O Traidor

12 - O lamento da viúva - pt. 2


Notas iniciais
" Toda a dor deseja ser contemplada, ou então não será sentida. "

Seus sorrisos, suas dores, suas lembranças.

Era uma tarefa árdua para Mari esquecê-los, para poder adentrar-se no altar.

Mari se lembrou de Sieg, seu jeito desleixado, suas piadas repugnantes e de seu sorriso.

Ela sorriu abertamente, deitou-se na neve e conseguiu apagar sua memória, a mesma alcançara o equilíbrio, sua mente estava vazia.

Sua cabeça doía, suas costas estavam quase congeladas.

- Você conseguiu! — Exclamou Ryan, levantando-a. — Mas você caiu assim que entrou aqui!

Mari abriu novamente seus olhos, suas memórias vieram à tona.

- Que dor de cabeça... — Disse ela.
- Você se acostuma! — Disse Ryan, sorrindo para a mesma. — É difícil, mas você aprende à conviver com a dor!

O chão negro coberto com a neve e tochas apagadas nos pilares.

Logo à frente, uma pequena escadaria com uma grande estátua da deusa, inteiramente prateada.
Era o túmulo de Juriore.

- Veja! — Disse Mari, olhando para a estátua. — Deve ser o túmulo.
- Então a essência está aqui! — Exclamou Ryan. — Rápido, fique de olhos abertos!

Ambos subiram correndo as escadas e contemplaram de perto aquela finíssima escultura.

A forma humana de Juriore, empunhando uma balança prateada.

O tempo passa, ambos os jovens expressavam esgotamento profundo e tédio.

- Ah, acho que os inimigos nem sabem da existência da essência! — Exclamou Mari, sentada na pequena escadaria.
- Não há sinal, acho melhor retornarmos, passamos três horas aqui! — Vociferou Ryan, bocejando.

Ambos se levantam, caminhando até o portão.

Seu corpo cai violentamente no branquíssimo tapete de neve, pesado como chumbo, sua visão totalmente confusa e seus braços ardendo fortemente.

- Você fica no chão, vadiazinha! — Exclamou, sua voz estava rouca. — Cífus, pegue o orelhudo para que Narciso faça o resto!

Mari sentia um peso colossal esmagando suas costas, como se um monólito despencasse sobre a mesma, uma mão com uma luva negra tampava sua respiração e seu óculos estava quebrado, cortando seu rosto.
Ela tentava desesperadamente gritar, não conseguindo.

O seqüestrador gargalhava doentio, enquanto assistia o desespero de Mari.

Ryan vislumbrava uma figura acinzentada à sua frente, não possuia face, usava uma máscara metálica que a cobria totalmente.

Arrepios, insegurança, ansiedade.

A sensação que o jovem elfo sentira era indescritivelmente insuportável, sua amiga estava caída com uma gigantesca faca apontada para sua cabeça, as gotas do sangue de Mari estavam pingadas no chão.

O frio piorava as condições, perfurando o corpo de Ryan como se fosse uma espada invisível.

- É triste, não é? — Bradou Cífus, cara à cara com o elfo. — Vocês não sairão vivos daqui, triste...

O estranho homem acinzentado à sua frente estendeu sua mão à Ryan, como se estivesse querendo que Ryan o presenteasse com algo.

- Vamos logo, orelhudo. — Exclamou, demonstrando raiva. — Me dê a essência, sei que está com um de vocês!
- Não está com essa daqui! — Gritou Cífus, retirando sua mão do roupão branco de Mari. — Onde está a essência, vadia?

Cífus retirou a mão da boca de Mari, a mesma gritou insanamente alto.

- Não revele, Ryan! — Gritou Mari, agüentando o extremo peso em suas costas.
- Calada sua putinha! — Disse Bastan, puxando seus cabelos.

Ela sentia seu couro cabeludo sendo lentamente arrancado de sua cabeça, liberando uma excruciante dor.

- Então, nos entregue a essência e prometo que a morte dos dois será rápida e indolor. — Exclamou Cífus, estendendo sua mão mais e mais.

