o corpo do homem que consideravam como uma espécie de salvador ou pai.
Ed, particularmente, queria manter em sua mente a imagem do homem que praticamente o criara vivo e sorrindo. Não importava que todos dissessem que ele estava num lugar melhor ou que parecia dormindoe em paz. Não se permitiria dizer adeus, não se isso significasse que a última memória que teria dele fosse de Miraz deitado num caixão, num daqueles ternos que ele sempre desprezara, com as mãos no peito e os olhos negros e profundos apagados para sempre.
Balançou a cabeça, como se tentasse impedir as lágrimas de cair. Não derramara nenhuma desde que recebera a notícia, três dias antes. Elas estavam constantemente sob a superfície, ameaçando transbordar. Era, talvez, pura determinação que as deixava trancadas na alma.
Ele não falou com ninguém durante todo o enterro, principalmente porque não havia nada para falar. Nunca fora de puxar conversas, e agora tudo em que podia pensar parecia banal. Ainda assim, encontrava-se pensativo. O que mais o preocupava, no momento, era o circo. Ele e os irmãos, é claro, podiam dar conta do recado. Com um pouco mais de esforço, suor, e mais trabalho duro: não teriam mais Miraz e seu dinheiro para ajudar com as despesas.
Miraz era o que todos chamavam de homem excêntrico. Amava seu circo mais que todas as coisas e tinha uma enorme reserva de dinheiro que usava para mantê-lo. O circo conseguia se sustentar, mas com uma parcela muito pequena de lucro, que chegara a quase zero nos últimos três anos.
O que o preocupava mais, no entanto, não era isso: estava confiante de que, uma vez que voltassem a viajar, conseguiriam uma renda maior. Também não era o fato de que, com o lucro tão baixo, tornava-se quase impossível contratar um tratador mais experiente para Aslan: era que, se Miraz tivesse deixado o circo para alguém que não os irmãos, ele corria o risco de ser vendido ou, pior, de falir.
Miraz sempre dissera que planejava deixar o circo para alguém da família. Queria que alguém do sangue Telmar estivesse na frente e, mais, era supersticioso a ponto de acreditar que Nárnia só faria sucesso enquanto algum descendente estivesse no comando. Edmund não era tolo o bastante para acreditar que ele contrariaria isso e deixaria Nárnia para Peter. Ou para ele.
O relógio batia seis da tarde quando o corpo foi levado da capela. Miraz seria enterrado no cemitério local, sob uma enorme lápide de mármore. Fora Edmund quem escolhera, com a ajuda de Lucy. Os dois concordaram que, se estivesse vivo, Miraz aprovaria a escolha. Havia uma enorme estátua de um leão que mostrava os dentes e que, estranhamente, lembrava Aslan.
Comprá-lo fora a última decisão que fizera em vida acerca do circo.
Sim, ele, com certeza, aprovaria.
Ed não seguiu a procissão até o cemitério, não queria ver o fim de tudo. Tinha medo de que, uma vez que seu caixão fosse baixado, a ficha caísse e ele se sentisse pior. Já se sentia mal o suficiente; como se uma parte dele estivesse faltando e nunca fosse voltar.
Alguns chamariam de saudade. Ele não sabia o que era, mas sabia que queimava profundamente. Doía. Ele ficou ali, parado por longos minutos, antes que sua irmã chegasse.
Lucy tinha os olhos inchados e o rosto todo molhado. Seu cabelo escuro estava preso numa trança bagunçada, e suas roupas estavam um pouco amarrotadas. Ela parou do seu lado, enterrou o rosto em sua blusa e o abraçou forte, como só ela sabia fazer.
Isso o fez se sentir ligeiramente melhor. Ligeiramente. Ele passou a mão por suas costas, devagar, enquanto ela soluçava e colocava para fora tudo o que precisava colocar. Também não tivera forças para seguir todo mundo até o cemitério e dizer o último adeus.
Peter e Susan também chegaram, mas nenhum dos dois se aproximou demais. A situação toda era muito familiar: era quase a mesma cena de cerca de quinze anos atrás, quando foram abandonados. Os quatro, juntos, a última família que restara, a mesma tristeza no rosto, o mesmo coração partido. A única diferença era, talvez, aquela parede invisível entre ele e os irmãos.
A dor, porém, era maior agora. Edmund não imaginava que um dia se sentiria pior do que se sentira naquele dia, nem que isso sequer fosse possível.
A vida sempre parecia encontrar prazer em provar que ele estava errado.
— Lu? Edmund? — Peter chamou. Ainda era amargo ter de ouvi-lo chamar seu nome inteiro, e não o apelido que quase todo mundo usava. — O advogado de Miraz disse que precisa falar conosco. Alguma coisa a ver com o testamento.
— Ele ligou, ou o quê? — Lucy perguntou num fio de voz e enxugou as lágrimas.
— Ligou. ‘Tá esperando a gente no escritório dele. Eu disse que ia ligar de volta para confirmar se iríamos hoje… — Peter lançou um olhar para Ed, analisando-o. Edmund mexeu os pés, desconfortável, mas devolveu o olhar.
Não queria ir embora, mas conhecia a necessidade. Se fossem só ele e Miraz, provavelmente ficaria por ali até o anoitecer, até que todos já tivessem ido embora, mas tinha o circo e todos aqueles detalhes legais para resolver.
Sabia que seus irmãos, embora já estivessem relativamente acostumados com a burocracia, não conseguiriam resolver tudo aquilo sem a sua ajuda. Não queria deixar para o dia seguinte porque sabia que, em épocas de crise — e ele já estava prevendo que uma aconteceria, porque o circo tinha acabado de perder o principal patrocinador —, cada hora era importante.
Edmund sempre achara o escritório do advogado um tanto frio. Não de temperatura, mas de ambiente. As paredes eram brancas, a mesa era de metal, ele sempre estava com um terno e uma gravata cinzenta. Ainda mais naquele momento, quando segurava os papéis que definiam o seu futuro e o futuro do circo e não demonstrava nem um pouco de empatia ou o mínimo sentimento pela morte de Miraz.
Ele acabara de ler o testamento, e o silêncio se abatera sobre o cômodo. Os irmãos ainda tentavam engolir o fato de terem herdado dez por cento do dinheiro de Miraz, que, embora não fosse a fortuna de outrora, ainda era uma quantia considerável e muito, muito mais do que cada um deles jamais sonhara possuir.
Também tinham ficado sabendo sobre o novo dono do circo — Caspian, sobrinho dele — e sobre a condição de o circo não poder ser vendido. Miraz era, no final das contas, um homem muito esperto, mesmo quando estava à beira da morte. A sua bondade geralmente mascarava esse fato, mas não fazia com que parasse de existir.
Isso resolvia alguns problemas… e trazia outros. O circo teria que aprender a lidar com uma pessoa nova, e Edmund, em particular, teria que aprender a esconder o seu passado, porque duvidava que o tal Caspian seria indulgente como fora Miraz ao perdoá-lo. Suspirou, tamborilou os dedos na mesa e lançou um último olhar para os seus irmãos, ignorando completamente a presença do advogado ali.
Sabia que nenhum deles pegaria o dinheiro e iria embora, porque o circo fora a única casa que eles conheceram. Sabia também que, se fosse preciso, cada um deles abriria mão do dinheiro para mantê-lo. O circo, por hora, estava a salvo.
E isso era o suficiente.
Fale com o autor