O Traidor

10 - O deserto de gelo


Ronan ajudou Lire à se levantar, enquanto Ryan era apoiado por Mari.
As frutas que os mesmos pegaram na ilha estavam espalhadas pelo chão.

O céu estava avermelhado, não possuia nuvens e o clima estava muito quente.

Amy desconfiava, ela não reconhecia o lugar.

- Estivemos aqui à quase quatro anos atrás! — Disse Elesis.
- Agora eu estou me recordando... — Vociferou Ronan.
- Mari e você, Sieg, como são os mais novos integrantes do grupo vocês nunca estiveram aqui, estou certa? — Perguntou Arme.

Eles ficaram em silêncio.

- Já ouvi muitas histórias sobre a lendária entrada desse continente. — Disse Mari, observando o obscuro lugar. — Eu li que essas estátuas foram construídas em homenagem aos Deuses, que até então, não estavam amaldiçoados.

A visão de Lire estava lentamente retornando, ela só conseguia enxergar as formas embaçadas e destroçadas de seus amigos, apenas conseguindo identificá-los pelas cores de seus cabelos ou reconhecendo suas vozes.
Ela reconheceu a voz de Ryan.

- Ryan, você está bem? — Disse ela, apenas conseguindo distinguir seus arrepiados cabelos alaranjados.

A garota seguiu até o rapaz, guiada pela sua danificada visão.
A mesma bateu seus pés várias vezes nos ossos cravados no chão, provocando uma ridícula e irritante dor.

Os outros observavam a lúgubre paisagem.

- Lire, como está sua visão? — Perguntou Ryan.
- Não está muito boa... Mas eu já consigo enxergar. — Respondeu a mesma, esfregando seus olhos.
- Tente não se esforçar... Você ainda está ferida. — Balbuciou o rapaz. — Aqueles malditos!

Os outros já estavam bem na frente, lentamente caminhando, Sieg foi até os dois últimos para guiá-los.

- Uma garota semi-cega e outro com a perna quebrada, eles vão nos atrasar... - Pensou o imortal, segurando os dois jovens.
- Podemos prosseguir? — Gritou Arme.
- É claro! — Respondeu Sieg.
- Não fiquem para trás! — Exclamou Ronan.

O vento batia fortemente na copa das árvores, derrubando algumas folhas e emitindo um agradável ruído.
O estreito caminho até o primeiro local povoado atrapalhava os jovens, eles deviam ser rápidos pois estavam no território dos nativos.

Amy estava caminhando com passos curtos e extremamente precisos, a estreita passagem dificultava qualquer movimento feito pelos heróis.
Lass estava cauteloso, não podia deixar as frutas caírem.

Ryan observava algumas flores secas no caminho, todas mortas.
O rapaz já estava perdendo as esperanças até achar uma flor branca em um ótimo estado, a cor preferida de Lire.

- Sieg, pode me soltar um pouco? — Pediu Ryan.
- É claro... — Vociferou Sieg, incerto.
- O quê foi, Ryan? — Perguntou Lire.

O rapaz esboçou um grande sorriso e tirou a flor, o mesmo a colocou no cabelo de Lire.

- É para você, Lire... — Disse Ryan, com um sorriso vergonhoso desenhado em seu rosto. — Ela é muito bonita, mas eu não entendo de flores então não sei seu nome...

Lire sorriu carinhosamente e passou a mão na flor, a mesma aumentou seu sorriso e respondeu :

- É uma flor nativa de Xênia, eu não consigo lembrar seu nome... — Vociferou Lire. — Obrigada, Ryan...

Sieg ao ver o ato de Ryan, sorriu para o mesmo.

- Precisamos ir, os outros já nos perderam de vista. — Disse Sieg, apoiando Ryan.
- Tudo bem, Sieg, minha visão já está boa. — Respondeu Lire. — Pode ir andando, eu carrego ele...

Sieg notou a expressão da garota, esboçou um leve sorriso e foi andando na frente.

- Você está tão linda com essa flor... — Bradou Ryan.

