O Traidor

11 - O lamento da viúva


Notas iniciais
" Toda a dor deseja ser contemplada, ou então não será sentida. "

Seus corpos jaziam naquele violento e terrível local, as forças naturais foram mais fortes. Prostrados naquela imensidão, eles sentiam seus olhos lentamente se fecharem e sua respiração vagarosamente se cessando.

Era o fim, seus corpos não possuiam esperança, teria sido a natureza mais poderosa que o imenso exército de Cazeaje?

Sucumbindo ao imparável e imponente poder do destino, a vida lhes pregou uma peça, mortal.
Últimos movimentos eram dados pelo fracassado grupo, seria esse o fim?

A morte havia jogado seu gélido e mortal véu sobre suas faces.

- " Venha ver, corra! "

A visão castigada de Arme conseguia enxergar quatro figuras encapuzadas ao redor dos corpos de seus amigos enquanto o frio os castigava violentamente.

- " Eles ainda estão vivos! Rápido, me ajude! "

A garota sentiu como se estivesse sendo erguida, seus cabelos caíam sobre seus olhos. Ela sentia como se estivesse em movimento, tudo estava balançando, não conseguir mover seus braços e pernas, tudo em seu corpo doía.

A garota sentia seu corpo sendo cuidadosamente colocado em lugar de repouso, gravemente danificado pelo recente gélido tormento. Junto com a sensação de vários olhos a observando, mas não era uma sensação má, era boa.

Ela poderia descansar, seu corpo estava leve e não mais congelado, seus olhos brilharam novamente e a palidez de seu rosto havia desaparecido, ela estava bem.

– Você demorou muito para acordar, Arme. – Vociferou. — Já estava ficando preocupada.

Seus olhos lentamente se abriram, vislumbrando um calmo e contente ambiente, deitada em uma confortável cama. Ao seu lado, Arme contemplou a penumbra da face de sua companheira, seus longos cabelos rosados bem cuidados e seu fervoroso sorriso, era Amy.
Arme não respondeu, sentia como se uma pequena chama queimasse por perto.

Virou seu pescoço lentamente para não sentir dor, observou o cômodo e logo avistou sua incessável chama escarlate, prestes a se apagar pois estava fraca.

– Onde... onde nós estamos? – Perguntou Arme, em um baixíssimo grunhido similar ao canto de um pássaro.
– Fomos encontrados pelos habitantes locais, eles nos trouxeram até sua vila. – Respondeu Amy, trajando um cachecol vermelho.
– H-habitantes locais? – Balbuciou Arme, novamente.
– É uma longa história, são devotos de Juriore, eles vivem aqui para contemplá-la e... – Explicou Amy, sendo interrompida pelas agudas palavras de Arme.
– Devotos de Juriore? – Perguntou a garota, muitíssimamente curiosa.
– Sim, eles realizavam e ainda realizam várias homenagens a esta. – Disse Amy, de braços cruzados, com um olhar distante.

Arme demonstrou um sinal de dúvida com seu olhar e levantou-se, sentiu como se suas costas fossem esmigalhadas por uma pilha de ferro, porém, sabia que a dor era passageira.

– Acalme-se, venha, vou te ajudar. – Disse Amy, levantando-a lentamente.
– Fiquei desacordada por quanto tempo? – Perguntou Arme, visualizando a belíssima face de sua companheira.
– Umas três horas, todos nós desmaiamos! – Disse Amy, sorrindo. – Mas você foi a última.

A chama conjurada por Arme estava se fortalecendo, pois a mesma não estava mais exausta, o clarão estava aumentando.

– Essa chama é incessável mesmo, não?! – Exclamou Amy, vislumbrando-a.
– Vou cancelar o feitiço... – Vociferou Arme, recitando algumas palavras desconhecidas em um agudo e baixíssimo tom.
– Venha, vou levá-la até os outros! – Disse Amy, com seu braço no ombro da pequena maga.
– Tudo bem... – Grunhiu Arme, receosa.

Seus passos não eram firmes, pernas e braços trêmulos, costas detentoras de uma lancinante e aguda dor, sua cabeça doía miserávelmente e sua mente trazia quinhentas perguntas por segundo.

As garotas saíram do local de repouso, passando por várias instalações no meio do deserto de gelo, era incrível imaginar que uma pequena civilização habitaria naquele inóspito e gélido inferno.

– Você parece estar com muito frio, garotinha! – Disse um morador, sorrindo para as duas garotas. – Tome, vista isso!

O morador lhe entregou um casaco branco, do tamanho de Arme e um gorro da mesma cor.