Cífus é arremessado para trás, batendo sua cabeça na pequena escadaria.

A expressão de Ryan estava séria, determinada.

- São vocês dois que não sairão vivos daqui! — Gritou Ryan, arrancando seu espesso casaco e retirando sua foice esverdeada de seu cinto dourado.

O mesmo corre rápidamente até Bastan e Mari, seus passos ecoavam pelo altar, Mari forçava sua visão ao máximo para conseguir enxergá-lo.

- Não, não! Fica quietinho aí ou essa daqui morre! — Gritou Bastan, atônito.

Ryan parecia não se importar com a ameaça de Bastan, continuava se aproximando frenéticamente da garota.

- Parece que seu amigo é um traidor, não é? — Debochou Bastan, nervoso. — Ele realmente não se importa com você!

Mari estava confusa e extremamente aterrorizada, ela sentia como se a gigantesca faca apontada para sua cabeça estivesse perfurando seu crânio lentamente.

Bastan estava atônito, o elfo desgovernado com cabelos de labareda avançava, incansável.

Em um destemido e bem sucedido ato, Ryan consegue chutar o rosto de Bastan, que cai ao lado da escadaria, antes que o mesmo perfurasse a cabeça de Mari.

Mari estava estendida no tapete de neve, seu corpo estava dormente e o corte em seu rosto possuia uma aguda e chatíssima dor.

- Vamos logo! — Gritou Ryan, pulando na frente de Mari, caída. — Levantem-se, covardes!

Ryan não desejava fugir, ele suportou ver sua amiga sofrer, ele queria matá-los.

- Você está bem? — Perguntou Ryan, observando os dois seqüestradores se levantando. — Está?

Mari fazia força para conseguir se levantar, sua cabeça e costas doíam demasiadamente.

- Levante-se, Mari! — Disse Ryan, confuso, olhava para sua companheira caída e para os seqüestradores.

Ryan estava nervoso, incerto, desprotegido.

Mari tentava se levantar, ela não agüentava seu próprio peso.

Ryan não podia ficar ali esperando pela ação do inimigo e também não podia atacar em um movimento precipitado.

Cífus se levanta, sua obscura máscara possuia um formato peculiarmente terrível.
Ao seu lado, Bastan estava com a testa ensangüentada.

- Olha o que você fez! — Gritou Bastan, com sua mão no ferimento.

Ryan percebeu que os dois homens não eram poderosos, os dois estavam demonstrando sinais de esgotamento.

Era sua chance para atacar, correndo até eles, o rapaz cortava a neve na tentativa de cegá-los.

Bastan é obrigado a se jogar, para ficar fora do longo alcance do elfo, batendo seu braço em um dos pilares.

Cífus bloqueou sua investida, seu braço tremia muito, o mesmo estava atônito.

O chão estava arranhado, Mari estava sentindo muita dor e estava de prontidão enquanto observava os dois homens à sua frente duelarem. Ryan aproveitou a pequena distração e desferiu um enorme soco no rosto do oponente, seus olhos se viraram violentamente e Cífus estava estendido no chão.

Ryan correu rápidamente até o fracassado inimigo, jogando-o contra um dos pilares, desferindo vários socos em sua barriga, Cífus sentia como se vários martelos fossem jogados contra sua pele, sua máscara ainda estava fixada em seu rosto.

A perna de Ryan não demonstrava sinais de fraqueza ou dor, os punhos de Ryan estavam manchados com o sangue do inimigo e a face de Ryan refletia o mais extremo ódio.

Bastan se levantava silenciosamente, ainda empunhando a afiadíssima faca, o mesmo caminhava ofegante até a garota caída, sorrindo sádicamente.

Por último, Ryan desferiu um profundo corte no peito de Cífus, jogando-o em Bastan, ambos caem.

- Desista, você morrerá! — Disse Ryan, observando o violento corte no peito do inimigo.

O sangue manchava o chão, abundante, Bastan fora obrigado à afastar o corpo de seu companheiro para seu lado.