A jovem o beijou na bochecha, o mesmo ficou envergonhado.

- Quando contaremos à eles sobre... — Perguntou Lire, apoiando-o.
- Nós encontraremos o momento certo. — Respondeu Ryan.

Os dois trocaram olhares e sorrisos, o momento foi interrompido pela escandalosa voz de Arme.

- Vocês dois aí atrás, andem! - Gritou a maga.

O ouvido de Lire doeu, parecia que fora atingido por uma bala.

- Como ela é escandalosa... — Bradou Lire, rindo.

Ryan concordou e ambos se apressaram.

Um ser de pequeno porte, trajando umas roupas escarlates e uma máscara aterradora se aproximou dos jovens.

- Reis, retornaram. — Exclamou o nativo, saudando-os.

Amy ao observar o pequenino, assustou-se.

- Seu coração está manchado com a culpa. — Bradou o nativo, com sua ríspida e áspera voz.

Lass empunhou sua adaga, rápidamente tirando-a de seu cinto, a máscara do nativo era refletida na brilhante lâmina.

- Fique calmo, rei! — Disse o nativo.

O ninja encarava o pequeno ser, seus olhos o fuzilavam.
O nativo curvou-se uma última vez, seu corpo começou a tremer e sua voz mudara de tom drásticamente.

- Reis, NÃO SÃO BEM VINDOS AQUI! — Exclamou o nativo. — NÃO SÃO BEM VINDOS AQUI!

A voz do nativo estava com um tom de fúria, seus dentes rangiam frenéticamente e seu corpo tremia incessante e ridiculamente, sua respiração agora estava ofegante e rápida.

- Os reis trouxeram o perigo! — Gritou o nativo, empunhando sua lança.
- Acalme-se! Do quê está falando? — Perguntou Mari, com seus pensamentos cheios.

O nativo se aproximava lentamente, seu ranger de dentes se parecia com o rosnado de um cão, os jovens se assustaram.

Os jovens rápidamente correram para longe do insano nativo, era possível ouvir seus gritos eufóricos.

- Eles correram! Correram, os reis correram! — Gritava o nativo, com sua estranha voz.

O ar súbitamente ficou mais frio, o vento começou a bater forte nas árvores, as negras vestes dos heróis da GC esvoaçavam-se à medida que o poderoso vento as tocava.

Estava díficil respirar, a poderosa corrente de ar batia nos olhos dos jovens forçando-os a fechá-los e novamente abri-los, os olhos de Amy lacrimejavam.

- O quê está acontecendo? — Disse Amy, cobrindo seus olhos com sua capa negra.

O clima que estava quase que insuportávelmente quente súbitamente estava gélido e cortante.

Passos eram ouvidos, havia um grande grupo se aproximando.

- Estão ouvindo? — Perguntou Ronan, abraçado com Elesis.
- Seja lá o que for, escondam-se! — Ordenou Elesis.
- Eles vão nos achar! — Reclamou Amy.
- Vá logo!

Amy escondeu-se ao lado de Sieg, o mesmo fortemente segura sua lâmina, ambos escondidos atrás de uma grande e morta árvore.

- Reis correram, venham! Reis estão aqui! — Gritava o nativo.

Uma segunda voz, cruel e irônica.

- Não tem ninguém aqui, você nos enganou! Cortem-lhe a cabeça! — Ordenou, com sua voz cruelmente sádica.

Amy espiou pelo pequeno buraco da árvore, era Téia, mas a mesma não a conhecia.

- Não, não! Os reis estavam aqui! Eu posso provar! — Disse o nativo, aproximando-se.

Sieg rápidamente abraçou Amy, para que não fossem encontrados.

Elesis e Ronan estavam escondidos atrás de uma velha pilha de ossos, ambos empunhando suas armas.

A mira de Lire já estava fixada em Téia, escondida juntamente de Ryan, Arme e Lass no grande e horrível gramado do local.

Jin ajudou Mari à subir em uma árvore um pouco longe dos outros, ambos observavam silenciosamente as duas figuras abaixo deles.