– Você ficou ótima, guerreira! – Exclamou, abrindo um fervoroso sorriso. – Ah, obrigado!
– Obrigado? O quê eu fiz? – Perguntou Arme, confusa, com seu dedo em seus lábios.
– Nós somos eternamente gratos à vocês por terem salvo nossa deusa! – Exclamou o morador, sorrindo para a inocente face de Arme.

Arme estampou um pequeno sorriso em seu rosto.

– Vocês devem estar ocupadas, vou deixá-las ir! – Disse, cumprimentando-as.
– Parece que as pessoas daqui são muito gentis... – Vociferou Arme, ajeitando seu gorro.
– São sim! – Exclamou Amy, novamente. – Vamos andando, eles devem estar todos atônitos!

Arme observava as marcas de seus pés na neve, ela estava incrívelmente feliz por estar viva.

Após alguns minutos e algumas fervorosas palavras, as garotas chegam em uma casa de aparência luxuosa, feita inteiramente de madeira e extremamente confortável.
As garotas adentraram-se na casa, Arme rápidamente se lembra do quartel, eram parecidíssimos. Quadros na parede, um grande lustre pendurado no teto, pequenas decorações nos móveis.

– Nossa, onde nós estamos? – Perguntou Arme, admirada. – Aqui é muito parecido com nosso quartel!
– Eu disse para Elesis que você diria exatamente isso! – Disse Amy, sorrindo.

Arme ouvia vozes, reconhecíveis e familiares.

– Eles estão aqui. – Disse Amy, com um olhar extremamente fervoroso.

Elas foram até uma grande sala, possuia uma grande lareira no centro e três grandes sofás rubros.

– Vejam, ela acordou! – Exclamou Jin, segurando uma xícara, trajando um casaco extremamente forrado.

Arme, após visualizar seu companheiro lutador, sentiu um pungente calor subindo até sua cabeça. Elesis não hesitou, levantou-se rápidamente e a abraçou fortemente.

– Nós estávamos muito preocupados... – Vociferou Elesis, demonstrando uma felicidade extrema.
– Eu estou bem, Elesis... Você... você está me apertando... – Grunhiu Arme.
– Me desculpe, é que eu fiquei muito preocupada com a senhora. – Brincou Elesis, soltando-a e contemplando sua face jovial.

Seus companheiros fizeram uma fila para poderem abraçá-la, Arme observou sentado em uma poltrona, um desconhecido homem. Após os longos cumprimentos, Elesis a levou até seu lugar em um dos sofás, Arme sentou-se e sentia como se estivesse afundando no confortável sofá.

– Arme, esse é o senhor Cádmo, ele é escritor e também é o fundador da vila, foi ele que nos encontrou! – Explicou Elesis.

Arme vislumbrou a silhueta do homem, ofuscada pelas fortes chamas da lareira.

Ela sentia o cheiro embriagador da bebida quente que eles estavam tomando enquanto contemplava os detalhes da sala.

– Você deve ser a senhorita Arme, muito prazer! – Exclamou o homem, levantando-se de sua poltrona e beijando a mão direita de Arme.

A garota ficara claramente envergonhada, suas bochechas estavam avermelhadas e sua voz ficou trêmula.

– É um prazer conhecê-lo também, senhor Cádmo... – Vociferou Arme, receosa, sentia algo estranho vindo de Cádmo.
– Presumo que a senhorita queira um pouco do nosso chá. – Disse o homem, despejando o chá na xícara da garota.
– É claro... – Grunhiu Arme, sem jeito.

Arme sentiu um leve e doce aroma no chá, não conseguiu distinguir o sabor, não tomava um chá delicioso igual à esse há muito tempo.

– Por quê o senhor nos chamou aqui, senhor Cádmo? – Perguntou Sieg, relaxado sobre o sofá.

A fervorosa expressão do homem rápidamente desapareceu e em seu lugar, linhas mais severas e preocupadas. Ele deu um último gole em sua xícara de chá, respirou fundo como se fosse mergulhar e olhou para as faces vivas e expressivas dos jovens à sua frente.

– Primeiramente, para cumprimentá-los, nós habitantes da vila somos muito gratos à vocês por terem purificado a nossa deusa... – Vociferou o homem, seu olhar estava profundo e receoso.

Os jovens o agradeceram e esperavam atônitamente pelo outro pronunciamento do mesmo, seus corações batiam fortemente, as mãos de Ronan estavam se fechando involuntariamente enquanto segurava a asa da xícara firmemente.

O suspense perfurava seus corpos, o silêncio de Cádmo era algo perturbador. O nervosismo de Cádmo era claro, sua respiração ofegante e confusa e seus membros trepidantes.