- Você está bem, porra?! — Exclamou Bastan, perturbado com o ferimento no peito de seu companheiro.
- Chame-o, logo! — Gritou Cífus, com sua mão no ferimento.

Bastan gargalhou terrívelmente, seus dentes rangiam e seu olhar estava aparentando vitória.
Com a afiada faca que estava empunhando, o mesmo estende seu braço e desfere um pequeno, porém doloroso corte no mesmo.

Pressionando sua outra mão contra o corte, ele ria sádicamente, doentio.

Ryan estava ao lado de Mari, abraçando-a.

- Do quê está rindo?! — Exclamou, desconfiado. — Responda!
- Você quer nos matar, elfo maldito? — Disse Cífus, tirando sua mão de seu ferimento.

Bastan ainda sorria, levantou-se e caminhou até os dois jovens, Ryan estava tentando proteger Mari.
Um corpo atirado, Bastan foi jogado contra a escadaria em uma velocidade violentamente ridícula, batendo suas costas e gritando de dor.

Mari empunhava seu grimório, ela estava ofegante.

- Muito bom! — Disse Ryan, sorrindo para ela.
- Você é muito rápido, Narciso! — Exclamou Cífus, estendido e ensangüentado.
- Nar...? — Perguntou Ryan...

A pele de Mari empalideceu, seus olhos estavam mortos e esbranquiçados, seu corpo estava pesado como ferro e seu grimório estava caído.

Ela desmaia.

- Mari?! — Gritou Ryan, com as mãos no ombro da garota. — MARI!

Seus olhos bicolores estavam distantes e mortos e seus longos cabelos azulados estavam estendidos pelo chão frio.

Ryan estava totalmente confuso, sua amiga desmaiou súbitamente e o outro homem gargalhava, doentio.

A mão que empunhava sua foice se elevou até sua garganta, Ryan não estava entendendo, uma força invisível o obrigava.
A foice estava logo à frente de seu pescoço.

Ryan utilizando todas suas forças, desfere um grande empurrão no ar.

Um homem pálido como a neve, usando uma venda cinza em seus olhos estava diante de Ryan.

- Quem é você?! — Perguntou Ryan, caído.

O homem não respondeu, deixou à mostra um estranho colar reluzente que parecia estar vivo, apontando para Ryan.

Súbitamente, o casaco de Ryan estava em chamas, obrigando Ryan à jogá-lo longe, seu corpo estava com queimaduras, que doíam insuportávelmente.

O homem segurava seu colar, Ryan tentava não encará-lo.

- O colar exerce controle sobre aqueles que o vêem. — Grunhiu Narciso.
- O quê você fez com ela?! — Perguntou Ryan, suportando a dor das queimaduras e tampando sua visão.

Narciso estava calmo, observando a jovem desmaiada e o elfo machucado.

- Você parece ser agradável. — Disse Narciso, frio. — Sinto muito por isso.

O homem de cabelos brancos caminhou até o elfo, sua foice estava caída, distante.

Apontando novamente para Ryan, vários cortes surgiram no corpo do rapaz, gritando de dor.

- COMO VOCÊ FAZ ISSO?! — Gritou Ryan, agonizando.
- Seu corpo me pertence, cada célula do mesmo, me pertence. — Disse Narciso, apontando para ele. — Você está sobre minha influência.

Ryan não agüentava, os cortes eram excruciantes.

O colar em seu pescoço brilhava, cegante.

- Ele morrerá logo, a outra está desmaiada, porém já está sobre minha influência. — Disse Narciso. — Já podemos pegar a essência, vamos.

Ryan estava tentando proteger Mari da influência de Narciso, cobrindo-a com seus braços queimados.

- Sua tentativa é válida, porém inútil, veja. — Exclamou Narciso, apontando para Mari.

Os braços de Ryan súbitamente ficaram molhados, estranhando, o mesmo percebeu que estavam manchados com sangue, manchados com o sangue de sua amiga.

- Não, pare! — Gritou Ryan, lágrimas caíam de seus olhos. — Por favor, deixe-a em paz!

