O Tormento das Sombras
2 Capítulo 1
O sol sobe aos poucos, alcançando o topo do horizonte de Pandora. Demora questão de minutos para que a luz do sol comece a iluminar as casas e edifícios da capital de Pandora, Évora. A capital possuía amplo desenvolvimento para uma cidade construída a pouco mais de cem anos. As casas possuíam um design medieval, construído com tijolos de pedra e em geral com telhados fechados com tijolos também, possibilitando que se erguessem casas umas em cima das outras, algo que inovou o desenvolvimento espacial do ambiente de Pandora.
Alguns edifícios chegavam a ter dez andares e abrigavam mais de cem pessoas. Era certo que alguns não eram usados para moradia, mas sim para o comércio. É fato que o desenvolvimento desta técnica na ilha foi algo que possibilitou a evolução contínua do pequeno país, que sofria com o espaço pequeno que possuía em vista de estar construído sobre uma ilha.
As pequenas cidades que estendiam-se ao redor da capital possuíam design parecido, porém, para a geração de sustento do país, as mesmas contavam com hortas em seus telhados. Com um telhado mais fundo era possível colocar terra em cima da casa e com isso era possível criar a vida vegetal e recolher seus frutos. Outra das muitas inovações de Pandora.
Há, na geografia de Pandora, no extremo sul da ilha, uma pequena formação rochosa que anteriormente era esquecida por Ergos, mas que em pouco tempo passou a representar um ponto importante da ilha. Ali foi construído o Farol de Ergos, como foi nomeado.
A janela entreaberta daquela casa logo tornou-se um mirante para o nascer do sol. As cortinas cobriam o pouco que podiam do brilho amarelo, permitindo que a luz passasse ainda com força para dentro do quarto daquela jovem mulher, iluminando-o por completo.
O quarto era simples e pequeno, possuía uma cama, uma escrivaninha e uma estante de livros, mais parecia um escritório do que um quarto, exceto pela cama. Sob a escrivaninha haviam diversos papeis, anotações que relacionavam-se com o rei Ergos, e por cima da maioria dos papeis havia uma carta, o envelope continha um selo em forma de coração e tinha como remetente um homem chamado Solomon Hecarim.
“Lis,
Já faz quanto tempo que estamos juntos? Provavelmente cerca de cinco anos... Bom, espero que nosso encontro de hoje seja ótimo! Estarei em sua casa para busca-la assim que a lua surgir no céu.
De seu amado,
Solomon Hecarim.”
O sol finalmente chegou até o corpo da moça que tentava esconder-se dele, despertada pelo amigo de fogo, ela lutou para evitar que seu cérebro acordasse definitivamente, mas foi em vão. Desperta, ela levantou-se de sua cama e foi em direção ao banheiro de sua casa, lá, despiu-se, e entrou em uma grande banheira cheia de água.
A mulher desceu as escadas de sua casa, dirigindo-se até a porta, carregando manuscritos e papéis nas mãos. Abriu a porta e deu de encontro com Solomon Hecarim, um homem alto com cerca de um metro e noventa de altura, usava uma túnica azul que possuía detalhes que desciam do pescoço até a sua cintura em cor dourado, igualmente haviam em seus punhos, o uniforme padrão dos conselheiros. Um par de costeletas estendia-se pelas laterais de seu rosto encontrando-se em seu queixo, formando uma barba que estendia-se até metade de seu pescoço. Seus cabelos castanhos e curtos permitiam que seus olhos recebessem destaque por serem de uma cor verde tão profunda.
– Hecarim? O que você está fazendo aqui? – perguntou a moça, confusa.
– É que... – ele coçou a cabeça e riu – Eu estava passando e pensei em te fazer uma visita, te acompanhar até o ministério, entende?
– Bom, sendo assim, pode vir, já estou saindo mesmo...
– Quer ajuda?
– Muito obrigada, mas não. – disse enquanto fechava a porta de sua casa.
O ministério. Apesar de Pandora ser governada por um rei, a democracia sempre foi um forte de Ergos e seu comando, nunca tornando-se autoritário ou egoísta em suas decisões. O ministério era composto por cerca de vinte membros, sendo destes vinte apenas cinco fixos, os outros quinze eram constantemente trocados, desta forma, evitando ameaças ou vazamento de informações.