– Estou certo de que vocês... – Vociferou Cádmo, abaixando bruscamente o tom de sua voz para terminar. – ... de que vocês receberam o...
- Recebemos o quê?! — Interrompeu Lass, atônito.

Uma pequena pausa até Cádmo conseguir retomar, ele apertava a xícara com muita firmeza. Seus olhos estavam arregalados com uma extrema expressão de ansiedade.

– O chamado. – Balbuciou Cádmo, mantendo-se firme.

Os jovens olharam para Elesis, que estava surpresa.

– Foi você? — Perguntou Elesis. – Você que enviou aquilo?
– Sim... — Vociferou Cádmo, seu rosto estava pálido e inexpressivo. – É um assunto muito delicado para discutirmos, esperem...

A expressão dos jovens estava confusa, Elesis trocava idéias vãs com Ronan enquanto admiravam aquela sala. Cádmo se levantou de sua poltrona, seus movimentos confusos e parados, fechou as janelas que derrubaram um pouco de neve e olhou para todos os lados certificando-se de que ninguém estava por perto.

Ele sentou-se novamente, respirou fundo e seus lábios se abriram, lentamente.

– Venha cá! – Gritou Cádmo, com sua voz rouca e confusa.

Ele colocou suas mão sobre seus cabelos esbranquiçados e respirou fundo, suas mãos ossudas estavam trepidantes. Passos ecoavam como tiros, alguém muito grande estava vindo.

– O quê é isso? – Perguntou Arme, ouvindo o estremecedor barulho, assustada.

Lire e Ryan estavam confusos e atônitos, ambos estavam com as orelhas aguçadas.

Os passos estremecedores pararam e no batente da porta, imóvel, uma conhecida amiga.

- Olá, Veneze... – Grunhiu Cádmo, cabisbaixo. – Por quê não se senta?

Os jovens olharam fervorosamente para sua mais leal amiga, vislumbraram o longo vestido negro que a mesma estava usando, seu longos cabelos acinzentados e seu reluzente colar prateado.

– Olá! – Exclamou Veneze, sorrindo para os jovens, extremamente feliz.

Ryan a fitou com uma expressão de surpresa, ele nunca tinha visto Veneze com roupas mais casuais. Veneze caminhou até os jovens, sorrindo e com seus olhos brilhando, abraçou Elesis, Ronan e Arme de uma vez só.

– Você está tão... linda, Veneze! – Vociferou Elesis, sendo apertada pela protetora.

Cádmo não estava feliz com aquele reencontro, algo o incomodava.

– Por quê você não se s-senta... – Balbuciou Cádmo, apontando para uma poltrona vazia ao seu lado.

Veneze abraçava Lass, Jin e Amy.

– Espere um pouco! – Disse ela, indo na direção de Sieg.

Abraçou Sieg, Lire e Ryan e logo se sentou, risonha. Olhou para a garota de olhos bicolores e óculos, parecia acanhada.

– Você deve ser Mari, não é? – Perguntou Veneze, estendendo suas mãos para a garota.
– Sim, é um prazer conhecê-la! – Exclamou Mari, cumprimentando Veneze, ambas sorridentes.
– Então ele não veio, mesmo? – Disse Veneze, em uma espécie de frustração.

Elesis imediatamente ficou tristonha, abaixando sua cabeça.

– Veneze, nós não gostaríamos de falar sobre ele... – Balbuciou Ronan, em uma mista combinação de raiva e tristeza.
– Entendo. – Exclamou Veneze, sentindo as emoções de Elesis. – Então vamos prosseguir para o mais importante...

Cádmo ergueu sua cabeça, seu olhar estava extremamente aflito. Ele e Veneze trocaram olhares enquanto os jovens monitoravam minúciosamente seus movimentos.

– Vocês devem proteger o túmulo de gelo para que eles não se apoderem da última essência... – Explicou Veneze, em poucas palavras com um olhar de determinação.
– Essência? Mas o quê isso tem a ver? – Perguntou Jin, com as mãos juntas, confuso.
– Vocês não sabem o que eles estão pretendendo? – Perguntou Veneze, surpresa. – Não fazem a mínima idéia?

Os jovens se entreolharam, aflitos e assustados. Veneze respirou fundo antes de prosseguir, sua expressão macia estava mudando para uma mais atônita e desesperada.

– Eles pretendem recriar as duas armas... – Grunhiu Veneze, com uma pequena gota de fúria em sua voz. – Eclipse e Crescente.

Os jovens imediatamente ficaram atônitos e preocupados, a xícara de Jin estava sendo balançada e apertada violentamente, a ponto de cair.