Narciso parou, Mari estava envolta em uma grande poça de sangue, Ryan estava horrorizado.
O homem pálido se virou, caminhou até a escadaria.

Bastan e Cífus se levantam, este último ainda estava machucado.

- Vamos pegar a essência. — Disse Narciso, colocando sua mão sobre a estátua de Juriore.

Bastan estava admirado com a força de Narciso, seus olhos transmitiam orgulho.

Retirando novamente seu colar, a estátua súbitamente é destruída, reduzida à pó.

Uma grande tumba branca, com o símbolo do equilíbrio.

Violando o local de descanso de Juriore, a tumba é aberta.

- Está aqui... — Disse Narciso.

O mesmo segurava uma esfera esverdeada, brilhante e mística.

- Vamos sair daqui, porra! — Exclamou Cífus. — Tá doendo muito!

Narciso é jogado para fora da escadaria, a essência estava caída no brilhante e gélido chão.

Um grande lobo negro, possuia queimaduras e cortes em seus negros pelos, estava ofegante e exausto.

Bastan e Cífus não conseguiram distinguir quem ou o quê, estavam horrorizados observando Narciso se levantar.

- Você n-não ficará com a essência! — Gritou Ryan, rugindo.
- Eu não queria chegar à esse ponto, porém... — Disse Narciso, fechando seu punho em direção ao elfo.

O sangue saía do peito e da boca do lobo, fazendo-o despencar, rugindo de dor.

Tirando a essência do chão, Narciso mandou os outros dois homens se aproximarem. Uma chama esbranquiçada os engoliu.

- Ainda não!

Um jato de luz avermelhado fora lançado contra Cífus, impossibilitando-o de partir.
Ryan rastejou até Mari, ambos sangravam muito, o druida estava ofegante e não possuia esperanças.

Deitando-se ao lado de sua amiga, Ryan dá seu último sorriso.

- Eles levaram a essência, Ryan, por quê você não os impediu?!

Os rostos de Lire, Arme e Lass surgiram na névoa, em um círculo de fogo.

- Meu deus... Lire!

Ao ouvir os gritos horrorizados de Arme, Lire seguiu os rastros de sangue com um excruciante aperto em seu peito.

Rápidamente ajoelhando-se diante de Ryan, a elfa entra em prantos.

- O quê aconteceu?! — Gritava Lass, na escadaria, perto de Cífus.

Ryan estava com a mão no rosto de Lire, manchada com as lágrimas da mesma.

- Você prometeu... — Exclamava ela, chorando tristemente. — VOCÊ PROMETEU!

Lágrimas saíam dos olhos de ambos os elfos, Arme observava aquela horrível cena, os lábios de Ryan se abriam lentamente.

- Lire... — Grunhia Ryan, ensangüentado. — Me prometa que você cuidará bem dele...
- Não, você me ajudará! — Exclamava Lire, horrorizada. — Por favor, você me ajudará!

A roupa branca de Lire estava vermelha com o sangue de Ryan, ela não sabia o que fazer, só estava focada na resposta do rapaz.

- V-você deve contar à eles... você deve... — Grunhia Ryan.
- Não!

A névoa engoliu os três jovens, Arme estava ajoelhada ao lado de Lire, socorrendo a jovem tecnomaga, precipitadamente.

- Lire, quero que você saiba... Você foi a pessoa mais encantadora, meiga, que eu já conheci... — Grunhia Ryan, acariciando o rosto da elfa.
- Por favor, não... — Disse Lire, brilhantes lágrimas caíam de seus olhos esverdeados.
- Eles te ajudarão, por favor... — Balbuciava Ryan.

O sangue dos jovens manchava o negro e gélido chão, uma horrível cena, a tumba violada e o ambiente obscuro reforçavam o clima fantasmagórico.

Uma triste cena, a união élfica.

- Merda, eles roubaram a essência! — Exclamou Lass.
- Venha logo aqui, precisamos retornar urgentemente! — Gritou Arme, desesperada.
- Lire, cuide dele, por mim...