Em todo o período que o ministério funcionou, nos seus mais de cinquenta anos, o único incidente confirmado que ocorreu foi a tentativa de retirar Ergos do poder. Alguns dos membros fixos uniram-se e planejaram a destituição de seu rei, almejando o comando de Pandora. Felizmente o golpe foi derrubado antes mesmo de atingir o rei, e seus opositores sentenciados ao exílio.
O prédio do ministério ficava afastado da capital numa localidade conhecida apenas pelos que participam ou participaram do conselho, uma medida preventiva contra possíveis ataques.
– E então, Lis... Tudo certo para hoje à noite?
– Quem sabe? Se você ficar me perguntando muito eu posso mudar de ideia...
– Ora, deixe de bobagem... Já estamos juntos há quase cinco anos, Lis!
Ela esboçou um sorriso e uma leve risada.
– Você é muito dramático, Hecarim. Não sabe que estou ansiosa para o nosso encontro? Espero que VOCÊ não me deixe esperando!
– Você e suas brincadeiras de mal gosto...
O ambiente da cidade de Évora distanciava-se aos poucos, mudando para uma floresta densa e vívida. A ilha de Pandora era conhecida por ter florestas consideradas por seus moradores como mágicas. Ao caminhar pela selva densa era possível escutar o barulho de seres invisíveis e se você estivesse imerso na escuridão, a floresta iluminaria seu caminho. Dizem que os ancestrais de Pandora protegiam seus descendentes, impedindo que se perdessem na floresta.
– Passar por aqui sempre me dá arrepios... – quebrou o silêncio a mulher.
– Arrepios? Algum motivo especial para isso? – Hecarim surpreendeu-se com a moça que aparentemente nunca havia demonstrado medo algum.
– Nenhum... Só não gosto de passar por aqui.
– Sabe qual o nome desse vale que passamos todos os dias? – perguntou.
– Meu pai me contou uma vez sobre esse vale e o nome dele, mas eu não me lembro mais da história. Infelizmente.
– Bom, e que tal se eu lhe contasse enquanto vamos até o ministério?
– Já que você insiste... – respondeu, revirando os olhos.
Vale das Sombras, esse é o nome da selva pelo qual ambos passavam. Durante a construção da primeira cidade de Pandora, quando a primeira geração Pandoriana desembarcou na ilha, essa floresta tomava grande parte do território da ilha, abrigando vida selvagem aos montes. Após o início da construção das cidades a floresta começou a ser reduzida, nada prejudicial à saúde da própria ilha, porém, sempre houveram aqueles que se revoltaram com a abertura de clareiras no meio da floresta.
Ocorreu depois de dois anos da fundação de Évora, quando uma tripulação de viajantes atracou na ilha em busca de suprimentos, atraídos pelo Farol de Ergos. Os viajantes embrenharam-se tão depressa quanto Ergos no meio da mata, em busca de civilização. Dita a lenda que a floresta possui vida própria e que, quando sente-se ameaçada, elimina suas ameaças. A floresta ilumina-se, criando formas de atrair seu inimigo para onde ela quer e então, mata-o.
O grupo que desceu do navio em busca de suprimentos era constituído de dez pessoas, sendo sete homens e três mulheres. Enquanto os viajantes abriam caminho por entre a mata densa, a floresta observava. Os invasores avançavam sem qualquer escrúpulo pela floresta, a mesma considerou-os inimigos. Em ataques rápidos, pouco à pouco galhos e cipós começaram a puxar cada pessoa em direção as árvores ao redor, que por sua vez começavam a abrir seus troncos como a boca de um animal feroz aproximando-se de sua presa. Em poucos instantes cada ser humano ali presente desapareceu, consumido pelas armas naturais da floresta.
Os gritos dos condenados suplicando por suas vidas foi então omitido por um silêncio aterrorizante. Dentro das árvores o grupo manteve-se, tendo sua energia sugada pouco à pouco até que suas vidas desaparecesse.
Há muito é dito que o vale alimenta-se de seres vivos para continuar viva e florescendo.
– E então? Acho que era essa a história que seu pai havia lhe contado...
– Espero que não.
Ele riu.
– E por que espera que não, Lis?