– O quê? Nós destruímos a Eclipse à dois anos atrás! – Exclamou Elesis, nervosa.
– Crescente? Ela existe?! – Perguntou Amy, atônita. – Nós achamos que fosse uma lenda!
– Ela existe, todos nós achávamos que a mesma era apenas uma lenda, mas nós estávamos todos errados... – Grunhiu Veneze, com as mãos fechadas. – Agora eles pretendem recriar essas duas aberrações!

Arme se queimou com seu chá após ouvir as palavras de Veneze, ela estava horrorizada.

– Por favor, vocês precisam proteger o túmulo de gelo... – Súplicou Cádmo, ele suava frio.
– Mas o quê é esse túmulo de gelo? – Perguntou Lass, estarrecido.
– O túmulo de gelo, propriamente dito, é o local cujo Juriore está enterrada... – Explicou Cádmo. – Veneze era a possuídora da essência da recriação...
– Recriação? Nos expliquem! – Exclamou Lire, sentada ao lado de Ryan.

Veneze ficou silenciosa, seus lábios lentamente se abriram.

– Há algum tempo atrás, a essência era motivo de admiração por parte de uns e de ojeriza por parte de outros... – Explicou Veneze, estudando os jovens. – Ela não era propriedade dos deuses, então eles decidiram punir seu criador e destruí-la...
– Ojeriza? O quê ela fazia? – Perguntou Ryan, curioso.
– Espere, Ryan... – Disse Veneze, ela exprimia ansiedade. – Os deuses chegaram à um acordo totalmente repugnante e desumano, eles mataram o ancião criador...
– Os deuses o mataram?! – Perguntou Elesis, perplexa.
– Eles concluíram que o ancião era uma ameaça para o continente inteiro, então eles o assassinaram violentamente... – Grunhiu Veneze, demonstrando horror. – Acarretando o misterioso desaparecimento da essência...
– Então, como ela não era digna de ser propriedade dos deuses, eles mataram seu criador e sumiram com ela? — Resumiu Amy, estarrecida. – Eu não esperava isso dos deuses...
– Exatamente, isso foi horrível... – Vociferou Veneze.
– Decidimos ocultar a essência no túmulo de Juriore... – Grunhiu Cádmo. — Vocês devem defendê-la...
– É apenas uma questão de tempo para que eles nos encontrem! – Exclamou Veneze, perplexa.

Mari ficou horrorizada com o que acabara de ouvir.

– O quê essa essência faz? — Perguntou Ronan.
– Ela possui o poder de recriar tudo o que tocar, objetos metálicos até partes de um corpo... – Vociferou Veneze, tristonha.
– Recriar partes de um corpo? Foi por isso que o ancião a criou? – Questionou Amy.
– Ninguém sabe. — Grunhiu Veneze. – As pessoas possuem visões diferentes...
– Então, como foi que ela apareceu súbitamente para você? – Questionou Lire, aflita.
– Quando eu era uma criança, minha mãe me presenteou com um simplório colar, um pequeno e estranho colar... – Explicou Veneze, sorrindo tristemente. – Tal colar possuia uma peculiaridade, quando arranhado, cortado ou destruído, ele simplesmente se regenerava... – Eu não fazia idéia do que aquilo poderia ser, minha mãe alegava não saber nada sobre...
– E sua mãe, como conseguiu? – Perguntou Elesis, confusa.

Veneze não respondeu, abaixou sua cabeça por um breve período. Memórias vieram à tona, sibilou e então, seus lábios se abriram.

– Então, ela será usada apenas para recriar as duas lâminas? Se eles descobrirem suas propriedades curativas, serão invencíveis? – Questionou Lass, confuso.
– Nós tememos por isso. — Vociferou Cádmo. – Por favor, vocês devem protegê-la...
– Nós não viemos até vocês para isso! — Exclamou Ronan, furioso. – Nós viemos procurar por ajuda, nosso reino, nossa casa fora dominada por eles!

Ronan levantou-se bruscamente, Sieg levantou-se logo em seguida.

– Fique calmo, você não entendeu nada? – Questionou Sieg, encarando Ronan.

Ronan não respondeu.

– Nós podemos usar a essência à nosso favor. – Disse Sieg, com um brilho nos olhos.
– O quê você pretende? – Questionou Ronan, desconfiado.
– Vocês não podem fazer isso! – Exclamou Veneze, levantando-se logo em seguida. – Não foi para isso que nós convocamos vocês!

Os jovens olharam para o rosto de Veneze, decidida.