Lass correu o mais rápido que suas pernas permitiam, carregando o corpo imóvel de Cífus em seus ombros.

Os olhos do druida se fecham, para sempre.

A mão de Ryan vai ao chão, manchando o rosto de Lire com seu sangue.

Sonhos destruídos, corações estraçalhados, Ryan estava morto.

Arme observava seus dois companheiros estendidos no chão, ambos envoltos uma grande mancha vermelha.

A expressão de Lire ao encontrar seu parceiro a esvair-se em sangue era algo indescrítivel, toda a beleza de seus olhos esverdeados havia desaparecido, suas esperanças, sonhos, desejos, estava tudo acabado.

O túmulo bruscamente aberto, a maravilhosa estátua de Juriore destruída.

Lire chorava sobre o corpo de Ryan, inerte.

Arme estava com o rosto alagado, suas lágrimas eram abundantes e pesadas.

O peito de Ryan possuia fortes queimaduras e graves cortes, seu sangue possuia uma cor escarlate, viva.

Os olhos azulados de Mari estavam pálidos, o frágil abdômen da mesma possuia os mesmos cortes, seu grimório estava caído.

A elfa estava sozinha, suas emoções cruelmente estraçalhadas como se fossem feitas de papel, todo aquele amor nutrido secretamente, dessangrado.

O grandioso altar abrigava a tristeza e a incompreensão, o sangrento sentimento chamado sofrimento, a dor da perda e desunião.

O brilho de seus olhos esverdeados como esmeraldas estava apagado, suas mãos apertavam o corpo de seu companheiro.

Seu espírito clamava.

Lágrimas caíam sobre o peito de Ryan, a mão de Lire se elevou até os lábios do mesmo, segurando-os levemente.
Ela o beija, seu último beijo.

A brancura imaculada era perturbada por fortes tons de vermelho.

- Dois idiotas em uma só tentativa, que patético! — Debochava Cífus, expressando agonia e medo em seu tom de voz.

A viúva levantou-se, a figura esbranquiçada, a elfa.
Andando tristemente na direção de Lass, Cífus estava estendido na vermelhidão.

- Você virá conosco! — Exclamou Lire, apertando seu pescoço.
- Você quer se vingar, quer?! — Questionou Cífus, novamente expressando medo.
- Não. — Exclamou Lire, segurando-se para que sua mão não o enforcasse. — Lixos como vocês não merecem nossa atenção.

Um grande círculo desenhado ao redor da mancha avermelhada.

Olhos fechados, visão distorcida, isso foi tudo.

- Por favor, alguém nos ajude! — Gritou, desesperada.

Os dois corpos estavam ao relento, a neve manchava seus cabelos e duvidosas lágrimas caíam de seus olhos. O sangue novamente estava abundante, transformado em uma grande poça.

Seus longos cabelos dourados batiam em seus olhos esverdeados, juntamente com suas lágrimas cristalinas.

A agonia e incompreensão perfuravam sua mente, acompanhadas pelo questionamento, ela se esforçava para encontrar uma possível resposta para aquela súbita tragédia.

Os ferimentos de Mari estavam cobertos com o manto esbranquiçado de Arme, a mesma a abraçava, na tentativa de ajudá-la.

O feitiço de Arme só era possível até ali, o mais perto possível do vilarejo.

Os jovens vislumbravam o pequeno e majestoso vilarejo, ao longe.
A sensação era de extrema ansiedade, clamando por algo práticamente impossível.

Era tarde demais, os dois jovens estavam mortos.

A silhueta de alguém era vislumbrada, ao longe.
Uma mulher de cabelos castanhos e pele clara, trajando um longo e espalhafatoso vestido avermelhado, segurando uma tesoura prateada em sua mão esquerda.

- Meu deus, sem explicações, apenas leve-os até minha casa!

Ryan fora gentilmente colocado em um móvel aveludado, seus braços colocados sobre seu peito.

A figura pálida e esbranquiçada da viúva, observando a chama da lareira.

Gotas de sangue escarlate caíam no chão amadeirado, nos aposentos da senhora de meia idade, Lire se distraiu com os coloridos quadros na parede e com a exagerada decoração.