– Porque se for mesmo verdade a sua história, quem garante que a floresta não vai considerar os Pandorianos como outra ameaça?
– Está com medo do vale? – disse, soltando uma leve risada sarcástica.
– Medo? Por favor, Hecarim... – o caminhar tornou-se automático e o olhar da moça esvaeceu-se, a mente dela perdia-se momentaneamente em seus pensamentos, visões do passado. A morte de seus pais, o terror de viver sozinha em uma cidade-estado, tudo foi difícil para a moça de olhos azuis.
– Lis? Ei, ei! Não está me ouvindo? – gritou Hecarim segundos antes do despertar.
– O quê? – respondeu, confusa. – O que foi, Hecarim?
– Como assim “o que foi”? Você viajou nos pensamentos de novo! Isso está ficando muito mais comum... Tem algo te incomodando?
– Não, é só que... – os olhos pensaram em derramar lágrimas, mas antes que o fizessem a moça interrompeu o fluxo. – Não foi nada, meu amor.
O rosto de Hecarim corou, e seu rosto pareceu mais vivo depois de ouvir que sua amada o chamara de meu amor.
– Lis, você... – as palavras pareciam não sair de sua boca trêmula. – Você me chamou de amor...
– É... De vez em quando eu tenho esses momentos de loucura! – respondeu, tentando mudar o ar do ambiente.
Hecarim sorriu, sabendo que no fundo ela realmente o amava tanto quanto ele a amava.
O caminho de terra e mata que havia se estendido por cerca de um quilômetro e meio começava a dar espaço a um caminho de pedras cinzas cravadas no chão formando um caminho que tomava rumo até um grande prédio branco em formato de cúpula, uma enorme luz branca emanava da construção em vista da cúpula ser construída com vidro. A frente da enorme construção, o longo caminho de pedras ganhava forma definida por um jardim que acompanhava-o até sua chegada na entrada do local. Árvores mostravam-se por detrás da cúpula, exibindo sua existência como crianças que tentam observar algo por trás de uma cerca.
Aproximando-se do portão de entrada do prédio haviam dois guardas, munidos de armaduras, espada e escudo, os guardas tinham o dever de proteger os conselheiros e em principal o rei, caso algo ocorresse na cúpula do ministério. Já conhecidos, o casal adentrou no recinto sem barragem da guarda.
O interior do prédio era envolto de portas, cada uma levando a uma sala diferente do ministério. Desenhada no chão havia uma espécie de rosa dos ventos que dividia-se em diversos outros pontos e levava várias pontas até as portas. O ambiente era úmido e possuía um cheiro leve de mofo e madeira, ao redor grupos de pessoas passavam constantemente entrando e saindo das salas como se não tivessem tempo a perder. A porta que o casal tomou estava em direção reta ao portão de entrada.
Abrindo-a rapidamente e de forma abrupta, a moça entrou prestando saudações ao rei e demais conselheiros. A sala possuía uma grande mesa redonda que tomava grande parte da sala, ao seu lado diversas cadeiras estendiam-se, uma para cada conselheiro presente. Apenas duas estavam vazias, as cadeiras dos últimos conselheiros que faltavam.
– Hecarim, finalmente você chegou! Estávamos pensando que você iria faltar a nossa reunião novamente... – murmurou um dos conselheiros, um velho com seus sessenta anos, gordo e careca que possuía um grosso bigode em seu rosto, a feição de um senhor de idade transparecia em seu rosto.
– Desculpe-nos pelo atraso, acabamos demorando para cruzar o vale.
– Entendo, aquele vale sempre foi uma complicação para atravessar. – disse, rindo. — E você, minha jovem... Você deve ser a filha de Kal e Sora Franz?
– Sim, sou eu. – respondeu a jovem.
– Ora, é uma honra conhece-la! Durante a crise de alimentos seu pai e sua mãe foram de grande importância para Pandora! É realmente uma pena que Kal e Sora tenham morrido tão cedo... Os ataques noxianos foram implacáveis, mas garanto-lhe que eles deram a vida pelo bem de Pandora! Mas chega de tanta falação, eu sou apenas um velho me intrometendo, apenas diga-me... Qual o seu nome?
– Eu sou Kalista. Kalista Franz.
Fale com o autor