– Nós entendemos a sua tristeza, mas, se eles tomaram a essência, as consequências serão catastróficas! – Exclamou Veneze, seus olhos queimavam de frustração.
– Pessoas estão sendo torturadas enquanto nós estamos aqui! – Exclamou Ronan, em um tom de fúria. – Precisamos de ajuda!
– A ajuda está bem na sua frente, você não percebe? – Exclamou Sieg, sentando-se novamente. – Nós protegeremos a essência, se pudermos usá-la à nosso favor!
– Você está maluco? – Disse Arme, colocando sua xícara na mesa à sua frente. – Devemos fazer o que ela disse, é necessário!
– Até você? Vocês não vêem o lado das pessoas? – Exclamou Ronan, indignado.
– Nossas visões são práticamente idênticas, você ainda não percebeu? – Perguntou Sieg.
– Você só enxerga o seu lado, pense nas crianças que estão sofrendo! – Gritou Ronan, seu ódio saltava de sua face.

Cádmo estava sentado, atônito, em sua poltrona observando os dois rapazes discutirem.

– Está enganado, podemos transformar a vida deles em algo melhor com o poder dela! – Exclamou Sieg.
– Não passou por essa sua cabeça que os outros também almejam a essência? – Perguntou Ronan, contorcendo-se.

Sieg levantou-se novamente, colocou-se em frente à Ronan e, novamente, trocaram olhares.

– É por isso que devemos protegê-la! Para podermos usá-la à nosso favor, idiota! – Exclamou Sieg, dando leves empurrões em Ronan.

Ronan ergueu seu braço, o mesmo era levado rápidamente até o rosto de Sieg, um estrondo e o rapaz estava estendido no chão. Sieg olha para o corpo imóvel de Ronan, olhos esbranquiçados e não demonstrando vida em seu olhar.
Ao olhar para trás, Arme estava levantada com sua mão apontada para o corpo paralisado de Ronan.

– Você foi salvo novamente, não consegue resolver sozinho? – Debochou Sieg, pronto para chutar o corpo endurecido de seu companheiro.

Antes de completar seu movimento, Sieg sentia seus braços e pernas formigando e logo após ele foi ao chão, caíndo ao lado de Ronan.

- Como eles são imbecis! — Exclamou Arme, paralisando Sieg.

Elesis sabia que a atitude de Arme estava correta, então não tentou impedí-la.

– Nós iremos ficar e proteger a essência. – Disse Arme, olhando para Veneze. – Se você nos deixar usá-la contra eles.
– Não me resta escolha... – Grunhiu Veneze, observando os dois rapazes paralisados no chão.
– Sua visão é igual à dele... – Disse Lire, apontando para Sieg.
– Antes que eu me esqueça... – Vociferou Veneze, se levantando.

Veneze se levantou de sua poltrona, caminhou até uma estante perto dali e retirou uma carta de dentro de uma gaveta.

- Alguém me enviou isso... — Disse Veneze, dando a carta para Elesis.

Ronan parecia estar com os olhos na carta, mesmo paralisado, ele parecia saber quem foi que a enviou.

– Você tem idéia de quem a enviou? – Perguntou Elesis, abrindo-a. – O quê é isso?

De dentro da carta, a garota retirou uma chave e uma espécie de lâmina dourada, um pequeno punhal dourado.

– O quê é isso? – Perguntou novamente, com seus olhos surpresos.

Forçando sua visão, ela notou algumas coisas escritas na chave, não conseguindo ler.

– É impossível ler! – Disse Arme, se aproximando. – Você não tem o menor dos palpites?
– Não... – Vociferou Veneze, atônita.
– Quando chegou? – Perguntou Lire, curiosa.
– Há alguns dias... – Disse Veneze. – A única coisa que fora expressamente detalhada era para entregar imediatamente à vocês...
– Imediatamente? – Perguntou Ryan, confuso.

Veneze concordou balançando sua cabeça, a ansiedade estava estampada em seu rosto.

- Por quê o senhor está tão nervoso, senhor Cádmo? — Perguntou Mari, segurando sua xícara de chá.

Cádmo vislumbrou os olhos bicolores da garota, sua boca se abria lentamente.

- N-não... não é nada. — Vociferou o mesmo, confuso.
- É impossível não ser nada, você está péssimo! — Disse Lire, evitando olhar para os dois corpos paralisados à seu lado.
- Não é nada...
- Se você estiver escondendo algo, por favor, nos conte logo. — Exclamou Elesis. — Não estamos em condições para ter segredos...

Cádmo se contorceu em sua poltrona, olhando para a garota ruiva à sua frente.

- Não é nada. — Disse o mesmo, tentando não parecer ansioso.

As pessoas à sua volta o fitaram, ele estava péssimo.

- Nós não queremos tomar o tempo de vocês, portanto, vocês podem ir... — Disse Veneze, sorrindo para os jovens à sua frente.