O nativo andou poucos metros até chegar perto de um arbusto, o mesmo virou-se e fincou sua lança violentamente no mesmo, gritos de dor podiam ser ouvidos.

- Eu peguei um rei! Peguei! — Exclamou o nativo, cravando sua lança mais e mais profundamente.

Téia aproximou-se e olhou a vítima do nativo.

- Seu imbecil! É apenas um pássaro! — Disse a mesma, segurando o corpo ensangüentado do mesmo.
- Mas Groug os viu! Groug os viu! — Repetia o nativo, desesperado.

A garota cuidadosamente enterrou o pequeno pássaro e limpou suas mãos que estavam manchadas com o sangue do mesmo.

- Inútil! — Exclamou Téia, empurrando o nativo. — Você só tem mais uma chance!

A garota desapareceu em chamas avermelhadas, deixando um pequeno rastro de fogo na terra.

- Não é possível, Groug os viu! — Repetia o nativo, inconformado. — Groug os...

Rápidamente Lass saltou do grande gramado e segurou o pequenino Groug, com sua adaga apontada para o pescoço do mesmo, o rapaz tirou a máscara do nativo e a jogou longe.

- O quê você sabe? — Perguntou Elesis, revelando-se. — Responde!
- Groug não vai falar! Não vai! — Respondeu o nativo, cuspindo no rosto de Elesis.
- Fale, porra! — Exclamou Ronan, chutando a barriga do nativo.

O rosto moreno e cicatrizado de Groug rápidamente inchou-se de dor.

- Groug... não... — Balbuciava o nativo.
- Vai falar ou não? — Perguntou Arme, retirando um frasco contendo um líquido negro de sua bolsa.
- O quê é isso? — Perguntou Groug, rangendo seus dentes.
- Morte líquida, uma gota disso aqui em sua língua e você morre. — Explicou a garota, rindo sarcásticamente.

O nativo ficou em silêncio.

- Não vai falar? Arme, por favor. — Disse Elesis.
- É pra já! — Respondeu a maga, abrindo o frasco.

Uma breve fumaça saiu de dentro do frasco, Groug estava aterrorizado.

- Não! Groug fala! — Gritou o nativo, contorcendo-se. — Pessoas más me disseram para não permitir a entrada dos reis no continente! Senão Groug morreria...
- Pessoas más? — Perguntou Elesis.

Groug novamente ficou em silêncio.

- O quê lhe ofereceram em troca? — Perguntou Arme, segurando o mortal frasco.
- A vida, Groug morreria se falhasse! — Disse Groug. — Por favor, deixem Groug ir!

Lass soltou o mesmo, que rápidamente desapareceu.

- Vamos, vamos encontrar Veneze logo... — Disse Amy, exausta. — Arme, aquele líquido era realmente a Morte Líquida?

Arme sorriu.

- Não, não! Era só tinta preta! — Respondeu a mesma, gargalhando.

Os outros riram.

Arme guardou a falsa Morte Líquida em sua bolsa novamente, Amy estava atônita, Sieg e ela estavam à poucos metros de Téia.

- Vamos andando... Por aqui. — Disse Mari, próxima de Sieg.

A expressão no rosto de Amy era de extremo alívio, por pouco os dois não foram encontrados por Téia.

- Por quê nós não atacamos?! Eram só dois! — Perguntou Jin.
- Nem pensei em tal possibilidade! — Respondeu Elesis. — Não devemos nos arriscar, mesmo estando em maior número!
- Aquele feitiço que a garota ruiva usou... Era magia negra. — Vociferou Arme. — Eu já estudei sobre eles...

Os jovens olharam para Arme, que ainda estava feliz por ter enganado o pequeno nativo.

- Magia negra? — Perguntou Mari, ajeitando seus óculos.
- Exato... — Respondeu Arme.

Amy ajoelhou-se e começou a chorar, em um tom baixíssimo.

- Eu não aguento mais... Nós estamos sendo caçados! — Lamentou a mesma, com brilhantes lágrimas escorrendo de seus olhos. — Não temos para onde ir, nosso reino foi invadido...