O ar feliz e descontraído fora substituído pelo gótico e sombrio, os dois corpos estendidos no móvel e as gotas de sangue no chão.

A figura do ninja adentrou-se, carregando um homem mascarado e ensangüentado, seu olhar carregado com o ódio e a incompreensão.

- Ela foi chamá-los... — Vociferou, emocionado.

A jovem de cabelos dourados estava abatida, seus olhos estavam caídas e incolores, seu rosto ainda manchado pelo último movimento do druida.
Observando o mascarado com desdém, apertando fortemente sua outra mão.

- Jogue-o no chão.

Imediatamente, um estrondo seguido de uma longa troca de olhares por parte dos dois jovens.

O corpo de Cífus estava pesado, o corte em seu peito era gravíssimo, o feitiço paralisante de Arme ainda fazia efeito.

- Cádmo é um conhecido meu, tenho certeza que eles serão salvos! — Disse a mulher, tentando acalmar a jovem atônita. — Eu deveria estar chutando vocês de minha linda casa, ela está toda manchada de sangue!

Lass desviou seu olhar para a brincalhona mulher, seus cabelos molhados e seus olhos penetrantes e odiosos.

- Há duas pessoas ensangüentadas, não sabemos se estão vivas ou mortas, você quer ficar de boca calada? — Exclamou Lass, novamente olhando para a triste figura de Lire.

A mulher não respondeu, desviou seu olhar para os dois corpos cobertos por um cobertor esbranquiçado.

- Vocês me desculpem, não posso fazer nada... — Lamentou, caminhando até Lass.

A mulher caminhou lentamente até o rapaz, até ficar lado a lado com o mesmo.

- Por acaso, o rapaz de cabelos alaranjados é alguém importante para ela? — Perguntou, em um baixíssimo e imperceptível tom.

Lass fixou seu olhar na lareira, observando os cabelos da garota.

- Há algum tempo, os dois andam muito próximos... — Vociferou Lass, com o olhar distante.
- Já entendi, matrimônio élfico...
- O quê?
- Nada... — Grunhiu a mulher, sorrindo vergonhosamente.

Adentraram-se, uma Elesis inexpressiva, concentrada e atônita, uma garota de cabelos rosados em prantos e desesperada.

Um jovem de cabelos negros rápido e inquieto, um rapaz de cabelos azulados de passos firmes e rápidos, nervoso e desentendido.

Um homem de cabelos brancos, expressando desdém, uma grande mulher logo atrás do mesmo.

Imediatamente, um pequeno homem de cabelos negros e óculos adentrou-se.

- Meu deus, o quê houve?! — Perguntou Elesis, correndo até Lire. — Quem é a senhora?
- Desculpe, eu os encontrei perto daqui, estavam todos sujos e ensangüentados... — Vociferou a mulher, desesperada.

Elesis abraçou Lire, fortemente, enquanto lágrimas caíam de seus olhos.

- Lire, o quê houve, Lire?! — Exclamava Elesis, observando a pálida e inexpressiva jovem.

Sieg estava com a mão nos cabelos de Mari, o mesmo chorava.

- O quê houve com eles, quem é esse homem caído?! — Questionou Jin, confuso. — Alguém ajude!

O pequenino homem cortou caminho rápidamente, esbarrando nos jovens e chegando até os dois corpos cobertos.

- Eles perderam muito sangue, vocês precisam sair! — Exclamou, abrindo bruscamente seu grande casaco.

Elesis estendeu sua mão para a jovem elfa, erguendo-a e abraçando-a em seguida.

- Por favor, nos conte...

A garota permaneceu calada.

Todos caminharam até o relento, o clima estava pesado e confuso, o céu estava negro.

Uma última lágrima lentamente deixa o olho verde-esmeralda da garota.

- Eu... me uni à ele no matrimônio élfico... — Vociferou Lire, sua longa franja dourada batia em seus tristes olhos, seus lábios se entreabriram novamente. — Eu... estou grávida...