Lire devolveu o sorriso e ergueu Ryan, juntamente de Mari, Lass, Jin e Amy.

- Podem ir na frente, vou retirar o feitiço dos patetas aqui. — Disse Arme, sorrindo.

Arme se ajoelhou diante dos dois rapazes paralisados, passou a mão sobre suas cabeças e rápidamente os mesmos se levantam.

- Que dor de cabeça, o quê aconteceu? — Perguntou Ronan, com as mãos no rosto.
- Erm, vocês bateram a cabeça... — Grunhiu Arme, sorrindo para os dois.
- Quando? — Perguntou Sieg, com as mãos em seu braço.
- O quê é isso, um questionário? — Brincou Arme. — Vão logo para seus quartos!

Elesis ainda estava ali, observou as brincadeiras de Arme.

Ao sair, Ronan mandou um beijo para Elesis.

- Você ainda está aqui, Elesis? — Perguntou Veneze, levantando-se.
- É que... Eu me lembrei dos nossos amigos no reino... — Vociferou Elesis, lágrimas caíam de seus olhos avermelhados.

Veneze se sentou ao lado da garota, Elesis segurava a carta entregue pela mesma.

- Sabe, eu tenho a absoluta certeza de que quando vocês os encontrarem novamente, eles irão lhes receber com o mais bonito sorriso do mundo, vocês não são culpados. — Disse Veneze, sorrindo para a garota.

A expressão de Elesis suavizou-se, revelando um enorme sorriso.

- Obrigada, Veneze... — Disse a mesma, levantando-se.

Em algum lugar desconhecido.

- Então está decidido, a responsabilidade é de vocês.
- Certamente, milady.

A iluminação do local era pouca, apenas revelando algumas pessoas encapuzadas.

- Então, será aqui?
- Sim.

Em um estalar de dedos, a claridade retorna, revelando um imenso lago cristalizado e estalactites.

O lago possuia uma cor esverdeada, certamente aquela substância não era água.

No fundo, uma grande queda d'água.

- Vocês terão que encontrá-los e...
- Eles já sabem, senhorita Cazeaje.
- Não estou certa de que eles farão o trabalho corretamente...

Uma outra figura aproxima-se dos dois, possuia passos longos e objetivos.

- O grupo de Aramanto foi capturado. — Vociferou, revelando-se Dio.
- Nós já estamos cientes, meu filho.
- Eu cuidarei disso, como sempre...

A lua cai sobre todos nós, novamente.
Permitindo que seu imponente manto negro se sobreponha perante nossa existência.

No cruel e gélido deserto, a falsa esperança de que tudo se resolva em um piscar de olhos corrói as vidas dos jovens, clamando pelo término de todo aquele sofrimento.

A chama do candelábro iluminava o centro de uma sala escura.

Os olhos alaranjados do Druida lentamente se abrem, revelando uma expressão de pressentimento ou mau agouro, o mesmo se levanta de sua cama, contemplando as faces de alguns de seus companheiros deitados em seus lugares.

Ao seu lado, a cama de Lire estava vazia.

Seu coração estava frenético, a dor de sua perna quebrada já não lhe incomodava tanto, estava muito fraca.

Seus pensamentos estavam se esvaindo enquanto o mesmo descia a longa escadaria daquele hospitaleiro local, suportando aquela pequena e excruciante dor.

As chamas do candelábro estavam se apagando, permitindo que o domínio da escuridão se espalhasse.

A figura esbranquiçada estava caída perto do mesmo, seus longos cabelos loiros caídos sobre sua face angelical e lábios fechados.

- Lire?! — Vociferou o rapaz, partindo desgovernado.

Ao conseguir vencer a dor de sua perna, o rapaz rápidamente empunhou o candelábro para obter claridade.

Olhos fechados, rosto empalidecido.

- Meu deus, o quê aconteceu?! — Exclamou Ryan, pegando-a em seus braços.

No braço esquerdo da garota, um grave corte que respingava seu sangue escarlate nas vestes do rapaz.

- Lire! Lire! — Clamava o rapaz, segurando o corpo da garota fortemente.

Caído ao lado dos dois, um punhal prateado e ensangüentado, tendo sua lâmina iluminada pelo candelábro.

Os olhos alaranjados do rapaz já expressavam saudade, seus dentes rangiam incontrolávelmente.

A garota trajava um vestido branco, manchado com seu sangue.

- Lire! Por favor, acorde! — Exclamava Ryan, na falha tentativa de reanimá-la.

A flama da felicidade novamente se acende, emergindo do coração de Ryan e forçando o mesmo à abrir um contagiante e aliviante sorriso.

Os olhos da garota se abrem, seus lábios avermelhados se abrem juntamente.