Amy lamentava, ela não possuia mais esperanças.

- Amy, lute, por favor... — Clamou Jin, ajoelhando-se ao lado da garota.

Elesis demonstrou uma expressão de fúria, seus dentes fizeram um som de batida e a mesma disse :

- Nós já estamos cientes, estamos sendo caçados, estão brincando conosco! — Exclamou a mesma. — Chorar não adiantará em nada, você precisa ser forte!

Amy olhou para Elesis, a mesma limpava seu rosto com a manga de sua roupa.

- Amy, nós precisamos de você! — Disse Lire, tentando sorrir.

Seus longos cabelos rosados batiam em seu rosto, impedindo sua visão.
Amy sorri.

- Vamos? — Perguntou Elesis, dando sua mão para Amy.
- V-vamos... — Vociferou Amy, levantando.
- Precisamos encontrar qualquer lugar para passarmos a noite... — Disse Ryan, apoiando-se na árvore.
- Vamos andando... — Disse Lass, pegando novamente as frutas que estavam caídas no chão. — Tenho certeza que ele chamará os outros nativos.

~

Ilha Eruel...

- É bom que vocês tratem esse lugar como se fosse a casa de vocês, malditos! — Gritou uma voz poderosa.

Os três corpos paralisados foram jogados dentro de um lugar horroroso, não possuia janelas e estava muito quente, dentro de uma caverna mágicamente protegida.

A gigantesca pedra que fechava a caverna mágicamente se fecha, deixando o lugar na mais extrema escuridão.
Pequenos gemidos podiam ser ouvidos, juntos de um grande estrondo.

- O quê houve? — Perguntou uma voz rouca, no meio da escuridão. — Onde eu estou? PORRA!
- Dá pra calar a boca, Benvól? — Respondeu uma voz feminina. — Estamos presos aqui!
- Aqui onde?
- Parece que ainda estamos na ilha... — Vociferou Sadie. — Acorda, Aramanto!

Sadie deu alguns tapas no rosto de Aramanto, acordando imediatamente.

- Tá maluca, vadia? — Gritou Aramanto. — Onde estamos?
- Cale a boca e ajude-o! — Ordenou Sadie.

Benvól estava tentando empurrar a gigantesca pedra, sem sucesso.

- Saia daí! — Disse Aramanto. — Se estamos presos é óbvio que essa porra aí tá protegida!
- Como você sabe?
- Não é óbvio?
- Ah, pro inferno!

Os três brigavam ridículamente, presos.

- Calem a boca, seus miseráveis!
- Quem disse isso? — Perguntou Benvól, furioso. — Ei você aí, quando eu sair daqui você será o primeiro que vou estripar!
- Tá bom. — Respondeu a voz, brincando com Benvól.
- Estou falando sério, porra!

Benvól socava a gigantesca pedra com todas as forças, o mesmo é jogado para longe.

- Eu te disse, é protegida! — Exclamou Aramanto.
- Ah, cala essa boca!

~

Os heróis se encontravam em uma gigantesca floresta, não estavam mais na entrada do continente, suas pernas estavam parando e não respondendo completamente.

- Por favor... vamos dar uma pausa... — Clamou Amy, sentando-se em uma pedra.

Logo no centro, um esverdeado e cristalino lago rodeado por pedras.
Ryan rápidamente se libertou dos braços de Lire e sentou-se em uma pedra perto do lago.

Amy rápidamente retirou seu cantil de sua bolsa e o encheu com a cristalina água do lago.

- Ei, encham seus cantis! — Gritou Amy, para os outros.

Arme logo se aproximou da jovem e fez o mesmo, dava leves tapas na água para se refrescar.

Elesis encheu seu cantil e sentou-se em uma pedra ao lado de Amy.

- Amy, ficaremos por aqui hoje, você parece muito cansada... — Vociferou Elesis, bebendo sua água.

Amy a observou, seus olhos ruivos estavam calmos e leves.

