O Tratado
2 Primeiro emprego
Millo chegou no banco exatamente no horário marcado, com o cabelo penteado, a barba feita e com seu único terno preto. Esperou o gerente chegar para o receber.
- Suponho que você seja o sr. Helders?
O gerente era um homem calvo e grisalho, vestido com um terno cafona e sapatos lustrados. Era baixo e contrastava com os 1,85 metros de Millo.
- Sim, senhor. Sou eu.
- Vou mostrar onde você vai trabalhar.
Ele o guiou até o uma mesa na parte dos fundos do branco. Havia apenas um computador e vários papéis em cima da mesma.
- O trabalho é bem simples. Você senta aqui e espera que os outros te tragam os números que você deve inserir nessa planilha, entende? Até um macaco poderia fazê-lo, sem ofensas.
- Não me ofendeu.
- Então Millo, posso te chamar assim, Millo? Ótimo. Escute Millo, você é estudante, certo? Porque normalmente esse emprego é oferecido a universitários. Em que faculdade você estuda?
- UCLA – mentiu Millo novamente, assim como tinha feito no currículo. – Estou cursando Literatura Inglesa.
- Ótimo curso, simplesmente ótimo. Então Millo, eu vou estar no meu escritório. Você pode me procurar se tiver qualquer tipo de dúvida. É bem ali. – Ele apontou para uma porta de vidro onde se lia Gus Poloski – Gerente.
Millo se sentou na sua mesa e tentou se ajeitar na desconfortável cadeira de couro. Ele não estava acostumado a usar gravatas e só queria tirar a sua. Olhou em volta da sala. Várias pessoas, na sua maioria mulheres, estavam sentados em suas respectivas mesas e digitavam em seus computadores. Ele mexeu no mouse do seu, para ver se o computador estava ligado. Abria direto na planilha em que ele devia inserir os números. O seu primeiro trabalho chegou. Um homem vestido de terno e com o crachá do banco o entregou uma pasta sem nem olhar para ele. Millo digitou os números no computador. Era simples, e depois da décima pasta ele descobriu que também era extremamente entediante. Em duas horas já havia se levantado para se servir do café aguado da cafeteira sete vezes.
- Ei, bonitão – chamou uma das funcionárias. – Não acabe com o café a não ser que você vá fazer mais.
Ele pegou a caneca e voltou para a sua mesa. Já tinham mais cinco pastas em cima da mesa. Abriu a primeira e digitou alguns números. Ele estava entediado e cafeinado. Nunca tinha tido um emprego antes. Costumava sobreviver de empregos provisórios, na maioria ilegais. Sua namorada tinha conseguido esse emprego para ele, que decidirá dar uma chance ao mundo enfadonho dos que pagam impostos e trabalham das nove às cinco, ou no seu caso, das sete às seis.
- Senhor Poloski? – Millo bateu na porta e em seguida abriu.
- Olá, Millo. Então, gostando do emprego? Está tudo bem? Precisa de ajuda com alguma coisa?
A mania de falar demais e fazer várias perguntas em tão pouco tempo estava começando a irritar Millo, mas não por muito mais tempo. Ele se sentou na cadeira em frente da escrivaninha do gerente.
- O trabalho é excelente. Você estava certo, até um macaco poderia fazer meu trabalho.
- Sem querer dar uma de chefe chato, mas o que você está fazendo aqui então?
- Estou pedindo demissão.
- O que?! Você só está aqui há três horas! Sr. Helders, você tem noção de quanto esse cargo é concorrido? Milhares de jovens de Los Angeles matariam por esse emprego. Eu sei que pagamos pouco, mas é dinheiro garantido e um trabalho numa grande firma.
- Eu sei disso. Agora algum deles vai poder ficar com a minha mesa. Tenha um bom dia, senhor.
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