- Ryan... — Vociferou a garota, deitada nos braços do druida. — Eu não queria...
- Tudo bem, Lire... — Bradou Ryan, abraçando a garota o mais forte possível que seus braços lhe permitiam.
- Eu fui egoísta, não pensei nos outros... — Disse ela, contemplando a face de Ryan naquela escuridão. — Mas, eu não tenho mais condições de sofrer...
- Você não foi egoísta... — Suspirou Ryan, segurando-se para não chorar. — Mas nós precisamos pensar nele...

O pálido rosto de Lire revelou um brilhante sorriso.

- Precisamos pensar nele... — Vociferou ela, abraçando Ryan. — Nele...

A última faísca do candelábro se apaga, os dois jovens foram engolidos pela escuridão, abraçados.

O sol ameaça, anúnciando a chegada do dia.

Seus cabelos rosados estavam batendo em seus olhos, a mesma é forçada à tirá-los, vislumbrando todas as outras camas vazias.

- Droga! Me atrasei! — Exclamou, pulando da cama.

Correndo mais rápido que suas pernas e o espaço permitiam, a garota consegue chegar ofegante no local marcado.

Avistando seus companheiros reúnidos, sentados ao redor de uma grande mesa negra.

Seus olhos rosados rápidamente se fixaram em Mari, que estava trajando um grande sobretudo branco aveludado, parecia ser muito confortável.

- Que roupa é essa? — Perguntou, sentindo calor pela garota. — Deve estar muito quente!
- Como havíamos dito, protegeremos o túmulo de Juriore, em turnos! — Disse Elesis, observando todos que estavam sentados.

Logo no centro da mesa, estava Veneze, possuindo um olhar severo e distante.

Xícaras de chá estavam espalhadas pela mesa, abundantes.

Amy foi logo se sentando ao lado de Jin, imediatamente demonstrando um certo tipo de vergonha ou entusiasmo.

- Então, Mari já se ofereceu para cuidar, alguém mais? — Perguntou Lass, com as mãos na mesa.
- Mari, você já está decidida? — Questionou Elesis, observando-a.
- Estou certa, eu quero ir! — Exclamou Mari, em alto e bom tom.
- Tudo bem, alguém mais? — Perguntou Elesis, com a mesma expressão de Veneze.

Os jovens trocaram olhares desesperados, atônitos e ao mesmo tempo, acovardados.

Os olhos de Ryan estavam reluzentes, contagiantes e precisos.
Em um forte ato, o rapaz se levantou da cadeira e exclamou :

- Eu vou!

As pessoas presentes ali o olharam surpresos, Lire o encarou severamente.

- Você está maluco?! — Perguntou a garota, observando-o com uma expressão de indignação.
- Ficou louco? — Perguntou Sieg, rindo sarcásticamente. — Sua perna está quebrada!
- Ela está boa agora! — Disse ele, caminhando desengonçado. — Eu estou perfeitamente bem, viu?

Lire abaixou a cabeça, aparentando tristeza.

- Você ir é fora de cogitação! — Exclamou Arme, observando suas pernas.
- Por favor, me deixem ir, eu preciso! — Disse ele, forçando sua perna ao máximo para que consiga se manter de pé. — Aliás, minha perna já está boa novamente!

Ryan expressava felicidade e ansiosidade, felicitando o clima naquele obscuro salão.

- Pode ir... — Disse Lire, magoada. — Vá logo!

Os jovens olharam para Lire, que permanecia com a cabeça abaixada.

- Só retorne com vida... — Grunhiu a garota, lágrimas dançavam sobre a mesa.
- É uma promessa, eu voltarei vivo e nada acontecerá conosco! — Exclamou ele, indo desengonçadamente até a elfa. — Não é, Mari?

A garota de cabelos azulados parecia estar desligada, concordou balançando sua cabeça mesmo não estando ciente do que estava acontecendo.

- Então está certo, Mari e Ryan. — Disse Veneze, levantando-se. — O túmulo não é tão longe, eu levarei vocês lá.

Veneze vestiu uma capa negra, cobrindo-se com o capuz para não ser reconhecida.

- Coloquem o capuz, vocês dois! — Disse ela.
- Tudo bem... — Vociferou Mari, com receio.

Lire observava a forma do rapaz se distanciando, cada vez mais, expressando culpa e temor.

- Você está bem? — Questionou Amy, segurando uma xícara de chá.
- Ele me prometeu que voltaria com vida... — Disse Lire, observando seu reflexo na obscura mesa.

Amy sentou-se na cadeira vazia de Ryan, ao lado de Lire.