- Quer dizer que passaremos a noite aqui? — Perguntou Amy, virando-se para o brilhante lago.
- Sim, será melhor para nós. — Disse a ruiva. — Arme, você poderia colocar uma barreira protetora em nossa volta?

Arme olhou para as duas garotas, deu leves suspiros e disse :

- Acho que não consigo... Eu estou muito fraca... — Vociferou a maga, sua expressão exausta e pesada.
- Tudo bem, então nós teremos que vigiar em turnos novamente. — Respondeu Elesis, entendendo sua amiga.

Os olhos de Arme estavam caídos e inexpressivos.
Ao lado de Elesis, Ronan se senta.

- Eu ouvi vocês três conversando, ficaremos por aqui hoje? — Perguntou o rapaz, também enchendo seu cantil.

Elesis concordou balançando sua cabeça enquanto bebia.

- Ótimo, isso será de muita ajuda! — Disse Ronan, rindo.

Elesis riu para o rapaz.

Sieg deitou-se no chão, observando o avermelhado céu e rápidamente seus olhos se fecharam.

- Sieg, Sieg! Acorde! — Gritava uma voz feminina irritante. — Venha se juntar a nós!

Os cinzentos olhos do rapaz lentamente se abriam, revelando a face de Amy.
O mesmo se levanta, perto do lago todos estavam reúnidos em uma pequena espécie de roda para espairecer.

O rapaz ainda estava sonolento, sentou-se em uma pedra ao lado de Mari, que ficou claramente envergonhada com a presença do rapaz.

- Então... Elesis, agora que você está com o Ronan, vocês pretendem formar uma família? — Perguntou Amy.

Ronan e Elesis se entreolharam, ambos envergonhados com a pergunta da garota.

- Nós... Ainda não pensamos nisso... — Respondeu Elesis, olhando para Ronan, suas bochechas estavam avermelhadas.

Ronan ria levemente para a mesma.

- Acho que já entendi... — Vociferou Amy.

Eles conversavam fervorosamente tentando esquecer os difíceis acontecimentos...

Afastados, Lire e Ryan conversavam.

- Nós não contaremos à eles? — Perguntava Lire. — É muito sério!
- Eu sei, mas é que entramos em tempos muito difíceis. — Vociferava Ryan. — Contar tudo para eles só os deixaria mais nervosos e preocupados!

Os olhos esverdeados de Lire se encontraram com os de Ryan, ambos começaram a se aproximar lentamente.
Seus lábios se tocaram, ambos se beijaram.

A lua já estava nascendo para encerrar aquele estranho dia, os oito jovens reúnidos perto do lago já estavam começando a entrar nas barracas preparadas por Mari.

- Pode ir se deitar, Amy. — Disse Elesis, sorrindo para a garota. — Eu vigio.

Amy agradeceu sua companheira e entrou em sua pequena barraca improvisada.

- Você vai ficar aí? Não quer que eu fique? — Perguntou Ronan, próximo.
- Pode ir dormir! — Respondeu a jovem. — Eu não estou cansada.
- Tudo bem, se precisar é só chamar. — Disse Ronan, beijando-a no rosto.
- Tudo bem... — Vociferou Elesis, novamente envergonhada.

Ronan entrou na pequena barraca improvisada, juntamente de Jin.
Mari conversava com Arme, antes de irem se deitar.

Elesis estava um pouco amedrontada, aquele lugar era lindo quando dia e terrível quando noite, o canto dos pássaros noturnos era ameaçador.
O inferno se tornou gélido, estava muito frio.

A mesma estava sentada em uma pequena árvore próxima às barracas, tudo estava calmo até então.
A luz do luar rápidamente dominou, novamente imponente acima de tudo.

Súbitamente, o lago começou a se agitar, suas águas ficaram agressivas.
Elesis assustou-se com o leve estrondo e decidiu observá-lo, afastada.

A garota empunhou sua afiadíssima espada, reluzente naquela escuridão.
Seu coração acelerou, ela sentia as batidas como se fossem metralhadoras.

Elesis tentou não se amedrontar e decidiu chegar mais perto, seu coração frenético e seus olhos atentos.
As últimas coisas que ela desejava era ter que pedir ajuda à seus amigos ou que Cazeaje se revelasse e matasse à todos.
Medo, frio e incerteza rasgavam a garota.

~

Ao se aproximar do lago, a garota se impressionou.
Ela não sabia se aquilo que acabara de testemunhar era algum tipo de magia ou alguma outra coisa.

Estava escrito misteriosamente : Venham até o túmulo de gelo.

Escrito na areia, Elesis logo se lembrou da deusa Juriore, só podia ser seu templo.
Ela se lembrou da morte da deusa e de sua aparência.
Sua mente se questionava, quem ou o quê enviou aquela mensagem?

Ela decidiu chamar Jin para que o mesmo vigiasse, para que a mesma pudesse pensar sobre aquela misteriosa mensagem.

- Jin, estou cansada... você poderia vigiar? — Fingiu Elesis, observando o rosto de Jin.
- É claro... — Bocejou Jin.

Ambos trocaram de lugares.

~

Amanhece, com seus corpos descansados após aquele estranhíssimo dia, os jovens acordam.

Lire e Ryan se refrescavam nas águas do lago, Arme estava lendo um livro e Lass guardava as frutas que sobraram da última noite.

- Encham seus cantis! — Exclamava Amy, arrumando suas coisas para partirem.

Amy já estava mais forte, sua tristeza havia passado.

A garota ruiva desperta, a última.
Ao ouvir as felizes vozes de seus companheiros a mesma é felicitada, quase se esquecendo da misteriosa mensagem deixada no lago.

- Vocês viram? — Perguntou Elesis, se aproximando de Lire e Ryan.
- Vimos o quê? — Perguntou Lire, curiosa.
- Ah, deixa pra lá... — Vociferou Elesis, observando novamente o lago.
- Conte! — Dizia Lire, rindo.
- Depois eu conto... saiam daí, nós já estamos partindo... — Exclamou Elesis.
- Nós já temos destino? — Perguntou Ryan, atônito.
- Sim...

Ryan rápidamente se levantou e estendeu a mão para Lire.

- Está maluco? Eu não vou sair assim... — Exclamou Lire, tímida.
- Ah é... — Balbuciou Ryan. — Já volto com suas roupas, Elesis você poderia me ajudar?
- É claro, Ryan.

Lire sorriu para o atrapalhado elfo.

Elesis apoiou Ryan até sua cabana, o mesmo pegou a bolsa e as vestes de Lire.

- Aqui estão. — Disse Ryan.
- Muito obrigada, agora vire-se! — Exclamou Lire. — Não vou me trocar com vocês me olhando!
- Já estou indo. — Disse Elesis.

Ryan pegou suas roupas e as vestiu, lutando para conseguir colocar sua calça.

Elesis estava indo até sua barraca, com a memória da noite anterior rasgando sua cabeça.

- Túmulo de gelo... quem será que mandou aquilo? — Pensava Elesis, desatenta.

A mesma entra em sua barraca, pega suas coisas e rápidamente sai.
Elesis percebia alguns sons estranhos vindo de algum lugar distante, parecendo vozes e pequenas batidas.

- O quê é isso? — Perguntou a mesma, olhando para a saída da floresta.

Os sons começaram à ficar mais fortes, ela ouvia claramente as vozes.

- Droga, nos encontraram! — Disse ela, correndo até seus companheiros.

Seus companheiros estavam todos distraídos, não dectectaram o desespero da ruiva.

- Então é essa a história desse livro? — Perguntava Mari, observando Arme.
- Sim, já estou acabando! — Respondeu Arme.

Elesis corria até seus longínquos companheiros, evitando gritar para que não fossem encontrados.

- Vamos sair daqui, nos encontraram! — Disse a mesma, em alto e bom tom para quem estivesse ali. — Arme, por favor nos leve até o templo de Juriore!
- Nos encontraram? Merda! — Gritou Arme, fechando bruscamente seu livro.
- Não grite! — Ordenou Elesis, falando em um tom baixíssimo. — Mari, por favor, avise os outros!
- Tudo bem... — Vociferou Mari, confusa.