- Escute, Ryan é um rapaz muito forte! — Disse ela, tentando acalmá-la. — Não há dúvidas de que ele retornará são e salvo, e é mais fácil meus cabelos perderem o brilho do que ele se machucar!

Lire ouvia as palavras de Amy, desligada.

- Além do mais, aqueles caras nem sonham que nós estamos aqui, no gelo! — Disse Amy.
- Ela está certa, Lire. — Concordou Elesis. — Ryan é um rapaz muito forte, ele não se machucará.
- Só não concordo em uma coisa... — Vociferou Arme, entrando no assunto. — Seus cabelos não são tão brilhantes assim!
- Sinto cheio de inveja! — Exclamou Amy, sorrindo.
- Você fica se gabando, seus cabelos não são brilhantes! — Disse Arme. — Eles só são... coloridos!
- Você já admitiu, você os acha lindos! — Brincou Amy.

O olhar de Lire estava distante, no meio daquela inútil discussão.

- Por favor, eu preciso de você...

A névoa engolia os três andarilhos, como se fosse um manto invisível.

O vento batia novamente contra seus corpos, empurrando-os, como se estivesse dando uma espécie de aviso e os impedindo.

- Parem, parem! — Disse Veneze, parando súbitamente. — Estão todos bem?
- Sim! — Exclamou Ryan, olhando para Mari. — Você está bem?
- Estou sim, podemos continuar? — Perguntou Mari, ajeitando seus óculos.

Veneze se virou para os dois jovens e sorriu, a neve cobria parte de seus cabelos.

A cor do céu era indefinida, um tom até então desconhecido.

Os trajes branquissímos dos dois jovens eram fácilmente confundidos com a neve, enquanto o traje nego e sombrio de Veneze era como uma sombra.

Depois de um certo tempo caminhando, Ryan identifica aquele lugar.

A parte deformada do deserto de gelo, pequenas montanhas pontiagudas em forma de lâmina, longas deformações e aquele clima assustador.

- Que lugar horrível... — Vociferou Mari, observando.
- Você nunca esteve aqui antes, não é? — Perguntou Ryan.
- Vamos andando, o altar está perto! — Continuou Veneze.

Ryan se lembrou da primeira vez naquele lugar, sua pele tremia frenéticamente e a sensação de ser morto à cada instante, retornavam como se fossem tiros perfurando seu corpo.

Ele se lembrou da face de Juriore, fria e sem piedade ou qualquer outra emoção, lembrou-se também do sofrimento de seus companheiros ao luntarem contra ela, o sangue derramado no chão e todo o temor refletidos em suas faces vieram à tona na memória do rapaz.

Suas pernas estavam respondendo normalmente, apesar de estarem um pouco moles e bambas.

Veneze pára, sua capa começa à balançar ao vento.

- Chegamos. — Disse ela, apontando para sua frente.

Ryan e Mari caminharam lado à lado até alcançarem Veneze, cortado pela névoa e embaçado, o Altar da Harmonia permanecia ali, imponente e sombrio.

Ryan se lembrou dos monstros que guardavam a entrada, e também sentiu a mesma coisa que sentira três anos atrás.

Aquela sensação indecisa, atônita, esperando por sua morte à cada cruel segundo.

- Ryan, o altar está inóspito. — Disse Veneze, contemplando-o.
- Eu sei, mas é que... — Vociferou, com suas tristes memórias se esvaindo.
- Não se preocupe, está tudo bem. — Disse ela, com sua voz sendo retalhada pelo a névoa.

Mari observava os gigantescos espinhos de gelo, assustada.

- Em homenagem à deusa do equilíbrio, seu túmulo está logo atrás do portão. — Disse Veneze. — Boa sorte.

Veneze desapareceu na névoa, seu sobretudo negro não estava mais ali.

- Espere, espere! — Gritou Mari. — Droga, ela nos deixou aqui!
- Acalme-se, eu sei entrar no altar! — Disse Ryan, esfregando suas mãos.

Os dois jovens estavam parados em frente ao gigantesco portão, possuia o símbolo do equilíbrio.

- Não pense e não fale nada, seu corpo tem de estar em perfeito equilíbrio para poder entrar! — Disse ele, fechando seus olhos.

A face de Ryan estava sem sentimento algum, não possuia vida.

O portão se abre, revelando o fantasmagórico local, Ryan consegue entrar.
Mari, tenta seguí-lo e é jogada fortemente para trás.

- Você precisa estar em equilíbrio com você mesma, eu não posso fazer isso para você! — Disse Ryan, desaparecendo. — Concentre-se!

A mente de Mari estava confusa, as memórias de seu povo, sua família e seus amigos não podiam desaparecer tão fácilmente, seus rostos eram freqüentemente relembrados pela garota.