As vozes ficaram cada vez mais altas, Elesis e Arme as ouviam claramente, elas tentavam sinalizar para os outros.

- Ryan, Lire... rápido! — Disse Lire, agarrando os dois. — Corram até a Arme, RÁPIDO!
- Tudo b... — Lire foi interrompida por Mari, que a empurrou violentamente.

Mari apoiava Ryan rápidamente, Lire foi chamar os outros.

- Mas que porra, onde aquela velha foi nos levar? — Reclamava uma voz, metálica.
- Ah, não reclama! Vamos achar esses merdinha e acabar com essa porra toda logo! — Respondia uma segunda voz.
- Não ataquem as garotas, são minhas. — Exclamou uma terceira voz.

Mari ouvia as vozes se aproximando, seu sangue começou a subir até sua cabeça.

- Fiquem aqui! — Ordenou Elesis, atônita.

Sieg veio junto de Lass, Amy e Jin, acompanhados por Lire.

Ronan rápidamente correu de sua barraca até onde os outros estavam, empunhando sua arma.

- Estão todos aqui? — Perguntou Arme, desenhando novamente o círculo com seu cetro.
- Estão todos, rápido! — Disse Elesis, com a esperança das três vozes não os encontrarem.

Os passos ficaram altíssimos, eles chegaram.

- Então, vamos dividi-las, se forem bonitas.
- É claro...

Os três homens pararam, observando o grupo dos dez jovens.

- Estão aqui, ataquem!

Um primeiro homem, trajando roupas brancas correu rápidamente até o círculo.

- Arme! — Gritou Elesis.

Uma maldição avermelhada atingiu o homem na perna, fazendo-o cambalear violentamente.
Suas pernas começaram a sangrar e o homem gritava frenéticamente enquanto o exótico gramado era manchado com seu sangue.

- Mas é um inútil mesmo, quer ajuda, mocinha? — Debochou um outro homem, encapuzado, possuia uma voz metálica.

Os dentes do segundo homem rangiam, terrívelmente.

- Vamos, ARME! — Gritava Elesis, desesperada.
- Acalme-se! Estou fazendo o possível! — Exclamava Arme, aterrorizada.

O encapuzado observava Amy, rindo irônicamente.

- Ei, Bastan, essa rosinha aqui é bem lindinha. — Disse o homem. — Não é?
- Agora que você disse, vamos capturá-los logo, são patéticos.

Arme lançou uma desesperada maldição no homem encapuzado, o mesmo a bloqueou fácilmente.
Bastan retirou uma faca de seu bolso, ele riu para os jovens.

- Por favor, vamos logo! — Gritava Elesis, apertada no círculo desenhado por Arme.
- Calma aí, ruivinha! — Disse Bastan, novamente sorrindo.

O círculo lentamente começou a desaparecer, novamente distorcendo tudo em sua volta.

- Feitiço de transporte? Não! — Gritou Bastan, atirando sua faca nos jovens.

Um estrondo, a faca não os atingiu, caindo diretamente no lago.

- Porra! — Gritou Bastan. — Quase!
- Tua mira tá uma merda! — Debochou.
- Cala boca, Cífus! — Exclamou Bastan.
- Caralho, me ajudem! — Clamava o caído homem.
- Vamos ajudar essa bichinha e voltar para Vermécia, Lady Cazeaje precisa saber. — Disse Bastan.

~

Seus lábios congelaram, seus cabelos começaram a ficar brancos e seus olhos rápidamente se fecharam.

O vento estava violento, batendo cruelmente em seus olhos e obstruindo totalmente sua visão enquanto o manto da neve a congelava lentamente.

- R-Ryan... — Balbuciava a garota, lentamente congelando.
- Ela está aqui! — Gritou uma voz famíliar.

O nevoeiro não cessava, a cortina de gelo era como uma barreira pros olhos da jovem.

- Vamos levantá-la! — Diziam as vozes familiares.

A jovem conseguia sentir alguém levantando-a, ela contemplava o constante nevoeiro em toda parte.
Suas vestes negras agora estavam branquíssimas, tomadas pela neve.

- Arme, conjure fogo! — Clamava uma outra voz, carinhosamente familiar.

A visão obstruída da garota estava voltando ao normal, os flocos de neve estavam sendo queimados, uma chama escarlate havia surgido de seu cetro.

N
o meio dos jovens, uma chama mágica impossível de ser apagada, Lire sentia Amy colocando um grande manto avelulado em suas costas.

- Isso deve te aquecer, você ficou inconsciente durante alguns minutos! — Disse Amy, perto da chama.
- E-Eu fiquei? — Perguntou Lire, tremendo.
- Você foi a última, parece que você sofreu os efeitos colaterais da magia outra vez! — Respondeu Arme.

A fina camada de gelo que tomara conta da jovem elfa estava desaparecendo, seus olhos já estavam ganhando o encantador brilho de sempre e seu sorriso estava se abrindo.

Todos trajaram casacos de couro espessos como portas para conseguirem sobreviver naquele deserto de gelo.
As pálpebras dos jovens estavam pesadas como chumbo, lutando para permanecerem abertas.

- Para onde vamos agora? — Perguntou Mari, encolhida.

Elesis observou aquela incessável chama conjurada por Arme, brevemente observou seus companheiros e disse :

- Quando estávamos naquele local... — Vociferava a mesma, com um olhar distante. — Eu recebi um chamado.
- Um chamado? — Perguntou Jin, esfregando suas mãos.
- Eu disse que ficaria vigiando, foi quando as águas se abriram revelando as palavras Venham até o túmulo de gelo.

Seus companheiros ficaram atônitos após ouvirem as palavras.

- Túmulo de gelo? Juriore? — Relacionou Arme.
- Exatamente, há alguém ou algo esperando por nós... — Vociferou Elesis.
- E você sabe quem? — Perguntou Ronan, observando-a.
- Eu tenho um palpite, Veneze.
- Faz sentido. — Observou Mari.
- Então vamos descobrir? — Perguntou Sieg.
- Vamos... — Vociferou Elesis, levantando-se.
- Não é melhor esperarmos a tempestade cessar? Lire ainda está se recuperando! — Exclamou Amy
- Ela não irá cessar tão cedo, ficaremos dias esperando! — Disse Jin, estendo sua mão para a garota.

A tempestade de gelo era cruel, os heróis caminhavam desorientados no colossal deserto de gelo.

Apenas aquecidos pela mágica chama de Arme e pelos seus casacos, os jovens buscavam por ajuda.

Ryan era carregado por Sieg, o rapaz não tirava os olhos de Lire.

- E-Está muito frio, nós não agüentaremos... — Balbuciou Amy, sendo abraçada por Jin. — Estamos vagando sem rumo!
- Não estamos vagando sem rumo, nosso rumo é o altar. — Disse Elesis.

Eles lutavam contra seu próprio peso, forçados pela brusca tempestade.
Seus corpos eram fácilmente enviados para trás pela força dos ventos.

Não suportavam mais, vagando por muito tempo, os jovens decidiram desistir.

O ar gélido era como uma afiadíssima faca que fora violentamente cravada em seus peitos.

- A-Arme... — Balbuciava Elesis, caindo.

A expressão de Arme era de extremo desgaste, o feitiço de transporte exigia muito da mesma, seus olhos estavam pesados e brancos.

Em um último ato, a maga levanta seu cetro e dispara faíscas negras naquele congelado e inóspito local, desaparecendo no céu.

Em seu tempo de aprendiz, Arme havia aprendido que as chamas negras são o nível máximo e extremo de perigo apresentado, sendo somente usados em casos de extrema necessidade.

Uma espiral foi formada em pleno ar, as chamas negras enviadas por Arme clamavam por socorro, explodindo no céu.

Os jovens desmaiam, naquele cruel inferno gelado.